Por que não escrevo uma trilogia

Por José Geraldo Gouvêa

Em um aspecto, porém, todos os auto­res, exceto os gênios, os excep­ci­o­nais, os mila­gres da natu­reza, estão de acordo: este apren­di­zado leva tempo e pas­sar por cer­tas eta­pas, que são muito cla­ras na car­reira da mai­o­ria dos auto­res.

É recor­rente o apa­re­ci­mento de jovens que dizem escre­ver seu pri­meiro “livro”, mui­tos até pro­me­tendo con­ti­nu­a­ções ou decla­rando que a obra é (ou será) uma tri­lo­gia. Não conheço a qua­li­dade des­tas obras e nem des­tes escri­to­res, embora supo­nha, com razo­a­bi­li­dade, que as pri­mei­ras são com­pa­tí­veis com a idade, a expe­ri­ên­cia de vida e o nível cul­tu­ral dos segun­dos. E quando digo isso, devo acres­cen­tar, com algum eufe­mismo, que não é com muita frequên­cia que nasce um Rim­baud ou um Radiguet.

Este des­file de obras de grande fôlego, ins­pi­rado nos best-​​sellers de sucesso, me faz pen­sar que alguns des­tes auto­res estão quei­mando eta­pas que não podem ser quei­ma­das, estão igno­rando lições do começo do curso e par­tindo para o final. Este sen­ti­mento me faz escre­ver esta breve apologia.

Escre­ver não é fácil. Se fosse fácil, todo mundo escre­ve­ria. Escre­ver não é nem “rela­ti­va­mente fácil”. Se fosse, a mai­o­ria dos que escre­vem pro­du­zi­ria tex­tos de qua­li­dade. Há difi­cul­da­des por todos os lados. É difí­cil por razões intrín­se­cas: domi­nar as pala­vras, usar os recur­sos da lín­gua, pro­du­zir a beleza, con­tar bem his­tó­rias etc. É difí­cil por razões extrín­se­cas tam­bém, a prin­ci­pal delas é que só se des­ta­cam os melho­res, então, à medida que aumenta a quan­ti­dade de bons auto­res, vai subindo a linha de corte. Para se des­ta­car numa lite­ra­tura pobre basta mos­trar alguma qua­li­dade. Mas para se des­ta­car em uma lite­ra­tura forte, é pre­ciso algo maior. Entre as razões pelas quais o Bra­sil ainda não ganhou um Nobel de lite­ra­tura está o fato de que nossa lite­ra­tura não é tão densa.

Entre as difi­cul­da­des de escre­ver está o apren­di­zado. Que, para come­çar, muita gente diz que pre­cisa par­tir de algo inato, o “talento”. Mesmo supondo que o talento não exista, o apren­di­zado é algo tão com­plexo e inde­fi­ní­vel que é pra­ti­ca­mente impos­sí­vel deter­mi­nar o que é que faz um autor ser genial. Afi­nal, todos os auto­res rele­van­tes tive­ram cole­gas de classe, vizi­nhos, ami­gos, pes­soas que tive­ram mais ou menos as mes­mas expe­ri­ên­cias e con­di­ções, que estu­da­ram coi­sas pare­ci­das. Mas fica­ram para trás na poeira do tempo.

Em um aspecto, porém, todos os auto­res, exceto os gênios, os excep­ci­o­nais, os mila­gres da natu­reza, estão de acordo: este apren­di­zado leva tempo e pas­sar por cer­tas eta­pas, que são muito cla­ras na car­reira da mai­o­ria dos auto­res. Eça de Quei­rós come­çou escre­vendo con­tos para revis­tas, a pri­meira obra publi­cada de James Joyce foi a cole­tâ­nea de con­tos Dubli­nen­ses, por exemplo.

Tam­bém parece exis­tir no Bra­sil um certo pre­con­ceito con­tra a fic­ção curta que vai além do fas­cí­nio dos jovens pelas tri­lo­gias da moda: em meus con­ta­tos com edi­to­ras mui­tas vezes eu ouvi que havia mais pos­si­bi­li­dade de publi­car roman­ces do que con­tos. Aliás, eu só come­cei a escre­ver roman­ces por­que edi­to­res me con­ven­ce­ram que eu jamais publi­ca­ria nada se ficasse “limi­tado ao conto”, como se ele fosse um gênero menor em impor­tân­cia, além do tama­nho. Não me arre­pendo de ter come­çado a fazer roman­ces, mas me inco­moda que tão pouco valor se dê ao conto, a ponto de o movi­mento blo­gueiro estar à morte por­que nin­guém mais se inte­ressa em lê-​​los.

O conto pre­cisa ser revalorizado.

Em pri­meiro lugar por­que, acom­pa­nhado da crô­nica, ele é a prin­ci­pal escola de escri­to­res. Não é à toa que os gran­des auto­res come­ça­ram fazendo crô­ni­cas e con­tos: a fic­ção curta per­mite maior con­trole sobre a trama e os per­so­na­gens, além de per­mi­tir um sen­ti­mento de rea­li­za­ção mais ime­di­ata — o que serve de estí­mulo para continuar.

Digo isto por­que não sei quan­tos des­ses jovens efe­ti­va­mente rea­li­za­rão a tri­lo­gia sonhada. Tal­vez se escre­ves­sem con­tos eles man­ti­ves­sem o estí­mulo até o fim. Além disso, a ado­les­cên­cia e a juven­tude são momen­tos na vida em que muda­mos muito, de valo­res, de estilo, de filo­so­fias, de tudo. O longo tempo gasto na escrita de uma obra de várias cen­te­nas de pági­nas pode fazer com que, ao che­gar ao fim do tra­ba­lho, o autor des­cu­bra que lá no começo o seu estilo ainda era cru, e tenha de rees­cre­ver. Ou pode des­co­brir, durante a escrita, que mudou de ideia sobre o sen­tido do enredo, e então terá que rees­cre­ver cen­te­nas de pági­nas. Tudo isto somado cons­pira con­tra a pos­si­bi­li­dade prá­tica de um ado­les­cente efe­ti­va­mente pro­du­zir uma tri­lo­gia, ou mesmo um romance longo ou, alter­na­ti­va­mente, cons­pira con­tra tal tra­ba­lho pos­suir alguma qua­li­dade, a menos que o ado­les­cente em ques­tão seja um dos tais fenô­me­nos raros da natureza.

Não gosto de reco­men­dar o meu cami­nho, por­que ele só me trouxe até onde estou, e não é um lugar onde mui­tos gos­ta­riam de estar (o lugar cobi­çado é o dos auto­res de best-​​sellers). Mas quem se inte­res­sar saiba que come­cei fazendo poe­mas, pas­sei à crô­nica e logo ao conto, onde per­ma­neci por muito tempo, até que em 2007 iniciei um romance, que foi publi­cado em 2010. Quinze anos de minha vida eu pas­sei sem escre­ver roman­ces, ape­nas pen­sando que um dia ten­ta­ria escre­ver um. Minhas rea­li­za­ções podem não reco­men­dar o meu cami­nho, mas segui os pas­sos de gente que se deu melhor do que eu.

Acho que alguns jovens se bene­fi­ci­a­riam da ideia de escre­ver con­tos.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas.

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

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3 comentários em “Por que não escrevo uma trilogia

  1. gostei de seu texto, eu já tinha pensado a mesma coisa mas decidi me manter otimista, essa foi a primeira história que já criei que pode ser realmente algo bom, e que até agora ainda me inspira, independente de ser uma trilogia …

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