Exercite a sua CRIATIVIDADE em seis saltos rápidos: O PASSEIO DO CAVALO

Por Fabio Shiva

Sim, dá trabalho transformar uma nova ideia em realidade. Esse é um momento de muitas descobertas, como também de estranhamento, pois raramente uma ideia surge completa, em sua forma final. Ajustes são necessários, pois surgem detalhes com os quais você não contava, e cada um deles traz uma oportunidade e também um desafio.

 

Criatividade é inventar algo aparentemente do nada. É fazer algo de um jeito novo, que ninguém fez antes.

Ao contrário do que muita gente pensa, a criatividade não é um dom especial, possuído apenas por alguns poucos escolhidos. É uma habilidade que existe potencialmente em todos os seres humanos. E, como toda habilidade, pode ser desenvolvida e treinada.

A criatividade nos define enquanto espécie. É uma das características mais marcantes da humanidade, tanto em seus aspectos mais luminosos quanto nos mais sombrios. Exercitar a criatividade, portanto, equivale a entrar em contato com a vastidão de nossas próprias potencialidades.

Trata-se de um processo contínuo, que não tem um começo e um fim bem delimitados. Envolve mais um estado de consciência que uma série de tarefas a cumprir. Ainda assim, é possível identificar seis momentos ou etapas no processo criativo, que examinaremos a seguir.

Para exemplificar cada uma das fases ou “saltos” desse processo contínuo, vou comentar brevemente como foi desenvolvida a ideia de usar o Passeio do Cavalo na estruturação dos capítulos do livro O Sincronicídio.

Desejo que a viagem seja tão divertida e proveitosa para você como foi para mim! Segure firme na sela… e bom passeio!

 
1 – Criatividade é CONEXÃO!

Criatividade é inventar algo aparentemente do nada. É como um show de mágica: uma parte do truque as pessoas enxergam, outra não. E a magia que fica oculta, no caso da criatividade, é a CONEXÃO.

Quase todas as novas ideias podem ser resumidas a novas conexões entre ideias antigas. Pensar criativamente é buscar novas maneiras de conectar ideias que até então não eram relacionadas.

Escolha dois ou mais temas pelos quais você se interessa. Quanto menos relacionados e mais diferentes entre si forem os temas, melhor. Então observe as conexões mais imediatas que consegue estabelecer entre os dois temas que você escolheu.

Você pode experimentar também com três ou mais temas distintos ao mesmo tempo. Para facilitar a nossa apresentação, contudo, a princípio trabalharemos apenas com dois. No caso do romance  O Sincronicídio, os temais principais que escolhi foram o Xadrez e o I Ching. Nesse caso, a primeira conexão que salta aos olhos é o número 64. O tabuleiro de xadrez tem sessenta e quatro casas, o mesmo número dos hexagramas do I Ching.

 
2 – Criatividade é ASSIMILAÇÃO!

Depois de firmar a primeira ponte entre os dois temas, você deve investigar novas conexões possíveis entre eles. Essa é a famosa fase da pesquisa ou da ASSIMILAÇÃO, de mergulhar o mais fundo que você puder nos universos que escolheu.

No caso de nosso exemplo, uma nova e interessante conexão não demora a surgir após um pouco de pesquisa. O tabuleiro de xadrez é formado por casas brancas e pretas. Os hexagramas do I Ching são formados por linhas yang ( ___ ) e yin ( _ _ ), que simbolizam os princípios da luz e da escuridão.

Essa nova conexão torna possível representar um hexagrama com as casas do tabuleiro, pela simples substituição das linhas yang e yin por casas brancas e pretas respectivamente.

 

3 – Criatividade é RECEPTIVIDADE!

Depois da fase da pesquisa, do esforço da assimilação, necessariamente chega o momento do repouso, de fazer a digestão.

Deixe os temas “descansarem” um pouco. Dê tempo para que o material que você pesquisou tão laboriosamente seja adequadamente assimilado e comece a “fermentar”, a interagir com aquilo que você já sabia antes da pesquisa. Se você souber praticar bem a RECEPTIVIDADE, verá que algumas ideias novas brotam praticamente sozinhas!

Foi assim que aconteceu com O Sincronicídio. O I Ching é um sistema “vivo” ao permitir admite a mutação das linhas yang e yin em seus opostos. Por isso foi simples chegar à ideia de colocar peças de xadrez nas casas de cor oposta para simbolizar as linhas móveis.

 

4 – Criatividade é INSIGHT!

Se você fez tudo direitinho até aqui, o cenário está preparado para a experiência de plena criatividade que ocorre no momento do INSIGHT, ou intuição profunda.

Esse momento chegou, no caso de O Sincronicídio, com ideia de estruturar o livro como um Passeio do Cavalo pelos hexagramas do I Ching. Trata-se de um clássico problema de xadrez (em inglês conhecido como Knight’s Tour): como fazer o cavalo percorrer todas as casas do tabuleiro sem repetir nenhuma?

O modelo que segui para estruturar os 64 capítulos do livro segue o padrão de um “passeio fechado”, que é quando o Cavalo retorna para a casa inicial após o último lance.

 
5 – Criatividade é EUREKA!

Hora de celebrar! Você escolheu bem os seus temas, mergulhou fundo na pesquisa e desenvolveu a capacidade de receber o prêmio de um insight genuíno. Você teve uma ideia nova e interessante, que vale ser posta em prática.

Comemore a sua vitória. Saboreie ao máximo esse momento de plenitude e realização. Você irá precisar de toda motivação que puder obter. Pois lembre-se que ter uma boa ideia representa apenas 1% de um projeto bem sucedido. Restam 99% de puro trabalho…

Sim, dá trabalho transformar uma nova ideia em realidade. Esse é um momento de muitas descobertas, como também de estranhamento, pois raramente uma ideia surge completa, em sua forma final. Ajustes são necessários, pois surgem detalhes com os quais você não contava, e cada um deles traz uma oportunidade e também um desafio. É preciso ir burilando com paciência, eliminando os excessos e suprindo as faltas, o melhor que você possa. Isso é tudo o que conta realmente: o uso que você faz das boas ideias que tem.

Em nosso exemplo, o uso do Passeio do Cavalo pelos 64 hexagramas do I Ching possibilitou criar uma estrutura inédita para um romance, onde os capítulos são apresentados fora da sequência numérica e cada capítulo determina obrigatoriamente o seguinte. Isso acontece pela mutação das linhas ou casas. Todas as vezes que uma peça preta ocupa uma casa branca, no capítulo seguinte a casa correspondente torna-se preta também. Do mesmo modo, quando uma peça branca ocupa uma casa preta, no próximo capítulo a casa muda para branca.

O resultado é que cada capítulo de O Sincronicídio determina o número do seguinte, pela mutação das casas ocupadas pelas peças em suas cores opostas. Isso foi a ideia. E o trabalho foi escrever um romance policial colocando essa ideia na prática!

Observe que o gênero Romance Policial representa, nesse caso, um terceiro tema a ser conectado com os dois anteriores, do Xadrez e do I Ching. Na verdade, trata-se do tema principal, que subordina os demais. O leitor não precisa de nenhum conhecimento sobre I Ching ou xadrez para ler o livro como uma simples e honesta história policial: um jogo intelectual, com mistérios a serem solucionados pelo leitor jogador, que se propõe a ser mais esperto que o detetive protagonista e desvendar primeiro as pistas apresentadas no decorrer da trama.

Sob essa história mais aparente que é contada no livro, contudo, existe uma outra, mais sutil. E daí, justamente, ter usado o xadrez e o I Ching para escrever uma história policial. Pois o grande fascínio do romance policial, ao meu ver, é a catarse dessa fome tão visceralmente humana, que é a fome de conhecimento. O homem não é somente um “ser diante da morte”, como também um ser vivo diante do Universo, em busca de soluções para o Grande Mistério. E a beleza do romance policial é simbolizar algo dessa busca tão humana pela verdade.

 

6 – Criatividade é SOLUÇÃO!

A criatividade atende a seu propósito mais elevado na medida em que é SOLUÇÃO, em que contribui para saciar alguma necessidade ou para resolver algum problema. Muitas vezes a mera apresentação de um velho problema sob um novo olhar e uma nova perspectiva contribui ativamente para a solução desse problema. É importante ter essas questões em mente ao exercitar a criatividade.

E assim concluímos os seis saltos criativos: Conexão, Assimilação, Receptividade, Insight, Eureka e Solução. Esse é um bom momento para notar que as iniciais de cada palavra formam a sigla CARIES!

Escolhi essa sigla por dois bons motivos. O primeiro é um truque de memorização: para memorizar facilmente uma série de ideias, faça uma associação bizarra entre elas. Em nosso caso, a sigla CARIES está relacionada com os seis saltos do Passeio do Cavalo por um conhecido ditado popular: “a cavalo dado, não se olham os dentes”. Existe uma dica importante aqui: o que é bom para a memória, é bom para a criatividade. E como a atenção é o ingrediente principal para uma boa memória, a atenção é do mesmo modo fundamental para a criatividade. Todos os grandes gênios criativos foram também profundos observadores do mundo.

O segundo motivo é o lembrete para nunca se levar demasiadamente a sério. Isso significa a morte da criatividade. Criatividade é diversão! Por isso divirta-se, inclusive com as oportunidades de rir gostosamente de si mesmo!

 

Para tornar a mensagem mais clara, falamos das interações e conexões entre apenas dois temas, o Xadrez e o I Ching. Mas você pode trabalhar com tantos temas quantos forem necessários para expressar a sua ideia. No caso de O Sincronicídio, dois outros temas também foram essenciais. O primeiro é o conceito de sincronicidade desenvolvido por Carl Gustav Jung, ele mesmo um profundo estudioso do I Ching. E por último, mas não menos importante, vem a música!

É por isso que me despeço convidando você a conhecer a trilha sonora do Sincronicídio, com sorrisos, beijos e abraços e desejando que a sua criatividade aflore sempre mais com muita música!

Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora!

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

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