Eureka!

Por Diogo Bernadelli

“Apenas os estúpidos e preguiçosos se dão por satisfeitos. A vida de um homem se resume, na verdade, em 75 anos de aprimoramento.”

Quais artifícios possuímos a favor da criatividade? Todos eles. A sensação de ter chegado no limite, este é o principal embate do sujeito cujo trabalho está envolvido com algum gênero de processo criativo. Seja ele profissional ou amador — no jogo, os dados rolam para todos. Não estamos falando só de literatura aqui. A coisa se esgota, desesperado você enfia as mãos nos bolsos, puxa o forro para fora, então o pensamento finalmente acerta sua cabeça como uma paulada. Você chegou no limite. Não há nada acima ou abaixo disso, e qualquer esforço é o bastante apenas para a consolidação de mais frustração e de nada que preste.

Se você passa horas em frente ao computador, debruçado sobre uma prancheta ou segurando um lápis diante de uma folha branca, enquanto as únicas coisas que é capaz de produzir são o sentimento de incapacidade e os imaginários gritos de Não dá, não consigo!, você está no caminho errado. Não há nada de óbvio em se dizer isso. No entanto, mesmo as coisas mais óbvias nem sempre são articuladas por nosso intelecto e transformadas em instruções. Desespero e autopunição não preenchem o papel. Todavia, meu amigo, o universo todo está do seu lado. Você é o universo.

Hoje em dia, tendo em vista o contexto massivo das demandas do consumismo, o que não falta são sites especializados no tema “criatividade”. Afinal, se você está a fim de ser admitido no time dos produtores, seu produto precisa ser simplesmente ótimo. O ranking da globalização é cruel com seus competidores. Muito bem. “Afrouxe a gravata e vá ler debaixo de uma árvore”, “Abandone o corporativismo, faça o que você gosta”, “10 indícios de que seu emprego é o ambulatório do inferno”, esse é o tipo de artigo apresentado por sites assim.

Alguns deles apenas amontoam lixo, mas em outros há pessoas de fato comprometidas em dizer coisas que funcionam. Pessoas que realmente lhe inspiram fôlego. Uma das maiores coisas que li num desses “siterapias” — não lembro qual, não lembro quando — é também uma das maiores obviedades da vida, e que por ser tão grande muitas vezes não é percebida. Repare no mundo ao seu redor. Este era o tópico lá. Repare.

Repare.

Não, é sério, repare, comece agora.

Talvez o conforto da sua cadeira e do seu quarto não lhe deem permissão imediata, por isso você precisará se esforçar no início. Mas olhe ao seu redor, olhe para dentro de você. Há uma riqueza de detalhes e interações ocorrendo neste exato momento, e todos estamos inseridos nesse processo. A textura da roupa contra a pele, a poeira suspensa num facho de luz que entra em ângulo pela janela, o vizinho de cima arrastando os móveis no apartamento, seu organismo alertando-o para a fome ou para o sono, algum eletrodoméstico ligado e funcionando perto de você.

Depois de certa idade (mais precisamente passada a infância), nosso coração abandona a franqueza de enxergar o mundo como uma encantadora sucessão de novidades. Tudo se transforma em assunto batido, em reproduções de padrões previsíveis, como se a vida adulta na verdade nos desse uma grande coleira para ser passada ao redor do pescoço do mundo.

O que você vê? Uma parede cinza? O conforto jamais será seu aliado. O conforto diz “Está bom assim, não levante sua bunda daqui. Perto da sua mão direita está o refrigerante; perto da outra, o pacotinho de batatas. E ficar sentado é tudo o que você precisa. Não foi Arquimedes quem fez seu nome numa gostosa banheira?” O conforto opacifica as lentes, ele o entretém com o mínimo e isso pode até mesmo convencer algumas pessoas de que ninguém precisaria de mais para levar adiante uma vida de 75 anos. Por um lado é verdade; tem gente que alimenta expectativas tão reduzidas que chega a ser deprimente, mas nem por isso deixam de ter dinheiro na carteira e uma cadeira boa.

Mas você não precisa de uma cadeira boa; você precisa de desafios. Você precisa descer o lápis sobre a folha, você precisa fazer o cursor do editor de texto, que pisca com petulância na sua tela branca, começar a cuspir algumas letras. Você precisa interromper a crença de que o tempo de encher o balde já passou e que agora só lhe resta fuçar e fuçar nele à procura de algo que valha um centavo. Sua mente só possui cacarecos, nunca se esqueça disso. Apenas os estúpidos e preguiçosos se dão por satisfeitos. A vida de um homem se resume, na verdade, em 75 anos de aprimoramento.

Um sonho que você teve. A história de um homem que enviou a si mesmo em uma caixa pelos correios para escapar da prisão. Uma discussão filosófica ou sobre música, o fato de o marcador parecer rastejar até metade do livro e, depois disso, disparar como louco até a última folha, aquele carro em que você tem vontade de passar os dedos somente para sentir suas curvas, desvios de caráter, a tecnologia em seus bolsos, múmias, impressoras a laser, rodízios de cadeira, clipes de papel, microchips… Todos os substantivos estão rodeados de suas histórias e histórias existem para serem apropriadas e contadas. Ou pintadas, ou o que for. As pessoas comuns enxergam coisas, o artista enxerga nas coisas.

Esgotou seu repertório? Na verdade, tente então escrever sobre seus bolsos do avesso. Sobre o personagem que em um deles encontrou um bilhetinho anônimo — PULE — e a decisão que isso o levou a tomar (pular de onde?, pular o quê?). Os limites não existem, o que existem são as oportunidades.

E agora, o que você vê?

Ah! A anedota de Arquimedes é bem legal. Ela termina com o camarada saindo da banheira e correndo pelado pelas ruas de Siracusa.

Diogo Bernadelli é aluno da Universidade Federal no curso de Arquitetura & Urbanismo, atua em um escritório de engenharia pericial e escreve nas horas vagas. Publicou dois contos na Antologia “!” pela Caligo Editora, em 2013. Em 2014 participará da “Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte”, com o conto Refração.

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5 comentários em “Eureka!

  1. Olá! Eu gostei muito do que li, das passagens de humor e das reflexões (claro). Vira e mexe estamos com bloqueios criativos, mas não podemos nos dá por vencidos e muito menos, cair na mesmice. Muito bom. Abraços.

  2. Excelente artigo. Me lembrei do ótimo livro “A Arte de Viajar”, de Alain de Botton. Entre vários aspectos que envolvem viagens a outros destinos, ele encontra tempo e espaço para descrever uma jornada empreendida em seu próprio quarto, demonstrando como até nesse pequeno universo as coisas podem ser surpreendentes. Valeu, Diogo! Abraços!

  3. Adorei seu artigo. Me lembrou do livro O Zen e a Arte da Escrita, em que o escritor Ray Bradbury recomenda ao leitor criar uma lista de substantivos e prestar atenção no dia-a-dia, pois só de nossas vivências podem surgir centenas, milhares de assuntos para escrever. Abraços

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