Afinal, o Final

Por Gustavo Araujo

[…] como amarrar as pontas surgidas do nada, como arrematar aquelas ideias fabulosas, como dar à história um fim à altura do desenvolvimento imaginado, como, afinal, deixar o leitor de boca aberta em admiração, desesperado porque a história terminou?

Então você teve uma ideia fantástica para uma história. Conto, novela ou romance, você consegue visualizar perfeitamente os personagens, a trama principal, as reviravoltas, o clímax e… Simplesmente se vê incapaz de pensar em um final à altura dessa empolgação.

Essa é uma dificuldade corrente no meio literário. Isso porque na verdade o autor jamais é dono completo do enredo que cria. Sim, a gênese parte de sua imaginação, mas a partir daí a história teima em se desviar do rumo preconcebido, muitas vezes levando o autor ao desespero. Mais ou menos como ocorre com os filhos.

Autores (assim como pais) mais experientes conhecem alguns truques para trazer a criação de volta à trilha original, mas mesmo aí, na segurança de uma estrutura bem montada, as surpresas aparecem.

De todo modo, ficam as perguntas: como amarrar as pontas surgidas do nada, como arrematar aquelas ideias fabulosas, como dar à história um fim à altura do desenvolvimento imaginado, como, afinal, deixar o leitor de boca aberta em admiração, desesperado porque a história terminou?

Isso se torna ainda mais desesperador quando nos deparamos com alguma história em que, sim, o autor soube criar um final de mestre. Vi isso em O Sócio, de John Grisham. Terminei o livro com uma inveja gigantesca de sua habilidade em surpreender. Para mim, até hoje é um dos melhores finais já escritos.

Pois bem, de olho em algum método milagroso para criar finais memoráveis procurei alguns fóruns e conversei com gente mais experiente. Contudo não encontrei um consenso. Uma ideia que se sobressaiu, entretanto, foi a de escrever a narrativa de trás para frente, ou seja, tendo o final definido seria mais fácil criar uma história que chegasse até o desejado.

Para mim, jamais funcionaria. Isso devido ao que eu disse antes, que toda e qualquer história tem vida própria. Mesmo que eu imaginasse antes de tudo o final da trama, nada poderia garantir que, ao desenvolvê-la, meus personagens não se rebelariam, não levariam a narrativa a um sentido totalmente diverso do necessário.

O fantástico Bill Watterson, criador de Calvin e Haroldo, disse certa vez que jamais começava uma tirinha com a história completamente pronta em sua cabeça. A ideia inicial, de fato, surgia em dois ou três quadrinhos, mas daí por diante, eram os personagens que conduziam o roteiro até a piada arrebatadora.

Depois de meditar sobre essa questão como um todo, concluí que o mestre Watterson estava correto. Não adianta forçar a natureza. O verdadeiro barato de escrever é justamente a garantia de que nada será como o imaginado. Ou seja, mesmo escrevendo, mesmo na posição de narrador onisciente e dono de todos os destinos, haveremos de nos deparar com rumos desconhecidos tomados à nossa revelia e é isso que termina tornando a escrita algo tão prazeroso.

Aproveitemos então esse livre arbítrio que nos torna meros espectadores de nosso eu subconsciente. Surpreendamo-nos com nossa própria imaginação, deixando-a correr livre. Escrever uma história, enfim, pode ser tão surpreendente quanto ler obras alheias.

Assim, talvez, nosso tão desejado final surpreendente se mostre maneira natural, sem parecer engessado ou pré-fabricado.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Atualmente escreve o romance “Cartas de Cecília”.

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7 comentários em “Afinal, o Final

  1. Muito bom o texto, muito instrutivo, com belas reflexões e sacadas!

    O Anthony Burgess, um de meus autores favoritos, em “Poderes Terrenos” comenta sobre essa técnica de começar o livro pelo final. Eu também achei estranhíssimo isso, pelos mesmos motivos! Mas acho que pode dar certo em alguns tipos específicos de história.

    Bom mesmo, no entanto, é ir se surpreendendo com a história a cada passo, à medida que vamos escrevendo cada capítulo. Uma história toda planejadinha do início ao fim, que não sai um milímetro do planejado, deve ser de um tédio mortal de se escrever… e, muito provavelmente, de se ler também.

    Parabéns grande Gustavo, por mais esse lindo artigo!

    1. Obrigado pelo comentário, Fabio. De fato, a ideia de manter a história solta é bacana, mas na prática isso pode ser bem complicado, pois quanto maior o número de subtemas, mas difícil é convergi-los para um arremate perfeito. Imagino o seu sofrimento ao escrever “O Sincronicídio”, rs
      Grande abraço.

  2. Gustavo,

    Escrevi mais ou menos, ou quase sobre isso na próxima coluna. O plano inicial (quase) sempre muda, porque o processo criativo é vivo e incontrolável, pro mais planejado que seja.

    Mais um excelente texto seu.

    1. Li todos esses, Thata. O que mais gostei foi “O Sócio”, justamente por causa do fim. Mas “O Homem…” e “O Juri” também são ótimos, ainda que mais apreciáveis por quem prefere romances de tribunais.

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