Mapas, cartas, diários e outras antiguidades

Por José Geraldo Gouvêa

O desa­pa­re­ci­mento da carta foi tão grande que se você fizer seus per­so­na­gens tro­ca­rem car­tas os lei­to­res jovens pro­va­vel­mente enten­de­rão o con­texto mais ou menos como a ilu­mi­na­ção de per­ga­mi­nhos na Idade Média. Para os ado­les­cen­tes de hoje, não há muita dife­rença entre uma carta e um per­ga­mi­nho de fei­ti­ços.

 

Ocorreu-​​me ontem, ao ler mais uma sinopse de romance, o quanto nós ainda esta­mos pre­sos ao pas­sado de for­mas que não per­ce­be­mos. Os índios do Xingu tem um con­ceito que expressa bem isso. Segundo nar­rou Orlando Villas-​​Boas, quando ele e outros ser­ta­nis­tas acom­pa­nha­vam os índios em cami­nha­das pela flo­resta, se os bran­cos for­ça­vam muito o ritmo, os índios pediam para fazer uma parada. Depois de ver isso ocor­rer várias vezes, perguntaram-​​lhes por que e os índios dis­se­ram que os bran­cos que­riam andar muito depressa, mas era pre­ciso parar quando em vez, para dar tempo às suas almas para alcan­ça­rem os seus cor­pos. Sim, parece-​​me que o mundo evo­lui tão depressa que dei­xa­mos nos­sas almas per­di­das lá atrás. Isso tal­vez expli­que por­que, mesmo no mundo louco e tec­no­ló­gico em que já vive­mos ainda este­ja­mos pen­sando segundo mode­los men­tais de um pas­sado recente.

Um bom exem­plo são os diá­rios. Mui­tos auto­res ainda fazem seus per­so­na­gens escrevê-​​los, mas nada é tão ana­crô­nico. Quem em sã cons­ci­ên­cia ainda abre um caderno para escre­ver « que­rido diá­rio » no alto de uma folha? Só cri­an­ças, mas elas ainda o fazem por­que o con­ceito ainda está na tele­vi­são e na lite­ra­tura infantil.

O diá­rio sur­giu com os alqui­mis­tas, que toma­vam notas diá­rias de suas expe­ri­ên­cias para acom­pa­nhar o seu desen­vol­vi­mento. Os nave­ga­do­res tam­bém tinham o seu tipo de diá­rio, que cos­tu­mava incluir as coor­de­na­das geo­grá­fi­cas em que cada entrada era escrita. Ambos tinham uma obses­são com a con­ta­gem do tempo, embora por moti­vos dife­ren­tes. O diá­rio pes­soal surge mais tarde, na Europa, por influên­cia do diá­rio de nave­ga­ção. As famí­lias de mari­nhei­ros, ou os pró­prios mari­nhei­ros apo­sen­ta­dos ou em folga, ou o hábito des­tes de regis­tra­rem em forma de diá­rio suas vicis­si­tu­des. Porém, dife­rente dos outros, o diá­rio pes­soal tinha uma forma mais livre. Afi­nal, as coor­de­na­das geo­grá­fi­cas não mudam muito quando você está cur­tindo a apo­sen­ta­do­ria sen­tado em uma cadeira de balanço.

Com o tempo o diá­rio se tor­nou « coisa de meni­ni­nha » ou de dona de casa ente­di­ada que, sem ter com quem con­ver­sar, enchia cader­nos escre­vendo « que­rido diá­rio ». Foi essa a ima­gem de diá­rio que mais se per­pe­tuou. O diá­rio de bordo pra­ti­ca­mente já não tem uso, por­que os navios são acom­pa­nha­dos em tempo real atra­vés de GPS e radi­o­co­mu­ni­ca­ção. O diá­rio cien­tí­fico ainda é usado, embora já não seja pare­cido com o que se fazia no pas­sado, e hoje se chama « relatório ».

O diá­rio pes­soal é um ana­cro­nismo por­que já não exis­tem as razões pelas quais era escrito. As donas de casa ente­di­a­das quase já não exis­tem, e os diá­rios foram subs­ti­tuí­dos por blogs e redes soci­ais. Por­tanto, é extre­ma­mente impro­vá­vel que seu per­so­na­gem escreva um diá­rio, a menos que ele seja um per­so­na­gem de época, ou um per­so­na­gem meio ridículo.

Por sua vez, o hábito de escre­ver car­tas já desa­pa­re­ceu, e desa­pa­re­ceu tão rápido que mal o vimos desfazer-​​se no ar. Em 1997 a carta ainda era o prin­ci­pal meio de comu­ni­ca­ção. Quando criei a revista lite­rá­ria « Trem Azul », em par­ce­ria com o Emer­son « Toqui­nho » Tei­xeira Car­doso, reu­ni­mos um fichá­rio com os ende­re­ços de mais de 500 escri­to­res do Bra­sil e do mundo. Quando vol­tei de minha ina­ti­vi­dade lite­rá­ria, em 2005, subi­ta­mente aquilo não tinha mais nenhum valor.

As car­tas per­de­ram o sen­tido com a inven­ção do e-​​mail e a popu­la­ri­za­ção de tele­fo­nes celu­la­res. Da segunda vez que fiz uma revista lite­rá­ria, toda a comu­ni­ca­ção foi feita por cor­reio ele­trô­nico. Uma situ­a­ção como a do filme « Cen­tral do Bra­sil », em que pes­soas anal­fa­be­tas paga­vam a uma outra para que escre­vesse car­tas para a famí­lia dis­tante, nos parece mais ali­e­ní­gena do que uma civi­li­za­ção mar­ci­ana. Aquele filme tal­vez não tenha ganhado o Oscar por­que nos EUA a revo­lu­ção do e-​​mail já acon­te­cia, enquanto nós ainda está­va­mos pre­sos no século XIX. Hoje um filme como aquele não seria feito, não só por­que o assunto já não existe, mas por­que o público de hoje já teria difi­cul­da­des para enten­der: o anal­fa­be­tismo pra­ti­ca­mente desa­pa­re­ceu e quase nin­guém escreve cartas.

A ideia de espe­rar sema­nas pela res­posta parece exas­pe­rante aos jovens de hoje, e eles tem razão: car­tas eram uma merda para fins de comu­ni­ca­ção, e sua única van­ta­gem era a pos­si­bi­li­dade de serem cole­ci­o­na­das e pos­te­ri­or­mente publi­ca­das. Uma das per­das do futuro será não ter­mos mais a « cor­res­pon­dên­cia » dos escri­to­res edi­tada. Será uma perda grande. E-​​mails e redes soci­ais são pre­cá­rios e pro­va­vel­mente se per­de­rão no buraco da memó­ria. Se eu ama­nhã ou depois me tor­nar uma lenda da lite­ra­tura, os filó­lo­gos e crí­ti­cos do futuro não terão como desen­ca­var minha cor­res­pon­dên­cia com meus pares: ela não exis­tirá, embora eu tenha sido muito atu­ante nas redes soci­ais (Orkut, Forms­pring, Face­book, Plus e VK.com).

O desa­pa­re­ci­mento da carta foi tão grande que se você fizer seus per­so­na­gens tro­ca­rem car­tas os lei­to­res jovens pro­va­vel­mente enten­de­rão o con­texto mais ou menos como a ilu­mi­na­ção de per­ga­mi­nhos na Idade Média. Para os ado­les­cen­tes de hoje, não há muita dife­rença entre uma carta e um per­ga­mi­nho de fei­ti­ços. Em duas gera­ções, já não sen­ti­rão dife­rença entre um livro físico e um gri­mó­rio. O livro, aliás, já está se tor­nando uma espé­cie de feti­che, o que denun­cia sua deca­dên­cia como mídia. As pes­soas chei­ram livros como se eles fos­sem entes que­ri­dos, que­rem tê-​​los em edi­ções de luxo como se fos­sem tesou­ros. Anti­ga­mente os livros eram vis­tos de uma forma estri­ta­mente uti­li­tá­ria: nin­guém valo­ri­zava mais uma obra por ter « capa dura » ou « papel pólen ». Mui­tos livros de qua­li­dade só foram ganhar edi­ções de luxo déca­das após sua publi­ca­ção ori­gi­nal. Mui­tos auto­res famo­sos foram publi­ca­dos ini­ci­al­mente em revis­tas impres­sas em papel rús­tico (« pulp ») e de capa mole. Essa mudança já é reflexo do papel mís­tico que está sendo atri­buído ao livro, e o futuro nos reserva uma revi­são radi­cal do papel e da forma da lei­tura na sociedade.

Uma revo­lu­ção com­pa­rá­vel à do mapa rodo­viá­rio (e dos mapas em geral, mas o caso do mapa rodo­viá­rio é tan­gí­vel). Antes da inven­ção do GPS as via­gens de férias pre­ci­sa­vam do infa­ti­gá­vel « Guia 4Rodas », com seu « Mapa Rodo­viá­rio do Bra­sil », que repre­sen­tava as prin­ci­pais estra­das do país atra­vés de linhas colo­ri­das e códi­gos engra­ça­dos. Em caso de dúvida, parar na beira da estrada, esten­der o mapa sobre o capô e ten­tar des­co­brir para onde ir. Quase sem­pre a cena inde­fec­tí­vel dos anti­gos fil­mes de via­gem: o marido que tei­mava em con­fiar no mapa em vez de per­gun­tar pelo cami­nho aos tran­seun­tes aca­bava indo parar em algum fim de mundo assom­brado. Ainda nos anos 1990 a revista « Pira­tas do Tietê » publi­cou uma tiri­nha sobre um entre­ga­dor de pizza que foi parar no inferno ten­tando seguir um mapa rodo­viá­rio até Guai­a­na­ses. Se suas his­tó­rias estão ambi­en­ta­das no pas­sado, seus per­so­na­gens pre­ci­sam pas­sar por essa dificuldade.

Mas hoje em dia nin­guém com­pra­ria o Guia 4Rodas, tal­vez nin­guém mais saiba ler um mapa rodo­viá­rio. Eu mesmo já me esqueci como era. Esta­mos acos­tu­ma­dos à ideia do Goo­gle Mapas (ou do iMaps, para você que pre­fere pro­du­tos da Apple) e dos GPS. O mapa não pode ser uma folha de papel dobrada, pre­cisa ser algo dinâ­mico, que se pode con­sul­tar enquanto dirige. A ideia de parar na beira da estrada para ler um mapa nos parece tão absurda quanto espe­rar sema­nas pela res­posta a uma carta de amor. Vive­mos a velo­ci­dade, em todos os aspec­tos, e pre­ci­sa­mos da ins­tan­ta­nei­dade, do macar­rão ao amor de nos­sas vidas, tudo tem que vir em três minu­tos, e ser con­su­mido igual­mente rápido.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas.

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

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