Por quais ruas caminham os poetas?

Por Thais Lemes Pereira

Ouso dizer que o público da poesia é o mais cativo de todos. São pessoas que se encontram em eventos culturais diversos e carregam consigo uma bagagem esplêndida de ensinamentos.

Abril Poético 2014 (Grupo LESMA) – Foto: Amarantha Dudalla

 

Não é difícil encontrar escritores relatando que, antes de escreverem em prosa, faziam versos. O contrário também pode acontecer, mas é muito raro. Temos a falsa impressão de que poesia hoje em dia não tem público, pois vem acompanhada da visão de que “não vende”.

O poeta pediu uma poesia

de prato,

era barato,

enchia a barriga,

e pra viagem sobraria (…)

– Flávia Borges

 Lembro quando comecei a pesquisar editoras para encaminhar o original do meu primeiro livro: das vinte e cinco primeiras que encontrei, apenas quatro aceitavam originais de poesia. Uma delas aceitou a publicação e, após a assinatura do contrato, comecei a divulgação do lançamento. As pessoas sentiam-se felizes por eu ter realizado meu sonho, mas quando perguntavam do que se tratava o livro, algumas condenavam que poesia não vendia. Outras diziam: “mas e aquele seu romance, não vai publicar?”

 Não falemos mais da vaidade de um instante.

No meio da noite, vem toda a novidade.

E vai ser assim: de verdade para te trazer felicidade.

– C. R. Angst

 Algo que vemos com muita frequência ultimamente, não apenas com a poesia, mas com muitos outros gêneros da literatura: escritores criando histórias visando lucro e status social. Consequentemente, as pessoas pensam que o prestígio do autor deve sobressair à obra. O reflexo disso é que maior parte das editoras sequer aceitam analisar originais de poesia. Por que o gênero não tem público? Muito pelo contrário…

 

Na indomável solidão

Que o acorrenta aos pés,

Rabiscas uns versos na contramão

Opondo-se as suas paixões viés (…)

– Jonathan Mendes Caris

 

Ouso dizer que o público da poesia é o mais cativo de todos. São pessoas que se encontram em eventos culturais diversos e carregam consigo uma bagagem esplêndida de ensinamentos. Não escrevem para viver, mas vivem para escrever (e recitar, cantar, dançar…). A diferença é que os poetas − os bons poetas − não determinam um valor para sua obra e por isso não sentem a necessidade de vender seus livros como se fossem doces.

 

Nas mãos luminosas da musa

Poemas eriçados

Intuindo carmim, carmesim, plasma do passado.

Um poema articulado a retinas prismáticas…

Partículas poéticas avizinhadas 

Em páginas e profundidades (…)

– Jana Cruz

 

O prazer não é ver sua poesia ser comercializada, mas sim tocando a vida das pessoas com a mesma intensidade que desvendou sua própria essência. Interpretar uma poesia não é tarefa fácil: dependendo do momento vivido a análise muda completamente. Isso faz com que elas nunca morram e sejam para sempre atuais, independente da época em que foram escritas.

Por isso os livros são necessários: para eternizá-las. Nas muitas ou poucas casas que os adotarem. Mas o importante não é a quantidade e sim (a qualidade? Não…) o valor, intangível, aplicado na obra.

 

* Os versos citados são todos de poetas contemporâneos.

-***-

thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.

Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

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4 comentários em “Por quais ruas caminham os poetas?

  1. Lindo e verdadeiro, Thata! Engraçado que dentre de vááárias coisas verdadeiras que você citou ao longo do artigo, uma em definitivo me pegou em completa surpresa: também sou filha da poesia, quando eu era pequena, falava em versos, inclusive. Eu respirava versos! Mas depois acabei me perdendo dela. Contudo, minha prosa é sempre carregada de versos. A poesia passou por um processo de mutação e está enfim, impregnada em tudo que eu faço! Beijos e parabéns mais uma vez por esse delicioso artigo!

    1. Ana, fico feliz que esteja acompanhando e gostando dos artigos. Como eu disse, não é difícil encontrar escritores que faziam versos para depois escrever em prosa. Apensar disso, sinto-me contente em dizer que comigo aconteceu o contrário. Todas as pessoas são carregadas de poesia, basta saber encontrá-la! Beijos e obrigada!!

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