Bloqueio Mental e WD-40

Por Diogo Bernadelli

“Inúmeros aspirantes acreditam que a escrita é como operar a alavanca de uma desengonçada catapulta, e não entendem que ela está muito mais perto de uma pequena e afiada navalha de barbeiro, então terminam, após três ou quatro tiros, derrotados pela própria canseira.”

Comecei a escrever uns seis anos atrás, entre os meus 16 ou 17. Talvez nesse período que configurou exatamente o início de tudo eu tenha gozado minha fase mais criativa. E a mais inexperiente, também. Foi após comprar determinado livro e notar como as palavras pareciam saltar com facilidade da cabeça do autor para o papel que avaliei comigo: “Acho que também consigo fazer isso.” Mas igual a um encanador novato que não domina bem todas as chaves da caixa de ferramentas, eu me bati um bocado para produzir qualquer coisa que valesse a pena ser mostrada — fato que não me impediu, na realidade, de mostrar a primeira história que escrevi, ha-ha-ha-ha! Ter consciência de que eu não era bom o suficiente foi uma das muitas ideias que na época sequer fizeram sombra na minha mente. Simplesmente adorava escrever. Era divertido, terrivelmente divertido.
Acho que como grande parte dos autores que integram a Antologia !, minha primeira mídia foi o Orkut. Mas ao contrário do que muitos possam pensar, não comecei na CF — Contos Fantásticos. Comecei na extinta (e digo “extinta”, embora ainda exista, porém sem qualquer atividade relevante) comunidade chamada Histórias de Terror. Ou apenas HT, porque no Orkut gostávamos das siglas e elas eram capazes de tornar qualquer coisa um pouco mais familiar. Foi lá em que “publiquei” meu primeiro conto. As comunidades do Orkut funcionavam de maneira bastante singular. Elas contavam com um fórum, que por sua vez tinha os tópicos, estes finalmente constituídos de inúmeros posts em sequência. Com relação ao tópico do meu primeiro e nada satisfatório conto, lembro-me que o post que imediatamente se seguiu àquele que trazia a assinatura Diogo Bernadelli foi o comentário de um adolescente chamado Diego Araújo. Todos o chamavam de Kenny, e ele foi meu primeiro crítico. Kenny tinha minha idade e logo nos tornamos amigos. Quando ele morreu, puxa vida, isso deixou todas as memórias um pouco mais doces e um pouco mais amargas.
A comunidade HT, que em certa altura tinha atingido ares similares aos das reuniões em família ao redor da churrasqueira, tornou-se ponto de encontro de muitos outros leitores como o Kenny. Pessoas que liam, criticavam e imediatamente se tornavam seus amigos. Rubem Cabral, Elton Menezes, Marcela Graef, Hebert Tada. Geralmente os papeis se invertiam e quem escrevia também fazia as vezes de leitor. (E posso dizer que Kenny era um dos que mais se destacavam num editor de textos.) Ao longo deste processo, minha caixa de ferramentas, que no início devia contar com o essencial — fita adesiva, alicate e um frasco de WD–40, itens básicos, como disse Clint Eastwood, com os quais um homem “resolve 90% dos seus problemas” —, começou a ficar razoavelmente cheia.
Mas ao mesmo tempo em que você passa a dominá-las, alguma coisa na sua mente começa a se enrijecer em igual proporção. Alguma coisa importante relacionada à criatividade, eu quero dizer. Longe de mim pretender generalizar; estou narrando exatamente aquilo pelo qual passei. Você descobre que a chave catraca pode ser uma excelente alternativa para a chave de boca, e isso reduz em muito o seu esforço. Só que na medida em que os meios operacionais tornam-se mais acessíveis, você nota que é muito fácil se confundir com o que tem em mãos.
Foi desta forma que descobri que parte do ofício do escritor (eu diria a maior parte dele) se resume em travar uma luta constante com o bloqueio mental. O bloqueio mental é a pior coisa que pode acontecer a ele, o escritor: superando a imperícia, a carência de um portfólio, as escorregadas na gramática, que, por sinal, é a superfície mais lisa onde alguém se aventuraria a dar uma corridinha. Ele mata sua criatividade e, morta a criatividade, as chances de uma história boa acontecer são reduzidas a zero.
O bloqueio mental é uma merda. E o pior de tudo — ao passo que as outras áreas da escrita possam comportar alguma metodologia de produção, a quem ainda não sou capaz de dispensar muita confiança —, é que por se tratar de um “fenômeno” íntimo, você jamais vai encontrar em prateleiras um Guia de Como Vencer o Bloqueio Mental. Se existem coisas parecidas, no fim das contas acabam te confundindo ainda mais. O bloqueio mental é como a tontura que se segue após fumar um Lucky Strike de estômago vazio. Você precisa colocar as orelhas entre os joelhos e enviar um pouco de sangue pra cabeça.
Lembro do dia em que cruzei com um sujeito na Av. João Gualberto. O atual calor de Curitiba tem superado a média: estamos três graus acima da temperatura registrada em janeiro do ano passado. E esse foi um daqueles dias em que o asfalto dispensa um brilho amarelo cegante e os carros parecem rodar todos a menos de 20 quilômetros, tornando sua espera até atravessar à próxima esquina num breve instante de agonia. O tal sujeito usava uma regata cavada e rescendia a protetor solar — a julgar pela consistência do odor, eu diria que não era apenas um fator 30. Por outro lado, vestia uma pesada bermuda jeans que lhe cobria metade das canelas e, sem exagero, uma coleção de correntes que somadas deveriam pesar quase um quilo. O boné que cobria seu rabo de cavalo estava escuro de suor e o rosto, espantosamente cansado.
Por quê?, me perguntei. Você estava indo tão bem, até o protetor solar. Por que atrapalhar tudo dessa maneira, por que decidir deixar este dia quente ainda mais insuportável?
Ao passo que o sujeito pudesse não entender por que diabos todo o seu aparato não estava dando resultado naquele calor infernal, da mesma forma o escritor se atrapalha, quando decide trazer para baixo todas as caixas de ferramentas do sótão. Não demora muito, e ele acaba descobrindo que só abriu metade delas antes de se cansar e perceber que precisa levá-las de volta para cima.
Vá com calma, meu chapa. Quanto mais pancadas você desferir contra o bloqueio, mais rígida sua superfície se torna. Inúmeros aspirantes acreditam que a escrita é como operar a alavanca de uma desengonçada catapulta, e não entendem que ela está muito mais perto de uma pequena e afiada navalha de barbeiro, então terminam, após três ou quatro tiros, derrotados pela própria canseira.
O bloqueio mental só será combatido quando você se convencer de que não existe um caminho certo e continuar escrevendo, sem se desesperar. Não há mágica nisso, não existe uma “resolução de procedimento”, porque a escrita não é um ofício institucional. Não tente criar o panorama em sua mente, procure deixar que o seu cérebro lhe diga o que ele vê; não tente contar uma história, procure ouvir de si mesmo uma história que você gostaria de ler. Dê tempo para que as informações alcancem seus dedos, isso às vezes demora. Parece previsivelmente idiota, mas é assim que você acaba não colocando o carro na frente dos bois.
É como diz a música, você precisa ouvir o som do seu coração.
Quando a escrita perde os ares de ofício e ganha os de hobby, o autor descobre que acabou de colocar de molho grande parte da superfície oxidada da sua mente em uma vasilha de WD–40.

Diogo Bernadelli é aluno da Universidade Federal no curso de Arquitetura & Urbanismo, atua em um escritório de engenharia pericial e escreve nas horas vagas. Publicou dois contos na Antologia “!” pela Caligo Editora, em 2013.

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3 comentários em “Bloqueio Mental e WD-40

  1. Pois é. Fiquei mais de um ano sem escrever um texto completo. Só começando primeiros capítulos e parando. Fiquei um tempo fula da vida comigo por causa disso, principalmente quando comecei a revisar livros e pensar: “Se esse aqui terminou um livro, por que eu não consigo, ora pois?” Às vezes acho que preciso de uma pressão pra funcionar, haha, mas o engraçado é que às vezes a coisa surge do nada… É muito ruim querer escrever e não conseguir. Vou começar a escrever quando essa coisa “surgir do nada”, e depois ver se a coisa vale a pena ou não…

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