O Processo

Por Fernando de Abreu Barreto

Para quem vê a produção literária como produção de arte (existem os que a veem de outra forma), determinar um método universal e absoluto de criação é contrassenso.

Busque “processo de criação literária” no Google e você encontrará mais de um milhão de referências (some um, a partir da publicação desse texto). Segundo a revista Exame, em 2010 o mesmo site de buscas indicava existirem no mundo aproximadamente 129 milhões de livros publicados. Não quis me afogar em números e não procurei saber o número de escritores.
Caso fosse possível encontrar o número exato de autores espalhados pelo mundo aquela primeira informação prestada pelo oráculo da web continuaria a mesma? Acredito que o número de autores será sempre inferior ao número de processos de criação literária existentes no mundo. Parece estranho, mas não é.
A insegurança natural do autor iniciante gera muitos questionamentos, dentre eles qual o melhor processo de criação literária. Nesse caso só encontro uma resposta possível: não existe.
Para quem vê a produção literária como produção de arte (existem os que a veem de outra forma), determinar um método universal e absoluto de criação é contrassenso. Não raro o mesmo autor aplica a duas obras distintas métodos diferentes de trabalho, o que por si só desmistifica a importância de se eleger uma fórmula especial.
Há, ainda, que se diferenciar o processo de criação específico de uma obra, do projeto literário desenvolvido ao longo da carreira de um escritor. Sendo o segundo um conjunto de tudo o que foi proposto e praticado em cada obra.
Não se pode, no entanto, confundir qualquer deles com hábitos (alguns, vícios) que compõem sua rotina de trabalho. Há o grande mito (não sei de onde vem, se alguém souber, por favor me conte) do escritor produzindo ao som de jazz (ou clássicos), fumando feito louco e bebendo xícaras e xícaras de café. Ou do autor sofrendo diante do papel em branco, solitário, sentado no canto de uma cafeteria.
Não considero método de trabalho esses pequenos cacoetes. São mais um meio de tornar a tarefa menos desconfortável, mais fácil. Da mesma forma que não considero o horário de trabalho como parte do método, é mais circunstancial.
Houve um período em que eu preferia escrever pela manhã. Acordava por volta das seis horas, preparava o café, ligava o computador, lia as principais notícias. Às sete começava a reler o que havia produzido no dia anterior, para enfim digitar as primeiras palavras às oito. Escrevia até o meio-dia, quando parava para almoçar. Depois, ia para o escritório em que trabalhava como advogado. Não era parte do método, era o horário em que eu podia me dedicar ao livro que estava escrevendo por circunstancias cotidianas favoráveis.
Costumava, nesse tempo, levar para o trabalho o texto produzido naquela manhã e, no final da tarde, sentar na mesma cadeira do mesmo café todos os dias, para revisar e acrescentar algo. À noite, passava as anotações da tarde para o arquivo no computador, que seria ligado às seis da manhã do dia seguinte. Não há nada de método nisso, embora a organização do horário facilite o trabalho.
Da mesma forma, não vejo como parte do processo criativo escrever um número mínimo de palavras por dia, o que é alardeado como a força motriz da escola americana.
Separados os hábitos do processo criativo, volto alguns parágrafos. O que se pode dizer concretamente sobre o assunto é que não há fórmula. Entendendo a arte como linguagem e meio de manifestação da convulsão provocada pelas experiências pessoais de vida em contato com o meio externo. Temos de admitir que o processo de criação é puramente instintivo no princípio. Só depois somos capazes de domá-lo através da razão.
A partir desse momento a arte e o processo criativo se fundem, porque a arte é a própria construção da arte. O livro não existe apenas depois de publicado, ele surge muito antes, sempre existiu, desde antes. Nasce do primeiro fato que gerou o fato que modifica ou cria algo dentro do autor. A publicação, portanto, é o ato final de transformação da arte em livro, e não o livro em si.
O autor Ricardo Lísias em vídeo recentemente publicado na internet explica que o verdadeiro prazer estético reside nos detalhes que constroem a obra. Mais, afirma ainda que a pergunta correta a ser feita diante de uma obra de arte é como o artista tenta dar significado, e não o que a obra significa, ajudando a solidificar a ideia de que o processo de criação e o objeto da arte se fundem em uma arte final.
Nessa mesma direção, Carola Saavedra transforma a ideia em ficção em seu mais recente romance, O inventário das coisas ausentes (Companhia das Letras, 2014), no qual o próprio processo de criação é parte da obra, literalmente.
Resta constatar que não existe receita. Sendo o processo individual, único, específico, não aplicável a qualquer outra obra. Tudo mais é rotina: o café quentinho, os cigarros (evitem), a cadeira confortável, Ella Fitzgerald sussurrando ao seu ouvido, não transformam o que existe de abstrato dentro de você em palavras.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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4 comentários em “O Processo

  1. Grande Fernando,
    Muito interessante a sua abordagem. Mas fico aqui me perguntando se a “ausência de método” não é um método em si. Lendo seu artigo lembrei das aulas de biologia, quando meu velho professor contou aos alunos que Darwin produziu “A Origem das Espécies” ao som dos clássicos, tendo contratado dois violinistas para fazer-lhe o funco musical. Também lembrei do Murakami, citado por Paul Theroux em “Trem Fantasma para a Estrela do Oriente”, que possui uma rotina de escrita bem interessante: acorda às 5h00, escreve até as 08h00, depois vai correr; à tarde dorme e depois escreve de novo. Para mim, é tão invejável quanto impossível. Com certeza, ele não tem filhos.

  2. E certamente não tem patrão. Rs. Na verdade a ideia é que cada um descubra seu método, sua rotina, que é pessoal e intransferível.

  3. Muito bom o texto!

    Já ouvi muito Beethoven para escrever, hoje prefiro o silêncio da madrugada!

    E um dos motivos para eu ter começado a fumar, que pena, foi justamente ver tantas fotos de ídolos da escrita com o seu cigarro pendendo dos lábios…

    E também me identifiquei muito com a questão de utilizar os horários possíveis! Só que no horário da manhã não lembro de ter escrito uma única linha, questão de biorritmo…

    Concordo também que o padrão muda de uma obra para outra. Fiz questão de me desfazer de vários hábitos que fui criando ao escrever o meu primeiro livro, pois percebi que viraria escravo deles se não cortasse logo!

    Enfim, gostei muito do artigo! Parabéns e muito sucesso!

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