Haja Continuação

Por Marcelo Porto

Avaliando criticamente o assunto, visualizei várias semelhanças entre a cultura do Blockbuster e a do Best-Seller, em ambas o que vale é a assimilação fácil por parte do consumidor […]

Zapeando pela TV me deparei com um documentário sobre a indústria do cinema em Hollywood e uma frase fez explodir o meu sentido de aranha: “…os dramas estão extintos…”.

O programa mostrava como a indústria do entretenimento americana é dependente dos Blockbusters e a minha maior surpresa foi a afirmação de que quanto maior o orçamento de um filme, menor risco ele corre. Em várias entrevistas se afirmou que orçamentos abaixo dos U$ 35 milhões, não eram aceitos simplesmente porque um baixo orçamento significaria um filme sem possibilidades comerciais(!!!).

Outro dado assustador é o curtíssimo tempo de avaliação para o sucesso ou fracasso de uma obra, a sexta-feira de estreia. Todos os investimentos em marketing, logística e produção precisam se pagar na “primeira semana”, uma praga hollywoodiana onde um dia é suficiente para vaticinar o futuro de um filme. O consenso, entre os entrevistados, é de que a marca mínima de faturamento seria de U$ 150 milhões no dia do lançamento, abaixo disso seria uma hecatombe nuclear.

Essa ditadura se traduz numa avalanche de refilmagens, adaptações, sequências e plágios despudorados, que resumem as opções em Blockbusters ou comédias familiares, sendo cada vez mais difícil ver um filme que fuja desta regra. No próprio documentário havia uma segmentação para isso: comédia familiar: U$ 35 milhões; Blockbuster: U$ 200 milhões. Nos grandes estúdios, ou é um ou é outro.

Avaliando criticamente o assunto, visualizei várias semelhanças entre a cultura do Blockbuster e a do Best-Seller, em ambas o que vale é a assimilação fácil por parte do consumidor, uma padronização mercadológica baseada apenas em números, criando um círculo vicioso difícil de se romper.

Na tirania das listas dos mais vendidos se nota uma tendência de obras para consumo imediato, uma padronização e um excesso de continuações bem ao estilo Hollywoodiano. Não me aprofundei em números, mas deduzo que os investimentos e a filosofia por trás dos Best Sellers devam ser bem parecidas com a dos Blockbusters.

Talvez este seja um dos motivos para que excelentes autores (novos e nem tão novos assim) ficarem à margem do mercado. A indústria do entretenimento se separou da indústria cultural, e em algum momento se transformou na “indústria da cultura pop”. De tanto sermos bombardeados pelo marketing agressivo dos grandes lançamentos, de tantos “o melhor autor de todos os tempos, da última semana” viramos reféns do próximo sucesso.

Afinal, quando isso começou? Dei googlada e encontrei um monte de explicações, a que mais me satisfez foi uma matéria da Revista Nova Escola, onde os professores Martin Cezar Feijó (professor do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, da Universidade Mackenzie) e Gelson Santana Penha (professor do curso de Mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi-Morumbi) discorrem sobre o tema, eles me fizeram refletir sobre a origem da nossa atual “indústria do entretenimento”.

Segundo eles, a Cultura Pop tem origem nos anos de 1960, a partir das artes plásticas com o Andy Warhol e suas obras, que reproduziu ícones da época tentando o diálogo com a arte erudita. Com o auge do cinema e o surgimento de diversos movimentos e bandas com fama mundial, surgiu um universo de mídias individuais com um cunho massivo, ou seja, cada indivíduo ou consumidor combina as diversas tendências do movimento pop e o torna uma novidade para si. Complexo né? Mas plenamente em consonância com a atual indústria doBlockBuster e do Bestseller. “ … o pop… é mais consumido do que vivido; é a arte dialogando com o consumo sem pudor.” Esta afirmação do Professor Martin Cezar Feijó resume bem a cena cultural mostrada no documentário a que assisti.

De vez em quando surgem exceções à regra e uma obra original explode e faz sucesso comercial. O problema é que quando isso acontece se choca mais um ovo de serpente, e essa obra é rapidamente cooptada pelo status quo e se torna mais uma franquia e haja continuação…

Analista de sistemas, administrador e escritor nas horas vagas. É autor dos romances PARADOXO (2012) e DÉJÀ VU (2013), também escreve contos de terror, ficção científica e suspense. Soteropolitano, cinéfilo, leitor voraz de quadrinhos, best-sellers e de outros livros também. Envolvido com as letras, não é jornalista, mas trabalha em jornal desde sempre.

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