Eu, uma editora com TPI

Por Bia Machado

Egg timer smashing open

Quando aceito essa brecha, a vozinha interior até fica contente comigo: “Boa menina”. E não perde a oportunidade de me alfinetar: “Que tal dormir mais cedo hoje?” Hum, aí já é pedir demais.

 

É muito bom trabalhar com livros. Falar sobre eles, planejar, pensar em capa, revisar, escrever (claro), mas confesso, sofro de TPI: Tensão Pré-Impressão. Sim, nesses dias em que quatro livros publicados pela Caligo estão indo para a gráfica, quase na deadline, tento dizer a mim mesma que há tempo de folga. Porém, costumo duvidar de minha própria vozinha interior, aquela coisa: confiar desconfiando! Juro que se a gráfica fosse aqui na cidade, eu iria todo santo dia até lá, perguntaria se, por acaso, assim como quem não quer nada,  eles não gostariam de uma ajudazinha, de alguma forma e… É, melhor mesmo que ela esteja em outro estado.

Assumo meus defeitos e minhas neuras. Sou superpreocupada com esse negócio de prazo. Talvez porque às vezes a procrastinação chega assolando todas as minhas vontades, ou quase todas. Sobrevivem a vontade de escrever, de ler, e sempre sobreviverá a de ficar ao lado das pessoas queridas. Hoje mesmo, eu querendo terminar a revisão do miolo de um dos livros e o sono – acumulado – não querendo me dar trégua. Marido me chama pra jantar, eu não respondo nada e ele diz: “Vai jantar depois, né? Quando terminar a última página”. Aquelas palavras fizeram com que eu despertasse de alguma forma. Chamei todo mundo para a mesa e ficamos lá, falando da vida, sem a menor culpa. E foi bom curtir isso, nessas últimas duas semanas o que mais fiz foi ficar distante deles, em momentos em que não deveria ficar. Ainda bem que eles conseguem abrir uma brecha nesse meu momento de TPI. Quando aceito essa brecha, a vozinha interior até fica contente comigo: “Boa menina”. E não perde a oportunidade de me alfinetar: “Que tal dormir mais cedo hoje?” Hum, aí já é pedir demais. Justo agora que uma ideia surgiu para o Desafio do EntreContos? Justo agora que estou querendo terminar as últimas páginas de uma leitura da qual estou gostando tanto?

Curioso é que na maior parte do tempo pareço estar tranquila, no mais absoluto controle: “Calma, tem tempo. Vai dar tudo certo. Tá no prazo ainda”. Até eu mesma quase acredito. Alguns podem dizer: “Mas tinha que ser assim mesmo, afinal é quase só você pra tudo”. Enquanto isso, chegam diariamente e-mails e e-mails de revisores, tradutores, capistas, todo mundo querendo trabalhar com a Caligo. É, mas ainda não dá, por um bom tempinho – não disse longo, mas bom, vejam a diferença – a Caligo ainda continuará nesse ritmo. Apesar de tudo, eu precisava sentir na pele esse desespero, loucura, insanidade toda que é lançar vários livros de uma vez só. Uma das mudanças para 2015 é repetir como um mantra o lema: “Um livro de cada vez”. Até porque não dá pra ter tranquilidade trabalhando com mais de um, ao mesmo tempo. Aliás, no próximo texto conto o que estou planejando para a Caligo 2015.

Deve haver alguma parte do cérebro que controla nossa vontade por querer fazer (quase) tudo ao mesmo tempo, e da melhor forma possível. Algo me diz que tenho um leve distúrbio nessa parte da anatomia. Bem, enquanto não encontram a cura (e sei lá se quererei ser curada…), vou tentando me controlar, mas não muito, para evitar uma reação alérgica. 😉

P.S.: Como puderam perceber, não foi hoje que dormi cedo.

É a editora da Caligo. Trabalha como professora e revisora. Tenta escrever para que seus personagens não fiquem tão zangados com ela e não voltem para puxar seu pé de madrugada. Leitora voraz. Cinéfila frustrada. Se pudesse, faria outras coisas mais, mas para quem não tem sangue azul, nem sorte no jogo, isso já está bom, não dá para reclamar. Ou dá? Escreve (ou tenta escrever) no blog Vida e Etcétera a respeito de quase tudo, mas admite que acaba escrevendo mais sobre suas leituras. Contato: magiadaliteratura@gmail.com.

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6 comentários em “Eu, uma editora com TPI

  1. Lindo depoimento, Bia querida!
    Admiro muito sua dedicação e o amor que você coloca no trabalho.
    Tudo o que é feito com amor está destinado ao sucesso: é inevitável!
    Por isso força na peruca e para o alto e avante!!!!

  2. Bia, lhe entendo em número, gênero e “degrau”… (rs!)
    Mas, realmente, às vezes é mais sábio escutarmos a “vozinha” interior. Aliás, conjecturando, não deve ser à toa que o fonema “vozinha” possa significar, além de uma voz baixinha, também uma avó querida, fofa, sutil; mas — sobretudo — experiente. 😉
    Ouvi uma vez de alguém e carrego comigo como uma grande verdade: tempo é questão de prioridade. E nossas prioridades, para ajudar(!), também são volúveis; da mesma forma que nós.
    Nossa prioridade, com fome, é diferente de nossa prioridade com sono; com sede, com frio, com família, amigos, sonhos já realizados, sonhos ainda não realizados, deadlines… (rs!)
    O segredo, portanto, não é nem querer identificar (e estagnar) as prioridades. Mas, antes, saber sempre atualizá-las, de acordo com a situação na qual estivermos inseridos, vivendo, almejando…
    Mas o Fabio aí em cima falou o principal. Quando fazemos alguma coisa COM AMOR, pode ter certeza, vai dar certo! E isso já é 3/4 do caminho para a definição de nossas prioridades. Aliás, se pararmos para pensar, só existe uma mesmo… Que é ficar o maior tempo junto (dedicando-se) de (a) tudo e todos que amamos. Pessoas, livros… Não importa. Pessoas contém livros e livros contém pessoas. Simples assim! 🙂
    Escolher o número de livros a editar/trabalhar por vez é como escolher esposo, quantos filhos ter, quando ir visitar os pais…
    O importante é sempre lembrar que, na vida, a última página é a última página.
    E não precisamos ter tanta pressa para chegarmos lá, né?! 😛

    Abraço,
    Paz e Bem!

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