Cheese-Book

Por Fernando de Abreu Barreto

Na vida experimentamos muitas situações em que é mais fácil determinar se algo é bom, ou ruim. Nossas escolhas são orientadas por essa percepção. Todos nós somos assim, e temos a liberdade de escolher o que entendemos melhor. E de dizer que achamos algo melhor. Na literatura, não!

Quem decide se o livro é bom, ou não, é o leitor. Ele vive a experiência pessoal da leitura e sente seus efeitos. Mas a literatura é expressão de arte, e como tal possui aspectos objetivos que merecem respeito para além da subjetividade.

A divisão entre o que é boa literatura e literatura ruim sofre ataques constantes, desde muito tempo. E tem, também, seus defensores (geralmente acusados de academicistas). Eu que não sou um acadêmico da literatura confesso: tenho pouca coragem de meter minha colher na discussão. Mas tenho acompanhado alguns embates como quem assiste a um programa policial vespertino com curiosidade.

E o que mais tenho visto é a clássica discussão de botequim. Todos gritam, se impõem, ninguém ouve, não há reflexão. No final, todos vão para casa cheios de si, nada muda. Serve apenas como desabafo.

Opiniões à parte, em outras formas de arte a discussão inexiste. Em outros ramos de atividade, em outras áreas da vida somos capazes de separar o que é bom do que é ruim, com relativa facilidade.

Mas em literatura é proibido, taxado como uma violação à livre criação. Aquele que deseja classificar uma obra como vazia, menor, desimportante; aquele que procura estabelecer parâmetros técnicos objetivos para avaliar a qualidade de uma peça literária é tratado como formalista, quadrado, careta.

A discussão está muito acima do que é popular, ou elitista. Vai além do que é vendável, ou o que é sucesso de crítica. Muito além do que é divertimento, ou não. A contraditória palavra de ordem, nesse caso, é NÃO. Na literatura não podemos dizer que algo é ruim ou bom. Temos que aceitar como literatura algo intocável.

Passei um tempo fazendo uma enquete com amigos músicos que me responderam que o Xou da Xuxa é um disco muito bem produzido, traz composições de artistas consagrados, atinge o público alvo, vendeu 2,5 milhões de cópias, mas traz um punhado de músicas ruins (deve ser um péssimo exemplo, porque é um álbum infantil, e não se pode esperar muito de um disco voltado para esse público, portanto, vamos esquecer a Arca de Noé).

Continuei na música e tratei do novo álbum do Latino (nem sabia que gravam álbuns nos dias de hoje, mas acredite, o Latino lançou recentemente um novo álbum). Ninguém soube classificá-lo porque ninguém a quem questionei ouviu o disco. Não achei correto colocar os comentários de quem não conhecia a peça, mas os comentários existiram porque todos consideram o Latino ruim. E não parece feio considerar o Latino ruim. Especialmente se você colocá-lo ao lado do Beethoven, dos Beatles, do Barão Vermelho ou do B. B. King (só pra ficar na letra ‘b’).

É fácil compreender por que: as letras são pobres, vazias, muitas vezes escatológicas. Além disso, a construção melódica e harmônica é pobre (isso não é sobre música, não me aprofundarei). Por fim, sua voz não soa agradável. É a combinação de fatores objetivos que nos permite dizer que o Latino produz música ruim, embora venda muitos álbuns e faça shows com lotação máxima por todo o Brasil.

Houve uma época em que as músicas tinham construção melódica simples (note que simples não é pobre), uma multidão de bandas surgiu apoiada em músicas com três acordes. Essas bandas são consideradas ótimas, e seu trabalho é considerado música de alta qualidade.

Por que o rock goza desse privilégio? Porque apesar da simplicidade (que não era regra) e míngua de acordes, era apoiado por letras profundas, que geraram reflexão e revoluções (individuais e coletivas) significativas. Porque procuravam mais que o puro divertimento, e ainda assim divertiam. Era o ajuntamento quase perfeito entre a estética e o entretenimento.

Muita gente pode não gostar de rock, mas não conheço ninguém que em 2014 afirme se tratar de um gênero menor. Será que em 2035 a obra do Latino será vista como grande contribuição para a música brasileira?

Não se trata de preconceito, estou tratando do caráter técnico, embora no botequim isso não seja tão importante. Lá ninguém assume que gosta do Latino, mas todos dançam loucamente sua música em festas de casamento. Latino serve, então, para nos divertir quando estamos bêbados, o que não o torna especial, ou eleva sua música de categoria. Todo mundo sabe disso.

Você consegue determinar que uma comida é boa e outra ruim, embora submetida a subjetividades essa classificação mude frequentemente. Minha mulher adora caqui, eu não suporto a textura, a cor, o gosto. Mas não é de subjetividade que trato.

Há critérios objetivos que podem determinar se uma comida é boa, outra ruim. Não inventaram nada melhor que cheese-bacon, leite condensado e Coca-Cola. São comidas divertidas, unanimidades (exceto o cheese-bacon, enquanto houver vegetarianos), sucesso de vendas. Mas são péssimas, e todo mundo concorda com isso.

A dieta do Mediterrâneo é o que há de melhor no universo dos alimentos, afirmam muitos especialistas. Frutas e hortaliças, oleaginosas, azeite, peixe e vinho tinto são capazes de torná-lo indestrutível. Mas quem gosta de hortaliças e cereais? De Legumes, quem gosta? Muita gente gosta, mas a dieta não é boa porque muita gente gosta, ela é boa porque regula o organismo e fortalece a saúde (e ainda diverte de vez em quando, apesar da recomendação do uso moderado do vinho tinto).

Ninguém tem medo de dizer que a dieta do Mediterrâneo é melhor que o leite condensado. Mas isso aqui trata de arte, e a comida deve ser descartada. É um argumento frágil (é argumento?).

Na vida experimentamos muitas situações em que é mais fácil determinar se algo é bom, ou ruim. Nossas escolhas são orientadas por essa percepção. Todos nós somos assim, e temos a liberdade de escolher o que entendemos melhor. E de dizer que achamos algo melhor.

Na literatura, não!

Não se pode avaliar um livro objetivamente, porque você limita a criação. Não se pode avaliar subjetivamente, porque você está sendo raso. Grande bobagem.

Há critérios objetivos que devem ser sempre considerados, como o uso correto da norma (ou o uso incorreto, desde que o autor conheça o uso correto e o erro seja parte da obra, o que o torna adequado). A busca pela inovação, pela intervenção nas velhas formas de linguagem, porque, embora clichê, a língua é viva e evolui. A literatura deve gerar reflexão, o leitor tem de ser outro após fechar o livro. A obra deve ser uma malha, que funcione como um filtro através do qual as experiências do leitor irão passar.

Não por isso deve (mas pode) ser exageradamente complexa e chata. Um exemplo de obra simples de qualidade elevada é Desabrigo e outros trecos (Antonio Fraga), de simplicidade quase pueril e profundidade assustadora é o exemplo de que a qualidade não está na pompa, mas que simplicidade não é sinônimo de pobreza. Por outro lado, há livros complexos que proporcionam prazer sincero, como O Cortiço (Aluísio Azevedo) ou Dom Quixote (Cervantes), muito divertidos, mas não só isso.
Dizem que James Joyce gargalhava ao escrever Ulysses, outro exemplo de boa literatura, divertida, sucesso de vendas e crítica. Ela existe. Não há nada de errado em pensar que há boa literatura e má literatura.

Como não há nada de errado em pensar que um livro pode ser puro divertimento, um produto bem construído exclusivamente para entreter e vender (no final, o leitor é o modulador, que é pouco influenciado pela opinião que vem de fora, como se vê em interessante texto na coluna da Raquel Cozer publicada na Folha de São Paulo). Mas nesse caso não será jamais literatura boa, será cheese-bacon.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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