Entretendo a Arte

Por Eduardo Selga

Não é possível o leitor atento desperceber-se, por exemplo, do narrador construído por Clarice Lispector em A hora da estrela, ou da estrutura das cenas dada por Nelson Rodrigues em Vestido de noiva. Em ambas as obras o leitor é retirado de seu lugar de conforto, não há que se falar em recreação.

Ao participar do recente desafio do site Entrecontos, “Arcanos Maiores do Tarô”, tive a oportunidade de observar com muita nitidez, disperso em vários comentários anexos às obras, o juízo de que o conto precisa ser, antes de qualquer coisa, objeto a proporcionar entretenimento ao leitor.
Esse conceito, que numa rápida passada d’olhos sem maior criticidade talvez tenha ares de ponto pacífico, em verdade não o é. Ao contrário, está sempre em pauta nas discussões teóricas que dizem respeito à literatura contemporânea brasileira, e não envolve apenas o sinuoso terreno da estética: às grandes editoras interessa muito esse reducionismo conceitual, pois mediante ele o público médio entende por “grande escritor” o ficcionista ou poeta que vende muito. Ou seja, um balconista da palavra. Livro é, primordialmente, consoante esse entendimento, objeto tão mercadológico quanto a margarina ou a calça jeans; apenas num plano secundário ele é visto como obra de arte.
Será mesmo válido o peso de um texto ficcional que se pretenda literário ser mensurado por meio desta balança viciada? Ou seja, se o conto ou romance não lograr êxito no “quesito” divertimento, caso ele não entretenha o leitor, deve ser considerado literariamente ruim?
Ora, apenas cativa o leitor o texto que orbita seus mesmos códigos estéticos. Estes, por sua vez, resultam da experiência individual e social do leitor, além de como ele assimila os múltiplos discursos que permeiam a sociedade. Assim, caso o leitor tenha pouca afinidade com o subjetivo e o simbólico, e viva num ambiente que reforce essas carências, um texto que contenha tais elementos não vai entretê-lo. Muito pelo contrário, será uma experiência aborrecida. Então, conclui-se, distrair esse distinto público leitor significa corroborar seu pequeno universo estético, jamais bater de frente, pois é preciso “falar a sua língua”. Se nada é acrescentado, se nenhuma pulga é posta atrás da orelha do leitor, a narrativa que segue à risca esse preceito funciona como um instrumento de manutenção de uma estética pobre e abundantemente propagandeada pela mídia, na qual tudo é dado ao leitor de tal modo que seu esforço interpretativo resulte mínimo.
Não é à toa que as telenovelas (convergência de três textos, o escrito, o visual e o sonoro), talvez o produto de maior sucesso da indústria cultural brasileira, consigam grandes audiências: elas apostam nessa estética da repetição, mostrando sempre mais do mesmo, com ligeiras mudanças. O público adere à narrativa televisiva não porque desconheça o que acontecerá aos personagens (ele sabe perfeitamente que o vilão será punido e que haverá um “felizes para sempre”): antes, interessa-lhe como a trama será conduzida de modo a chegar ao final catártico que ele, espectador, aguarda; interessa-lhe é saber como o vilão malvado pagará pelos seus erros e quais caminhos serão percorridos para que o amor sincero entre a princesa e seu príncipe encantado se efetive. Uma eventual solteirice da princesa ou a vilania sair triunfante são hipóteses que não lhe passam pela cabeça.
Literatura com “L” maiúsculo não pode se equiparar ao mingau ralo do passatempo. Por ser uma das manifestações da arte, praticá-la significa, necessariamente, subversão de conceitos e padrões literários e, ao mesmo tempo, conhecê-los muito bem, pois é preciso conhecer o labirinto para conseguir sair dele. Os melhores contos e romances publicados no Brasil a partir do Modernismo, por exemplo, são justamente aqueles cuja construção textual contempla alguma quebra de sistema estabelecido, não repetem ao pé da letra todos os elementos da fórmula da chamada boa literatura. São textos que fazem exatamente o oposto do entretenimento: elefantes cor-de-rosa próximos à cristaleira bem no meio da sala de estar e lançados quando a indústria cultural não era tão virulenta, eles incomodaram, e alguns ainda hoje causam surpresas. Não é possível o leitor atento desperceber-se, por exemplo, do narrador construído por Clarice Lispector em A hora da Estrela, ou da estrutura das cenas dada por Nelson Rodrigues em Vestido de Noiva. Em ambas as obras o leitor é retirado de seu lugar de conforto, não há que se falar em recreação.
Ademais, autores cuja fertilidade é reduzida ou os em demasia subservientes às regras da indústria cultural que determina uma estética narrativa de best seller (enredos simples, personagens rasos, constante uso de estereótipos e a presença da peripécia), ao produzirem apenas o mesmo rame-rame de sempre, estão de certa maneira contribuindo para que seu público leitor não avance interpretativamente, na medida em que pressupõe a inépcia desse leitor em alcançar elaborações textuais mais amplas e complexas. É bem verdade, felizmente, que o ficcionista, não tem esse dever didático, mas é preciso entrever o desserviço que sua atitude pode representar.
Tudo isso posto, acredito que a ansiedade dos participantes dos futuros desafios do Entrecontos não deva se concentrar em fazer do texto um parque de diversões edificado com palavras; antes, o autor precisa se perguntar, após o ponto final, se o resultado estético alcançado é relevante, do ponto de vista artístico. Ao questionar o texto, e a si mesmo, talvez seja interessante ter como epígrafe a famosa frase de Chacrinha: “Eu vim pra confundir, não pra explicar”.

Eduardo Selga é um capixaba que nasceu no Rio de Janeiro (1968) por algum acaso. Professor de Língua Portuguesa, mestrando em Literatura produzida no Espírito Santo. Contos publicados em coletâneas de 2004 e 2009, livro individual em 2005 (A morte de João Mocinha, ed. Papel&Virtual); ensaios em coletânea de 2008 e pela UFES em 2010 (Pessoa, persona, personagem); contos e artigos nos jornais A Tribuna e no Caderno Pensar (A Gazeta) a partir de 2009; conto na coletânea organizada pela Prefeitura de Vitória e Academia Espírito-Santense de Letras, Escritos de Vitória (28). Em 2013 foi um dos agraciados no concurso literário da UFES na categoria contos.

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Parceria com o site Entre Contos

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Hoje anunciamos oficialmente a parceria com o site Entre Contos para fornecimento de exemplares aos vencedores dos concursos mensais e, além disso, promover também a publicação eletrônica das antologias compostas pelos três contos vencedores a cada cinco certames. As publicações eletrônicas contarão com ISBN, contrato e direitos autorais.

Estamos muito felizes com a parceria, visto que o site tem se mostrado uma excelente alternativa para novos autores em produção, que ali têm a chance de submeter seus textos a análises realmente críticas.

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