O mistério do escritor, ou Quem sou eu?

Por Fernando de Abreu Barreto

Então é isso? Chegamos a esse ponto? Os livros não serão lidos porque a foto do autor não é adequada? Porque ele gagueja quando fala em público? Porque não sabe olhar direto para a câmera? Porque fala da intimidade em sua página no Facebook? Sim. Não. É um mistério.

 

Queria escrever sobre escritores. Queria escrever sobre escritores e seus livros. E o processo de criação, os obstáculos, as ferramentas e os macetes. Queria escrever sobre as manias e os anseios de escritores, o que esperam de seus livros, de suas carreiras. O que eles gostam de ouvir sobre escritores e seus livros.
Leio o que foi escrito sobre escritores e seus livros. O que foi escrito sobre literatura na última semana nos principais veículos de comunicação, pelos melhores escritores. O que foi dito pelos profissionais expoentes.
Releio, também, o que escrevi sobre escritores, seus livros e literatura. Reafirmo a certeza que nunca me abandonou: podemos separar escritores entre os comerciais e os mais literários.
Chuck Palahniuk aconselha escritores novatos a não usar verbos de pensamento a fim de melhorar a qualidade literária do texto. Que se dane o Chuck, esse aqui não é um texto literário. Portanto, posso dizer que acredito (penso, acho…) que existam autores mais comerciais e outros cujo texto tem maior valor literário. E acredito, logo em seguida, que alguns textos mais literários podem ser comerciais e algumas obras comerciais podem conter textos com valor literário.
Dito isso, descubro que esse texto tomou um rumo diferente do que eu esperava. Queria escrever sobre autores comerciais, como são apresentados em eventos literários, como se promovem através de diferentes plataformas, como alcançam tanto ou mais valor que seus livros – discussão que encheu as páginas do Caderno Prosa de O Globo do dia 09/08/2014 com excelentes reflexões. Mas descobri, pelo que produzi até aqui (o pouco que produzi), que não sei se eu mesmo sou comercial ou literário.
Aproveitando o mote do último texto do Fabio Shiva, a questão se tornou um grande suspense pra mim. Sempre busco acrescentar valor literário aos meus textos de ficção e acredito (Chuck que se dane, de novo) que sei como fazê-lo. Acredito que tenho sucesso. Mas recentemente o que ouvi a respeito de A Forma da Sombra, que lançarei no próximo dia 30, são elogios ao seu viés comercial.
Queria escrever sobre escritores e a exposição na mídia, nas feiras literárias, na Internet. O primeiro conselho que recebi da agente literária foi alterar minha foto no Facebook, a antiga não condizia com a imagem de escritor que eu projetava e na qual ela passou a acreditar após nossa primeira conversa. Um conselho honesto e corajoso (como deve ser), se você conhecer o tamanho da minha vaidade. Acredito que a atual ainda não esteja adequada. Um dia aprendo a escolher, ou contrato um consultor.
Então é isso? Chegamos a esse ponto? Os livros não serão lidos porque a foto do autor não é adequada? Porque ele gagueja quando fala em público? Porque não sabe olhar direto para a câmera? Porque fala da intimidade em sua página no Facebook? Sim. Não. É um mistério. Ninguém sabe ao certo o que torna um autor vendável, mas suspeita-se do que pode torná-lo comercialmente inviável.
Queria aproveitar o mote do excelente texto do Fabio Shiva e dizer que a promessa do suspense e o embuste da ameaça não estão restritos à ficção literária ou audiovisual. Eles se estendem por tudo o mais. Queria escrever sobre escritores e a exposição na mídia e na internet. Como essa exposição pode ajudar a vender livros e como pode atrapalhar a vender o escritor (se for mal elaborada e executada). A opção que o autor deve fazer entre o mistério que provoca curiosidade e a massificação que impele o consumidor (essa pergunta me veio à cabeça: o escritor que se refugia na montanha foi aposentado pelo mestre da autopromoção?).
Lembrei que não sei onde estou na classificação que eu mesmo ajudo a promover entre obras literárias e comerciais. Não sei que escritor eu sou. Termino personagem de mim mesmo, aguardando convites para feiras literárias e programas de rádio/televisão em que pretendo falar sobre livros e escritores e literatura. O escritor que não consegue adequar a foto da rede social à imagem real. Uma personagem misteriosa. Suspense ou ameaça?

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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4 comentários em “O mistério do escritor, ou Quem sou eu?

  1. Pois é… Confesso que tenho certa dificuldade para definir o que/quem sou. Se posso/não posso fazer isso/aquilo. Posso dizer que sou de direita no fb? Ou que na verdade sou comunista? Posso defender o casamento gay? Ser contra o aborto ou a favor da pena de morte? Ou tenho, necessariamente, que manter uma distância de temas polêmicos, evitar posicionamentos controversos? Para ser um escritor que vende — ou que pretende vender — estou proibido de ser eu? Este artigo é muito instigante, embora não traga uma resposta. Põe-nos para pensar. Somos, afinal, um produto para ser vendido?

  2. É uma questão interessante: até que ponto a aparência e as ideias do autor-indivíduo podem afetar a percepção do público quanto à obra? Autores bonitos, com boa capacidade de comunicação, engraçados, estão em vantagem quanto aos demais?

    Infelizmente, quando confiro a lista dos livros mais vendidos, tenho a impressão que sim. Contudo, a aparência e as opiniões do autor sempre foram para mim detalhes de menor importância. Só com o advento da internet, por exemplo, fui saber de detalhes das vidas de alguns escritores que eu admirava ou fui conhecer seus semblantes. Antes, às vezes, nem a foto vinha na orelha do livro. Até hoje, por exemplo, não chequei como aparentava o Saint-Exupéry ou a Adriana Falcão (autora do ótimo A Máquina). Não sei se foram/são de direita, centro ou esquerda. Veganos, pró-aborto, simpatizantes do socialismo? Não sei. Nunca fez diferença. Leria, sem pensar duas vezes, um ótimo livro de alguma autora criacionista, classista e de ultradireita, desde que seus conceitos “tortos” não contaminem a obra. Já imaginou se resolvêssemos não ler Borges pq ele aparece em geral como um idoso cego (e ainda por cima era Argentino!) nas orelhas de seus livros? Precisamos então de personal stylists, bronzeamento artificial, malhação pesada, para entrar na “vibe” do público mais jovem? Ou devemos nos travestir de autores-malditos-que-não-se-importam-com-nada?

    Enfim, muito bom o artigo, que suscita discussões acaloradas.

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