A Noite do Oscar

Por Gustavo Araujo

Confesso que fiquei atordoado ao perceber que essa é a realidade do mercado. Que é isso o que espera o escritor novato. Uma das possibilidades para fugir desse labirinto, pelo que percebi, são os concursos literários.

Tempos atrás finalizei meu primeiro livro. Contente, resolvi submetê-lo à análise de algumas das grandes editoras. Claro, para ser solenemente ignorado por todas elas. Não, minto. Uma me respondeu, usando aquele chavão de que a “a-obra-é-muito-interessante-mas-no-momento-não-se-encaixa-na-nossa-linha-editorial”.
Demorou um pouco até eu perceber que o objetivo delas é o lucro e não necessariamente a qualidade. Que publicar um desconhecido é o mesmo que apostar que existe petróleo no quintal de casa.
Em consequência tentei contato com editoras menores, na esperança de que ao menos eles não tivessem o dinheiro como estrela guia.
Garoto ingênuo, eu.
A grande maioria das editoras nanicas não está nem aí para a qualidade. Trabalham com o binômio “bajulação-extorsão”. Ao tempo em que adulam o interessado convencem-no a tomar um caminho sem volta, obrigando-o a aderir a “serviços indispensáveis para a publicação”, extraindo do pobre coitado até a última moedinha – mesmo aquela escondida no fundo da carteira.
Desculpem. Isso não é característica das editoras pequenas. Muita gente trabalha assim –até editoras que têm algum nome – manipulando a vontade que todo escritor tem de se ver impresso num “livro de verdade” e, dessa forma, ganhando dinheiro sem estar realmente preocupada com as vendas do que publica.
Confesso que fiquei atordoado ao perceber que essa é a realidade do mercado. Que é isso o que espera o escritor novato.
Uma das possibilidades para fugir desse labirinto, pelo que percebi, são os concursos literários. Não qualquer concurso, pois alguns nada mais são do que armadilhas – especialmente aqueles “submeta-seu-texto-para-participar-da-nossa-antologia-desde-que-você-também-adquira-um-número-X-de-exemplares”. Falo dos concursos sérios, daqueles que tradicionalmente se preocupam em lançar novos autores sem se preocupar com seus currículos ou em cobrá-los pela publicação.
Tive a sorte de participar de três seleções finais desse tipo, a última agora, em maio.
O clima na noite de premiação é interessante. É mais ou menos como estar no Oscar, imagino. Gente arrumada – ainda que se trate de gente bem simples, vê-se – que leva a família, os amigos, os namorados. Coquetelzinho, salgadinho, docinho e refrigerante. Não obrigado, eu só tomo água, digo, chato como sempre.
De repente todo mundo vai para o auditório. Com a plateia lotada, começa o show. Anunciam-se os jurados, as categorias, os concorrentes. Um casal faz uma performance teatral no palco. Todos aplaudem. Então vem o anúncio dos prêmios. Uma moça bonita chama um escritor famoso para entregar o troféu. O sujeito sobe no palco e fica com uma expressão encabulada aguardando. Aí vem o momento “and-the-oscar-goes-to”. A moça bonita abre o envelope. Inevitavelmente meu coração acelera. Eu penso “sou-eu-sou-eu-sou-eu” para dar sorte. Que nada… O vencedor é uma menina de quinze anos. Faço minha cara de bom perdedor e bato palmas como todo mundo, ainda que na realidade, minha vontade seja de imitar Samuel L. Jackson na entrega do prêmio de melhor ator coadjuvante em 1995, e, vendo-me perdedor, manifestar minha indignação com um “shit!”diante de mais de um bilhão de pessoas.
Mas, no fim, o que fica é a sensação de que tudo valeu a pena. Estar entre os selecionados – e que serão publicados – é sempre um bom consolo. Sem que tenha sido preciso abrir mão da dignidade, choramingando um lugar entre os “grandes” (e vendendo a eles a alma), ou fingir que tudo é normal enquanto se é explorado pelos “pequenos”.
Concursos sérios são um bom caminho. Assim como editoras pequenas que não tenham por objetivo tirar o couro do ingênuo autor novato. Tanto num caso como no outro, trata-se de raridades. Mas que existem, existem.
Boa garimpagem aos interessados. E que continuem escrevendo.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Atualmente escreve o romance “Cartas de Cecília”.

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11 comentários em “A Noite do Oscar

  1. Torço muito por este dia onde o reconhecimento possa ser “and-oscar-goes-to”…Não pelo glamour teatral da premiação, mas pelo diferencial de uma nova realidade, a chance de emergir com a mesma dignidade novos talentos, escritores que estão à margem esperando a sua vez de mostrar que o universo literário vai muito além do que se possa imaginar…

  2. Adorei a sinceridade do artigo! Infelizmente o mercado editorial brasileiro ainda prioriza os grandes autores e escritores internacionais. Uma boa alternativa, como dito no texto, ainda é participar de concursos literários, no entanto é importante lembrar que até esses concursos têm suas limitações. Se o trabalho é de qualidade e depois de muitas tentativas não ter conseguido uma boa e honesta editora, creio que uma alternativa é a autopublicação.

    Abraços

    1. Procura no You Tube, Sergio. Tá lá, na entrega do Oscar de 1995, acho que de ator coadjuvante. Ao ver que o prêmio foi dado a outro concorrente — Martin Landau, no caso — o Samuel L. Jackson não se conteve e soltou um “shit” diante das câmeras. Show de bola!

  3. Artigo muito agradável de ler, divertido mesmo. Imaginei a sua empolgação esperando seu nome ser pronunciado como vencedor. Quem não sentiria o mesmo, ostentando orgulho ou camuflando sobre camadas de modéstia? Boas dicas para os aspirantes a escritores (publicados) e otimismo nas palavras de incentivo. Adorei! Abraço.

  4. Gostei do artigo, anfitrião! (rs!) Como disse a Claudinha aí em cima, quem não adoraria destilar uma camuflada dose de modéstia ao receber o primeiro lugar de algum renomado concurso literário…?
    O pior de tudo o que escreveu é saber que existem MESMO meninas de 15 anos às pencas por aí escrevendo verdadeiras obras-primas… rs!
    Abrax,
    Paz e Bem!

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