Escrever para deixar a alma falar

Por Rubem Cabral

E então veio a necessidade urgente de colocar aquilo tudo para fora, de expulsar aquele frio de alma, a dor paralisante que poderia até me matar se eu não me mexesse. E, ainda na velha rede social Orkut, descobri comunidades de gente que escrevia e eu pensei: “oras, acho que consigo fazer isso também”.

Em 2008, como resultado de alguma conspiração do destino, vi-me de repente completamente sem chão: vendi – literalmente – tudo que tinha, colei um visto laranja e dourado no meu passaporte e migrei para viver num país que eu conhecera por curtos dois dias, quando vim fazer a minha entrevista alguns meses antes.

Permita-me explicar melhor: em junho de 2008, depois de um bom tempo poupando e fazendo mil planos, eu viajei à Europa como turista, com ideia maluca de conhecer a República Tcheca, Grécia, Áustria, Dinamarca, Polônia e Suécia (ufa!) em apenas 25 dias. O que eu não esperava é que duas semanas antes de viajar eu seria contatado por um ex-colega de trabalho que vivia em Zurique, enviaria meu currículo por e-mail e acabaria inserindo também a Suíça no meu roteiro já tão complicado, para visitar a cidade num feriado e fazer a tal entrevista no dia seguinte.

Quando cheguei ao Brasil, depois de férias tão cansativas, senti um frio na barriga, pois estava lá, na minha caixa do correio: o contrato por assinar, a coisa que mudaria a minha vida…

Bem, usamos esse espaço aqui da Caligo para falar sobre escrever, sobre livros, leituras e assuntos afins, e o que essa introdução tem a ver com o que esse espaço se propõe?

Eu não escrevia ficção até vir viver no exterior, até novembro de 2008, e talvez a principal mola propulsora para que eu escrevesse tenha sido a minha solidão.

Sou do tipo de pessoa naturalmente de bem com a vida, não me deixo abater por dificuldades e tristezas, não sou como a Poliana das histórias, porém costumo ver os copos quase sempre meio cheios. Entretanto, eu seguramente dera um passo maior do que as pernas, descobri que eu não estava preparado para tal desafio: encarar um longo inverno, escuro e gelado, ficar longe de todos os que amo, aprender uma nova língua e cultura, ter que refazer todos os meus laços.

Depois da euforia da novidade do início, fui perdendo o ânimo aos poucos. Toda sexta-feira, depois de chegar do trabalho, sentava no sofá da sala, assistia à tevê, navegava a esmo na internet e me afundava numa depressão que era inédita para mim. Dormia ali, no mesmo sofá, e quando a noite do domingo chegava e eu notava que não saíra do lugar, conseguia afundar ainda mais.

E então veio a necessidade urgente de colocar aquilo tudo para fora, de expulsar aquele frio de alma, a dor paralisante que poderia até me matar se eu não me mexesse. E, ainda na velha rede social Orkut, descobri comunidades de gente que escrevia e eu pensei: “oras, acho que consigo fazer isso também”.

Eu não tenho formação em Letras ou curso semelhante, já li muito, porém sempre fui muito eclético e provavelmente consumi muito mais abobrinhas, HQ’s e Best-Sellers do que os “grandes clássicos da literatura”. Sou alguém de Exatas, minhas melhores notas sempre foram em matérias da área. Graduei-me em Engenharia Química e em Tecnólogo de Sistemas: nunca tive que criar parágrafos com frases lindamente construídas ou inserir poesia em relatórios.

Em função disso, naturalmente, quando comecei a tentar escrever ficção, eu era muito ruim. Adjetivava com uma metralhadora cuja munição era infinita, pontuava feito um canguru bêbado num navio durante uma borrasca, repetia palavras tal qual alguém desmemoriado, desenterrava vocábulos de fossas abissais e enfeitava meus textos com muitos deles, sentindo-me um novo Imortal da Academia Brasileira de Letras. E achava tudo o que eu escrevia ótimo, fantástico. Descobrira o Hemingway e o Machado de Assis que viviam dentro de mim!

No entanto, não existe paraíso sem serpente… Logo surgiram detratores de meu talento inquestionável – malditos, malditos! – gente invejosa que ousava dizer: “isso está muito mal escrito!”, ou pior: “não entendi nada!” Contudo, feito eu comentei antes, eu não sou do tipo que se abata com facilidade, sou o Joseph Climber da literatura. Ora, está mal escrito?! Irei mostrar então o que eu consigo fazer! This… is… Sparta!

E esse caminho de aprendizado, de tentar fazer melhor, de inventar novas formas de escrever, de experimentar porque eu não suporto repetir, eu tenho tentado segui-lo desde então. Muitas vezes sendo rechaçado ou incompreendido, outras vezes elogiado, e em todas as ocasiões, sempre aprendendo muito.

Comecei a ter mais fé na minha capacidade de criar algo que prestasse ao ser premiado em concursos literários, ao ter contos selecionados para antologias em que eu – incrivelmente – não tivera que pagar um centavo sequer!

Hoje, vejo a obra modesta que construí nesses anos. Contos selecionados em publicações importantes, como a FC do B (Tarja), Anuário Fantástico (Terracota). Antologias, como a maravilhosa “!” publicada pela Caligo, com textos ótimos do período super fértil da comunidade literária “Contos Fantásticos”, e muitas outras mais.

E outra vez, agora encaro o desafio de tentar fazer algo maior, de escrever um romance, com muitas personagens, muitos cenários, amarrar as pontas, dar voz e personalidade a cada um. Dar pistas do que vai ocorrer, sem soltar spoilers de minhas próprias ideias e, principalmente, tentar controlar minha afobação de velho principiante.

Escrever talvez tenha salvado a minha vida, ou ao menos me salvou de algum tratamento com antidepressivos, e o melhor de tudo: me forneceu instrumentos para dar vazão ao turbilhão que ferve em minha mente. E como não fosse suficiente, ainda me fez conhecer gente que admiro, que vibro ao ler cada novo trabalho, ainda que não conheça pessoalmente. Contudo, são como velhos amigos, cujas vozes imaginárias eu posso escutar mesmo estando tão distante de casa.

Então, para você que tem medo de ousar, de tentar escrever e expor suas ideias, um conselho: não tenha mais. E mais um conselho: aceite as críticas, de coração aberto. Algumas serão frívolas e despeitadas, porém as boas críticas te colocarão no eixo e efetivamente farão com que você cresça como escritor.

Rubem Cabral é engenheiro de software, nascido na cidade do Rio de Janeiro e radicado em Zurique, Suíça. Apaixonado por literatura fantástica, já foi publicado em algumas antologias, tais como a bem conhecida “FC do B”, uma coletânea de ficção científica anual da Tarja Editorial. O autor foi selecionado em primeiro lugar na categoria conto no concurso Raízes, em Genebra no ano de 2010. É o organizador da Antologia “!” de Contos Fantásticos. Para conhecer mais sobre seu trabalho, visite o blog do autor: Contos Agridoces. Contato: rudam@msn.com

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6 comentários em “Escrever para deixar a alma falar

  1. Ahh.. que bacana, Rubem!
    A literatura salvando e encaminhando!
    Coincidência que também comecei a escrever em 2008 no Orkut… mas eram poemas!

    Muito bom este teu texto-depoimento!
    Obrigada por compartilhar, porque isto é importante!
    Abração

  2. Que delícia ler a sua história literária. Identifico-me por ser filha de suíços e entender bem essa coisa de solidão gelada. Talvez, precisemos mesmo de um momento de crise para que o talento aflore nos salvando. Somente quando incomodados,saímos da zona de conforto e mostramos nossa face mais criativa. Parabéns. Sou sua fã. 🙂

  3. Muito boa crônica. Identifiquei-me com ela, também não sou um profissional das letras, sou dentista e desde 2010 comecei a me aventurar na escrita. De lá pra cá também consegui publicar alguns contos em antologias, e em revistas literárias. E procuro um dia conseguir o fôlego necessário, que parece que você já conseguiu, para construir um livro solo, não de contos, mas de uma narrativa longa. Parabéns pelo texto e sorte nos projetos futuros. Grande abraço.

  4. Me vi neste artigo, basta trocar a Europa pelo Centro-Oeste do Brasil.

    Nos primeiros meses de “exilio” comecei a despejar as ideias no papel como forma de preencher um vazio deixado pela família e amigos que ficaram longe. Hoje constituí uma família que cresce exponencialmente (rsrs) e escrever continua sendo a válvula de escape para um mundo onde tudo é possível, longe das amarras do cotidiano e que ainda me proporciona a companhia de mentes privilegiadíssimas.

  5. “Escrever talvez tenha salvado a minha vida, ou ao menos me salvou de algum tratamento com antidepressivos, e o melhor de tudo: me forneceu instrumentos para dar vazão ao turbilhão que ferve em minha mente.”
    Exatamente isso que eu sinto. Se fico sem escrever, minha alma adoece e meus problemas de ansiedade aglutinam. Me identifiquei bastante com o texto, vou imprimir e pregar no quarto pra jamais me esquecer 😀

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