O fofoqueiro que deu certo

Por Fabio Shiva

Daí a imagem estereotipada do escritor com seu bloquinho de anotações, registrando tudo o que acontece de interessante ao seu redor como se coletasse matéria-prima para futuros livros. Em termos práticos, eu pelo menos acho esse processo muito custoso.

 

Nunca esqueci a genial tirada de Irene Ravache, uma das grandes damas de nosso teatro: “o ator é o esquizofrênico que deu certo”. Isso por dois bons motivos. Primeiro, porque pude constatar a veracidade dessa afirmação inúmeras vezes, ao notar um certo brilho lunático no olhar de meus queridos amigos atores – e justamente dos mais talentosos! Segundo e mais importante porque, além de todo o bom humor nela contido, essa frase sinaliza para uma função essencial de toda arte, que é ajudar o homem a transmutar sombra em luz, dor em alegria, agonia em êxtase.E como ultimamente tenho trazido tudo – ou quase tudo – para o terreno da literatura, da última vez que me lembrei dessa máxima não foi difícil descobrir um equivalente que se aplicasse ao ofício da escrita: o escritor é o fofoqueiro que deu certo!
Pois a fofoca, essa prática tão perniciosa e ao mesmo tempo tão humana, só existe graças a dois impulsos básicos que estão igualmente no âmago de toda vocação literária. O escritor, como todo fofoqueiro, é movido pelos desejos de conhecer e de contar.E a diferença fundamental entre a mais elevada literatura e a fofoca mais chã, ao meu ver, não está tanto nas motivações do narrador, nem mesmo na qualidade do discurso. E sim na amplitude do tema abordado! Todo fofoqueiro é sobretudo um míope, que quase nada enxerga além do objeto de sua maledicência. Já o escritor autêntico é sempre um generalista, que busca ver além e alcançar o universal naquele particular que utiliza como tema.

Dizendo isso de forma mais simples: quando o fofoqueiro fala das riquezas e mazelas de Fulano, está interessado apenas na pessoa de Fulano, quando muito nas pessoas particulares que se relacionam diretamente com Fulano. Já o escritor não está interessado propriamente em Fulano, mas no homem contido em Fulano, na parcela de toda a humanidade que Fulano representa.

Daí a imagem estereotipada do escritor com seu bloquinho de anotações, registrando tudo o que acontece de interessante ao seu redor como se coletasse matéria-prima para futuros livros. Em termos práticos, eu pelo menos acho esse processo muito custoso. Teria que escrever calhamaços intermináveis se me propusesse a registrar tudo quanto observo de curioso e digno de nota no comportamento de meus semelhantes. E depois, onde arranjaria o tempo necessário para ler tudo o que escrevi, e ainda por cima organizar tantas “fofocas” em meus contos e romances? Por isso prefiro deixar a cargo da memória essa tarefa de registro e seleção. Mas há escritores mais organizados, que se dão muito bem com seus blocos de notas.

E por falar em memória, lembro agora de um episódio que ilustra bem o que tentei explicar nesse texto, sobre a “dimensão literária e artística da fofoca”. Por isso vou contar essa fofoca ocorrida há poucas semanas. Um acontecimento banal, aparentemente sem importância, captado de relance, quase por acaso. Digo quase por acaso porque, como um bom fofoqueiro, tive que aguçar os olhos e espichar os ouvidos para entender o que estava acontecendo diante de mim:

Dois senhores de idade avançada encontram-se na rua. Após um breve cumprimento, um deles diz para o outro:
– Soube do Adolfo?
– Pois, é, rapaz, eu soube. Morreu anteontem.
No entanto os olhos dos velhinhos brilham de contentamento, e é nítido o entusiasmo que aflora nas vozes encarquilhadas. No fundo, é como se dissessem:
– Vencemos mais um! Ainda estamos aqui!

Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora de O Sincronicídio.

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

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