Façamos a Literatura Feia

Por José Geraldo Gouvêa

Alguns dos meus auto­res favo­ri­tos come­ça­ram escre­vendo em revis­tas que eram impres­sas em papel de baixa qua­li­dade. Love­craft, Asi­mov, Brad­bury, Hein­lein, Ashton-​​Smith. Outros come­ça­ram publi­cando em jor­nais. Dos­toiévski, Machado de Assis, Manuel Antô­nio de Almeida. Não acho que qual­quer des­ses auto­res des­res­peite ou tenha des­res­pei­tado o seu público.

Em um mundo lite­rá­rio no qual o meu modo de pen­sar é visto como um des­vio, uma falta de edu­ca­ção, é recon­for­tante, de quando em vez, ler alguém que tam­bém não se con­forma com as nuvens róseas que pre­ten­dem pre­do­mi­nar na lite­ra­tura. Gus­tavo Czeks­ter lavou a minha alma ao publi­car no Lite­ra­Tor­tura um artigo devas­ta­do­ra­mente bom que expressa, melhor do que eu pró­prio o faria, aquilo que penso sobre lite­ra­tura. E havia tanto tempo que não lia nada assim, que não me depa­rava com um espe­lho de minhas pró­prias ideias, que eu já quase não me lem­brava mais como penso.

E o que penso é: esta­mos ouvindo demais aque­les que pen­sam uma lite­ra­tura con­for­mista, e ata­cando demais aque­les que pro­poem uma lite­ra­tura com ideias (a tal lite­ra­tura « feia » a que Gus­tavo se referiu).

Sinto sau­dade quase física de ler uma obra que não esteja sub­me­tida às nor­mas das polí­ti­cas edi­to­ri­ais e do lucro fácil. Von­tade de ler lite­ra­tura, e não livros.

Eu já começo a acre­di­tar que o autor não vale a lei­tura quando ele diz que escre­veu um « livro ». Livro é o objeto físico que con­tém a obra, não é a obra em si. Sonhar em escre­ver livros é uma com­pre­en­são feti­chista, infan­ti­li­zada, do fazer lite­rá­rio. Durante milê­nios os livros não exis­ti­ram, exis­ti­ram papi­ros, per­ga­mi­nhos, manus­cri­tos ilu­mi­na­dos, tabui­nhas de argila, mas a obra lite­rá­ria já exis­tia. Futu­ra­mente o « livro » dei­xará de exis­tir, ainda que eu lamente isso, mas a obra per­sis­tirá. Auto­res que têm alguma remota ideia do que estão falando pen­sam em escre­ver con­tos, roman­ces, nove­las, fábu­las, poe­mas, não « livros ».

E se existe algo trá­gico que aprendi é que, quanto mais bonito o livro, mais frá­gil e incons­tante é a sua trama.

Quando o livro se torna um feti­che — e é disso que esta­mos falando — é natu­ral que se con­cen­tre muito esforço em torná-​​lo um pro­duto bonito. Mais de uma vez recebi ofer­tas de edi­to­res para publi­car obras minhas, medi­ante módi­cos paga­men­tos, uti­li­zando papel « de pri­mei­rís­sima qua­li­dade », capa dura ou com aca­ba­mento fosco, pro­jeto grá­fico feito por desig­ners pre­mi­a­dos etc.

Certa vez, em uma comu­ni­dade de lite­ra­tura no Orkut, eu afir­mei que gos­ta­ria de ver milhões de exem­pla­res de minhas obras, mesmo que impres­sas em papel higi­ê­nico sujo e com capa de papel de pão com man­chas de man­teiga. Eu não penso em meu livro como um objeto de luxo para eu enfei­tar minha estante e para exi­bir às visi­tas « olha que livro bonito eu fiz » — mesmo por­que o « bonito » de tal livro não foi feito por mim, mas pela editora.

A res­posta que me deram foi que tal livro, publi­cando segundo meu desíg­nio, seria um « des­res­peito ao lei­tor ». Com a devida vênia aos que gos­tam de ter exem­pla­res boni­tos dos seus livros favo­ri­tos, eu digo que não pode haver maior des­res­peito ao « lei­tor » do que o livro ser ruim. Ele ser feio pode até des­res­pei­tar a esté­tica da casa, o padrão de deco­ra­ção da estante, a neces­si­dade de impres­si­o­nar visi­tas que não vão ler o que está escrito. Mas não des­res­peita o leitor.

Alguns dos meus auto­res favo­ri­tos come­ça­ram escre­vendo em revis­tas que eram impres­sas em papel de baixa qua­li­dade. Love­craft, Asi­mov, Brad­bury, Hein­lein, Ashton-​​Smith. Outros come­ça­ram publi­cando em jor­nais. Dos­toiévski, Machado de Assis, Manuel Antô­nio de Almeida. Não acho que qual­quer des­ses auto­res des­res­peite ou tenha des­res­pei­tado o seu público. E se você se sente ofen­dido com uma edi­ção barata dos Irmãos Kara­má­zovi, sinto muito dizer que você não entende o que é literatura.

Quem sabe téc­nica lite­rá­ria ou teo­ria con­se­gue ver com cla­reza as esco­lhas nar­ra­ti­vas do autor, o motivo da per­so­na­gem prin­ci­pal ser uma cri­ança ou um rapaz da classe média, a razão do tempo da nar­ra­tiva ser no pre­sente ou no futuro, a esco­lha do cená­rio urbano ou rural.

Isso, claro, na lite­ra­tura best-​​seller, que é pro­du­zida segundo parâ­me­tros devi­da­mente estu­da­dos. Em algum lugar alguém acha que deco­di­fi­cou os fato­res de sucesso dos gran­des clás­si­cos, e todos os jovens auto­res são acon­se­lha­dos a seguir estas ins­tru­ções de sucesso. É sério, mas um edi­tor me acon­se­lhou a uti­li­zar a « Jor­nada do Herói », de Joseph Camp­bell, como padrão para defi­nir os meus pro­ta­go­nis­tas. A obra deste autor é vista, por cer­tos edi­to­res, como uma bíblia para quem pre­tende escre­ver épi­cos. Não importa que os mito­lo­gis­tas tor­çam o nariz para a inter­pre­ta­ção de Camp­bell, considerando-​​a sim­pli­fi­cada, falo­cên­trica e limi­ta­dora de inter­pre­ta­ções alternativas.

Ler tam­bém é ser desa­fi­ado pelo autor e pela visão do mundo que ele des­creve, e os livros atu­ais evi­tam con­fron­tar o lei­tor, como se ele fosse feito de cristal.

Essa é a dife­rença pro­funda entre os livros publi­ca­dos como negó­cio e os livros publi­ca­dos como arte. Os livros publi­ca­dos como negó­cio dão lucro, mesmo quando não são um sucesso inter­na­ci­o­nal. Este sucesso é para pou­cos, e neces­sa­ri­a­mente para grin­gos. Mas os jovens naci­o­nais podem fazer fan­fic ou imi­ta­ções pala­tá­veis des­tas fór­mu­las que caí­ram no gosto público e assim ven­der alguns milha­res de exem­pla­res, que darão lucro à editora.

A medi­o­cri­dade que vende é a mal­di­ção de nosso mer­cado edi­to­rial colo­ni­zado, que vive per­ma­nen­te­mente de cos­tas para as novi­da­des naci­o­nais, para Por­tu­gal, para a África lusó­fona, para outros paí­ses onde não se fale inglês.

Esta medi­o­cri­dade se cria com as « anto­lo­gias », que dão muito lucro às edi­to­ras e vam­pi­ri­zam os auto­res ingê­nuos. Publi­car numa anto­lo­gia é um trote que alguma edi­tora impõe ao autor que deseja ten­tar uma publi­ca­ção solo. Isso não é inven­ção. Isso me foi dito por um edi­tor: « Nós nos com­pro­me­te­mos mais com os auto­res que pri­meiro se com­pro­me­te­ram conosco. Par­ti­cipe de nos­sas anto­lo­gias pri­meiro, para abrir seu espaço na Casa. »

Para publi­car na anto­lo­gia o autor pre­cisa ser apro­vado, o que sig­ni­fica que o seu texto tem que se con­for­mar com os obje­ti­vos comer­ci­ais da edi­tora, tra­du­zi­dos em um arco temá­tico ou até mesmo em regras de escrita mais deter­mi­na­das. Nor­mal­mente o autor pagará para publicar-se em tais ara­pu­cas lite­rá­rias, com a des­culpa de que está « adqui­rindo exem­pla­res » (o número varia de acordo com a quan­ti­dade de auto­res) para fazer seu lan­ça­mento, ou para “indenizar” a editora pelas despesas de publicação. O autor que fizer tal evento de lan­ça­mento estará, de fato, lan­çando o pro­duto da edi­tora, cujo nome fica na capa, e não a pró­pria obra. Fazer tal lan­ça­mento é pas­sar um ates­tado de bur­rice tão extrema que até comove. É gas­tar dinheiro para anun­ciar o tra­ba­lho de quem se cria explo­rando o seu trabalho.

E, não custa repe­tir, a publi­ca­ção em tais anto­lo­gias con­di­ci­ona o autor a seguir as normas.

A arte neces­sita do feio, do desa­gra­dá­vel, do gro­tesco, do repug­nante, do mal­feito. A beleza eleva o espí­rito, mas a feiura nos fala a verdade.

E exa­ta­mente por isso a lite­ra­tura sem­pre recebe a acu­sa­ção de ser uma arte deca­dente entre deca­den­tes artes. E por causa disso a arte sem­pre é vista como algo peri­goso pelos con­tro­la­do­res do sta­tus quo, a ponto de todos os regi­mes opres­so­res incluí­rem alguma forma de opres­são da arte. Sem que­rer recuar no tempo, pois não temos ele­men­tos sufi­ci­en­te­mente deta­lha­dos para expli­car os pro­ces­sos de sécu­los pas­sa­dos, ou pelo menos eu não tenho, é sin­to­má­tico que o tota­li­ta­rismo sovié­tico tenha pro­du­zido o rea­lismo soci­a­lista, que o macarthismo tenha cri­ado o « Comics Code Autho­rity » e o nazismo tenha pro­posto uma « arte alemã ». Sem­pre que uma botina se assenta no trono, os artis­tas pagam o pato.

[…] alguns auto­res bus­cam o feio da forma mais pri­má­ria pos­sí­vel, qual seja, tra­tar de temas revol­tan­tes e de fácil apelo popu­lar, encher as obras de pala­vrões e des­cri­ções chu­las de sexo ou dis­tor­cer a lin­gua­gem com a uti­li­za­ção de ter­mos usa­dos no dia a dia.

Existe em alguns auto­res uma obses­são pela vio­lên­cia que é quase por­no­grá­fica. Mas esta vio­lên­cia agres­siva e revol­tante não é « feia » no sen­tido empre­gado por Gus­tavo, como ele escla­rece (« A sim­ples ideia de usar ima­gens ou itens feios para fazer uma “arte feia” envolve uma esti­li­za­ção do pró­prio con­ceito de beleza. »). Esta vio­lên­cia exces­siva é uma esté­tica, é cal­cu­lada, é vista como um padrão de beleza em nega­tivo. Existe tanto for­ma­lismo nessa pro­fu­são de den­tes que­bra­dos, tiros e tor­tu­ras quanto no deli­cado aca­ri­ciar de uma flor pelos dedos macios de uma elfa no cio. Tudo é esté­tica. E por­tanto é tudo vazio: “[…] ao ten­tar trans­for­mar o feio em arte, ele se torna este­ti­ca­mente apre­ciá­vel e, por con­se­guinte, falso como uma nota de três reais”.

Os escri­to­res (e o mer­cado) supe­res­ti­mam o lei­tor, dando-​​lhe mais impor­tân­cia e cari­nho do que ele merece. O lei­tor não sabe o que quer; prova disto é que boa parte das mai­o­res obras de arte só foram reco­nhe­ci­das depois da morte do seu criador.

Irre­to­cá­vel em rela­ção à arte, mas não em rela­ção ao best-​​seller. É evi­dente que, para mui­tos auto­res e quase todos os edi­to­res, esse negó­cio de reco­nhe­ci­mento é só uma pala­vra bonita. O impor­tante é ganhar dinheiro. A edi­tora quer fechar o balanço no azul e con­ti­nuar exis­tindo, não quer falir cedo mas pas­sar a his­tó­ria como a publi­ca­dora ori­gi­nal de uma obra genial. Não cen­suro quem pensa assim, focado no fei­jão a ponto de esque­cer o sonho, mas é uma tra­gé­dia que em um mundo tão grande não exista espaço para quem pensa o dife­rente, para quem tra­ba­lha o « feio.«

 Crédito das citações do corpo do texto: Gus­tavo Czeks­ter, Por uma literatura mais feia, publicado no site Literatortura.com.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas, em 25-04-2014.

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

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