A verdade sobre a capa

Por Gustavo Araujo

 Se o autor é desconhecido, então, uma capa bacana torna-se o grande diferencial. Faz, no fim, com que o livro seja alçado à estratosfera ou arremessado às profundezas das Marianas.

O clichê é mais surrado do que Judas em véspera de Páscoa: não se julga (ou não se compra) um livro pela capa. Sim, lindo. Um daqueles ensinamentos que todo mundo se apressa em declamar como uma verdade suprema e incontestável – até para soar artificialmente inteligente – mas que, na verdade, quase ninguém aplica. É o politicamente correto do universo literário. Admitir que se compra, sim, um livro por causa da capa é como confessar que se gosta de ouvir Fiuk.

Vou nessa maré. Não, não ouço Fiuk, mas compro livros pela capa. Às vezes dou sorte. O fato é que o apelo visual é o que destaca um livro dos demais. Se o autor é desconhecido, então, uma capa bacana torna-se o grande diferencial. Faz, no fim, com que o livro seja alçado à estratosfera ou arremessado às profundezas das Marianas. Claro, o fato de ser exposto na estante de lançamentos das grandes livrarias ajuda muito, mas tenho dúvidas se um livro desconhecido e com uma capa horrível seria comprado mesmo com essa vantagem de visualização.

Comigo aconteceu com “A Sombra do Vento”. Na época em que pouca gente havia falado de Carlos Ruiz Zafón, a capa em branco e preto que mostrava um homem de mãos dadas com um garoto – pai e filho – me chamou a atenção na mesma hora. Nem a sinopse precisei ler. Comprei por instinto.

capas

O mesmo aconteceu com os livros de Jon Krakauer (“No Ar Rarefeito” e “Na Natureza Selvagem”) e de Joe Simpson (“Tocando o Vazio”) – em ambos os casos, as fotos de montanhas chamam a atenção naturalmente. Também “A Estrada”, de Cormac McCarthy, assim como “Contato”, de Carl Sagan, e “Corações Sujos”, de Fernando Morais, sem falar de “Estrela Solitária” e “Carmen”, de Ruy Castro. Não posso deixar de citar “Trem Fantasma para a Estrela do Oriente”, de Paul Theroux, e a edição americana de “Do que eu falo quando falo de corrida”, de Haruki Murakami.

Agora, o contrário: livros ótimos, mas de capas horríveis. Só acabei lendo depois de convencido de que as narrativas eram inversamente proporcionais às capas. “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini, e “O Último Lugar da Terra”, de Roland Huntford.

Outros, de capas deprimentes, que só comprei porque sabia que os autores eram bons, foram “Amar e Morrer”, de Eric Maria Remarque, publicado pela Itatiaia, “Como Deus Manda”, de Niccolò Ammaniti, e muitos dos livros de John Grisham.

Também há livros com capas excelentes, mas cujas histórias deixam (muito) a desejar. Para mim, encaixam-se nessa categoria “Correr”, de Jean Echenoz, que conta a vida do velocista Emil Zatopek, além de “Everest”, de Waldemar Niclevicz, “O Livreiro de Cabul”, de Asne Seierstad, e “Fawcett”, de Hermes Leal.

Atualmente, a moda é apelar para a simplicidade. Daí surgem as boas ideias de “A Culpa é das Estrelas”, de John Green, “Tudo se Ilumina”, de Jonathan Safran Foer, e até “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera, e os livros de John Boyne (todos no mesmo estilo listrado de “O Menino do Pijama…”) onde se privilegiam os títulos, ou melhor, as letras que os compõem, em detrimento de desenhos ou de alguma foto. Vale mais o design.

O fato é que apesar da falsa-verdade que diz “não julgue um livro pela capa”, nenhum autor, nenhum editor em sã consciência despreza a capa da obra. Não é exagero dizer que assim como nas relações humanas, a aparência conta muito. É isso que decidirá se o livro merece ou não ser apanhado da estante. Tão importante quanto o título, a capa sintetiza o espírito da obra e por isso deve instigar o leitor, aguçar sua curiosidade, fazê-lo perguntar a si mesmo o que existe naquelas páginas todas.

Por isso, vamos deixar de hipocrisia, seja como autores, seja como leitores, e admitir, sem qualquer espécie de vergonha, que damos um valor enorme à capa.

Vamos dar asas à arte e à criatividade. Libertemo-nos.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Seu livro “Pretérito Imperfeito” será publicado pela Caligo em 2015.

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7 comentários em “A verdade sobre a capa

  1. Taí uma coisa que literalmente me tira o sono. Quando estava definindo a capa de Déjà Vu me dei conta que tenho uma tara por olhos, e percebi que muita gente também tem.

    Dizem que os olhos é o espelho da alma, deve ser por isso que muitas capas os utilizam como chamariz.

    A coisa ficou tão clichê, que há algum tempo uma revista de grande circulação fez uma matéria só com cartazes de cinema que os utilizam como imagem principal, me surpreendi com a quantidade imensa. Pesquisei o mesmo em livros e percebi que essa realidade também é gritante na literatura, principalmente nos novos lançamentos de entretenimento.

    Hoje tento fugir dessa tendência, mas conheço muitos designers que usam e abusam disso, chegando ao ponto de deixar algumas capas quase iguais.

  2. Modéstia parte, a capa de ‘A forma da sombra’ está ótima. Méritos do Pedro Viana.

    Livros que comprei ela capa e adorei: Precisamos falar sobre o Kevin (Lional Shriver), Deus no Pasto (Hermilo Borba Filho). Não me arrependi em nenhum dos dois casos.

    Capas recentes que me impressionaram: Divórcio (Lísias), Biofobia (Nazarian) e a antologia !, da Caligo.

    Ótimo artigo, Gustavo.

  3. A capa de um livro é super importante. Não podemos desprezá-la, mas também não podemos desprezar um livro somente por não gostar da capa.

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