Como (ou onde) tudo começou*

Por Ricardo Gnecco Falco

Eis aqui o grande mistério da literatura. Na verdade, de toda e qualquer criação humana. Nós somos criaturas. Ou seja, fomos criados. E também criamos; podemos criar. Somos, portanto, além de criaturas, criadoras.

Descobri, em insones incursões virtuais pelas madrugadas do ano de 2008, uma interessante comunidade literária, existente na então rede social que bombava (mesmo!) naquele momento no país… O bom, velho e saudoso — e falecido! — Orkut. A “Novos Escritores do Brasil” — ou N.E.B. para os íntimos — foi uma das mais famosas e bem conceituadas comunidades do gênero na Era Pré-Facebookiana. Com mais de 10.000 membros, este verdadeiro celeiro literário reunia jovens escritores de diversas partes do Brasil (e de brasileiros que viviam no estrangeiro também), que se “encontravam” ali, unidos por uma mesma paixão, que era exatamente a criação literária. Em uma atmosfera de ajuda mútua, novos e inseguros autores mostravam seus primeiros escritos; trabalhos que muitas vezes deixavam o fundo de uma gaveta velha e esquecida e que, uma vez postados ali, rendiam-lhes (e a todos os demais escritores em início de caminhada) valorosas trocas de experiências, impressões, dicas, críticas (é claro) e discussões sobre literatura em geral. Além disso, eram promovidos concursos literários internos, onde os próprios participantes se tornavam réus e juízes. A animação e a vontade de alçar voos maiores também rendiam produções que logo começaram a ultrapassar o próprio território da comunidade, vencendo inclusive a barreira do virtual, como foi o ocorrido com a publicação — física — de uma revista literária com distribuição nacional, contendo textos de participantes que se destacavam não apenas pela qualidade de suas obras, mas também pelo empenho em produzir e bancar estas verdadeiras “travessuras” que, principalmente naquela época, significavam tocar um projeto daquele tipo em meio ao mercado edi(ta)torial vigente no país.

Eu fazia parte daquela turminha inquieta e sonhadora e, ainda descrente diante de toda a boa recepção que minhas primeiras histórias obtinham em meio aos meus iguais. Ali na comunidade decidi testar até que ponto poderia realmente me sentir mais à vontade e seguro, fazendo aquilo de que tanto gostava e que me dava tanto prazer, mesmo que um prazer solitário e destinado à clausura de alguma gaveta velha do meu armário.

Resolvi então que iria sair do armário…

Um armário literário que, até aquele momento, me prendia num mundo casto e incólume. Um mundo meu. Particular. Só meu. Abri as gavetas mais empoeiradas e, libertando-me das traças do medo, resgatei tudo o que já tinha escrito e guardado até então. Revisei com esmero e gratidão. Gratidão a mim mesmo por ter guardado aquilo tudo. Acho que nem fotografias me fariam recordar de forma tão exultante os sentimentos contidos ali, naquelas linhas. As impressões expressas ali. As emoções acionadas dali; do fundo de uma gaveta transformada em metáfora.

Passei a participar ativamente da comunidade, postando em média um conto por semana. Às vezes um poema (Estes ainda guardo comigo, embora já preparados para o voo derradeiro)… Não perdia mais um concurso interno sequer. Aprendi muito por lá e conheci pequenos grandes escritores que já eram certezas para mim nas sementes que anos mais tarde germinaram fertilmente. Fiz grandes amizades. Amigos que nunca vi pessoalmente, fora raras exceções, mas que posso afirmar conhecer muito além dos que vejo diariamente. Existem histórias que li nesta época que, até hoje (estamos em 2014!), não esqueci. Cenas marcantes, estilos traçantes, leituras edificantes; que influenciaram e influenciam a minha própria escrita. Experiências que me moldaram e que levarei para o fundo da grande e derradeira gaveta, um dia.

Mas estamos falando sobre como tudo começou, e não o contrário… 😉

Tinham algumas folhas ainda praticamente virgens que foram resgatadas de dentro do meu armário. Algumas continham somente frases, não terminadas, desconexas. Eram apenas ideias. Ah, as ideias… Quando vi, estava escrevendo novas histórias. Como se houvesse encontrado uma cápsula do tempo, recebendo mensagens escritas e enviadas por mim mesmo do passado. Um passado tão presente quanto o futuro dado àquelas belíssimas preciosidades. A inspiração é realmente uma piração. Uma doideira. Louca! Anotações em guardanapos de bares que já nem existiam mais se transformavam em páginas e mais páginas que pareciam exaurir uma fumaça etílica, nostálgica. À bagagem não disponível de outrora era acrescido o aprendizado do tempo; como um fruto colhido da árvore do ontem — ainda hoje não plantada — a esperar pela digestão de sua saborosa polpa e, somente então, revelar a semente originária.

Eu disse… Insanidade pura.

O fato é que se deu início a um vergel tão profícuo que em determinado momento percebi-me de volta àquela gaveta. Só que a mesma agora era a própria comunidade do Orkut. Havia ficado confortável escrever por lá. Para lá. (Só) por lá. Recebi a informação “quente” de um grande amigo da N.E.B. (daqueles que nunca vi pessoalmente; ainda!) sobre a abertura de um processo seletivo de textos a serem publicados em uma antologia de contos por parte de uma editora focada em jovens escritores. Lembro de minha mão tremendo vexativamente sobre o mouse, no momento de clicar no botão para enviar a obra. Era o começo de 2009 e, até então, eu nunca, jamais, nunquinha tinha publicado qualquer escrito meu fora do “ninho”.

O primeiro!

Mas, aquele salto de fé rumo ao desconhecido acabou se transformando em um lindo voo. Meu conto acabou sendo escolhido (e o do meu amigo de comunidade também!) e, em maio daquele mesmo ano, tive minha primeira obra publicada em papel. Foi — e não poderia ser diferente — uma emoção muito grande; um momento muito significativo para mim e, sobretudo, de extremo valor simbólico. Mais do que escrever para desconhecidos, eu seria lido por desconhecidos. Do Brasil inteiro. Ou seja, aquela obra que eu havia escrito, já não era mais minha. Particular. Somente minha. Ela havia ganhado o mundo. Um mundo de possibilidades, interpretações, sentidos. Sentimentos…

Afinal, para que existe uma história? Para que ela veio ao mundo? Com que intuito ela nasce? De onde vem? Para onde vai?

Eis aqui o grande mistério da literatura. Na verdade, de toda e qualquer criação humana. Nós somos criaturas. Ou seja, fomos criados. E também criamos; podemos criar. Somos, portanto, além de criaturas, criadoras. Criativas Criaturas Criadoras. E, se criamos algo, é mais do que natural que esta cria também crie. Pois, o que criamos também foi criado da criação de outra cria, anterior à nossa. Ou, posterior… Conforme o exemplo do guardanapo, previamente citado. Assim sendo, a grande descoberta; o grande Nirvana; a esplendorosa Iluminação ao passar por este inesquecível momento da primeira publicação é, exatamente, a constatação da intemporalidade. Ou atemporalidade. A total desvinculação temporal — criação humana! — do ato criativo. O desprendimento de nós mesmos, a momentânea ruptura paradigmática de um elo da grossa corrente do tempo, libertando-nos da escravidão libertina das horas.

Foi como o efeito de uma antidroga, viciante, porém construtiva ao invés de destrutiva. De onde vem, para onde vai… Não importa. O importante é continuar indo e vindo; sempre! E a este crescente desejo latente somou-se a vontade de levar a experiência aos amigos da comunidade literária que me fizera dar o grande salto do desprendimento autoral. Aquele sentimento mesquinho, pequeno, vil. Egoico sentimento de posse. Posse ilegal de arte. Arte que flui; que vem e que vai. Que existe para passar. Assim como cada um de nós nesta curta vida. Então decidi “dar passagem” a tudo o que havia criado e que, muito mais do que fluir de mim, sentia fluir em mim, através da escrita.

Dei passagem.

Antologias seguintes contendo obras de minha autoria.

Comecei a inscrever, nas seletivas subsequentes daquela mesma editora — obra por obra —, tudo que já tinha escrito até então e, em meio a este boom expositivo, decidi que iria transformar em realidade a produção de um livro contendo também as maravilhosas criações dos colegas lá da comunidade literária do Orkut. Busquei informações, fiz orçamentos, calculei, planejei e lancei a proposta no grupo. Lancei a semente… E provei (com base nas informações, orçamentos feitos, cálculos e planejamento) que seria possível produzir um livro — nós mesmos! — reunindo um número X de autores dali, com Y obras de cada, totalizando Z páginas. E por um preço igual ao de uma noitada com a namorada ou amigos em algum bar ou boate! Tudo o que precisaríamos seria reunir o tal número X de colegas dispostos a se comprometer com o projeto.

Não sei se as namoradas dos escritores que toparam a ideia ficaram sabendo da infame proposta, mas eu estava decidido a dar prosseguimento ao projeto. Botei minhas orelhas e os próximos salários na reta e assumi (sem que minha noiva na época suspeitasse, é claro) o contrato para produção do livro com a editora em questão. Liberei o número de minha conta para os participantes depositarem as respectivas partes e, à partir daquele momento, contei apenas com a Misericórdia Divina e com a palavra de meus amigos virtuais escritores espalhados por diversas partes do Brasil. Paralelamente, fazia a revisão final dos textos e a diagramação/projeto gráfico do que viria a ser o miolo de nosso futuro livro.

Para encurtar a história (e finalizar este post, que já ficou gigante!), alguns percalços depois — desistências e replanejamentos de última hora sempre fazem parte da gestão de riscos de qualquer projeto –, meu noivado pode prosseguir sem sobressaltos e, em março de 2010, nasceu a 1ª Antologia de Contos da N.E.B., o Projeto Piloto intitulado “REDE DE CONTOS“, minha primeira incursão “do lado de lá da Força”, como Organizador.

Capa da antologia

Texto publicado originalmente no blog Produzindo Livros.

Jornalista, Escritor e Produtor Editorial. Autor dos livros “Literatividades – Contos Escolhidos” (Antologia, 2013) e “Subterfúgio” (Romance, 2012). Organizador das antologias “Desencontos” (2011) e “Rede de Contos” (2010).

Editor-chefe na Seu.Livro.Pronto, produtora editorial focada em novos escritores.

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Entretendo a Arte

Por Eduardo Selga

Não é possível o leitor atento desperceber-se, por exemplo, do narrador construído por Clarice Lispector em A hora da estrela, ou da estrutura das cenas dada por Nelson Rodrigues em Vestido de noiva. Em ambas as obras o leitor é retirado de seu lugar de conforto, não há que se falar em recreação.

Ao participar do recente desafio do site Entrecontos, “Arcanos Maiores do Tarô”, tive a oportunidade de observar com muita nitidez, disperso em vários comentários anexos às obras, o juízo de que o conto precisa ser, antes de qualquer coisa, objeto a proporcionar entretenimento ao leitor.
Esse conceito, que numa rápida passada d’olhos sem maior criticidade talvez tenha ares de ponto pacífico, em verdade não o é. Ao contrário, está sempre em pauta nas discussões teóricas que dizem respeito à literatura contemporânea brasileira, e não envolve apenas o sinuoso terreno da estética: às grandes editoras interessa muito esse reducionismo conceitual, pois mediante ele o público médio entende por “grande escritor” o ficcionista ou poeta que vende muito. Ou seja, um balconista da palavra. Livro é, primordialmente, consoante esse entendimento, objeto tão mercadológico quanto a margarina ou a calça jeans; apenas num plano secundário ele é visto como obra de arte.
Será mesmo válido o peso de um texto ficcional que se pretenda literário ser mensurado por meio desta balança viciada? Ou seja, se o conto ou romance não lograr êxito no “quesito” divertimento, caso ele não entretenha o leitor, deve ser considerado literariamente ruim?
Ora, apenas cativa o leitor o texto que orbita seus mesmos códigos estéticos. Estes, por sua vez, resultam da experiência individual e social do leitor, além de como ele assimila os múltiplos discursos que permeiam a sociedade. Assim, caso o leitor tenha pouca afinidade com o subjetivo e o simbólico, e viva num ambiente que reforce essas carências, um texto que contenha tais elementos não vai entretê-lo. Muito pelo contrário, será uma experiência aborrecida. Então, conclui-se, distrair esse distinto público leitor significa corroborar seu pequeno universo estético, jamais bater de frente, pois é preciso “falar a sua língua”. Se nada é acrescentado, se nenhuma pulga é posta atrás da orelha do leitor, a narrativa que segue à risca esse preceito funciona como um instrumento de manutenção de uma estética pobre e abundantemente propagandeada pela mídia, na qual tudo é dado ao leitor de tal modo que seu esforço interpretativo resulte mínimo.
Não é à toa que as telenovelas (convergência de três textos, o escrito, o visual e o sonoro), talvez o produto de maior sucesso da indústria cultural brasileira, consigam grandes audiências: elas apostam nessa estética da repetição, mostrando sempre mais do mesmo, com ligeiras mudanças. O público adere à narrativa televisiva não porque desconheça o que acontecerá aos personagens (ele sabe perfeitamente que o vilão será punido e que haverá um “felizes para sempre”): antes, interessa-lhe como a trama será conduzida de modo a chegar ao final catártico que ele, espectador, aguarda; interessa-lhe é saber como o vilão malvado pagará pelos seus erros e quais caminhos serão percorridos para que o amor sincero entre a princesa e seu príncipe encantado se efetive. Uma eventual solteirice da princesa ou a vilania sair triunfante são hipóteses que não lhe passam pela cabeça.
Literatura com “L” maiúsculo não pode se equiparar ao mingau ralo do passatempo. Por ser uma das manifestações da arte, praticá-la significa, necessariamente, subversão de conceitos e padrões literários e, ao mesmo tempo, conhecê-los muito bem, pois é preciso conhecer o labirinto para conseguir sair dele. Os melhores contos e romances publicados no Brasil a partir do Modernismo, por exemplo, são justamente aqueles cuja construção textual contempla alguma quebra de sistema estabelecido, não repetem ao pé da letra todos os elementos da fórmula da chamada boa literatura. São textos que fazem exatamente o oposto do entretenimento: elefantes cor-de-rosa próximos à cristaleira bem no meio da sala de estar e lançados quando a indústria cultural não era tão virulenta, eles incomodaram, e alguns ainda hoje causam surpresas. Não é possível o leitor atento desperceber-se, por exemplo, do narrador construído por Clarice Lispector em A hora da Estrela, ou da estrutura das cenas dada por Nelson Rodrigues em Vestido de Noiva. Em ambas as obras o leitor é retirado de seu lugar de conforto, não há que se falar em recreação.
Ademais, autores cuja fertilidade é reduzida ou os em demasia subservientes às regras da indústria cultural que determina uma estética narrativa de best seller (enredos simples, personagens rasos, constante uso de estereótipos e a presença da peripécia), ao produzirem apenas o mesmo rame-rame de sempre, estão de certa maneira contribuindo para que seu público leitor não avance interpretativamente, na medida em que pressupõe a inépcia desse leitor em alcançar elaborações textuais mais amplas e complexas. É bem verdade, felizmente, que o ficcionista, não tem esse dever didático, mas é preciso entrever o desserviço que sua atitude pode representar.
Tudo isso posto, acredito que a ansiedade dos participantes dos futuros desafios do Entrecontos não deva se concentrar em fazer do texto um parque de diversões edificado com palavras; antes, o autor precisa se perguntar, após o ponto final, se o resultado estético alcançado é relevante, do ponto de vista artístico. Ao questionar o texto, e a si mesmo, talvez seja interessante ter como epígrafe a famosa frase de Chacrinha: “Eu vim pra confundir, não pra explicar”.

Eduardo Selga é um capixaba que nasceu no Rio de Janeiro (1968) por algum acaso. Professor de Língua Portuguesa, mestrando em Literatura produzida no Espírito Santo. Contos publicados em coletâneas de 2004 e 2009, livro individual em 2005 (A morte de João Mocinha, ed. Papel&Virtual); ensaios em coletânea de 2008 e pela UFES em 2010 (Pessoa, persona, personagem); contos e artigos nos jornais A Tribuna e no Caderno Pensar (A Gazeta) a partir de 2009; conto na coletânea organizada pela Prefeitura de Vitória e Academia Espírito-Santense de Letras, Escritos de Vitória (28). Em 2013 foi um dos agraciados no concurso literário da UFES na categoria contos.