Saudosas cantadas

Por Fernanda Botta

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor […]

 

Despudorados como um gracejo de botequim. Assim são os livros da já saudosa – e, diga-se de passagem, acertadamente nomeada – coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense. Criada nos anos 1980 e focada no público jovem, a Cantadas Literárias dedicava-se a lançar escritores então desconhecidos. Foi através dela que toda uma geração conheceu Paulo Leminski, que a pedido dos editores escreveu o romance “Agora é Que São Elas”; Caio Fernando Abreu, que por meio da coleção publicou o cult “Morangos Mofados”, e Marcelo Rubens Paiva, que na ocasião nem podia imaginar que o seu “Feliz Ano Velho” se tornaria um sucesso comercial, com direito a filme estrelado pela atriz Malu Mader. Também com ela muita gente conheceu a poesia de Chacal, Chico Alvim, Ana Cristina César e Martha Medeiros, que à época era uma jovem estudante de publicidade.

Embora estilisticamente díspares, todos os autores discorriam francamente sobre sexo, drogas e identidade, entre outras questões típicas de jovens de qualquer tempo e lugar. Em suma, tinham em comum uma temática e uma linguagem mais acessíveis. Ou pelo menos mais próximas do jovem do que os aborrecidos clássicos que ele era obrigado a ler na escola. Perdoem-me os puristas, mas esperar que alguém tenha prazer na leitura partindo de O Guarani, de José de Alencar – e suas longas e muitas linhas apenas sobre o banho de uma mocinha – é pedir demais. Eu sei disso, você sabe disso, Caio Prado Júnior sabia disso. Quando pensou em uma literatura que pudesse efetivamente aproximar o adolescente dos livros, o então diretor da Brasiliense acertou em cheio. “É verdade que se lê pouco no Brasil?”, perguntava na contracapa do primeiro número. A coleção vendeu como água.

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor – ou pelo menos a dezenas de citações de sua obra. Para quem usa o Twitter, é ainda mais fácil. É só seguir o usuário @CaioFAbreu, criado por um leitor, e voilà! As citações aparecem em sua página. Citar Caio Fernando Abreu hoje é banal como escovar os dentes. Mas nem sempre foi assim.

É claro que os pais e a crítica torceram o nariz. Imagine só um livro que narre, de qualquer forma, o ato sexual? Ou que tenha em seu vocabulário uma boa dúzia de termos para descrever a genitália humana, termos que nem meu blog de família teria a coragem de reproduzir? Ou que fale abertamente sobre drogas ilícitas? Ou pior, faça tudo isso de forma despojada, livre das amarras daquilo que era considerado correto dentro da literatura? Era uma afronta. Fernando de Barros e Silva, em um artigo de 1989 do falecido suplemento Letras, do jornal Folha de S. Paulo, considerou a coleção um investimento dos editores “em temas do cotidiano e textos fáceis para arrebanhar um público sem cultura e carente de referências literárias”.

Mas o tempo passa, o tempo voa, e a coleção hoje é referência. E é uma pena que, tão esquecida e necessária quanto aquele bilhete desavergonhado com um número de telefone trazido pelo garçom, só se encontre em sebos.

Fernanda Botta, 27 anos. Jornalista cultural, tradutora freelancer, escritora de ocasião, péssima com definições. Tem mais textos dela no blog bissexto (como ela mesma define) 8linepoem.

Haja Continuação

Por Marcelo Porto

Avaliando criticamente o assunto, visualizei várias semelhanças entre a cultura do Blockbuster e a do Best-Seller, em ambas o que vale é a assimilação fácil por parte do consumidor […]

Zapeando pela TV me deparei com um documentário sobre a indústria do cinema em Hollywood e uma frase fez explodir o meu sentido de aranha: “…os dramas estão extintos…”.

O programa mostrava como a indústria do entretenimento americana é dependente dos Blockbusters e a minha maior surpresa foi a afirmação de que quanto maior o orçamento de um filme, menor risco ele corre. Em várias entrevistas se afirmou que orçamentos abaixo dos U$ 35 milhões, não eram aceitos simplesmente porque um baixo orçamento significaria um filme sem possibilidades comerciais(!!!).

Outro dado assustador é o curtíssimo tempo de avaliação para o sucesso ou fracasso de uma obra, a sexta-feira de estreia. Todos os investimentos em marketing, logística e produção precisam se pagar na “primeira semana”, uma praga hollywoodiana onde um dia é suficiente para vaticinar o futuro de um filme. O consenso, entre os entrevistados, é de que a marca mínima de faturamento seria de U$ 150 milhões no dia do lançamento, abaixo disso seria uma hecatombe nuclear.

Essa ditadura se traduz numa avalanche de refilmagens, adaptações, sequências e plágios despudorados, que resumem as opções em Blockbusters ou comédias familiares, sendo cada vez mais difícil ver um filme que fuja desta regra. No próprio documentário havia uma segmentação para isso: comédia familiar: U$ 35 milhões; Blockbuster: U$ 200 milhões. Nos grandes estúdios, ou é um ou é outro.

Avaliando criticamente o assunto, visualizei várias semelhanças entre a cultura do Blockbuster e a do Best-Seller, em ambas o que vale é a assimilação fácil por parte do consumidor, uma padronização mercadológica baseada apenas em números, criando um círculo vicioso difícil de se romper.

Na tirania das listas dos mais vendidos se nota uma tendência de obras para consumo imediato, uma padronização e um excesso de continuações bem ao estilo Hollywoodiano. Não me aprofundei em números, mas deduzo que os investimentos e a filosofia por trás dos Best Sellers devam ser bem parecidas com a dos Blockbusters.

Talvez este seja um dos motivos para que excelentes autores (novos e nem tão novos assim) ficarem à margem do mercado. A indústria do entretenimento se separou da indústria cultural, e em algum momento se transformou na “indústria da cultura pop”. De tanto sermos bombardeados pelo marketing agressivo dos grandes lançamentos, de tantos “o melhor autor de todos os tempos, da última semana” viramos reféns do próximo sucesso.

Afinal, quando isso começou? Dei googlada e encontrei um monte de explicações, a que mais me satisfez foi uma matéria da Revista Nova Escola, onde os professores Martin Cezar Feijó (professor do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, da Universidade Mackenzie) e Gelson Santana Penha (professor do curso de Mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi-Morumbi) discorrem sobre o tema, eles me fizeram refletir sobre a origem da nossa atual “indústria do entretenimento”.

Segundo eles, a Cultura Pop tem origem nos anos de 1960, a partir das artes plásticas com o Andy Warhol e suas obras, que reproduziu ícones da época tentando o diálogo com a arte erudita. Com o auge do cinema e o surgimento de diversos movimentos e bandas com fama mundial, surgiu um universo de mídias individuais com um cunho massivo, ou seja, cada indivíduo ou consumidor combina as diversas tendências do movimento pop e o torna uma novidade para si. Complexo né? Mas plenamente em consonância com a atual indústria doBlockBuster e do Bestseller. “ … o pop… é mais consumido do que vivido; é a arte dialogando com o consumo sem pudor.” Esta afirmação do Professor Martin Cezar Feijó resume bem a cena cultural mostrada no documentário a que assisti.

De vez em quando surgem exceções à regra e uma obra original explode e faz sucesso comercial. O problema é que quando isso acontece se choca mais um ovo de serpente, e essa obra é rapidamente cooptada pelo status quo e se torna mais uma franquia e haja continuação…

Analista de sistemas, administrador e escritor nas horas vagas. É autor dos romances PARADOXO (2012) e DÉJÀ VU (2013), também escreve contos de terror, ficção científica e suspense. Soteropolitano, cinéfilo, leitor voraz de quadrinhos, best-sellers e de outros livros também. Envolvido com as letras, não é jornalista, mas trabalha em jornal desde sempre.