Como criar um bom vilão*

Por Cristine Tellier

Numa estrutura clássica, espera-se que o herói desmascare o vilão e o liquide. Não hesite em sair do lugar-comum.

É muito importante que seu herói funcione, assim como é fundamental que seu vilão funcione. A literatura está repleta de vilões, uns mais diabólicos ou maquiavélicos que os outros. Precisando de uma ajuda para criar um personagem cuja maldade seja inigualável? Seguem algumas dicas.

Dê credibilidade

A palavra de ordem para um vilão é “credibilidade”. É, de fato, indispensável que o personagem fuja da caricatura enquanto se distingue e se destaca dos demais. É preciso que ele seja verossímil. Com certeza, alguns gêneros permitem que sejam criados vilões monstruosos ou propositalmente caricaturais. Mas funcionam apenas nesse contexto, pois o leitor se deixa levar pelo clima, se permite um exercício mental. Para um vilão ser convincente, é preciso que ele seja complexo, com uma lógica toda sua.

Crie antecedentes

Construir um passado para seu vilão é fundamental. Quem é ele? De onde ele vem? Quais são suas motivações? O que o transformou no que ele é hoje? Se esses elementos não serão revelados ao leitor de uma vez, pelo risco de acabar instantaneamente com todo o suspense, você deve tê-los em mente sempre que for escrever. São eles que guiam o vilão, que explicam seus gestos e que talvez lhe inspirem novas cenas.
À medida que escreve, talvez você ache que alguns elementos biográficos do vilão não são úteis à narrativa. Deixe-os de lado sem hesitação, melhor ter pecado pelo excesso que pela falta.

Evite arquétipos

Atenção, a caricatura espreita aqueles que se precipitam. É tentador enfatizar uma característica do seu vilão (sua crueldade, sua desonestidade, etc.) em detrimento das demais. A fórmula pode funcionar mas corre-se o risco de confinar o personagem dentro de limites e assim minimizar seu impacto.
Ao invés disso, prefira vilões multifacetados, exponha-o a diversas situações e crie um personagem diabolicamente humano. Ele ficará ainda mais convincente e salientará ainda mais o antagonismo com o herói.

Cause impacto no leitor

Seja emocionando, escandalizando, irritando, tirando do sério ou enojando, seu vilão deve ter um efeito forte sobre o leitor. É preciso criar uma certa expectativa, de curiosidade no leitor, que o impulsione a continuar lendo sem parar para descobrir como o vilão irá evoluir e quão longe ele irá para atingir seu desejo de vingança, ou outra motivação.
Para envolver bastante o leitor, dê-lhe certa vantagem sobre os personagens. Descrevendo alguns hábitos do vilão ou ambientando o leitor no seu cotidiano descrevendo cenas escolhidas a dedo, você dará oportunidade a ele – o leitor – de conhecer facetas do vilão que o herói ignora. Além disso, sabendo mais a respeito, a tendência do leitor é compreender melhor o vilão, deixando-o ainda mais envolvido com a história.

Não condene muito depressa

Numa estrutura clássica, espera-se que o herói desmascare o vilão e o liquide. Não hesite em sair do lugar-comum. O efeito surpresa é sua melhor arma para prender a atenção dos leitores. Dê-lhes pistas falsas, deixe-os em dúvida sobre o desenrolar da trama. E, por que não, talvez no final quem vença seja o vilão…

 * Tradução do artigo Comment créer un “bon” méchant dans un récit?, escrito por Astrid & Quentin, em 20/01/2014, no site Edilivre.

Paulista, viciada em livros, corredora, analista de sistemas, preparadora/revisora de textos freelancer. Em parceria com Douglas Pereira, desde o início de 2013 mantém o Cafeína Literária. Mantém também dois blogs mais “pessoais”: o Luzes, câmera, café! e o Meia Maratona em 1h50m. Além disso, é colaboradora dos sites Vortex Cultural, Leitor Cabuloso e CineMasmorra.