Pobre Gramática

Por Marcelo Porto

Vivemos numa era onde cada vez mais somos obrigados a resumir ao máximo as notícias, os textos e as histórias para atender a um público que não tem mais “tempo de ler”.

Não que a nossa Gramática seja pobre, muito pelo contrário. O adjetivo “pobre” neste caso é por conta do quanto ela tem sofrido nesses tempos em que a escrita se torna cada vez mais importante para a comunicação, tanto formal quanto informal.
As possibilidades infinitas proporcionadas pela tecnologia trouxeram à tona um problema sério da educação no País: raros são os estudantes que saem das salas de aula com uma boa formação em Português e o mais preocupante é que grande parte dos formandos nos níveis superiores também não são referências para a nossa Língua Escrita.
Tenho acesso a alguns originais de colegas e entre eles chegam textos que me fazem quase chorar, e não falo de concordância verbal e nominal, acentuação ou estrutura (algo do qual também não me considero o melhor exemplo), falo de pessoas que acham que dominam a escrita e não sabem redigir palavras do nosso cotidiano.
Como se não bastasse, ainda existe o vocabulário próprio das mensagens de texto, utilizados principalmente em mensagens instantâneas e em redes sociais. Por obrigação profissional convivo com uma boa quantidade de jovens egressos de faculdades e percebo cada vez mais a migração deste vício para a vida real. Deparo-me constantemente com os “vc”, “aki”, “axo” etc. e mais uma infinidade de compressões ou invenções próprias em relatórios formais, comunicações internas e em registros de sistemas corporativos.
A Língua é uma entidade viva que se adapta e incorpora novos vocábulos continuamente, mas aparentemente não é o que se constata neste caso. Em pesquisa realizada pela Universidade de Calgary, no Canadá, verificou-se que os estudantes que utilizavam com mais frequência as mensagens de texto aceitam menos palavras novas, ou seja, a prática reduz o vocabulário dos usuários.
Na análise conduzida pela pesquisadora Joan Lee, foram avaliados alunos que tinham hábitos de leitura tradicionais, que liam livros, revistas e jornais regularmente e outros que basicamente se utilizavam somente da Internet para se informar e utilizavam bastante do vocabulário das mensagens de texto.
A autora do estudo partiu da premissa de que o léxico próprio das mensagens de texto estimularia uma linguagem mais ampla e sem limites. O resultado, porém foi o oposto. Os estudantes que tinham hábitos tradicionais de leitura foram mais receptivos à incorporação de palavras novas, porque conseguem interpretar melhor um texto, mesmo que este esteja coalhado de vocábulos inventados. Já o outro grupo rejeitou a incorporação de novas palavras, justamente pela pobreza de vocabulário.
O fato é que a nossa Língua vem sofrendo um ataque mortal. A história nos mostra que a incorporação de novos vocábulos é salutar, mas especificamente neste caso não é isso que acontece. Vivemos numa era onde cada vez mais somos obrigados a resumir ao máximo as notícias, os textos e as histórias para atender a um público que não tem mais “tempo de ler”, este, aliás, um dos principais motivos para justificar o cancelamento de uma assinatura de jornal ou de revista.
Tive acesso a uma pesquisa que demonstra que o mercado brasileiro de literatura vem crescendo continuamente. Incoerentemente, também li outro estudo que diz que de 2007 para 2011 a taxa de leitura de livros por pessoa/ano no Brasil caiu de 4,7 para 4,1.
Segundo o professor Paulo Ghiraldelli Jr., em entrevista à Folha de S. Paulo, isso é provocado pelo fetichismo de leitor, ou seja, o cidadão compra apenas para ter e não para ler. Na mesma entrevista é citado outro dado assustador: no País 73% dos estudantes, incluindo os de nível superior, nunca entraram numa biblioteca. E pasmem, quando perguntado por que não lê, a maioria respondeu que é por não ter paciência para isso.
Se o leitor não tem paciência (ou tempo) para ler, uma das premissas básicas para se escrever bem cai por terra. Desde a alfabetização aprendemos que para se escrever bem é preciso ler bastante.
Pobre Gramática.

Analista de sistemas, administrador e escritor nas horas vagas. É autor dos romances PARADOXO (2012) e DÉJÀ VU (2013), também escreve contos de terror, ficção científica e suspense. Soteropolitano, cinéfilo, leitor voraz de quadrinhos, best-sellers e de outros livros também. Envolvido com as letras, não é jornalista, mas trabalha em jornal desde sempre.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s