A Qualidade Não É Uma Roupa*

Por José Geraldo Gouvêa

A grosso modo, qual­quer capiau con­se­gue con­tar uma his­tó­ria. Junte uma dezena de pes­soas em torno de uma fogueira de acam­pa­mento e sai­rão dez his­tó­rias diver­ti­das. Mas uma delas será a melhor, tirará o sono dos pre­sen­tes, será levada de lem­brança por eles por uma vida inteira.

Alguns crí­ti­cos de arte cos­tu­mam detec­tar a deca­dên­cia da arte helenístico-​​romana (e por con­se­guinte da civi­li­za­ção medi­ter­râ­nea antiga) jus­ta­mente no momento em que acon­tece a sepa­ra­ção entre o a cons­tru­ção e o orna­mento. Pois aí, a arte dei­xou de ser vista como uma expres­são para se tor­nar um opci­o­nal. O prag­ma­tismo aca­bou triun­fando sobre a beleza, favo­re­cendo esco­lhas menos esté­ti­cas para favo­re­cer maior fun­ci­o­na­li­dade. O resul­tado, a longo prazo, é o fim da bela arqui­te­tura, subs­ti­tuída pela arqui­te­tura gran­di­osa e resis­tente, não neces­sa­ri­a­mente bela. O res­pon­sá­vel por este divór­cio entre a estru­tura e a beleza teria sido o con­creto armado (inven­ção romana, para quem não sabe). Ora, sendo a deco­ra­ção apli­cada sobre a estru­tura bruta de con­creto, ela era uma pre­o­cu­pa­ção pos­te­rior, menor, tal­vez pas­sí­vel de can­ce­la­mento se andasse estou­rado o orça­mento. Pos­si­vel­mente seria exe­cu­tada com mate­rial de pior qua­li­dade. Cer­ta­mente seria « remo­ví­vel » (e por­tanto substituível).

Mário Quin­tana, comen­tando sobre isso, obser­vou que « o aspecto mais lamen­tá­vel da arqui­te­tura moderna é a dura­bi­li­dade do seu mate­rial. » Uma frase vene­nosa pois, em razão do emprego do con­creto armado, a arqui­te­tura moderna é bem mais durá­vel (quando bem cons­truída) do que a antiga. Mas a dura­bi­li­dade do con­creto se dá ao preço da suti­leza. Assim não temos mais os finos deta­lhes de arqui­te­tu­ras pas­sa­das, mas pesa­das cha­pas de cimento a que se tenta dar flui­dez, forma ou cor.

Estas fra­ses me vie­ram à cabeça quando, pela cen­té­sima vez na vida, me depa­rei com um jovem que sonha em ser escri­tor, apa­renta ter lido muito pouco (a jul­gar pela pro­fu­são de erros orto­grá­fi­cos de sua escrita) e que ainda tem dúvi­das bási­cas sobre con­cei­tos pri­má­rios (tipos de nar­ra­dor). Quando lhe disse que era ainda cedo para ele pen­sar em escre­ver, quase me cru­ci­fi­ca­ram. Por sorte já era Pás­coa, e não havia mais cru­zes e pre­gos à dis­po­si­ção dos centuriões.

O pri­meiro comen­tá­rio em defesa do garoto foi este:

A par­tir do momento que você con­siga man­ter a lógica, não existe uma res­tri­ção… Na minha opi­nião só existe uma regra para escri­to­res: Coerência. (sic) 

Embora a coe­rên­cia seja uma boa qua­li­dade para um escri­tor, há dois comen­tá­rios que gos­ta­ria de fazer a res­peito desta frase. Pri­meiro, que duvido que um des­co­nhe­ce­dor dos aspec­tos mais bási­cos do idi­oma e das téc­ni­cas nar­ra­ti­vas seria capaz de man­ter a coe­rên­cia e a lógica. Segundo, que mui­tos bons tex­tos lite­rá­rios explo­ra­ram jus­ta­mente a falta de coe­rên­cia (sur­re­a­lismo, beat­nicks etc.). É só uma opi­nião minha, mas não acho que a coe­rên­cia seja mais impor­tante do que a capa­ci­dade de encan­tar o lei­tor com uma prosa agradável.

O pró­prio garoto se defen­deu dizendo que o « World » (sic) o aju­dava com o por­tu­guês e que não have­ria motivo para criticá-​​lo pelo modo como escreve no Facebook.

A pri­meira ideia é obtusa em si, pois o « World » sequer é um pro­grama feito por lusó­fo­nos e por isso falha em inú­me­ros aspec­tos de sua cor­re­ção, tanto na gra­má­tica quanto no reco­nhe­ci­mento do sig­ni­fi­cado de homó­gra­fos pelo con­texto. Mas a segunda ideia é mais sutil, merece um pará­grafo à parte, e jus­ti­fica a men­ção aos roma­nos e ao con­creto armado.

A qua­li­dade não pode ser vista como algo sepa­rado da estru­tura, a qua­li­dade não é um apli­que de gesso que você coloca sobre uma placa feia de con­creto. A qua­li­dade não é uma roupa que você veste em cer­tas oca­siões, mas em outras não.

Sei que essa ideia de indis­so­ci­a­bi­li­dade não vai encon­trar eco no mundo de hoje. Vive­mos em um mundo feito de con­creto, lite­ral e meta­fo­ri­ca­mente. Mas tam­bém um mundo de maqui­a­gem, rou­pas, cirur­gias plás­ti­cas. De car­ros que mudam de dese­nho, mas não de mecâ­nica. De gente que pensa uma coisa e diz outra. De livros que levam na capa o nome de alguém que o ditou, mas não o escreveu.

Nesse mundo, pen­sar a qua­li­dade como algo que se aluga, como algo que você paga alguém para fazer, é o mais natu­ral. Posso pagar a alguém para pegar meu maço de gar­ran­chos ou meu arquivo de caco­gra­fias batu­ca­das e trans­for­mar isso em algo que eu ache que está bom. Mas se eu não tenho sufi­ci­ente cul­tura e qua­li­dade, como posso ava­liar a qua­li­dade daquilo que pago a alguém para fazer por mim?

Eu acho que não se pode dele­gar a ter­cei­ros a qua­li­dade. Fazer isso é como dele­gar o pra­zer de sua namo­rada a um Ricar­dão. Ou como pen­sar em ganhar uma cor­rida de moto­ci­cle­tas ape­nas tendo apren­dido a peda­lar um velo­trol. Qua­li­dade é algo que você deve ter, ou não será capaz de reco­nhe­cer. Pagará para que lhe for­ne­çam, mas a sua igno­rân­cia não o aju­dará na esco­lha de quem seja com­pe­tente. Então você pagará quem lhe agrade, mas o seu gosto tosco o ori­en­tará a esco­lher o que tam­bém é tosco, é pobre, é ruim. O revi­sor pegará o seu dinheiro e lhe dará o livro que você quer, mas você não terá o que sonhou. Por­que a qua­li­dade não é algo evi­dente, a qua­li­dade pode ser um deta­lhe mínimo:

Por exem­plo… se eu escrevo errado, não quer dizer que eu não saiba man­ter a coe­rên­cia… só quer dizer que não me dete­nho em detalhes… (sic)

A lite­ra­tura é feita de deta­lhes. A grosso modo, qual­quer capiau con­se­gue con­tar uma his­tó­ria. Junte uma dezena de pes­soas em torno de uma fogueira de acam­pa­mento e sai­rão dez his­tó­rias diver­ti­das. Mas uma delas será a melhor, tirará o sono dos pre­sen­tes, será levada de lem­brança por eles por uma vida inteira. Essa é a his­tó­ria que tem os melho­res deta­lhes. É aquela his­tó­ria que fala de um tipo espe­cí­fico de pio de pás­saro, de um modo pecu­liar com que o vento sopra, de um estalo dife­rente no tronco de uma árvore. Então sopra o vento, pia um pás­saro, estala um galho e a his­tó­ria ganha vida. E pela vida inteira, nem vento, nem pás­saro e nem galho dei­xa­rão de evo­car aquela fogueira.

 

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas .

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

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2 comentários em “A Qualidade Não É Uma Roupa*

  1. Gosto muito de ler os artigos publicados pela Caligo. Esse está brilhante, na forma e no conteúdo. Talvez por isso mesmo poucos o leiam até as últimas linhas. Pena… Recentemente, fui tolo em debater algo parecido com certo leitor de uma escritora em evidência no meio literário independente juvenil. O cidadão defendia que qualquer forma de escrita é válida, ainda que impregnada de erros ortográficos e outras falhas gramaticais. Segundo ele, Manuel Bandeira corroboraria sua tese, pois tal autor teria propagado a subversão da linguagem. Tentei em vão convencer o rapaz: se um mestre da literatura prega algo semelhante, sua intenção é quebrar mesmices através de inovações calcadas na arte, e não esculhambar o idioma. Após esbravejar, o leitor se retirou – talvez me achando “radicau” e “mitido” – para voltar aos livros “subversivos” que admira.

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