Sobre “Galáxias” e a influência das leituras que não nos cativam

Por Thais Lemes Pereira

Era exatamente aquilo: o que não te incomoda não te acrescenta, até mesmo na hora de escrever.

Dizem que ser um leitor assíduo ajuda na hora de escrever. Com certeza, em algum momento da sua vida, você já deve ter lido ou ouvido sobre. Artigos nomeados “Como Escrever Bem” adoram apontar a leitura como uma das principais influências na hora de escrever. Justificativa mais comum: amplia o vocabulário. A falta de exploração no assunto sempre me fez questionar se a declaração era verdadeira ou apenas algo que foi dito uma vez e repetido conforme a música.

Quando a tia do Ensino Fundamental pediu que meus colegas e eu lêssemos algum dos livros disponíveis na biblioteca, eu já carregava na bagagem toda a obra infantil do Monteiro Lobato e O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. Infelizmente, não era o suficiente para que minhas produções de texto lhe agradassem. Com a nova afirmativa de que “ler ajuda a escrever melhor”, fiquei me questionando o que estava fazendo de errado.

A resposta veio quando comecei a ler livros que não me agradavam. Sem o interesse na história, continuava a leitura dando uma maior atenção à construção das frases e pontuações. Sendo uma leitora mais cuidadosa, aprendi que ler não basta para escrever bem, mas ler criticamente é fundamental. Depositar uma maior atenção ao que é oferecido e criar nossos conceitos sobre o que é lido, desenvolve um sentido mais aguçado na hora de escrever. Muitas vezes, inconsciente.

Neste ano, minha teoria sofreu uma nova mutação quando um professor indicou o livro-poema “Galáxias” do poeta Haroldo de Campos na aula de Teoria da Comunicação. O primeiro contato com o texto foi um misto de surpresa e indignação, influenciada pelos pré-conceitos do que eu tinha como “certo” e “errado” na hora de escrever, me deparando com um livro sem pontuação e sem letras maiúsculas. Sem contar nas diversas palavras que produziam ecos. Mesmo assim, continuei fiel à leitura, levando em consideração a frase dita pelo mesmo professor: o que não te incomoda, não te acrescenta.

Na metade da leitura do livro, comecei a escrever um conto. Pequeno, apenas para satisfazer a necessidade de escrevê-lo. Quando li a história pronta, fiquei maravilhada com o que havia acontecido: vírgulas faltando e em todos os parágrafos havia um eco. Como aquilo poderia ter acontecido? Eu não enxergava interferência dos bons livros que lia na minha escrita, mas quando a leitura não agradava era evidente.

Era exatamente aquilo: o que não te incomoda não te acrescenta, até mesmo na hora de escrever. Sem generalizar – até porque tomando conhecimento disso a história muda o rumo − ao ler algo que gostamos, nossa crítica é abafada pela identificação. Sendo assim, a possibilidade de crescermos com algo que não estamos acostumados é bem maior do que se continuarmos lendo os mesmos gêneros, os mesmos autores.

Ler colabora na hora de escrever: fica claro que sim. Mas limitar a leitura ao que é confortável é prejudicial, pois faz com que olhemos sempre no mesmo ângulo e nos fecha para outras possibilidades. Quantos livros e outros textos deixamos para trás por conta de uma linguagem rebuscada, de termos que repelimos ou porque o gênero não agrada? O bom leitor não se deixa intimidar diante do apresentado e saberá fazer uso do que lhe incomoda de uma forma positiva na hora de escrever. Viajar pelo que nunca foi explorado é ampliar conhecimento e essa é a verdadeira influência que a leitura tem na nossa escrita.

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.
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5 comentários em “Sobre “Galáxias” e a influência das leituras que não nos cativam

  1. Como se diz na administração: o desconforto é que faz a gente crescer.

    Nunca tinha avaliado isso pelo viés da literatura, faz total sentido. Vou insistir mais em alguns títulos que estão criando teia na estante!

  2. Acho que é mesmo por aí. Eu disse há dois anos em entrevista a um blog: “Acreditem: é arriscando em coisas novas que fazemos grandes descobertas.” Em outra eu disse: “Meu recado é: experimentem sempre, leitores. Leiam propostas literárias diferentes. E leiam com a cabeça aberta.” E em outra falei: “Eu sei que as pessoas têm estilos preferidos de leitura e acabam dando atenção praticamente só a eles, mas vale a pena se aventurar por outras paisagens de vez em quando. Você pode se surpreender ao fugir um pouco das leis conhecidas de seu universo!”

  3. Adorei o texto, Thata! Concordo cem por cento com o que foi colocado… Ler é como uma gripe. Temos contato e nos infectamos. Escrevemos e contaminamos o mundo inteiro!

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