Suspense ou ameaça?

Por Fabio Shiva

Um livro perde o meu respeito quando descubro que posso ler saltando páginas, sem perder o fio da meada.

Eu devia ter uns treze para catorze anos quando li esse trecho, que ficou gravado na memória. Uma cena marcante de um livro famoso, que foi transformado em filme de muito sucesso:

O garotinho está se borrando de medo quando finalmente se decide a abrir a porta daquele quarto de hotel. Ele foi avisado de que não deveria ir ali, mas a curiosidade foi mais forte. Pé ante pé, o menino vai avançando. Dentro do banheiro, uma terrível descoberta, que justifica todos os seus temores. Então a coisa que jaz na banheira desperta e estende os dedos mortos para enlaçar o pescoço da criança.

 

É quando o autor interrompe a narrativa de súbito e passa para uma outra trama paralela, mais amena. Lembro que fiquei agoniado, revoltado, eufórico e totalmente fisgado pela leitura. Mas de jeito nenhum eu iria sossegar até descobrir o que aconteceria com o garotinho!

Essa lembrança marcou por ter sido a primeira vez em que percebi conscientemente estar diante de um “truque” literário, de um artifício utilizado pelo autor para envolver o leitor na história. E que bom para mim que esse truque foi justamente o do suspense! Foi paixão à primeira leitura! Fiquei totalmente viciado nessa agoniazinha que vai se acumulando até encontrar o alívio da catarse!

Anos depois, tive outro aprendizado igualmente marcante, ao ler um trecho de outro escritor também famoso, igualmente adaptado para o cinema. Só que dessa vez o aprendizado foi pelo caminho inverso, de como não fazer:

O herói está sozinho em uma cabana no meio da floresta, quando ouve um barulho lá fora. Vai abrir a porta. Sua mão toca a maçaneta. Ele começa a imaginar todo tipo de coisas terríveis que podem estar à espera do outro lado.

 

A essa altura eu já estava meio invocado com o texto, e fui tirar a prova, verificando quantas páginas faltavam para o fim do capítulo. Nada menos que dez páginas. Lembro de ter pensado: “não creio que esse cara vai levar dez páginas para abrir a porta!” Dito e feito. Dez longas, tediosas, previsíveis e totalmente dispensáveis dez páginas que continham nada além de ameaças vazias!

Fiquei muito grato pela lição, mas a partir desse momento o autor deixou de ter a minha simpatia. Um livro perde o meu respeito quando descubro que posso ler saltando páginas, sem perder o fio da meada. Infelizmente há muitos autores, e até bem conceituados, que cometem esse erro primário.

Mas o ganho maior que ficou foi mesmo o aprendizado dessa importante diferença entre o suspense e a ameaça. O suspense segue um conjunto de técnicas apuradas e, em minha opinião, é o nobre herdeiro direto da tragédia grega. Já a ameaça é um recurso apelativo, que subestima a inteligência do leitor. Uma pobre e desprezível técnica, na melhor das hipóteses. Eu, pessoalmente, consigo imaginar bem poucas situações em que o recurso da ameaça mereça ser utilizado. Na verdade não concebo nenhuma situação eu justifique essa prática, pois outras técnicas sempre parecerão preferíveis ao feio truque da ameaça. Afinal, todo mundo sabe muito bem que cão que ladra, não morde!

Resumindo então, queridas e queridos:

Suspense, bom! Ameaça, ruim!
Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora de O Sincronicídio.

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

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O fofoqueiro que deu certo

Por Fabio Shiva

Daí a imagem estereotipada do escritor com seu bloquinho de anotações, registrando tudo o que acontece de interessante ao seu redor como se coletasse matéria-prima para futuros livros. Em termos práticos, eu pelo menos acho esse processo muito custoso.

 

Nunca esqueci a genial tirada de Irene Ravache, uma das grandes damas de nosso teatro: “o ator é o esquizofrênico que deu certo”. Isso por dois bons motivos. Primeiro, porque pude constatar a veracidade dessa afirmação inúmeras vezes, ao notar um certo brilho lunático no olhar de meus queridos amigos atores – e justamente dos mais talentosos! Segundo e mais importante porque, além de todo o bom humor nela contido, essa frase sinaliza para uma função essencial de toda arte, que é ajudar o homem a transmutar sombra em luz, dor em alegria, agonia em êxtase.E como ultimamente tenho trazido tudo – ou quase tudo – para o terreno da literatura, da última vez que me lembrei dessa máxima não foi difícil descobrir um equivalente que se aplicasse ao ofício da escrita: o escritor é o fofoqueiro que deu certo!
Pois a fofoca, essa prática tão perniciosa e ao mesmo tempo tão humana, só existe graças a dois impulsos básicos que estão igualmente no âmago de toda vocação literária. O escritor, como todo fofoqueiro, é movido pelos desejos de conhecer e de contar.E a diferença fundamental entre a mais elevada literatura e a fofoca mais chã, ao meu ver, não está tanto nas motivações do narrador, nem mesmo na qualidade do discurso. E sim na amplitude do tema abordado! Todo fofoqueiro é sobretudo um míope, que quase nada enxerga além do objeto de sua maledicência. Já o escritor autêntico é sempre um generalista, que busca ver além e alcançar o universal naquele particular que utiliza como tema.

Dizendo isso de forma mais simples: quando o fofoqueiro fala das riquezas e mazelas de Fulano, está interessado apenas na pessoa de Fulano, quando muito nas pessoas particulares que se relacionam diretamente com Fulano. Já o escritor não está interessado propriamente em Fulano, mas no homem contido em Fulano, na parcela de toda a humanidade que Fulano representa.

Daí a imagem estereotipada do escritor com seu bloquinho de anotações, registrando tudo o que acontece de interessante ao seu redor como se coletasse matéria-prima para futuros livros. Em termos práticos, eu pelo menos acho esse processo muito custoso. Teria que escrever calhamaços intermináveis se me propusesse a registrar tudo quanto observo de curioso e digno de nota no comportamento de meus semelhantes. E depois, onde arranjaria o tempo necessário para ler tudo o que escrevi, e ainda por cima organizar tantas “fofocas” em meus contos e romances? Por isso prefiro deixar a cargo da memória essa tarefa de registro e seleção. Mas há escritores mais organizados, que se dão muito bem com seus blocos de notas.

E por falar em memória, lembro agora de um episódio que ilustra bem o que tentei explicar nesse texto, sobre a “dimensão literária e artística da fofoca”. Por isso vou contar essa fofoca ocorrida há poucas semanas. Um acontecimento banal, aparentemente sem importância, captado de relance, quase por acaso. Digo quase por acaso porque, como um bom fofoqueiro, tive que aguçar os olhos e espichar os ouvidos para entender o que estava acontecendo diante de mim:

Dois senhores de idade avançada encontram-se na rua. Após um breve cumprimento, um deles diz para o outro:
– Soube do Adolfo?
– Pois, é, rapaz, eu soube. Morreu anteontem.
No entanto os olhos dos velhinhos brilham de contentamento, e é nítido o entusiasmo que aflora nas vozes encarquilhadas. No fundo, é como se dissessem:
– Vencemos mais um! Ainda estamos aqui!

Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora de O Sincronicídio.

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

Escrevendo com o lado DIREITO do cérebro!

Por Fabio Shiva

Boa parte de nossas melhores ideias não chega até nós na forma de palavras, mas como uma espécie de amálgama de imagens e sentimentos. Isso acontece porque o lado direito do cérebro, o grande responsável pela criatividade, não funciona de forma linear, como um pensamento ordenado numa sequência de palavras, uma depois da outra.

 

O processo da escrita e da linguagem, para a maioria das pessoas, é comandado pelo hemisfério esquerdo do cérebro, enquanto o hemisfério direito está relacionado com a percepção espacial, o pensamento simbólico e a criatividade. Muito embora a exatidão desses conceitos esteja sendo questionada por pesquisas recentes, isso não interfere no propósito desse nosso artigo, que é explorar algumas potencialidades menos óbvias do cérebro para nos ajudar a escrever cada vez melhor.

Escrever com o lado direito do cérebro significa principalmente utilizar a percepção espacial para melhorar a qualidade de nosso texto. E como podemos fazer isso? Por experiência própria, tenho exercitado duas técnicas que têm sido muito úteis e que batizei de VISUALIZAÇÃO e DIAGRAMAÇÃO. Vamos agora examinar cada uma delas.

1. VISUALIZAÇÃO

Boa parte de nossas melhores ideias não chega até nós na forma de palavras, mas como uma espécie de amálgama de imagens e sentimentos. Isso acontece porque o lado direito do cérebro, o grande responsável pela criatividade, não funciona de forma linear, como um pensamento ordenado numa sequência de palavras, uma depois da outra. A ideia surge de forma visual (mesclada com outros elementos), e depois sim é que será convertida em palavras, graças ao trabalho do hemisfério esquerdo do cérebro.

A técnica de VISUALIZAÇÃO consiste basicamente em tornar esse processo criativo mais consciente. Antes de sentar para escrever uma história ou uma cena qualquer, experimente visualizar primeiro a cena em sua mente, com a maior nitidez e riqueza de detalhes possível. Não é preciso ser um gênio para perceber que quanto melhor for a sua visualização, mais vívido e convincente será o seu texto! É como já dizia Platão: “Quem concebe bem, escreve bem”.

Creio mesmo que muitos escritores que sofrem de bloqueio criativo estão na verdade com alguma dificuldade nessa etapa da visualização. Não se iluda: se você não consegue visualizar bem alguma parte de sua história, essa deficiência ficará evidente no seu texto. Por isso a técnica da visualização é importante também como detector de falhas e pontos fracos na história.

Vou dar um exemplo que aconteceu comigo mesmo: há algum tempo percebi que tenho facilidade em visualizar os personagens e suas motivações, mas os cenários já não são tão fáceis de visualizar. Isso acontece porque o meu tipo psicológico (segundo a caracterologia desenvolvida por Jung) é Instrospectivo, ou seja, minha atenção está mais voltada para os processos internos e subjetivos que para o exterior e a aparência.

Mas uma vez detectada uma falha de visualização, como solucioná-la? Nada como a velha e boa pesquisa! Procure estudar o modo como grandes autores trabalham esse ponto em que sua visualização está deficiente. No meu caso, encontrei em Georges Simenon um modelo de descrição de cenários muito adequado ao meu tipo psicológico, pois em Simenon o cenário sempre está de alguma forma interagindo com os personagens, como se fosse ele mesmo também um personagem. Depois de ter detectado essa falha em minha visualização, e de ter pesquisado outros autores, percebi que consigo visualizar e descrever cenários de forma bem mais eficaz atualmente. Desejo o mesmo progresso em seus escritos!
2. DIAGRAMAÇÃO

Já fiz muitos trabalhos como diagramador de jornais, revistas e livros. Hoje sou muito grato por essa experiência, que me ajuda a visualizar melhor as cenas que quero escrever!

Diagramar nada mais é que organizar espacialmente diversos elementos de informação (textos e imagens), de forma a facilitar o processo da comunicação, tornando-o mais atraente e agradável. Diagramar não é um mero ajuste estético, como principalmente uma hierarquização dos elementos de informação: o que é mais importante deve ter mais destaque e aparecer mais que o que é secundário.

O que chamo de técnica de DIAGRAMAÇÃO, no contexto que estamos trabalhando, nada mais é que tentar organizar espacialmente os elementos de informação de sua história ou cena. Essa técnica é especialmente útil quando estamos com dificuldades na visualização da cena. Nem sempre surge com muita clareza o que deve vir antes do que, o que é mais importante e merece destaque e o que pode ser considerado secundário ou até irrelevante.

Não existe uma fórmula fixa para se fazer isso, mas vou dar um exemplo. Primeiro visualize a cena que você deseja escrever, com o máximo de detalhes que você puder. Depois divida a cena em uma série de tópicos, anotando cada tópico em pequenos pedaços de papel. Então coloque todos esses papeizinhos diante de você, sobre uma mesa ou mesmo no chão, e comece a “brincar” com eles, alterando a sequência em que os tópicos estão dispostos, colocando algum tópico em destaque, suprimindo outro etc.

Essa técnica eu descobri muito recentemente, agora enquanto escrevo meu segundo romance, “Favela Gótica”. Ela tem sido muito útil! Desconfio que Dostoiévski utilizou uma técnica similar ao escrever o seu imortal “Crime e Castigo”. O grande autor Russo anotava trechos de cenas e nomes de personagens em pedaços de papel que ele ligava por meio de barbantes, e que chegavam a ocupar todo o espaço disponível em sua casa. Isso é o que eu chamo de uma diagramação em 3D!

Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora de O Sincronicídio.

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

Exercite a sua CRIATIVIDADE em seis saltos rápidos: O PASSEIO DO CAVALO

Por Fabio Shiva

Sim, dá trabalho transformar uma nova ideia em realidade. Esse é um momento de muitas descobertas, como também de estranhamento, pois raramente uma ideia surge completa, em sua forma final. Ajustes são necessários, pois surgem detalhes com os quais você não contava, e cada um deles traz uma oportunidade e também um desafio.

 

Criatividade é inventar algo aparentemente do nada. É fazer algo de um jeito novo, que ninguém fez antes.

Ao contrário do que muita gente pensa, a criatividade não é um dom especial, possuído apenas por alguns poucos escolhidos. É uma habilidade que existe potencialmente em todos os seres humanos. E, como toda habilidade, pode ser desenvolvida e treinada.

A criatividade nos define enquanto espécie. É uma das características mais marcantes da humanidade, tanto em seus aspectos mais luminosos quanto nos mais sombrios. Exercitar a criatividade, portanto, equivale a entrar em contato com a vastidão de nossas próprias potencialidades.

Trata-se de um processo contínuo, que não tem um começo e um fim bem delimitados. Envolve mais um estado de consciência que uma série de tarefas a cumprir. Ainda assim, é possível identificar seis momentos ou etapas no processo criativo, que examinaremos a seguir.

Para exemplificar cada uma das fases ou “saltos” desse processo contínuo, vou comentar brevemente como foi desenvolvida a ideia de usar o Passeio do Cavalo na estruturação dos capítulos do livro O Sincronicídio.

Desejo que a viagem seja tão divertida e proveitosa para você como foi para mim! Segure firme na sela… e bom passeio!

 
1 – Criatividade é CONEXÃO!

Criatividade é inventar algo aparentemente do nada. É como um show de mágica: uma parte do truque as pessoas enxergam, outra não. E a magia que fica oculta, no caso da criatividade, é a CONEXÃO.

Quase todas as novas ideias podem ser resumidas a novas conexões entre ideias antigas. Pensar criativamente é buscar novas maneiras de conectar ideias que até então não eram relacionadas.

Escolha dois ou mais temas pelos quais você se interessa. Quanto menos relacionados e mais diferentes entre si forem os temas, melhor. Então observe as conexões mais imediatas que consegue estabelecer entre os dois temas que você escolheu.

Você pode experimentar também com três ou mais temas distintos ao mesmo tempo. Para facilitar a nossa apresentação, contudo, a princípio trabalharemos apenas com dois. No caso do romance  O Sincronicídio, os temais principais que escolhi foram o Xadrez e o I Ching. Nesse caso, a primeira conexão que salta aos olhos é o número 64. O tabuleiro de xadrez tem sessenta e quatro casas, o mesmo número dos hexagramas do I Ching.

 
2 – Criatividade é ASSIMILAÇÃO!

Depois de firmar a primeira ponte entre os dois temas, você deve investigar novas conexões possíveis entre eles. Essa é a famosa fase da pesquisa ou da ASSIMILAÇÃO, de mergulhar o mais fundo que você puder nos universos que escolheu.

No caso de nosso exemplo, uma nova e interessante conexão não demora a surgir após um pouco de pesquisa. O tabuleiro de xadrez é formado por casas brancas e pretas. Os hexagramas do I Ching são formados por linhas yang ( ___ ) e yin ( _ _ ), que simbolizam os princípios da luz e da escuridão.

Essa nova conexão torna possível representar um hexagrama com as casas do tabuleiro, pela simples substituição das linhas yang e yin por casas brancas e pretas respectivamente.

 

3 – Criatividade é RECEPTIVIDADE!

Depois da fase da pesquisa, do esforço da assimilação, necessariamente chega o momento do repouso, de fazer a digestão.

Deixe os temas “descansarem” um pouco. Dê tempo para que o material que você pesquisou tão laboriosamente seja adequadamente assimilado e comece a “fermentar”, a interagir com aquilo que você já sabia antes da pesquisa. Se você souber praticar bem a RECEPTIVIDADE, verá que algumas ideias novas brotam praticamente sozinhas!

Foi assim que aconteceu com O Sincronicídio. O I Ching é um sistema “vivo” ao permitir admite a mutação das linhas yang e yin em seus opostos. Por isso foi simples chegar à ideia de colocar peças de xadrez nas casas de cor oposta para simbolizar as linhas móveis.

 

4 – Criatividade é INSIGHT!

Se você fez tudo direitinho até aqui, o cenário está preparado para a experiência de plena criatividade que ocorre no momento do INSIGHT, ou intuição profunda.

Esse momento chegou, no caso de O Sincronicídio, com ideia de estruturar o livro como um Passeio do Cavalo pelos hexagramas do I Ching. Trata-se de um clássico problema de xadrez (em inglês conhecido como Knight’s Tour): como fazer o cavalo percorrer todas as casas do tabuleiro sem repetir nenhuma?

O modelo que segui para estruturar os 64 capítulos do livro segue o padrão de um “passeio fechado”, que é quando o Cavalo retorna para a casa inicial após o último lance.

 
5 – Criatividade é EUREKA!

Hora de celebrar! Você escolheu bem os seus temas, mergulhou fundo na pesquisa e desenvolveu a capacidade de receber o prêmio de um insight genuíno. Você teve uma ideia nova e interessante, que vale ser posta em prática.

Comemore a sua vitória. Saboreie ao máximo esse momento de plenitude e realização. Você irá precisar de toda motivação que puder obter. Pois lembre-se que ter uma boa ideia representa apenas 1% de um projeto bem sucedido. Restam 99% de puro trabalho…

Sim, dá trabalho transformar uma nova ideia em realidade. Esse é um momento de muitas descobertas, como também de estranhamento, pois raramente uma ideia surge completa, em sua forma final. Ajustes são necessários, pois surgem detalhes com os quais você não contava, e cada um deles traz uma oportunidade e também um desafio. É preciso ir burilando com paciência, eliminando os excessos e suprindo as faltas, o melhor que você possa. Isso é tudo o que conta realmente: o uso que você faz das boas ideias que tem.

Em nosso exemplo, o uso do Passeio do Cavalo pelos 64 hexagramas do I Ching possibilitou criar uma estrutura inédita para um romance, onde os capítulos são apresentados fora da sequência numérica e cada capítulo determina obrigatoriamente o seguinte. Isso acontece pela mutação das linhas ou casas. Todas as vezes que uma peça preta ocupa uma casa branca, no capítulo seguinte a casa correspondente torna-se preta também. Do mesmo modo, quando uma peça branca ocupa uma casa preta, no próximo capítulo a casa muda para branca.

O resultado é que cada capítulo de O Sincronicídio determina o número do seguinte, pela mutação das casas ocupadas pelas peças em suas cores opostas. Isso foi a ideia. E o trabalho foi escrever um romance policial colocando essa ideia na prática!

Observe que o gênero Romance Policial representa, nesse caso, um terceiro tema a ser conectado com os dois anteriores, do Xadrez e do I Ching. Na verdade, trata-se do tema principal, que subordina os demais. O leitor não precisa de nenhum conhecimento sobre I Ching ou xadrez para ler o livro como uma simples e honesta história policial: um jogo intelectual, com mistérios a serem solucionados pelo leitor jogador, que se propõe a ser mais esperto que o detetive protagonista e desvendar primeiro as pistas apresentadas no decorrer da trama.

Sob essa história mais aparente que é contada no livro, contudo, existe uma outra, mais sutil. E daí, justamente, ter usado o xadrez e o I Ching para escrever uma história policial. Pois o grande fascínio do romance policial, ao meu ver, é a catarse dessa fome tão visceralmente humana, que é a fome de conhecimento. O homem não é somente um “ser diante da morte”, como também um ser vivo diante do Universo, em busca de soluções para o Grande Mistério. E a beleza do romance policial é simbolizar algo dessa busca tão humana pela verdade.

 

6 – Criatividade é SOLUÇÃO!

A criatividade atende a seu propósito mais elevado na medida em que é SOLUÇÃO, em que contribui para saciar alguma necessidade ou para resolver algum problema. Muitas vezes a mera apresentação de um velho problema sob um novo olhar e uma nova perspectiva contribui ativamente para a solução desse problema. É importante ter essas questões em mente ao exercitar a criatividade.

E assim concluímos os seis saltos criativos: Conexão, Assimilação, Receptividade, Insight, Eureka e Solução. Esse é um bom momento para notar que as iniciais de cada palavra formam a sigla CARIES!

Escolhi essa sigla por dois bons motivos. O primeiro é um truque de memorização: para memorizar facilmente uma série de ideias, faça uma associação bizarra entre elas. Em nosso caso, a sigla CARIES está relacionada com os seis saltos do Passeio do Cavalo por um conhecido ditado popular: “a cavalo dado, não se olham os dentes”. Existe uma dica importante aqui: o que é bom para a memória, é bom para a criatividade. E como a atenção é o ingrediente principal para uma boa memória, a atenção é do mesmo modo fundamental para a criatividade. Todos os grandes gênios criativos foram também profundos observadores do mundo.

O segundo motivo é o lembrete para nunca se levar demasiadamente a sério. Isso significa a morte da criatividade. Criatividade é diversão! Por isso divirta-se, inclusive com as oportunidades de rir gostosamente de si mesmo!

 

Para tornar a mensagem mais clara, falamos das interações e conexões entre apenas dois temas, o Xadrez e o I Ching. Mas você pode trabalhar com tantos temas quantos forem necessários para expressar a sua ideia. No caso de O Sincronicídio, dois outros temas também foram essenciais. O primeiro é o conceito de sincronicidade desenvolvido por Carl Gustav Jung, ele mesmo um profundo estudioso do I Ching. E por último, mas não menos importante, vem a música!

É por isso que me despeço convidando você a conhecer a trilha sonora do Sincronicídio, com sorrisos, beijos e abraços e desejando que a sua criatividade aflore sempre mais com muita música!

Tudo de bom,

Fabio Shiva

Ouça aqui a trilha sonora!

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

Duas dicas de ARISTÓTELES para você escrever cada vez melhor!

Por Fabio Shiva

“Alguns podem objetar que a vida, com muita frequência, é inverossímil. Exatamente. Só que a vida não está preocupada em convencer ninguém. Esta é uma obrigação exclusiva da ficção.”

É interessante como, em nossa obsessão por estarmos sempre atualizados, sempre buscando as últimas informações sobre determinado assunto, muitas vezes acabamos perdendo contato com verdadeiros tesouros do passado.
E quando o assunto é a arte de escrever bem, dificilmente uma fonte pode ser considerada mais clássica que “A Poética” de Aristóteles, possivelmente a primeira obra de teoria literária de nossa era. O autor dispensa apresentações, esse homem extraordinário que foi aluno de Platão e professor de Alexandre o Grande e cuja filosofia teve tanta influência em nossa civilização (eu, pessoalmente, prefiro pensar nele como o cara cujo livro causou tanta confusão em “O Nome da Rosa”  =).
Se você tem interesse em aprimorar os seus textos, melhorar o enredo de suas histórias, aumentar o impacto dramático de suas cenas, dificilmente eu poderia recomendar o suficiente a leitura desse livro. Sou grato pela oportunidade de escrever este artigo, só pela alegria de retornar às venerandas páginas de “A Poética”!
Por isso separei duas dicas quentes de Aristóteles sobre a arte de escrever histórias, que ele escreveu pensando na tragédia grega, mas que bem poderiam constar de algum manual de redação para cinema ou tevê. Espero que sejam úteis em sua caminhada literária e desejo muita inspiração em seus escritos!
 
 1. UNIDADE DA AÇÃO

 

Assim falou Aristóteles:

“Aquilo cuja presença ou ausência
não traz alteração sensível
não faz parte nenhuma do todo.”
 

Um dos maiores desafios do escritor – e também de todo ser humano – é livrar-se do apego. Quem nunca sentiu pena de ter que cortar aquela cena tão interessante, ou aquele personagem tão desafiador, ou mesmo um capítulo inteiro de sua história? E ainda mais depois de ter tanto trabalho justamente com essa parte que é preciso cortar…

É nessas horas que vale muito a pena recorrer à sabedoria de Aristóteles. Ter em mente a unidade de ação da história ajuda muito a resolver conflitos como esse.

Você pode fazer um teste muito simples para descobrir se determinada parte de uma história deve ou não ser cortada. Experimente suprimir essa parte. Se a história continuar funcionando, é porque a parte que você suprimiu não pertence à unidade de ação. É um apêndice indesejável, que realmente precisa ser descartado.

O contrário também pode acontecer, mesmo que mais raramente: o escritor ter dificuldade em perceber algo que está faltando na história. A solução para isso – e para muitos outros problemas graves – é revisar o texto muitas vezes. Nesse caso específico, de um ponto cego na trama, pode ser especialmente útil a ajuda de um leitor beta, uma outra pessoa para ler e opinar sobre a história.

2. VEROSSIMILHANÇA X NECESSIDADE

Ao analisar os diferentes tipos de histórias, Aristóteles chegou à conclusão de que o tipo mais fraco de história é o que ele chama de “episódico”:

“Chamo episódica aquela em que a sucessão dos episódios
não decorre nem da verossimilhança nem da necessidade.”

Escrever, ensina o filósofo, é a arte de imitar a vida. E quanto mais verossimilhança e necessidade houver em uma história, mais impactante e capaz de despertar emoções ela será.

Podemos considerar a Verossimilhança em uma história como o poder de convencer. É o atributo mais importante, sem o qual não pode existir uma boa história.

Alguns podem objetar que a vida, com muita frequência, é inverossímil. Exatamente. Só que a vida não está preocupada em convencer ninguém. Esta é uma obrigação exclusiva da ficção. Tanto é assim, que quando algo fora do comum e difícil de acreditar acontece na vida real, isso gera assombro e até maravilhamento. Mas se o mesmo fato é descrito na ficção, o efeito é o oposto: decepção e desapontamento. Diante de uma cena inverossímil, o leitor sente-se “arrancado” de dentro da história, pois o caráter ilusório da mesma é desmascarado sem chances de redenção. Uma experiência lastimável para o leitor, que todo escritor deve se esforçar ao máximo por evitar!

Isso não quer dizer que a ficção só deva tratar de acontecimentos corriqueiros, muito pelo contrário. É possível abordar os temas mais fantásticos de forma convincente. Nisso consiste a fina arte da Verossimilhança.

Já a Necessidade é um conceito mais sutil e, ao mesmo tempo, autoexplicativo. Por isso mesmo, acho adequado considerar como Necessidade tudo aquilo que aparece em uma história que não precisa ser justificado. Está ali porque é necessário e pronto.

(Atenção, os dois próximos parágrafos comentam cenas de Hamlet para exemplificação que talvez possam ser consideradas spoilers. Se ainda não leu – ! – este texto de Shakespeare e não quiser saber nada, nada a respeito da trama, pule imediatamente para a última linha desse texto!)

Um belo exemplo desses dois atributos pode ser encontrado na cena de abertura do “Hamlet” de Shakespeare. É necessário para a história que o fantasma do pai de Hamlet apareça e denuncie o seu próprio assassinato. Sem uma evidência dramática como essa, que filho ousaria suspeitar que a própria mãe é uma assassina?

Quanto à verossimilhança desta cena, que não tem nada de corriqueira, aí entra o gênio de Shakespeare, fazendo com que o sobrenatural tenha uma aparência de natural pelo recurso da repetição: o fantasma aparece primeiro para um guarda, depois para um amigo de Hamlet, até que o próprio príncipe é chamado. Simples, genial e eficaz, como sempre!

Então, resumindo: você pode até usar, mas não abuse do Deus ex machina!

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora. É um dos autores convidados da Antologia RedRuM: Contos de Crime e Morte, a ser publicada em 2014 também pela Caligo.

MEMÓRIA versus IMAGINAÇÃO: use esse confronto para escrever melhor

Por Fabio Shiva

“Os escritores lembram-se de tudo (…). Mande um escritor tirar a roupa e aponte para cada cicatriz e ele lhe contará a história de cada uma delas. (…) Para ser um escritor é preciso ter um pouco de talento, mas o único pré-requisito de verdade é a capacidade de lembrar a história de cada cicatriz.”

Lembro com clareza que esse trecho do romance Angústia (Misery), do Stephen King, que li pela primeira vez por volta dos quinze anos, foi para mim uma das passagens mais assustadoras de toda a literatura! Isso porque representou, na época, um verdadeiro decreto de morte precoce para meu grande sonho de me tornar escritor um dia. Lembro de ter vasculhado o corpo, em ansiedade frenética, mas fui reprovado logo no primeiro teste, uma cicatriz meio gordota no joelho: foi de uma queda de bicicleta? Ou de patins? Jogando futebol? Pulando o muro do vizinho para roubar fruta? Ou brincando com o cachorro na rua? Eu não sabia a resposta, e vivenciei com toda intensidade a angústia do título do livro, vendo meu glorioso futuro como escritor se esvaindo em fumaça diante de minha incapacidade de lembrar a história daquela bendita cicatriz!

Já na adolescência eu era bem conhecido pelos amigos por minha imensa distração, que me fazia esquecer as coisas mais elementares, tais como usar sapatos da mesma cor (e modelo) para ir à escola! Datas de aniversário e outras ocasiões importantes, então, simplesmente não faziam parte de minha realidade. Que dirá lembrar a história de uma insignificante cicatriz! Senti-me profundamente traído pelo King e pelo mundo inteiro, que me negavam o direito de ser escritor por conta de coisas que, para mim, não tinham a menor importância!

Mas de alguma forma, intuitivamente, percebia que nem tudo estava perdido, pois eu podia não lembrar a história de cada cicatriz, mas guardava perfeitamente quase tudo o que lia com tanta voracidade, conseguindo citar de cabeça frases inteiras, lembrando às vezes até mesmo do número da página que continha determinada passagem. Ainda restava uma esperança para mim!

E aí está a primeira dica importante, que só vim a entender melhor muitos anos depois, ao estudar as minhas primeiras lições de Raja Yoga, a Yoga Mental: memória é atenção. A memória é seletiva, e o filtro das lembranças é justamente a atenção. Lembramos com mais clareza das coisas às quais damos importância. Inversamente, esquecemos com facilidade aquilo que não consideramos importante. Esse é o segredo para se ter uma boa memória: concentre a sua mente naquilo que deseja lembrar. Simples assim.

Mesmo sem entender perfeitamente isso na época eu não estava disposto a abrir mão de meu sonho sem lutar. Ainda que essa luta fosse contra um monstro sagrado como Stephen King, que para meus quinze anos era nada menos que o maior escritor do mundo! Lembro em detalhes (olha a atenção aí!) de uma noite gloriosa em que desafiei o Rei, em minha imaginação:

– Stevie, meu caro, memória não é tudo na vida. Aposto que para cada história de cicatriz que você conseguir lembrar, consigo inventar ao menos duas tão interessantes quanto!

E foi graças a essa rebeldia, sem brincadeira, que consegui seguir em frente e perseguir meu grande sonho! Eu havia acabado de descobrir a força da imaginação! E logo descobri que não estava sozinho, muito pelo contrário: na melhor companhia possível!

E logo veio cair em minhas mãos, por uma dessas forças da sincronicidade, um texto crítico sobre a obra de José de Alencar, que era muito louvado por sua grande capacidade imaginativa, ainda que a memória fosse o seu ponto mais fraco!

Acho que até ouvi umas trombetas e sinos tocando, quando li esse texto. Senti-me abençoado e apadrinhado, logo por quem! Justamente José de Alencar, um dos grandes responsáveis pelo meu amor aos livros, desde que havia lido “O Guarani” aos onze anos de idade e vários outros depois, em rápida sequência. Na verdade, considero até hoje José de Alencar meu grande e querido professor de língua portuguesa! E daí, enfim, que eu não pudesse ser um Stephen King? Sendo um José de Alencar, para mim já estava de bom tamanho!

Ao contrário da boa memória, a imaginação não tem uma norma ou regra para ser alcançada. Talvez a imaginação seja precisamente a ausência total de regras! Mas ainda que não seja tão facilmente definível, a imaginação pode e deve ser treinada! E, como tudo na vida, melhora com a prática. Um bom exercício para treinar a imaginação de escritor pode ser muito divertido: observe as pessoas passando na rua, e tente criar para cada uma delas uma história, um passado, um destino, um segredo… quando menos esperar, você terá em mãos todos os personagens de que precisa para sua próxima história.

Esse confronto Memória X Imaginação adquiriu tamanha importância para mim que acabou se tornando um dos principais temas de meu primeiro livro, “O Sincronicídio”. Posso afirmar, com muito orgulho, que nenhuma das páginas desse livro foi escrita a partir do uso da memória, no sentido empregado por King… foi tudo imaginação pura!

Depois do batismo de fogo, no entanto, tive uma maravilhosa descoberta ao escrever o livro de contos “Isso Tudo É Muito Raro”. Beneficiado pela experiência adquirida com o primeiro livro, um belo dia descobri, para minha grande felicidade e gratidão, que estava usando a memória para compor cenas inteiras, e dar mais realismo e vivacidade a muitos personagens.

E aí veio o maior aprendizado de todos: quem foi que disse que precisa ser uma coisa ou outra? Por que não usar a memória e a imaginação juntas? Quando se trata de escrever, o escritor não deve hesitar em lançar mão de todos os recursos que estiverem ao seu alcance, seja a imaginação, seja a memória. Ou mesmo alguma outra faculdade mental ainda não descoberta… ou inventada!

Fabio Shiva é músico, professor e escritor. Publicou em 2013 o romance policial “O Sincronicídio: sexo, morte e revelações transcendentais” pela Caligo Editora.