Ben Oliveira entrevista Rubem Cabral

Rubem Cabral concedeu entrevista ao Blog do Ben Oliveira, contando um pouco sobre a distopia que está escrevendo e dando dicas a autores. Escritor com conto premiado no exterior, Rubem já participou de diversas antologias nacionais e é o organizador da Antologia “!” de Contos Fantásticos, publicada pela Caligo em 2013.

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Entrevista: Gustavo Araujo

Por Thais Lemes Pereira

Em 2015, a Caligo Editora publicará o livro “Pretérito Imperfeito”, do escritor Gustavo Araujo. Além de escrever, Gustavo é organizador do site Entre Contos, que promove Desafios Literários. Formado em Direito, pai de família, um pouco de tudo pode ser conferido na entrevista que ele me concedeu durante a semana: o que o motiva a escrever, suas inspirações e, principalmente, o que devemos esperar do tão aguardado “Pretérito Imperfeito”.

 

– De onde surgiu a inspiração para o livro Pretérito Imperfeito?
Em 2009 eu passei pela experiência mais dramática que um homem pode experimentar. Fui pai pela primeira vez. Em pouco tempo a rotina da casa se transformou, com todas as atenções voltadas para a nossa bebezinha, chamada Sofia.
Como todos os pais de primeira viagem, desde o início tentamos influenciar positivamente nossa pequenina com o que os estudiosos consideravam positivo: música clássica, principalmente Mozart, e vídeos do Baby Einstein. Funcionou por um tempo, mas assim que a Sofia cresceu, nosso poder de decisão foi diminuindo. Como resultado, em pouco tempo éramos bombardeados com Patati Patatá e Galinha Pintadinha.
Certa manhã, assistíamos pela enésima vez à “Galinha Pintadinha 2”. Para quem não sabe, são músicas infantis populares ilustradas com desenhos animados. Quem tem filhos sabe que a criançada adora. Pois bem, uma das canções da coletânea é a famosa “Se essa rua fosse minha”, cuja animação é especialmente caprichada.
Não sei se eu estava especialmente sensível na ocasião, mas de alguma maneira, a música me capturou. Quando dei por mim, estava imerso na melodia e na letra, completamente tomado pela melancolia e pela nostalgia que permeiam os versos.
A menina que se apaixona por um anjo que vive num bosque. Um amor impossível.
Inspirado, escrevi um conto chamado “A Menina na Floresta” e publiquei na comunidade “Contos Fantásticos”, do antigo Orkut. A repercussão foi bastante positiva, o que terminou por plantar na minha cabeça a ideia de um dia desenvolvê-la na forma de um romance.

 

– Para aqueles que ainda não conhecem, qual a história do livro?
Levei um bom tempo para começar a transformar “A Menina na Floresta” em um romance. Acho que de certo modo eu tinha receio dessa transformação. Não dava simplesmente para manter a mesma linha narrativa e encher linguiça. Além do mais, todo mundo que escreve sabe que o autor jamais é dono da história. À medida que escrevemos, a narrativa ganha autonomia, conduz a trama a situações que nem sequer imaginávamos. Isso sem falar na rebeldia dos personagens, que praticamente exigem mudanças naquilo que se havia planejado.
Bom, de todo modo, um dia, eu resolvi me sentar e escrever. Em poucas horas tinha a espinha dorsal montada e, apesar da origem “Pretérito Imperfeito” terminou bastante diferente de “A Menina…”
Sim, a linha argumentativa principal permaneceu a mesma: um menino e uma menina que inadvertidamente se encontram em um bosque e que acabam se apaixonando. No entanto, por se tratar de uma história maior, um romance, outros elementos foram inseridos, de modo a tornar a narrativa toda mais rica e os personagens mais profundos.
Pois bem, a história se passa, na maior parte do tempo, na cidade fictícia de Porto Esperança, no interior do Paraná, ainda que haja “locações” em Passo Fundo e em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, além do Rio de Janeiro.
A trama toda, na verdade, se divide em três.
A primeira trata de Toninho.  É um menino de treze anos com uma dificuldade enorme para ler em público, o que lhe traz problemas na escola, e que também vive uma relação complicada com o próprio pai. Por conta disso, prefere se isolar. Passa os dias estudando passarinhos usando um velho manual de aves que ganhou de presente da mãe, já falecida, e refugiando-se em uma clareira do bosque que circunda a cidade.
Paralelamente, conhecemos a menina Cecília, não por meio de um narrador onisciente, mas por intermédio de cartas, trechos de seu diário endereçados a alguém chamada Carol. Cecília é muito inteligente e questionadora. Adora ler e escrever. Porém, vê-se em uma situação difícil, impedida de sair de casa devido às atividades misteriosas em que seu pai está envolvido.
Um terceiro foco narrativo aborda a vida do pai de Toninho. Espalhada em capítulos alternados, a história de Pedro Vieira é narrada desde sua infância árdua num sítio no Rio Grande do Sul até os anos que antecedem a velhice, já em Porto Esperança. Pedro é dono de um passado perturbador, tendo trabalhado como agente da polícia secreta de Filinto Müller nos anos 30, uma fase da vida que ele gostaria de esquecer.
Naturalmente essas três realidades – de Toninho, de Cecília e de Pedro Vieira – se entrelaçam no tempo e no espaço, trazendo à tona questões pessoais, arrependimentos, erros, sacrifícios e redenção.
Gosto, entretanto, de dizer que o livro trata de amor. Amor que é descoberto pela primeira vez, amor entre pais e filhos, amor por literatura, amor pela escrita, amor por quem já se foi. Pode parecer piegas, mas creio que o tema, longe de ter se esgotado, ainda permite abordagens fora do contexto usual.

 

 – As mulheres, em suas histórias, são sempre muito marcantes. Nomes fortes, personalidades definidas. Porém, seu novo livro conta com dois personagens importantes na história: Toninho e seu pai. Foi difícil desenvolvê-los?
Na verdade, essa personalidade forte que tento emprestar às mulheres nas histórias que escrevo é algo mais recente. No início, meus contos gravitavam o universo adolescente masculino, influência de meus próprios dias de menino. A leitura de autores como Niccolò Ammaniti, Carlos Ruiz Zafón, Khaled Hosseini e John Boyne só reforçaram essa tendência, de modo que escrever sobre Toninho foi algo quase natural.
Já com o pai, Pedro Vieira, o processo de criação foi bem diferente. Para ser franco, na primeira versão do “Pretérito…”, ele era pouco mais que um figurante, alguém cujas características eram referidas apenas de modo indireto. A intenção, na época, foi cobri-lo com uma aura de mistério. Porém, como eu disse antes, a trama às vezes se rebela contra o criador, criando vida própria, com personagens demandando mudanças. Foi o que aconteceu. Ao reler a primeira versão tive a sensação de que faltava algo, que talvez devesse desenvolver mais o pai de Toninho. Discuti a questão com alguns amigos e a sugestão foi que eu desse vazão a essa necessidade.
Escrevi, então, a história de Pedro Vieira. Hoje não consigo conceber o “Pretérito…” sem ele, sem a riqueza de detalhes que permeia sua existência. Embora o foco principal da narrativa continue com Toninho e Cecília, é Pedro quem captura a atenção do leitor ávido por questões filosóficas, com seus inúmeros defeitos, com sua transformação de menino ingênuo em alguém a um passo da monstruosidade.
Para dar-lhe profundidade, busquei inspiração em obras como “O Continente”, de Érico Veríssimo, “Camaradas”, de William Waack, e principalmente em “Olga”, de Fernando Morais. Arrisco a dizer que Pedro é, em maior ou menor grau, alguém que conhecemos, de repente nós mesmos, com nossos pecados, com nossos arrependimentos e com nossa eterna busca por redenção.

 

– É possível perceber, em seus textos, a influência de autores e livros que você encontra afinidade, chegando a comentar isso algumas vezes. Isso ocorre de forma consciente?
Totalmente. Não há autor que consiga se desvencilhar daqueles que admira. Se gostamos de determinada obra ou estilo, inevitavelmente acabaremos por aproveitá-lo. Foi a isso que me referi na resposta da pergunta anterior, sobre os autores que escrevem a respeito do universo adolescente.

 

– E o quanto sua vida está presente na escrita?
Eu diria que 90%. Lugares, pessoas, fatos. Nossa escrita, por mais que resulte em um universo imaginário, reflete nossas próprias experiências. Pelo menos é o que eu acho. Na minha concepção, é isso que torna a história verossímil: falar do que se conhece, especialmente se há dramas pessoais e relações humanas. Obviamente, é dado ao autor ousar – e é até recomendável que o faça – mas se não souber, ou se não pesquisar profundamente sobre o desconhecido, o resultado pode ser ruim. Não há nada pior do que uma narrativa desprovida de credibilidade.

 

– Além de escrever, você mantém o Site Entre Contos, que promove Desafios Literários. As discussões, em torno dos contos que são publicados, colaboraram de alguma forma na construção do seu livro?
Sim, colaboram muito. O Entre Contos é uma experiência que tem se revelado fantástica na medida em que permite a troca de experiências, o aprofundamento de questões técnicas e de mérito e, o mais importante, a lapidação do estilo do autor.
Naturalmente, todo escritor quer ser lido. Chego a pensar que isso vale mais do que dinheiro para quem escreve, afinal, ninguém que tem na escrita o ofício preferido tem a ilusão de se tornar milionário.
O Entre Contos deu certo por causa disso. É um dos poucos lugares em que escritores de todos os níveis têm seus textos examinados, não só sob o aspecto técnico, mas principalmente sob a ótica emocional, sob o impacto que causam.
No que diz respeito a mim, aproveitei, em mais de uma ocasião, para criar contos que de algum modo apresentassem fatos parecidos como aqueles presentes no “Pretérito…”, até para aferir a receptividade do leitor. Quase todos os contos que escrevi para os desafios do EC guardam alguma semelhança com trechos do “Pretérito…”, especialmente as questões filosóficas e as relações interpessoais. “Reconstruindo Sarah Parker”, “Radiação” e “Tábula Rasa” são alguns exemplos.

 

– Houve altos e baixos durante o processo de criação do livro? Alguma hora você pensou em parar de escrevê-lo? O que te motiva?
Escrever um romance é algo que, para mim, demanda muita dedicação. Não pude mergulhar de cabeça no processo de criação do “Pretérito…”, ainda que tivesse bem definida a linha a seguir, porque sua elaboração se deu durante a gravidez e o nascimento de minha segunda filha, a Alice, a quem, aliás, o livro é dedicado.
Evidentemente, custei para terminar o romance. Levei cerca de três anos para completá-lo, desde a concepção original até a versão final, remetida para a Caligo. Apesar desse tempo todo, não posso dizer que houve altos e baixos. Houve, sim, épocas em que eu me permiti dedicar mais tempo ao livro. Mas a ideia, os fatos, a trama, tudo esteve sempre na minha cabeça, embora eu tenha demorado um tanto para colocar tudo no papel.

 

 – O que o leitor deve esperar de Pretérito Imperfeito?
Sinceramente, não pretendi criar uma história redondinha, com questões edificantes ou lições moralmente consagradas. Nada disso. O “Pretérito…” é orgulhosa, ostensiva e propositalmente imperfeito. Minha intenção foi simples: criar uma narrativa que despertasse no leitor curiosidade suficiente para virar a página, para prosseguir, para se envolver na trama.
Em algum ou em outro momento, o leitor haverá de se identificar com os personagens e com as situações, indagando a si mesmo o que faria, qual seria sua própria reação, criando ao mesmo tempo angústia e enlevo.
Foi essa, em suma, a intenção: jogar com as emoções, não deixar o leitor indiferente.

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thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013. Atualmente escreve o romance “Homicídios Manchados de Rosa”.

Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Quando entrevistei o filho de John Fante

Por Felipe Rodrigues

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou.

John Fante morreu, mas deixou um grande legado. Além da sua produção toda, contando clássicos como “Espere a Primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”, passou os genes de escritor para Dan Fante, seu filho. Lembro-me mais ou menos. Era final de 2007, as luzinhas já caindo pelas janelas. Eu procurava por contos do FILHO DO HOMEM em português e acabei caindo em seu site oficial. Logo na abertura, ouvia-se uma sequência de sucessos do blues tradicional, além de indicações de alguns escritores novos (bravo, Dan!), livros do autor e recortes com críticas que tinham saído em jornais e revistas.

Anotei o e-mail do cara e resolvi entrar em contato. Na época eu era um ASPIRANTE A JORNALISTA COM UM BLOGSPOT. Então, como diabos iria convencê-lo a responder as minhas perguntas? Convencido de que Dan Fante deletaria o e-mail e fumaria outro cigarro, resolvi inventar que eu era de algum jornal. Se bem me lembro, disse que a entrevista seria para um jornal de “grande circulação” de São Paulo.

Inexperiente e sem nenhum material sobre Dan Fante para ler – à época nem a Folha de S.Paulo e nem o El País tinham ROUBADO A MINHA IDEIA (hehe) – elaborei algumas perguntas – muitos clichês e questões ingênuas – e enviei para o cara. Na outra semana, para o bem ou para o mal, ele me retornou.

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou. Infelizmente, não consegui falar muito sobre a sua obra, afinal, seus livros ainda não tinham sido publicados no Brasil – e ainda não foram (passados sete anos). Porém, ganhei um presente de Natal. Ele me mandou na íntegra o arquivo final de “86’d”, à época seu último romance.

BRUTAS, SECAS, ÁCIDAS e por vezes blasés, seguem as respostas de Dan Fante à minha “entrevista”.

Você já leu algum escritor brasileiro?
Infelizmente, não tenho familiaridade com escritores brasileiros. Eu leio somente em “americano” e costumo odiar traduções.

Como foi a amizade com Charles Bukowski?
Eu conheci Hank. Ele costumava visitar meu pai. Admiro sua poesia, extremamente.

Algum de seus livros será lançado no Brasil?
A editora Harper Collins vai lançar quatro de meus livros, eu espero que todos eles sejam traduzidos.

Aqui no Brasil é muito difícil ser escritor ou até mesmo lançar um livro, como isso funciona nos Estados Unidos?
Você talvez precise de uma pistola para fazer os editores lerem seu trabalho. É muito difícil, os americanos perderam o costume da leitura. Um escritor tem que ser persistente.

Quais escritores novos você lê?
Não muitos. Tony O’Neill tem um bom livro que sairá agora e há uma boa coletânea de histórias de Mark SaFranko (da Murder Slim Press, Inglaterra). Vale a pena ler os dois.

Qual é o seu maior objetivo com a literatura?
Ter todo o meu trabalho lido e publicado em todos os países.

Você ainda tem um trabalho miserável?
SIM, SOU UM ESCRITOR.

A que se deve o sucesso dos seus livros na Europa?
Europeus têm bom gosto para escritores.

Você poderia contar alguma história sobre seu pai?
Ele fez muita grana escrevendo todos os dias para os estúdios de Hollywood. Fazia uma reunião com sua secretária todas as manhãs e dizia para ela que anotasse todos os recados, então ia jogar golf. ELE FEZ ISSO POR 20 ANOS.

No seu site tem uma apresentação de slides com algumas de suas fotos, que música é aquela? Que tipo de música você gosta?
Eu gosto de blues norte-americano: John Lee Hooker, Jimmy Reed, Sonny Terry e Brownie McGee.

Como era a cena beat do Greenwich Village quando você tinha 19 anos?
Era engraçado: um monte de poetas loucos e todo mundo queria mudar o mundo. Então chegou Lyndon Johnson…

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.