O Processo II – Luz sobre a Sombra

Por Fernando de Abreu Barreto

Muito do projeto foi mantido, mas a alma, descobri com o tempo, era outra. Solidão, transtorno antissocial ou isolamento eram o meio para que eu chegasse ao centro da obra, a diferença entre as pessoas.

Quando terminei de escrever a coluna sobre processo criativo percebi que errei. Porque a editora me pediu que escrevesse sobre o processo criativo de A forma da sombra, novela de minha autoria a ser publicada pela Caligo Editora neste ano.

Um autor iniciante não procura se informar sobre a rotina de autores experimentados por curiosidade inconveniente. Quando pergunta sobre o processo criativo (que muitas vezes confunde com a rotina do escritor e os instrumentos que facilitam a construção da obra literária), procura orientação. Participei de inúmeras oficinas literárias movido por essa busca, até descobrir que assim como não há modelo que enquadre o processo criativo, não há norma que defina a rotina do autor.

Notas e perfis de personagens são muito importantes, ajudam a dar sustentação ao texto. Leitura em voz alta ajuda a corrigir vícios. Pesquisa e leituras de obras referenciais ampliam possibilidades. O projeto é essencial, é por meio dele que a obra começa a se tornar física. E muito disso – esses pequenos trabalhos que separados parecem autônomos, e somados ajudam a compor a obra – é parte do processo criativo.

Ainda assim, não há regra, e um livro pode ser escrito sem que nada disso seja observado. Charles Bukowski, por exemplo, escreveu parte de sua obra sem qualquer planejamento (o que não é aconselhável). Escrevendo A Forma da Sombra vivi experiência diferente do que vivera até ali.

Não sou uma pessoa organizada, o que torna angustiante a tarefa de programar o trabalho, ou elaborar notas, fichar informações. Negligencio a leitura em voz alta e raramente faço perfis extensos dos personagens. Por outro lado, tudo o que escrevo costuma ir para o papel com o destino traçado (ao menos com o desfecho imaginado), o que é um contrapeso à falta de organização.

Mas no caso de minha última novela, já mais maduro e buscando um aprimoramento profissional, a primeira coisa que fiz foi elaborar o projeto literário. Escrevi a novela sob supervisão constante. Fui forçado a criar perfis mais detalhados dos personagens. Li o texto diariamente em voz alta, escondido na varanda (essa prática ainda me constrange).

No meio do processo houve uma inversão radical no projeto. A ideia inicial era escrever uma novela, em primeira pessoa, tempo presente, sobre os efeitos do isolamento. Elaborei um personagem que elegeu a misantropia como norte. A solidão era o fim.

Muito do projeto foi mantido, mas a alma, descobri com o tempo, era outra. Solidão, transtorno antissocial ou isolamento eram o meio para que eu chegasse ao centro da obra, a diferença entre as pessoas. Isso acontece. Você projeta o trabalho, acha que sabe do que está falando e toma uma rasteira. O livro caminha sozinho em dado momento.

Relendo o projeto, encontro o trecho “criar uma história sobre os efeitos do isolamento social e da prolongada falta de exposição à luz do sol”. Nesse momento eu acreditava que o livro trataria disso, um homem que se modifica pelo completo isolamento, e que mesmo no trabalho em que conduz milhares de pessoas de um lado ao outro da cidade (o personagem é um condutor do metrô) permanece solitário e sem ver o sol.

O personagem, porém, foi crescendo e fui compreendendo melhor suas motivações, até descobrir que a perspectiva estava invertida, porque o seu isolamento é proposital. Nesse momento eu enxerguei tudo o que estava oculto.

Aquela frase escrita no projeto inicial poderia ser substituída por “criar uma história sobre a diferença. Alguém que se descobre diferente, se envergonha, se isola, porque ainda não compreende quem, ou o que é. Uma perspectiva pessoal, vertical, sem interferências. Sem conflito externo. Uma história sobre o medo de revelar quem, ou o que é, que leva o personagem a um isolamento social tão intenso – manifestado pela fuga para os subterrâneos da cidade – que o leva a odiar a humanidade”.

A frase não estava errada, ela estava invertida. Em A Forma da Sombra, o isolamento é consequência, não causa. Essa mudança não acusa erro na elaboração do projeto, mas demonstra que o processo de criação literária é vivo, ilimitado. E por isso, não pode se submeter a fórmulas prontas.

Obs: escrevi esse artigo ouvindo Melody Gardot e bebendo seguidas xícaras de café.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

Anúncios

Um comentário em “O Processo II – Luz sobre a Sombra

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s