MEMÓRIA versus IMAGINAÇÃO: use esse confronto para escrever melhor

Por Fabio Shiva

“Os escritores lembram-se de tudo (…). Mande um escritor tirar a roupa e aponte para cada cicatriz e ele lhe contará a história de cada uma delas. (…) Para ser um escritor é preciso ter um pouco de talento, mas o único pré-requisito de verdade é a capacidade de lembrar a história de cada cicatriz.”

Lembro com clareza que esse trecho do romance Angústia (Misery), do Stephen King, que li pela primeira vez por volta dos quinze anos, foi para mim uma das passagens mais assustadoras de toda a literatura! Isso porque representou, na época, um verdadeiro decreto de morte precoce para meu grande sonho de me tornar escritor um dia. Lembro de ter vasculhado o corpo, em ansiedade frenética, mas fui reprovado logo no primeiro teste, uma cicatriz meio gordota no joelho: foi de uma queda de bicicleta? Ou de patins? Jogando futebol? Pulando o muro do vizinho para roubar fruta? Ou brincando com o cachorro na rua? Eu não sabia a resposta, e vivenciei com toda intensidade a angústia do título do livro, vendo meu glorioso futuro como escritor se esvaindo em fumaça diante de minha incapacidade de lembrar a história daquela bendita cicatriz!

Já na adolescência eu era bem conhecido pelos amigos por minha imensa distração, que me fazia esquecer as coisas mais elementares, tais como usar sapatos da mesma cor (e modelo) para ir à escola! Datas de aniversário e outras ocasiões importantes, então, simplesmente não faziam parte de minha realidade. Que dirá lembrar a história de uma insignificante cicatriz! Senti-me profundamente traído pelo King e pelo mundo inteiro, que me negavam o direito de ser escritor por conta de coisas que, para mim, não tinham a menor importância!

Mas de alguma forma, intuitivamente, percebia que nem tudo estava perdido, pois eu podia não lembrar a história de cada cicatriz, mas guardava perfeitamente quase tudo o que lia com tanta voracidade, conseguindo citar de cabeça frases inteiras, lembrando às vezes até mesmo do número da página que continha determinada passagem. Ainda restava uma esperança para mim!

E aí está a primeira dica importante, que só vim a entender melhor muitos anos depois, ao estudar as minhas primeiras lições de Raja Yoga, a Yoga Mental: memória é atenção. A memória é seletiva, e o filtro das lembranças é justamente a atenção. Lembramos com mais clareza das coisas às quais damos importância. Inversamente, esquecemos com facilidade aquilo que não consideramos importante. Esse é o segredo para se ter uma boa memória: concentre a sua mente naquilo que deseja lembrar. Simples assim.

Mesmo sem entender perfeitamente isso na época eu não estava disposto a abrir mão de meu sonho sem lutar. Ainda que essa luta fosse contra um monstro sagrado como Stephen King, que para meus quinze anos era nada menos que o maior escritor do mundo! Lembro em detalhes (olha a atenção aí!) de uma noite gloriosa em que desafiei o Rei, em minha imaginação:

– Stevie, meu caro, memória não é tudo na vida. Aposto que para cada história de cicatriz que você conseguir lembrar, consigo inventar ao menos duas tão interessantes quanto!

E foi graças a essa rebeldia, sem brincadeira, que consegui seguir em frente e perseguir meu grande sonho! Eu havia acabado de descobrir a força da imaginação! E logo descobri que não estava sozinho, muito pelo contrário: na melhor companhia possível!

E logo veio cair em minhas mãos, por uma dessas forças da sincronicidade, um texto crítico sobre a obra de José de Alencar, que era muito louvado por sua grande capacidade imaginativa, ainda que a memória fosse o seu ponto mais fraco!

Acho que até ouvi umas trombetas e sinos tocando, quando li esse texto. Senti-me abençoado e apadrinhado, logo por quem! Justamente José de Alencar, um dos grandes responsáveis pelo meu amor aos livros, desde que havia lido “O Guarani” aos onze anos de idade e vários outros depois, em rápida sequência. Na verdade, considero até hoje José de Alencar meu grande e querido professor de língua portuguesa! E daí, enfim, que eu não pudesse ser um Stephen King? Sendo um José de Alencar, para mim já estava de bom tamanho!

Ao contrário da boa memória, a imaginação não tem uma norma ou regra para ser alcançada. Talvez a imaginação seja precisamente a ausência total de regras! Mas ainda que não seja tão facilmente definível, a imaginação pode e deve ser treinada! E, como tudo na vida, melhora com a prática. Um bom exercício para treinar a imaginação de escritor pode ser muito divertido: observe as pessoas passando na rua, e tente criar para cada uma delas uma história, um passado, um destino, um segredo… quando menos esperar, você terá em mãos todos os personagens de que precisa para sua próxima história.

Esse confronto Memória X Imaginação adquiriu tamanha importância para mim que acabou se tornando um dos principais temas de meu primeiro livro, “O Sincronicídio”. Posso afirmar, com muito orgulho, que nenhuma das páginas desse livro foi escrita a partir do uso da memória, no sentido empregado por King… foi tudo imaginação pura!

Depois do batismo de fogo, no entanto, tive uma maravilhosa descoberta ao escrever o livro de contos “Isso Tudo É Muito Raro”. Beneficiado pela experiência adquirida com o primeiro livro, um belo dia descobri, para minha grande felicidade e gratidão, que estava usando a memória para compor cenas inteiras, e dar mais realismo e vivacidade a muitos personagens.

E aí veio o maior aprendizado de todos: quem foi que disse que precisa ser uma coisa ou outra? Por que não usar a memória e a imaginação juntas? Quando se trata de escrever, o escritor não deve hesitar em lançar mão de todos os recursos que estiverem ao seu alcance, seja a imaginação, seja a memória. Ou mesmo alguma outra faculdade mental ainda não descoberta… ou inventada!

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora.

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3 comentários em “MEMÓRIA versus IMAGINAÇÃO: use esse confronto para escrever melhor

  1. Costumo ir mais pela imaginação, mas lendo o seu texto, Fabio, percebo que tenho feito muito a ação de guardar informações pra usar nos meus textos, que interessante! E quanto a King, ano passado li o Dança Macabra dele, e gostei talvez mais pelo fato dele compartilhar algumas coisas sobre seu processo de escrita, em relação a alguns livros dele como O Iluminado, Carrie, It, que foram livros adaptados para o cinema…

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