Adeus, Orkut, onde quase tudo começou

Por Bia Machado

 

[…] é preciso aprender com críticas que sejam coerentes, e aprender a separar o coerente do incoerente, tendo a consciência de que qualquer rede social tem os seus defeitos. Foi o que sempre tentei fazer e recebi muitas opiniões e comentários valiosos.

Sim, o Orkut está dando adeus em definitivo, resta-lhe pouco tempo. Porém, quantas recordações ele vai deixar! Sou uma das pessoas que nunca vai esquecer essa rede social que me aproximou ainda mais dos livros, da escrita, da leitura, ainda mais do que eu já era próxima, por incrível que pareça. Já fiz backup das fotos, assim como já tinha feito da parte escrita. As lembranças, guardo na memória e sigo em contato com as amizades que sobrevivem ao seu término e que farei o possível para que perdurem.

Quando o Orkut começou, confesso que não dei muita bola. Os blogs e outros sites supriam minha vida virtual, mas é uma pena que, dessa época efervescente da blogosfera, poucas amizades (sim, virtuais, mas amigos) restaram. O que me levou  a entrar nessa rede social, então? Em primeiro lugar, as comunidades literárias! A primeira de todas: Agatha Christie Brasil. Finalmente eu podia conversar com alguém de fora do meu cotidiano sobre essa escritora que é uma das que mais admiro, coisa de infância mesmo. Encontrei comunidade sobre Stephen King, sobre Ficção Científica, de Amantes do Romance Policial, de Resenhas Literárias, de Contos Fantásticos, de Escritores Amadores, de Histórias e Contos de Terror. Claro que participava de outras que nada tinham a ver com esse universo, mas as que me marcaram foram aquelas em que a escrita, a leitura, os livros eram o foco. Elas alimentaram minha vontade de finalmente terminar algo que escrevi, fizeram com que eu perdesse a vergonha de mostrar meus escritos aos outros, e até mesmo de ser publicada. Uma coisa maravilhosa foi ter conhecido tantas pessoas, e ter mantido contato com elas até hoje, e espero que sempre, tantas pessoas com quem posso dividir essa paixão pelos livros, essa vontade de estar com eles, de trabalhar com eles. Feliz por terem passado para o lado real da minha vida, junto com a Caligo, pessoas como Fabio Shiva, Angélica Bernardino, Amadeu Jr. (o primeiro leitor beta), Cintya e Cláudio Veiga (o primeiro a criticar um texto meu de uma forma que fez com que eu me sentisse em plena final de um concurso literário, como faz até hoje), Vitor Toledo, Rubem Cabral, Fernando de Abreu Barreto, Marcelo Amado e Celly Borges, Teresa Fiore, Pedro Viana, Martha Angelo, Hosana Alves, Gustavo Araujo, Glaucia Fortes, e tantos outros, felizmente muitos!

Meus primeiros contos, de terror, foram publicados sob demanda, é verdade, mas esse foi o primeiro passo para eu entender como essa tal publicação podia acontecer e dela tirar minhas conclusões (que ficam para outro artigo). Foi durante os debates a respeito de livros, do mercado editorial, dos posts de chamadas para submissão de contos que a Caligo foi tomando forma. Sim, não nego e não sinto qualquer tipo de vergonha ao afirmar isso. Por quê? Por ter visto que era possível, sim, tentar. Por ter visto que as dificuldades são muitas, mas onde existe só facilidade nessa vida? Sempre considerei que tudo que vem fácil demais, não dá certo, não dá satisfação suficiente. Não foi o pensamento de que “puxa, vou ganhar dinheiro com essa coisa de fazer livro, tá na moda publicar sob demanda, tá fácil arrancar dinheiro de escritor que está louco pra publicar”, mas sim: “Ei, eu quero fazer isso, acho que consigo fazer e até melhor. E será bacana, será um desafio. E isso vai me trazer satisfação, nem que eu publique apenas um livro, vai ser muito bom poder ajudar um autor a realizar isso”, e outras (muitas) coisas mais.

Ou seja, o Orkut me mostrou um lado da produção editorial que eu, apenas leitora, nunca tinha me dado conta que existia, o lado das médias e pequenas editoras (e, por que não, dos autores independentes?) que trabalham muito, mas conseguem atingir seus objetivos. Para mim, na época, editoras eram grandes empresas, poderosas, com muito dinheiro para colocar um livro no mercado, imagine como autora! Jamais cogitara a ideia de enviar um manuscrito meu para qualquer uma dessas poderosas, para mim não haveria nunca uma chance. Claro que, de qualquer forma, independente do tamanho, há editoras e editorasmas a ideia de que trabalhar com livros não tendo a grana e o poder das grandes é totalmente possível, não é apenas pura ficção.

Participar por cerca de dois anos das comunidades Contos Fantásticos, da Histórias, Contos de Terror e da Eu Sou Escritor Amador principalmente me ajudaram com a parte de escrever sabendo que não seria apenas eu a leitora, mas que haveria outros leitores. Leitores que só chegariam ao final do seu texto, fragmentado em pequenos posts, se o enredo fosse realmente interessante. Leitores que, mesmo o texto sendo ruim, leriam até o final e nesse caso… Bem, é preciso aprender com críticas que sejam coerentes, e aprender a separar o coerente do incoerente, tendo a consciência de que qualquer rede social tem os seus defeitos. Foi o que sempre tentei fazer e recebi muitas opiniões e comentários valiosos. Hoje esse trabalho de escrita de contos de vários autores e comentários por meio de desafios mensais tem sido levado adiante por outros, como é o caso do nosso parceiro e também autor, Gustavo Araujo, com o site EntreContos.

Enfim, adeus, Orkut. Foi bom enquanto durou. A gente fica por aqui, dando continuidade a essa coisa que foi tão bacana, o suficiente para ficar marcado com tanta força, e tanto carinho.

É a editora da Caligo. Trabalha como professora e revisora. Tenta escrever para que seus personagens não fiquem tão zangados com ela e não voltem para puxar seu pé de madrugada. Leitora voraz. Cinéfila frustrada. Se pudesse, faria outras coisas mais, mas para quem não tem sangue azul, nem sorte no jogo, isso já está bom, não dá para reclamar. Ou dá? Escreve (ou tenta escrever) no blog Flor do Cotidiano a respeito de quase tudo, mas admite que acaba escrevendo mais sobre suas leituras. Contato: magiadaliteratura@gmail.com.

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2 comentários em “Adeus, Orkut, onde quase tudo começou

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