Nada como uma boa fora-da-lei

Por Felipe Rodrigues

Assim, essas bandidas – símbolos sinceros da própria causa e manifestos vivos – acabam sendo apedrejadas e difamadas em praça pública e, normalmente, acabam mal na(s) história(s). E não é isso que acontece com quem expõe demais a alma?

Gostaria de poder elencar todas as mulheres outsiders da literatura, mas não é possível. Puxando pela memória, me vem à cabeça a personagem feminina do último romance brasileiro que li, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino, autor que merecia uma estatueta por este título tão bom. A garota-problema do livro é Lavínia, apresentada como uma criatura de dupla personalidade: ora é a mulher respeitada de um pastor, ora é uma libertina que escapa para visitar o amante.
Afora a duplicidade da personagem criada por Aquino, ao adentrarmos com um pouco mais de profundidade na história de Lavínia, percebemos que as metamorfoses da moça são uma questão de sobrevivência, de adaptação (Darwin adoraria o livro). Ex-prostituta, ela encontra a redenção de uma vida miserável – dividia apartamento com um travesti – pelas mãos bondosas e firmes de Ernani, um homem religioso. Tirada da vida de boneca noturna, Lavínia desenvolve uma relação de dependência com o pastor, que tenta moldá-la a ser uma esposa exemplar.
Obviamente, Ernani não consegue mudar Lavínia completamente. A personagem apenas adormece em seu círculo de fogo, encontrando a segunda redenção em Cauby (sim, há piadas sobre esse nome e o do cantor no romance), o fotógrafo por quem se apaixona. A partir daí, torna-se uma autêntica bela da tarde tupiniquim, mas em vez de dinheiro, recebe em sexo, música clássica, conhaque, maconha e fotos nuas.
Há outras personagens desse tipo, como Tristessa, do livro homônimo de Jack Kerouac – uma prostituta mexicana com quem o protagonista se envolve, além de Camilla Lopez, a garçonete também mexicana (que fixação dos escritores americanos, não?) que some no deserto do romance Pergunte ao Pó, de John Fante.
Voltando ao Brasil, há a dupla de garotas do livro de Carol Bensimon, Todos nós adorávamos caubóis – que viajam sem rumo pelos confins do Rio Grande do Sul à procura de respostas e de autoconhecimento – além de outra Camila, alter ego da escritora Clara Averbuck no romance Máquina de Pinball.
Para além de análises do ponto de vista feminista e da discussão de gêneros, esse tipo de personagem torna-se marcante por simbolizar o forte instinto de liberdade feminino – a mulher odeia mais do que o homem ficar enclausurada – que obriga essas “fora-da-lei”, contidas dentro de cascos frágeis e pressões sociais, a se libertarem do cotidiano barato, alçando voos explosivos (e subversivos) por alamedas perigosas e, por isso mesmo, excitantes.
Assim, essas bandidas – símbolos sinceros da própria causa e manifestos vivos – acabam sendo apedrejadas e difamadas em praça pública e, normalmente, acabam mal na(s) história(s). E não é isso que acontece com quem expõe demais a alma?
Com sofrimento ou vergonha, em todas as artes, do cinema (Thelma & Louise, Messidor) à música (A Case of You, Doidivana), espero que as benditas fora-da-lei continuem surgindo e caminhando pela ponte escura entre realidade e o imaginário.

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

Anúncios

2 comentários em “Nada como uma boa fora-da-lei

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s