Medo

Por Fernando de Abreu Barreto

Fazer literatura é correr riscos, que são muitos. Em um país que não lê autores nacionais, começa por aí. Nesse aspecto, podemos afirmar que qualquer autor brasileiro que não seja um mago tem a coragem de um cavaleiro.

Sempre tive medo de altura, medo de tubarão, medo de viajar em avião, medo de câncer, medo de apagar a luz após assistir a filmes de terror, medo de ficar sozinho na velhice, medo de rato, medo de relâmpago, medo de dirigir em estradas sem separação de pistas, medo do diabo, medo de soco na cara, medo de morrer dormindo, medo de cobras. Mas nunca tive medo de escrever.
Não por obra do corretor de texto, que em nada melhora minhas letras. Nasci sem essa parte do cérebro. E mesmo quando, anos mais tarde, releio algo que escrevi,mesmo quando esse texto antigo me desagrada,não me assusto nem me arrependo.
Fazer literatura é correr riscos, que são muitos. Em um país que não lê autores nacionais, começa por aí. Nesse aspecto, podemos afirmar que qualquer autor brasileiro que não seja um mago tem a coragem de um cavaleiro.
O risco, no entanto, é maior quando partimos para a literatura experimental, que por si só já é difícil de definir. É preciso coragem. Excelente matéria de capa do Cândido (jornal da Biblioteca Pública do Estado do Paraná), investiga a literatura experimental, sob a ótica de autores, acadêmicos e editores, todos com a mesma opinião: o experimentalismo é voluntário, por isso o risco é maior e de conhecimento do autor.
Aquele que optar por esse caminho deve ser, além de consciente, paciente, a despeito de todo rancor latente que parece inundar muitas almas escritoras.
Carlos Henrique Schroeder afirma, na matéria mencionada, que é natural a relutância das grandes editoras comerciais em apostar em autores experimentais. Está certíssimo, o risco é do autor e deve ser assumido por ele sem ressentimento.
Como todo espaço vazio sempre é preenchido, pequenas editoras têm feito a garimpagem no mercado. Pequenos peixes-pilotos, conseguem levar ao mercado o que é visto com desconfiança pelas grandes.
Editoras pequenas são como escritores experimentais, por motivos diferentes. Os autores gostam do risco que correm, as pequenas têm pouca opção (e pouco dinheiro). Mas vivem uma simbiose que mantém vivo o experimentalismo que enriquece e transforma a literatura.
Ainda na matéria do Cândido, Dirce W. do Amarante (especialista em Literatura pela UFSC) afirma que “[…] o autor que é de fato experimental não pode deixar de escrever assim sem mais nem menos só porque o mercado o exige. Ser experimental é crucial. O autor experimental tem mil razões para ser teimoso, e essa teimosia é uma postura ética, política, estética da maior relevância para a sobrevivência da arte”, eu acrescentaria que é uma postura corajosa.
Porque ser experimental, diferente, contrário, alternativo, fora de foco, ser a curva na reta é um ato de coragem. O risco de permanecer comercialmente inviável, prêmios que não virão, falta de reconhecimento, estar afastado do mainstream são possibilidades mais reais que falsas. E pode não haver prazer algum que recompense essa postura, tampouco obrigação ética, politica ou estética, pode ser apenas algo natural, um traço de quem nasceu sem medo de escrever.
Preciso mencionar que não me considero um autor experimental. Mas termino no mesmo cercado, por ser um autor em início de carreira que busca fazer literatura sem amarras. Autores iniciantes têm essa vantagem; são livres, e a liberdade tem o poder de bloquear o medo.
É necessário dizer, também, que muitos autores experimentais, corajosos, que se arriscam, chegaram aos andares mais altos da carreira. Dizer, portanto, que manter-se experimental resulta em uma carreira falida é falácia. A diversão está exatamente em descobrir aonde você chegará. Para isso é preciso deixar o medo de lado.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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