Cortem as Palavras!

Por Fernando de Abreu Barreto

Preferências à parte, concluí que não me entendo bem com os contos. No campo do romance ainda me perco nos muitos caminhos que se abrem. A novela tem a justa medida da minha escrita.

O primeiro livro que tentei escrever foi sepultado como um romance mal acabado de aproximadamente quatrocentas páginas (cem mil palavras). Apesar de feio, uma leitora crítica experiente enxergou a possibilidade de haver um escritor por trás daquele monte de vocábulos.
Depois da primeira experiência, produzi outro latifúndio de mais de trezentas páginas (pouco menos de noventa mil palavras). Apesar da proposta clara e de estar mais organizado que o primeiro, o segundo romance que tentei escrever terminou enterrado no mesmo cemitério que o primeiro: uma pasta chamada ‘livros’ no HD do meu computador.
Impulsionado por uma ansiedade incontrolável, comecei a escrever o que deveria ter sido meu terceiro romance. Quando alcancei a centésima vigésima página, súbito, o trabalho travou.
Passei a achar que tudo o que havia escrito até ali era de péssima qualidade, quer pela linguagem, quer pela trama. Reli tudo o que havia feito, buscando entender o que passara a me incomodar em livros que tinham proporcionado prazer sincero enquanto os escrevia.
Eram muitas palavras, muita informação, muitos detalhes. O que me incomodava era o “muito”.
Desprezei (ou desconhecia) até ali o que diferencia a literatura dos relatórios. Enquanto nos relatórios é preciso detalhar cada informação, o que empresta valor a uma peça literária, em sua maior parte, é o não dito.
E comecei a cortar palavras.
Coincidência, ou não, nesse período passei a dedicar mais tempo à leitura de novelas e romances curtos. Reli A Hora da Estrela de Clarice Lispector. Conheci Albert Camus em sua mais perfeita forma através de A Queda e O Estrangeiro. Voltei a ler O Processo, de Kafka e conheci alguns dos mais valiosos talentos recentes da literatura nacional, como Michel Laub, que escreveu os melhores contos que li na atualidade (e o pequeno e grandioso Diário da Queda) e Carol Bensimon com seu romance de estreia, Sinuca embaixo d’água.
Mesma época em que li, pela primeira vez, sobre o trabalho de Cesar Aira e sua preferência por narrativas curtas. “Desconfio de pessoas que falam demais, políticos, pregadores, e dos que se exibem e dão lições. Acredito que a literatura é o contrário do charlatanismo e do exibicionismo. Calar-se e esconder-se é mais próprio do escritor, mais eficaz para sua prática” diria o autor, ao ser perguntado sobre a marca do artista. Sua visão de arte e seu projeto literário, em que estão incluídas novelas e publicações em pequenas tiragens, mudaram de vez minha perspectiva. Corri, comprei Haikus e passei a acompanhar e estudar a carreira de Aira.
Já estava irremediavelmente dragado pela narrativa curta, quando li um artigo de Ian McEwan publicado na revista The New Yorker sobre o tema. O título Some notes on the Novella chamou minha atenção. Depois da leitura resolvi assumir o que até ali não tive coragem, minha preferência por novelas.
O escritor britânico abre o artigo com o seguinte parágrafo: “When a character in my recent book, “Sweet Tooth,” publishes his short first work of fiction, he finds some critics are suggesting that he has done something unmanly or dishonest. His experience reflects my own. A novella? Perhaps you don’t have the necessary creative juice. Isn’t the print rather large, aren’t the lines too widely spaced? Perhaps you’re trying to pass off inadequate goods and fool a trusting public.” Uma defesa explícita do ponto de vista que ainda viria a lançar três parágrafos abaixo, quando diz que acredita que a “novela é a forma perfeita de prosa de ficção. É a bela filha de um desmedido, inchado gigante mal barbeado (mas um gigante que é um gênio em seus melhores dias)”, em referência direta ao romance.
Tudo se encaixou. A repentina insatisfação me levou ao corte desembestado de palavras, que, com o tempo, amainou, transformando-se em concisão natural, e cheguei à “forma narrativa perfeita”. Preferências à parte, concluí que não me entendo bem com os contos. No campo do romance ainda me perco nos muitos caminhos que se abrem. A novela tem a justa medida da minha escrita.
Algum tempo depois, participei de uma oficina com Marina Colasanti em que ela repetia a cada novo encontro que na literatura não há palavra vã, revelou sua luta pelo uso adequado dos adjetivos, mas, principalmente, deixou claro que a literatura se reforça com o não dito. O silêncio que explica tudo e se esconde entre as linhas barulhentas.
Ano passado desengavetei Vidas Secas, que havia lido na escola por obrigação, e agora se transformou em referência final. O grande objetivo. Perto de onde quero (ou gostaria de) chegar.
Em 2014 meu primeiro livro será publicado. Uma novela, a bela filha dos meus romances, gigantes natimortos, que talvez reencarnem em novelas, ou ressuscitem como gigantes vitoriosos. A forma narrativa pouco importa, desde que haja neles apenas as palavras e os silêncios necessários.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog “O Nariz do Fernando”, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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7 comentários em “Cortem as Palavras!

  1. Ótimo artigo. Eu sou um que agora tenho vivido essa necessidade de cortar os excessos. No entanto, como sou hiperbólico por natureza, isso significa apenas que estou logrando gerar alguns textos um tanto menos exagerados.

    Estou escrevendo meu primeiro romance/novela/trabalho longo. E descobrindo aos poucos que tenho tempo e espaço e que não preciso comprimir (dumpear) mil informações por capítulo. Tem sido prazeroso escrever assim, com menos pressão dos limites de caracteres.

    Ah, fazendo eco ao Gustavo: o Fernando tem realmente muito jeito com contos. O texto citado foi um dos meus preferidos no desafio Noir e um dos melhores contos já publicados no Entrecontos.

  2. Hahahaha. É verdade, Fernando. Temos um nome tão comum que as pessoas nos confundem! Ainda tem o Caio Fernando Abreu pra entrar na confusão, mas esse este já está na ala dos mestres! E valeu pelo elogio, Gustavo! Abraço a todos!

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