Duas dicas de ARISTÓTELES para você escrever cada vez melhor!

Por Fabio Shiva

“Alguns podem objetar que a vida, com muita frequência, é inverossímil. Exatamente. Só que a vida não está preocupada em convencer ninguém. Esta é uma obrigação exclusiva da ficção.”

É interessante como, em nossa obsessão por estarmos sempre atualizados, sempre buscando as últimas informações sobre determinado assunto, muitas vezes acabamos perdendo contato com verdadeiros tesouros do passado.
E quando o assunto é a arte de escrever bem, dificilmente uma fonte pode ser considerada mais clássica que “A Poética” de Aristóteles, possivelmente a primeira obra de teoria literária de nossa era. O autor dispensa apresentações, esse homem extraordinário que foi aluno de Platão e professor de Alexandre o Grande e cuja filosofia teve tanta influência em nossa civilização (eu, pessoalmente, prefiro pensar nele como o cara cujo livro causou tanta confusão em “O Nome da Rosa”  =).
Se você tem interesse em aprimorar os seus textos, melhorar o enredo de suas histórias, aumentar o impacto dramático de suas cenas, dificilmente eu poderia recomendar o suficiente a leitura desse livro. Sou grato pela oportunidade de escrever este artigo, só pela alegria de retornar às venerandas páginas de “A Poética”!
Por isso separei duas dicas quentes de Aristóteles sobre a arte de escrever histórias, que ele escreveu pensando na tragédia grega, mas que bem poderiam constar de algum manual de redação para cinema ou tevê. Espero que sejam úteis em sua caminhada literária e desejo muita inspiração em seus escritos!
 
 1. UNIDADE DA AÇÃO

 

Assim falou Aristóteles:

“Aquilo cuja presença ou ausência
não traz alteração sensível
não faz parte nenhuma do todo.”
 

Um dos maiores desafios do escritor – e também de todo ser humano – é livrar-se do apego. Quem nunca sentiu pena de ter que cortar aquela cena tão interessante, ou aquele personagem tão desafiador, ou mesmo um capítulo inteiro de sua história? E ainda mais depois de ter tanto trabalho justamente com essa parte que é preciso cortar…

É nessas horas que vale muito a pena recorrer à sabedoria de Aristóteles. Ter em mente a unidade de ação da história ajuda muito a resolver conflitos como esse.

Você pode fazer um teste muito simples para descobrir se determinada parte de uma história deve ou não ser cortada. Experimente suprimir essa parte. Se a história continuar funcionando, é porque a parte que você suprimiu não pertence à unidade de ação. É um apêndice indesejável, que realmente precisa ser descartado.

O contrário também pode acontecer, mesmo que mais raramente: o escritor ter dificuldade em perceber algo que está faltando na história. A solução para isso – e para muitos outros problemas graves – é revisar o texto muitas vezes. Nesse caso específico, de um ponto cego na trama, pode ser especialmente útil a ajuda de um leitor beta, uma outra pessoa para ler e opinar sobre a história.

2. VEROSSIMILHANÇA X NECESSIDADE

Ao analisar os diferentes tipos de histórias, Aristóteles chegou à conclusão de que o tipo mais fraco de história é o que ele chama de “episódico”:

“Chamo episódica aquela em que a sucessão dos episódios
não decorre nem da verossimilhança nem da necessidade.”

Escrever, ensina o filósofo, é a arte de imitar a vida. E quanto mais verossimilhança e necessidade houver em uma história, mais impactante e capaz de despertar emoções ela será.

Podemos considerar a Verossimilhança em uma história como o poder de convencer. É o atributo mais importante, sem o qual não pode existir uma boa história.

Alguns podem objetar que a vida, com muita frequência, é inverossímil. Exatamente. Só que a vida não está preocupada em convencer ninguém. Esta é uma obrigação exclusiva da ficção. Tanto é assim, que quando algo fora do comum e difícil de acreditar acontece na vida real, isso gera assombro e até maravilhamento. Mas se o mesmo fato é descrito na ficção, o efeito é o oposto: decepção e desapontamento. Diante de uma cena inverossímil, o leitor sente-se “arrancado” de dentro da história, pois o caráter ilusório da mesma é desmascarado sem chances de redenção. Uma experiência lastimável para o leitor, que todo escritor deve se esforçar ao máximo por evitar!

Isso não quer dizer que a ficção só deva tratar de acontecimentos corriqueiros, muito pelo contrário. É possível abordar os temas mais fantásticos de forma convincente. Nisso consiste a fina arte da Verossimilhança.

Já a Necessidade é um conceito mais sutil e, ao mesmo tempo, autoexplicativo. Por isso mesmo, acho adequado considerar como Necessidade tudo aquilo que aparece em uma história que não precisa ser justificado. Está ali porque é necessário e pronto.

(Atenção, os dois próximos parágrafos comentam cenas de Hamlet para exemplificação que talvez possam ser consideradas spoilers. Se ainda não leu – ! – este texto de Shakespeare e não quiser saber nada, nada a respeito da trama, pule imediatamente para a última linha desse texto!)

Um belo exemplo desses dois atributos pode ser encontrado na cena de abertura do “Hamlet” de Shakespeare. É necessário para a história que o fantasma do pai de Hamlet apareça e denuncie o seu próprio assassinato. Sem uma evidência dramática como essa, que filho ousaria suspeitar que a própria mãe é uma assassina?

Quanto à verossimilhança desta cena, que não tem nada de corriqueira, aí entra o gênio de Shakespeare, fazendo com que o sobrenatural tenha uma aparência de natural pelo recurso da repetição: o fantasma aparece primeiro para um guarda, depois para um amigo de Hamlet, até que o próprio príncipe é chamado. Simples, genial e eficaz, como sempre!

Então, resumindo: você pode até usar, mas não abuse do Deus ex machina!

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

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5 comentários em “Duas dicas de ARISTÓTELES para você escrever cada vez melhor!

  1. ah! que belo baiano que ajuda esclarecer e traz contribuições sensíveis sobre um tema bastante interessante . Agradeço amigo me chamar atenção para tão instigante observações . Valeu

  2. Olá Fábio,
    Excelentes dicas para quem, como eu, gosta de escrever.
    É muito importante ter uma fonte para beber água tão pura!!!
    Abs.
    Noélia

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