O Canto dos Esquecidos

Por Felipe Rodrigues

Ao longo da vida, diz-se, o “Velho Safado” chegou a rejeitar grandes editoras em nome de uma lealdade a Martin. Mas alguns anos mais tarde, algo começou a cheirar podre.

No momento em que livros e autores de pequenas editoras nacionais são reconhecidos com prêmios importantes, vale lembrar a história de uma editora norte-americana independente dos anos 1960: a Black Sparrow Press. Através dela, foram apresentados muitos escritores talentosos à literatura contemporânea.

Da sua fundação até 2002, quando vendeu os direitos das obras dos seus principais autores para a gigante HarperCollins, publicou mais de 650 mil títulos, com lucros anuais chegando a um milhão de dólares.

Tudo começou em uma situação inusitada. John Martin, um pesquisador de novos autores, encontrou-se com um velho beberrão metido a poeta. Martin, que não tocava em uma gota de álcool, deparou-se com a poesia de Bukowski em revistas independentes que costumava folhear. O escritor, até então, não havia lançado e nem escrito um romance – tinha um trabalho pesado na agência dos Correios. Curioso, Martin leu toda a sua obra disponível e, para marcar uma reunião, ofereceu-lhe algumas cervejas.

Bukowski sequer entendia a existência de John Martin: “Se ele não bebe, o que deve fazer, então?”. Mas o jovem editor estava realmente interessado na poesia dele, e entre a recusa de uma lata e outra no bangalô do escritor, acabou abrindo um armário lotado de papéis. “O que é isso?”, perguntou. “Meus trabalhos”. Martin leu tudo, interessou-se pelos poemas, separou e levou alguns, já pensando em abrir sua própria empresa.

O nome da nova editora inspirava-se em uma poesia do poeta William Carlos Williams, que citava um sparrow (pardal). Martin gostou da associação da cor preta com um pássaro comum e assim nomeou a Black Sparrow Press, em 1966. Era uma proposta ousada no mercado: publicar os outsiders. Na definição de Martin, escritores que tinham sido reprovados pelos editores de Nova Iorque e não se rendiam aos padrões vigentes do que era considerado aceitável em literatura. Optando pelo segundo grupo, começou a espalhar as histórias do pesadelo americano.

Aliado à sua esposa, Barbara Martin – que fazia as artes dos volumes de cabo a rabo – o editor conseguiu arrecadar 50 mil dólares com a venda de seus livros para uma biblioteca – era um colecionador inveterado de primeiras edições.

Inspirado por B. W. Huebsch, o primeiro a publicar as obras de James Joyce nos EUA e editor da Viking Press, Martin começou a apostar no trabalho de Bukowski, lançando 30 cópias de uma de suas poesias, “True Story”, que apresentava um tema pesado mesmo para aqueles anos lisérgicos: um homem que tinha acabado de mutilar o próprio pênis com uma lata enferrujada e andava sem rumo por uma rodovia.

Para manter o “Velho Safado” escrevendo constantemente, Martin pagava-lhe um salário de 100 dólares por mês (para telefone, alimentação, aluguel, gasolina, pensão, cigarros e bebida). Assim, o autor não precisava mais de um trabalho miserável. Esse foi um grande passo para a editora e para o escritor.

Em alguns dias, Bukowski ligou para Martin. “Venha buscar”. “O quê?”. “O romance”. Tratava-se de “Cartas na Rua”, obra irregular, inovadora e cômica que fez a editora deslanchar. A partir daí, conquistando uma grande audiência, a Black Sparrow começou a investir em outros autores, como Joyce Carol Oates e Paul Bowles, e a publicar escritores já conhecidos – o maldito Henry Miller – além de trazer à tona esquecidos como John Fante, com a republicação de sua segunda novela.

Outra característica marcante da Black Sparrow era a arte de Barbara. As capas dos livros são, até hoje, facilmente reconhecidas pelo design enxuto, baseado em cores pastel e formas geométricas, que as faziam ser tão impressionantes quanto as de grandes editoras. Essas edições, de baixa tiragem e receita, eram muito bonitas e tornaram-se a marca registrada da editora, sendo procuradas por colecionadores até hoje.

No início dos anos 2000, com mais de 70 anos, Martin vendeu os direitos autorais de Bukowski, Fante, Oates e Bowles, entre outros autores, à Ecco Press, selo da editora HarperCollins. Atualmente, o distribuidor licenciado da Black Sparrow é David R. Godine, que não reeditou nenhum dos livros, comercializando-os da mesma forma que foram feitos por John e Barbara Martin.

Nunca confie num pardal abstêmio

O longo casamento entre a Black Sparrow e Bukowski – em que um tirou o outro do anonimato – foi feliz até a morte do escritor, em 1994. Ao longo da vida, diz-se, o “Velho Safado” chegou a rejeitar grandes editoras em nome de uma lealdade a Martin. Mas alguns anos mais tarde, algo começou a cheirar podre.

Perturbado pelo tom dissonante das obras póstumas de Bukowski – ele era tão prolífico que Martin teve material inédito para publicar após a sua morte por mais de uma década – um fã do escritor, Michael Phillips, administrador do site Bukowski.net, decidiu pesquisar a raiz do problema.

Em posse dos manuscritos, comparou esses originais com as últimas obras editadas pela Black Sparrow e verificou que John Martin publicou muitos dos poemas grotescamente alterados – suprimindo referências a bebidas, drogas e sexo, alterando a ordem das palavras e até mesmo incluindo versos inteiros. Desde então, Phillips denuncia as alterações na obra póstuma de Bukowski, a que chamou de “estupro”, em artigos no site mjpbooks.com.

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

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7 comentários em “O Canto dos Esquecidos

  1. Excelente artigo. Não conhecia a história da Black Sparrow e essa relação com o Bukowski. Legal mesmo. Não há como não comparar o empreendedorismo do Martin com a coragem da Bia e da Caligo em lançar novos autores. Que a história se repita – quer dizer, mesmo o final 🙂

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