A Tal da Literatura

Por Clara Taveira

Indicar, sugerir e opinar é uma coisa. Indicar pela diminuição, sugerir pela discriminação e opinar pela crítica destrutiva é outra completamente diferente.

Certo dia, durante uma conversa com um amigo que tem o costume de ler vários livros ao mesmo tempo, ouvi uma frase que me deixou impressionada. Ao ser questionado sobre como adquiriu esse costume, meu amigo prontamente respondeu: “Ah, é fácil ler vários livros! É só intercalar um livro sério com um livro bobinho, que não é literatura de verdade.”
Por mais que já esteja acostumada a ouvir certas barbaridades acerca do que é ou não “literatura de verdade”, confesso que esta resposta me chocou mais do que eu poderia imaginar. Não pelo que ela diz somente, mas sim pelo fato de que foi proferida por um adolescente de 16 anos de idade. Esse tipo de categorização extremamente preconceituosa sobre o que é ou não literatura (ou Literatura, com “L” maiúsculo) é, geralmente, repetida por professores de literatura, acadêmicos, pesquisadores, entre outros, ou seja, por pessoas que estudam a tal da Literatura. Ouvir esta declaração de um aluno de Ensino Médio, mesmo sabendo que há uma certa confusão por parte dele em relação à ideia de que há livros mais complexos e há livros mais simples de se ler (como por exemplo, Crime e Castigo, de Dostoiévski versus Crepúsculo, de Stephenie Meyer), me chocou principalmente por ver que o preconceito literário, travestido de ensinamento e esclarecimento, está mais presente nos dias de hoje do que eu poderia imaginar.
A partir dessa conversa comecei a notar que a ideia de que há uma Literatura – ou seja, um instrumento artístico, um cânone, algo superior – e de que há uma outra literatura – menor, mais simplória, criada com único objetivo de entreter grandes massas, sem profundidade, sem riqueza, sem relevância artística – vem sendo perpetuada por pessoas de diversas idades, áreas e mesmo por pessoas que não possuem um grande contato com livros, ou seja, pessoas que apenas repetem o discurso de outros.
Repetir críticas sem atestar sua veracidade e coerência parece ser algo comum nos dias de hoje, infelizmente. Quantos status de Facebook falando bobagens sobre as manifestações de 2013, o mensalão, a cirurgia dos seios de Angelina Jolie não foram compartilhados desde a criação da rede social? Quantos jornais já não publicaram absurdos sobre a situação das escolas públicas, a greve dos professores, o morador de rua loiro dos olhos azuis, entre outras situações, e quantas dessas notícias não foram repetidas sem a mínima reflexão em filas de banco?
Ora, se formos entrar no quesito, devo lembrar que há uma propaganda de cerveja fazendo um certo sucesso graças a sua proposta, digamos, inovadora de dar respostas: Por que você paga academia se não vai nunca? Porque sim. Por que faz trenzinho nos lugares mais movimentados no carnaval? Porque sim. Por que você toma essa cerveja? Porque sim. Reflexão? Nenhuma.
Mas voltemos ao assunto principal. O discurso de que se deve separar o joio do trigo na literatura parece ser dito a torto e a direito por aí, mesmo por quem não lê. Mas e quando a pessoa não só lê, mas estuda os livros? E quando a pessoa se formou e se informou sobre o assunto literatura? Isso torna o discurso da tal Literatura válido? O fato de uma pessoa com pós-doutorado bradar aos sete ventos que A Culpa é das Estrelas não é literatura e arte torna a afirmação mais relevante?
Creio que não. Com certeza uma de minhas alunas de 13 anos que leu este livro em poucos dias, se emocionou a ponto de chorar e sair escrevendo em seu caderno, estojo e tênis o famoso trecho “Okay? Okay.” vai concordar comigo. Para ela, o livro ultrapassou a barreira da diversão pura e atingiu o status de arte. A fez chorar, sorrir, se emocionar, se entristecer e se reconfortar. Ora, o que mais pode ser classificado como arte, se não algo que cause esse tipo de sentimentos?
Desprezar a função principal da literatura, ou seja, o gozo puro, nas palavras de André Gardel, é o mesmo que torná-la algo inalcançável, disponível apenas para poucos estudiosos que a entendem e dela usufruem, enquanto o resto das obras é tachado de não-literatura, sub-literatura, literatura do povão, de massa, de entretenimento puro. Ora, para que serve a literatura se não for para nosso deleite, para a nossa apreciação estética e/ou nosso divertimento e/ou experimentação de mundo e/ou… e/ou…? Para que serve a literatura se não for para todos?
É óbvio, existem livros e livros. Não estou querendo colocar todos num grande saco e dizer que são todos iguais. Dom Casmurro é um clássico, Harry Potter é um infanto-juvenil, Crepúsculo é um best-seller young adult. Dizer que Dom Casmurro é Literatura com um “L” imenso, Harry Potter é o máximo da Literatura infanto-juvenil contemporânea e Crepúsculo é o cúmulo da chatice literária teen também são rótulos válidos. Mas são os MEUS rótulos, a MINHA categorização, a MINHA opinião. Querer que todos achem a mesma coisa, que classifiquem seus livros como eu os classifico é retirar do leitor um dos seus direitos fundamentais: definir quais livros terão seu L maiúsculo e destaque em sua estante. Além disso, é subestimar a sua capacidade de discernir o que é bom ou ruim, o que é algo muito perigoso de se fazer em qualquer situação, imagine em relação a algo tão precioso como a formação de um leitor?
Já passou da hora de se quebrar essas barreiras separatistas. Ninguém é obrigado a gostar de Sidney Sheldon, assim como ninguém é obrigado a gostar de Eça de Queirós. Indicar, sugerir e opinar é uma coisa. Indicar pela diminuição, sugerir pela discriminação e opinar pela crítica destrutiva é outra completamente diferente. Leiamos e deixemos ler!

Clara Taveira é professora, vlogueira e blogueira no Capitu já leu? (blog e canal literário) e adepta da poligamia literária. Não liga muito para rótulos ou títulos. Com exceção do “professora”. Desse ela não abre mão.

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5 comentários em “A Tal da Literatura

  1. Professora,

    É um debate antigo nos meios literários o assunto abordado, com implicações de diversas ordens. Mas me parece falacioso, se me permite, querer supor que a recepção individual do texto literário ou pretensamente literário é medida bastante para se determinar sua qualidade artística. A Literatura é uma ciência, assim como a Geografia. Não é porque eu não gosto do nome “falésia” que esse acidente geográfico mudará de nome, ainda que eu queira chamá-lo de “enseada”. Mesmo que eu não goste do estilo machadiano, ainda assim Dom Casmurro continuará sendo uma obra-prima da literatura em língua portuguesa. A literariedade é mensurada por certas premissas, mesmo em se tratando de algo subjetivo como é a estética. O texto não é bom porque ele é “bonito” ou “emocionante”. Há muita bobagem que se enquadra nesses dois adjetivos, nas quais a literatura passa longe.

    Essa discussão sempre está em voga porque o texto midiático, de leitura e compreensão extremamente simples e que não raro perpetua estereótipos sociais, o texto midiático pretende impor seus valores mercadológicos à arte literária. Livro bom, nesse sentido, é livro que vende muito, e vende muito porque “fala a língua do leitor”. Ora, esse leitor está carregado de preconceitos e tudo o que ele não quer é ser retirado de sua zona de conforto, coisa que a Literatura faz, mas o entretenimento não. Vivemos, em função disso, uma estética da repetição, já que fazer o leitor pensar, nem pensar.

    É importante que o jovem leitor leia sim os textos comerciais, mas também aqueles que trazem uma dimensão estética do mundo. É importante que ele leia Harry Potter, mas não considere que esse livro seja uma obra prima porque ele, leitor, chorou ou deu gargalhadas ou xingou o antagonista.A catarse é provocada por inúmeros recursos textuais. Não significa, necessariamente, literariedade.

    Obrigado pela atenção.

  2. Eu não poderia concordar mais. E olha que eu sou um dos que saiu desse grupo que achava existir uma pretensa “categoria” superior de arte ou literatura, alcançável a partir da razão.

    Depois, a própria razão me levou à conclusão de que isso não faz sentido algum. Para algo que se propõe a ser tão subjetivo, tão voltado à experiência humana quanto a arte, consensos objetivos não passam de verdadeiras pedras nos sapatos da liberdade criativa dos autores e no desenvolvimento intelectual dos leitores.

    Na minha humilde opinião, a arte (e até esse termo hesito em usar, dada a inexorável arbitrariedade sempre envolvida em defini-lo) não deve se limitar por conta de debates acadêmicos esdrúxulos. A Literatura, enquanto estudada como ciência, pode chegar a todas as fórmulas que quiser para categorizar, classificar e dissecar as experiências humanas. E todas serão insuficientes e vazias, porque a construção do pensamento humano é dinâmica, caótica por natureza, livre. A própria constrição das classificações é combustível para a fuga dos padrões. E se os padrões ditos “pobres” ou “populares” são atacados com unanimidade pela comunidade acadêmica, feliz do artista que se aventura por eles na mais pura ousadia. Se a falta aparente de intento, de desígnio, for tomada como um sinal de fraqueza, que se escrevam livros sem qualquer planejamento, ou que façam parecer que assim o fazem.

    Eu realmente achava que as pessoas tinham aprendido algo sobre as libertação de padrões estéticos objetivos no modernismo. Mas a burrice acadêmica englobou o próprio modernismo como mais uma “tendência”, No final das contas, a crítica elitista não é muito diferente da crítica de moda. Só consegue enxergar a superfície das coisas, bate palmas para o que a “elite cultural” elegeu como a tendência artística do momento, condena aos que usam “vestuário popular, pobre, fora de moda”, e estampam sua prepotência literária como símbolo de status intelectual. É um joguinho que é jogado desde os primórdios da humanidade, e que só se perpetua porque os envolvidos acreditam piamente que aquilo é uma verdade sobre o mundo, e não uma verdade construída por pessoas, tão falíveis quanto quaisquer outras, com todas as suas limitações e particularidades subjetivas.

  3. Literatura é malha sobreposta, que filtra, que modifica. A literatura tem o dever de transformar. Se não transofrma, não é literatura. Não interessa o ‘gênero’, a ‘forma’, não importa se rompe padrões, se modifica a linguagem (embora eu pense que o autor deva sempre buscar a inovação, a modificação da linguagem). A experiência literária deve arrancar o leitor do lugar, ao terminar de ler ele deve ser outra pessoa. Ainda que mantenha a mesma visão sobre o mundo, essa visão deve ter sido tocada, reforçada pela experiência da leitura. Todo o contrário é apenas divertimento sim. E existe sim texto de qualidade superior e texto de qualidade inferior. E existem sim critérios objetivos, além dos subjetivos. Negar isso é negar importância à literatura.

    1. O que você acabou de citar não é uma verdade objetiva, mas sim apenas uma perspectiva pessoal sobre o que a Literatura “deve ser”, que você pretende universalizar.

      E mesmo a quem aceite parâmetros objetivos para o julgamento literário, o parâmetro “mudar a visão do mundo” como basilar para a produção literária é extremamente insuficiente, por vários motivos.

      1. Impossível aferir objetivamente a tal “mudança de visão do mundo”.

      2. Qual é a visão de mundo atual e quão mutável ela é depende de cada indivíduo, o que mais uma vez no levaria á situação de cada obra tendo uma valia diferente para cada pessoa diferente.

      Ex.: Para alguma pessoa em algum lugar no mundo, “Crepúsculo” pode ter sido uma experiência transformadora, algo que mudou completamente a maneira dessa pessoa de ver e lidar com as pessoas, suas perspectivas sobre os relacionamentos humanos e suas expectativas. Para essa mesma pessoa, Ulysses pode ser completamente incapaz de produzir qualquer transformação, porque não comunica qualquer sentido, não se conecta com nenhuma de suas experiências individuais, não “fala” com ela, por assim dizer.

      3. Restringir a valia da Literatura à tal “mudança da visão de mundo” é tão utilitarista quanto acreditar que a Literatura existe para “divertir” e “entreter”. A Literatura pode ser sobre ambos, sobre muitas outras coisas e sobre nenhuma delas, como toda obra artística. Na minha opinião, a Literatura deve ser tão ampla, dinâmica e multifacetada quanto a experiência humana. E não há limites para a experiência humana. A fixação em funções específicas (mudança de paradigmas, inovação da linguagem, divertimento, lucro, engajamento político ou seja lá o que for) não passa de uma visão incompleta, de túnel, filtrada por paixões e crenças pessoais. Não há nenhum problema em ter essa perspectiva, contanto que você não pretenda que ela seja a única possível e que todas as demais sejam, em essência, inferiores.

      1. Andrey,

        Não disse que o leitor a partir da literatura deve sempre mudar a visão do mundo, o que escrevi foi “ainda que mantenha a mesma visão sobre o mundo”. E quando escrevi isso, escrevi que ela transforma individualmente, não de forma universal. Cada indivíduo sofre influência particular da leitura. Quando escrevi sobre mudança de visão do mundo, escrevi sobre mudança de perspectiva, uma nova visão para algo visto de determinada forma, ou o reforço dessa perspectiva.

        Ela deve deve gerar sim reflexão, a partir da qual se constrói alguma coisa (se trasnforma, ou ratifica uma ideia). Do contrário é vazia, é puro divertimento. O que escrevi é muito mais abrangente do que o que você descreveu no seu comentário, restingindo-se, você sim, a um termo generalisata que usei justamente por entender que não era necessário explicar algo tão simples.

        Obviamente é a minha opinião (que é o que costumo apresentar), a partir da minha vivência e da minha própria experiência com a literatura.

        No entanto, existem sim critérios objetivos que separam a literatura de qualidade, de algo superficial. Bem como ela tem o dever de modificar algo, de gerar reflexão. E não há preconceito nessa afirmação, e ela não é minha apenas.

        Portanto, na minha opinião, a literatura que é ‘pura diversão’ é rasa, não deve ser considerada arte, não leva a lugar nenhum. Mas essa é só a minha opinião. O que não significa dizer que ao gerar reflexão ela não possa divertir. Eu sempre me diverti muito.

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