Post Scriptum: escrevi o livro, e agora?

 

Por Bia Machado

Duas, três pessoas atuando nessa parte de revisão ajudam a diminuir os erros, as pontas soltas. Ainda assim, falhas podem acontecer? Com certeza. Só que precisam ser evitadas ao máximo.

É quase inacreditável: depois de tanto tempo, de horas intermináveis em frente ao monitor, ou às vezes escrevendo em papel mesmo, perdendo o sono, deixando outras coisas de lado, finalmente eis o dia que parecia tão, tão distante: você coloca o ponto final na história que estava escrevendo. Sua obra está pronta.

Sinto informar que não é bem assim.

A não ser que esteja escrevendo para você mesmo, assim que o escritor dá por findo o seu trabalho de produção textual, há outras ações com relação ao original que tem em mãos. Há um longo caminho até que sua história seja publicada, mas neste artigo tratarei dos primeiros três passos por mim considerados após a finalização da parte que cabe apenas ao autor: a leitura beta, a leitura crítica e a preparação textual.

– Leitura beta: apesar de essa função poder ser feita durante a leitura crítica, não acho adequado e explico o motivo: o leitor beta, o primeiro leitor do livro depois do próprio autor, é aquele que não vai se preocupar com mais nada, a não ser ler, diferente do que um leitor crítico necessita fazer. Sim, ele vai ler o livro como se o tivesse comprado, para dizer exatamente o que sentiu com a leitura, como qualquer leitor poderia fazer, funciona como um termômetro para a história concebida. E para que isso aconteça, é importante que existam diversos leitores beta: homens, mulheres, de faixas etárias diferentes, com a intenção de analisar: que público sentirá mais afinidade pelo que escrevi? Meu texto agrada tanto a adolescentes quanto a adultos? Consigo cativar somente o público feminino, ou também o masculino? Se for um livro infantil, ou infanto-juvenil, por exemplo, quais faixas etárias se interessarão por ele? Definidos os betas, aconselho a fazer um contrato simples, ainda que o original já esteja registrado, para garantir futuras complicações, como o leitor sair comentando por aí sobre o seu livro, por exemplo. Você pode até pensar: mas se eu o escolhi como beta, é porque confio nele. Exatamente. Mas nunca se sabe do amanhã. Vai que… E aí outra questão: betas devem ser amigos ou familiares, pois seriam as pessoas em quem mais confio? Até que podem, mas é preciso exigir deles sinceridade e imparcialidade. Na dúvida sobre a franqueza, é melhor pedir que outros leiam. Há pessoas que cobram para fazer leitura beta, e se você recorre aos amigos e parentes apenas por questão de economia, cuidado: às vezes (muitas vezes) o barato sai caro. Pese tudo na balança e não jogue fora todo o seu trabalho de meses (ou anos) apenas por esse detalhe. E também há o beta contratado pela editora para esse fim.

Após essa etapa, o autor deve estar certo a respeito de o livro ser bom ou não para o público, e para qual (ou quais) deles. Se está ruim, ou se não está tão bom quanto poderia, já é possível fazer algumas alterações com base nas impressões desses primeiros leitores. Depois disso, quem entra em cena deve ser o leitor crítico.

– Leitura crítica: essa é a parte em que há um trabalho efetivo no sentido de direcionar o autor para as mudanças que se fazem necessárias no texto. É ele quem vai deixar de lado a leitura “por prazer”, “descompromissada” com a parte técnica, para se aprofundar justamente nessa questão, a técnica utilizada: como está a técnica narrativa? A voz do narrador está adequada? Os personagens estão bem desenvolvidos? Quais precisam de um trabalho mais consistente? Como os diálogos se apresentam? Há partes que não funcionam, que parecem não combinar com outras? Há falhas na sequência? Além de apontar essas questões, o leitor crítico precisa também auxiliar o autor com sugestões de como tudo isso pode ser trabalhado. E se um leitor beta tiver feito todo esse trabalho, na verdade ele deixou de ser beta, ele agiu como um leitor crítico. Nesse caso, acredito ser inadequado que essa parte do trabalho seja feita por um amigo querido ou pela prima fã de seus escritos. Procure um profissional confiável, que vai receber por isso. E exija um retorno com propriedade, que o deixe mais seguro quanto ao que deve ser feito posteriormente.

Depois dessa etapa, autor, mãos à obra novamente. Sim, aquela história de que escrever é 1% de inspiração e 99% de transpiração é totalmente verdade! A etapa seguinte é a de submeter o seu original a um preparador de texto.

– Preparação textual: é o profissional que deve detectar as falhas que não foram encontradas anteriormente. Reorganizar o que for preciso, eliminar também o que realmente não dá, revisar a parte de coesão e coerência. O preparador também precisa já formatar em um padrão editorial o texto trabalhado, o que não é necessário nas etapas anteriores. Com seu trabalho, o texto do autor deve ganhar um aspecto profissional. Quando o preparador de texto trabalha para apontar falhas em traduções, este trabalho costuma ser chamado de copidesque, mas às vezes essa distinção de termos não ocorre.

Tudo isso também depende de editora para editora. É comum o revisor fazer a leitura crítica e a preparação de texto. O bom é que mais de um profissional faça os dois últimos processos. Duas, três pessoas atuando nessa parte de revisão ajudam a diminuir os erros, as pontas soltas. Ainda assim, falhas podem acontecer? Com certeza. Só que precisam ser evitadas ao máximo.

No próximo Post Scriptum tecerei algumas considerações sobre o revisor de originais, aquele profissional grudado com o dicionário o dia inteiro, que faz juras de amor eternas à gramática. Ou quase. Até parece!

P.S.: Não tive tempo para pedir a alguém que revisasse esse meu texto. A quem se propôs a ser meu leitor beta, grata! 😉

É a editora da Caligo. Trabalha como professora e revisora. Tenta escrever para que seus personagens não fiquem tão zangados com ela e não voltem para puxar seu pé de madrugada. Leitora voraz. Cinéfila frustrada. Se pudesse, faria outras coisas mais, mas para quem não tem sangue azul, nem sorte no jogo, isso já está bom, não dá para reclamar. Ou dá? Escreve no blog Flor do Cotidiano quando sobra um tempinho… Contato: magiadaliteratura@gmail.com.

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12 comentários em “Post Scriptum: escrevi o livro, e agora?

  1. Ótimo texto, Bia! Bem esclarecedor.
    E o pior é que mesmo com tanta revisão, às vezes ficam alguns erros. Um colega comentou que o livro Dezesseis Luas, por exemplo, estava lotado de erros de revisão. Provavelmente, de tradução também, já que a obra foi traduzida para o português.
    Ansioso para o próximo texto Post Scriptum.
    Abraços

  2. Excelente Bia.
    Interessante a distinção entre o leitor beta e o leitor critico. Penso que muitas vezes a questão familiar é inevitável, mas…
    Também aguardo o próximo post scriptum.
    Abraço
    Swylmar

    1. Oi, Swylmar! Sim, nada contra família ler e dar uma opinião sobre o que você escreveu, mas sempre leve em conta o fator “emocional”, rs. Minhas filhas, por exemplo, não leem o que eu escrevo, mas só da vibração delas com um texto meu que digo que terminei, já é um incentivo. Faz bem pra alma. 😉

  3. Esclareceu várias dúvidas que eu tinha!
    Gostei muito do que falou sobre a família, eu também acho melhor que o leitor beta seja de fora, porque tem mais garantia dele ser 100% sincero sobre o livro.

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