Escrevendo com o lado DIREITO do cérebro!

Por Fabio Shiva

Boa parte de nossas melhores ideias não chega até nós na forma de palavras, mas como uma espécie de amálgama de imagens e sentimentos. Isso acontece porque o lado direito do cérebro, o grande responsável pela criatividade, não funciona de forma linear, como um pensamento ordenado numa sequência de palavras, uma depois da outra.

 

O processo da escrita e da linguagem, para a maioria das pessoas, é comandado pelo hemisfério esquerdo do cérebro, enquanto o hemisfério direito está relacionado com a percepção espacial, o pensamento simbólico e a criatividade. Muito embora a exatidão desses conceitos esteja sendo questionada por pesquisas recentes, isso não interfere no propósito desse nosso artigo, que é explorar algumas potencialidades menos óbvias do cérebro para nos ajudar a escrever cada vez melhor.

Escrever com o lado direito do cérebro significa principalmente utilizar a percepção espacial para melhorar a qualidade de nosso texto. E como podemos fazer isso? Por experiência própria, tenho exercitado duas técnicas que têm sido muito úteis e que batizei de VISUALIZAÇÃO e DIAGRAMAÇÃO. Vamos agora examinar cada uma delas.

1. VISUALIZAÇÃO

Boa parte de nossas melhores ideias não chega até nós na forma de palavras, mas como uma espécie de amálgama de imagens e sentimentos. Isso acontece porque o lado direito do cérebro, o grande responsável pela criatividade, não funciona de forma linear, como um pensamento ordenado numa sequência de palavras, uma depois da outra. A ideia surge de forma visual (mesclada com outros elementos), e depois sim é que será convertida em palavras, graças ao trabalho do hemisfério esquerdo do cérebro.

A técnica de VISUALIZAÇÃO consiste basicamente em tornar esse processo criativo mais consciente. Antes de sentar para escrever uma história ou uma cena qualquer, experimente visualizar primeiro a cena em sua mente, com a maior nitidez e riqueza de detalhes possível. Não é preciso ser um gênio para perceber que quanto melhor for a sua visualização, mais vívido e convincente será o seu texto! É como já dizia Platão: “Quem concebe bem, escreve bem”.

Creio mesmo que muitos escritores que sofrem de bloqueio criativo estão na verdade com alguma dificuldade nessa etapa da visualização. Não se iluda: se você não consegue visualizar bem alguma parte de sua história, essa deficiência ficará evidente no seu texto. Por isso a técnica da visualização é importante também como detector de falhas e pontos fracos na história.

Vou dar um exemplo que aconteceu comigo mesmo: há algum tempo percebi que tenho facilidade em visualizar os personagens e suas motivações, mas os cenários já não são tão fáceis de visualizar. Isso acontece porque o meu tipo psicológico (segundo a caracterologia desenvolvida por Jung) é Instrospectivo, ou seja, minha atenção está mais voltada para os processos internos e subjetivos que para o exterior e a aparência.

Mas uma vez detectada uma falha de visualização, como solucioná-la? Nada como a velha e boa pesquisa! Procure estudar o modo como grandes autores trabalham esse ponto em que sua visualização está deficiente. No meu caso, encontrei em Georges Simenon um modelo de descrição de cenários muito adequado ao meu tipo psicológico, pois em Simenon o cenário sempre está de alguma forma interagindo com os personagens, como se fosse ele mesmo também um personagem. Depois de ter detectado essa falha em minha visualização, e de ter pesquisado outros autores, percebi que consigo visualizar e descrever cenários de forma bem mais eficaz atualmente. Desejo o mesmo progresso em seus escritos!
2. DIAGRAMAÇÃO

Já fiz muitos trabalhos como diagramador de jornais, revistas e livros. Hoje sou muito grato por essa experiência, que me ajuda a visualizar melhor as cenas que quero escrever!

Diagramar nada mais é que organizar espacialmente diversos elementos de informação (textos e imagens), de forma a facilitar o processo da comunicação, tornando-o mais atraente e agradável. Diagramar não é um mero ajuste estético, como principalmente uma hierarquização dos elementos de informação: o que é mais importante deve ter mais destaque e aparecer mais que o que é secundário.

O que chamo de técnica de DIAGRAMAÇÃO, no contexto que estamos trabalhando, nada mais é que tentar organizar espacialmente os elementos de informação de sua história ou cena. Essa técnica é especialmente útil quando estamos com dificuldades na visualização da cena. Nem sempre surge com muita clareza o que deve vir antes do que, o que é mais importante e merece destaque e o que pode ser considerado secundário ou até irrelevante.

Não existe uma fórmula fixa para se fazer isso, mas vou dar um exemplo. Primeiro visualize a cena que você deseja escrever, com o máximo de detalhes que você puder. Depois divida a cena em uma série de tópicos, anotando cada tópico em pequenos pedaços de papel. Então coloque todos esses papeizinhos diante de você, sobre uma mesa ou mesmo no chão, e comece a “brincar” com eles, alterando a sequência em que os tópicos estão dispostos, colocando algum tópico em destaque, suprimindo outro etc.

Essa técnica eu descobri muito recentemente, agora enquanto escrevo meu segundo romance, “Favela Gótica”. Ela tem sido muito útil! Desconfio que Dostoiévski utilizou uma técnica similar ao escrever o seu imortal “Crime e Castigo”. O grande autor Russo anotava trechos de cenas e nomes de personagens em pedaços de papel que ele ligava por meio de barbantes, e que chegavam a ocupar todo o espaço disponível em sua casa. Isso é o que eu chamo de uma diagramação em 3D!

Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora de O Sincronicídio.

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

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3 comentários em “Escrevendo com o lado DIREITO do cérebro!

  1. Fabio, você é um gênio. Não faz ideia de como esse artigo me ajudou a desvendar e confirmar algumas coisas que eu já suspeitava, como por exemplo a respeito do bloqueio de escrita.

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