Suspense ou ameaça?

Por Fabio Shiva

Um livro perde o meu respeito quando descubro que posso ler saltando páginas, sem perder o fio da meada.

Eu devia ter uns treze para catorze anos quando li esse trecho, que ficou gravado na memória. Uma cena marcante de um livro famoso, que foi transformado em filme de muito sucesso:

O garotinho está se borrando de medo quando finalmente se decide a abrir a porta daquele quarto de hotel. Ele foi avisado de que não deveria ir ali, mas a curiosidade foi mais forte. Pé ante pé, o menino vai avançando. Dentro do banheiro, uma terrível descoberta, que justifica todos os seus temores. Então a coisa que jaz na banheira desperta e estende os dedos mortos para enlaçar o pescoço da criança.

 

É quando o autor interrompe a narrativa de súbito e passa para uma outra trama paralela, mais amena. Lembro que fiquei agoniado, revoltado, eufórico e totalmente fisgado pela leitura. Mas de jeito nenhum eu iria sossegar até descobrir o que aconteceria com o garotinho!

Essa lembrança marcou por ter sido a primeira vez em que percebi conscientemente estar diante de um “truque” literário, de um artifício utilizado pelo autor para envolver o leitor na história. E que bom para mim que esse truque foi justamente o do suspense! Foi paixão à primeira leitura! Fiquei totalmente viciado nessa agoniazinha que vai se acumulando até encontrar o alívio da catarse!

Anos depois, tive outro aprendizado igualmente marcante, ao ler um trecho de outro escritor também famoso, igualmente adaptado para o cinema. Só que dessa vez o aprendizado foi pelo caminho inverso, de como não fazer:

O herói está sozinho em uma cabana no meio da floresta, quando ouve um barulho lá fora. Vai abrir a porta. Sua mão toca a maçaneta. Ele começa a imaginar todo tipo de coisas terríveis que podem estar à espera do outro lado.

 

A essa altura eu já estava meio invocado com o texto, e fui tirar a prova, verificando quantas páginas faltavam para o fim do capítulo. Nada menos que dez páginas. Lembro de ter pensado: “não creio que esse cara vai levar dez páginas para abrir a porta!” Dito e feito. Dez longas, tediosas, previsíveis e totalmente dispensáveis dez páginas que continham nada além de ameaças vazias!

Fiquei muito grato pela lição, mas a partir desse momento o autor deixou de ter a minha simpatia. Um livro perde o meu respeito quando descubro que posso ler saltando páginas, sem perder o fio da meada. Infelizmente há muitos autores, e até bem conceituados, que cometem esse erro primário.

Mas o ganho maior que ficou foi mesmo o aprendizado dessa importante diferença entre o suspense e a ameaça. O suspense segue um conjunto de técnicas apuradas e, em minha opinião, é o nobre herdeiro direto da tragédia grega. Já a ameaça é um recurso apelativo, que subestima a inteligência do leitor. Uma pobre e desprezível técnica, na melhor das hipóteses. Eu, pessoalmente, consigo imaginar bem poucas situações em que o recurso da ameaça mereça ser utilizado. Na verdade não concebo nenhuma situação eu justifique essa prática, pois outras técnicas sempre parecerão preferíveis ao feio truque da ameaça. Afinal, todo mundo sabe muito bem que cão que ladra, não morde!

Resumindo então, queridas e queridos:

Suspense, bom! Ameaça, ruim!
Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora de O Sincronicídio.

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

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6 comentários em “Suspense ou ameaça?

  1. Gostei! Sem querer, eu tenho um hábito meio feio na leitura… Quando estou mto ansiosa, sem querer pulo alguns parágrafos e vou direto para o vocabulário, para ver se as coisas vão se desenrolar rapidamente… E quando percebo que os parágrafos pulados não fazem falta, o livro perde um pouquinho do meu respeito como leitor… Claro, eu sempre volto pra garantir q nao perdi nada, mas meu gosto pela leitura já muda… Adorei a postagem, por acaso \o

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