Quando entrevistei o filho de John Fante

Por Felipe Rodrigues

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou.

John Fante morreu, mas deixou um grande legado. Além da sua produção toda, contando clássicos como “Espere a Primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”, passou os genes de escritor para Dan Fante, seu filho. Lembro-me mais ou menos. Era final de 2007, as luzinhas já caindo pelas janelas. Eu procurava por contos do FILHO DO HOMEM em português e acabei caindo em seu site oficial. Logo na abertura, ouvia-se uma sequência de sucessos do blues tradicional, além de indicações de alguns escritores novos (bravo, Dan!), livros do autor e recortes com críticas que tinham saído em jornais e revistas.

Anotei o e-mail do cara e resolvi entrar em contato. Na época eu era um ASPIRANTE A JORNALISTA COM UM BLOGSPOT. Então, como diabos iria convencê-lo a responder as minhas perguntas? Convencido de que Dan Fante deletaria o e-mail e fumaria outro cigarro, resolvi inventar que eu era de algum jornal. Se bem me lembro, disse que a entrevista seria para um jornal de “grande circulação” de São Paulo.

Inexperiente e sem nenhum material sobre Dan Fante para ler – à época nem a Folha de S.Paulo e nem o El País tinham ROUBADO A MINHA IDEIA (hehe) – elaborei algumas perguntas – muitos clichês e questões ingênuas – e enviei para o cara. Na outra semana, para o bem ou para o mal, ele me retornou.

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou. Infelizmente, não consegui falar muito sobre a sua obra, afinal, seus livros ainda não tinham sido publicados no Brasil – e ainda não foram (passados sete anos). Porém, ganhei um presente de Natal. Ele me mandou na íntegra o arquivo final de “86’d”, à época seu último romance.

BRUTAS, SECAS, ÁCIDAS e por vezes blasés, seguem as respostas de Dan Fante à minha “entrevista”.

Você já leu algum escritor brasileiro?
Infelizmente, não tenho familiaridade com escritores brasileiros. Eu leio somente em “americano” e costumo odiar traduções.

Como foi a amizade com Charles Bukowski?
Eu conheci Hank. Ele costumava visitar meu pai. Admiro sua poesia, extremamente.

Algum de seus livros será lançado no Brasil?
A editora Harper Collins vai lançar quatro de meus livros, eu espero que todos eles sejam traduzidos.

Aqui no Brasil é muito difícil ser escritor ou até mesmo lançar um livro, como isso funciona nos Estados Unidos?
Você talvez precise de uma pistola para fazer os editores lerem seu trabalho. É muito difícil, os americanos perderam o costume da leitura. Um escritor tem que ser persistente.

Quais escritores novos você lê?
Não muitos. Tony O’Neill tem um bom livro que sairá agora e há uma boa coletânea de histórias de Mark SaFranko (da Murder Slim Press, Inglaterra). Vale a pena ler os dois.

Qual é o seu maior objetivo com a literatura?
Ter todo o meu trabalho lido e publicado em todos os países.

Você ainda tem um trabalho miserável?
SIM, SOU UM ESCRITOR.

A que se deve o sucesso dos seus livros na Europa?
Europeus têm bom gosto para escritores.

Você poderia contar alguma história sobre seu pai?
Ele fez muita grana escrevendo todos os dias para os estúdios de Hollywood. Fazia uma reunião com sua secretária todas as manhãs e dizia para ela que anotasse todos os recados, então ia jogar golf. ELE FEZ ISSO POR 20 ANOS.

No seu site tem uma apresentação de slides com algumas de suas fotos, que música é aquela? Que tipo de música você gosta?
Eu gosto de blues norte-americano: John Lee Hooker, Jimmy Reed, Sonny Terry e Brownie McGee.

Como era a cena beat do Greenwich Village quando você tinha 19 anos?
Era engraçado: um monte de poetas loucos e todo mundo queria mudar o mundo. Então chegou Lyndon Johnson…

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

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O Famoso Hiram Melville

Por Felipe Rodrigues

As críticas negativas a respeito do livro afetaram em cheio o escritor, que via sua obra sendo qualificada nos jornais e revistas literárias como “insalubre”, “falha mortal”, “abominável”, “monstruosamente artificial”, “horrorosa e suja”, entre outros adjetivos.

Hoje pode parecer surpreendente, mas o clássico Moby Dick, de Herman Melville, foi um fracasso de crítica e público em seu lançamento – 1851. Oscilando entre avaliações positivas e negativas, foi considerado filosófico demais, pretensioso e destoante das obras anteriores do autor. Com a má recepção do romance, o escritor entrou em crise.

Isso aconteceu porque Melville começou a carreira produzindo narrativas pessoais, baseadas nas aventuras que tinha vivido como marinheiro. Seu primeiro livro, Typee, relata sua deserção de um navio e a temporada em torno de uma tribo de canibais nas Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, seguido pela continuação, Omoo: A Narrative of Adventures in the South Seas (em tradução livre: “Ommo: Uma Narrativa de Aventuras nos Mares do Sul”), inspirada pelo tempo que passou no Taiti.

Em White-Jacket (trad. livre, “Jaqueta Branca”), de 1850, Melville descreveu os 14 meses em que serviu à Marinha dos Estados Unidos. Com estes romances iniciais, centrados na ação e na exploração de paisagens distantes, Melville ganhou certo reconhecimento. Ficou famoso por ser “o homem que viveu entre os canibais”.

Mas, se a fama de Melville começou a ser apagada após o sucesso inicial dos livros de ação e lançamento de Moby Dick – o romance que escreveu na sequência, enquanto sentia-se extremamente frustrado, colocou-o à beira da loucura: o ousado Pierre, or, The Ambiguities (Pierre ou as Ambiguidades).

É um romance protagonizado por um jovem escritor, Pierre Glendinning, aristocrata e herdeiro de terras conquistadas pela família. Prestes a se casar com Lucy, conhece a bela Isabel, que revela ser a filha bastarda de seu pai. Ela passou os anos de afastamento confinada em um manicômio.

A mãe de Pierre, para proteger a memória do pai, tenta afastá-lo de Isabel, mas não consegue. Eles se tornam muito próximos e Pierre cogita o casamento com a irmã, para lhe dar direitos sobre a herança.

A partir daí, a simbiose entre os dois termina em uma relação incestuosa. Para completar, a ex-noiva de Pierre – sem conseguir esquecer o rapaz – junta-se a eles. Excluído, o trio passa a viver em um abrigo insalubre improvisado para artistas.

Nascido da decepção pós-Moby Dick, este romance abordou temas delicados para a época e manteve o tom filosófico da obra anterior. Segundo os familiares de Melville, no período em que ele estava produzindo o livro – às vésperas do Natal – “não saía do quarto, estava sob um estado de excitação mórbida que brevemente afetaria a sua saúde”.

Há de se imaginar a discrepância de um autor conhecido por aventuras entre nativos e marinheiros, escrevendo sobre um jovem que abdica da riqueza da família, abandona a noiva; e faz sexo com a meia-irmã em um abrigo precário. Em carta enviada ao amigo Nathaniel Hawthorne – novelista e contista norte-americano – Melville confessou que sentia dificuldade para escrever ao público enquanto queria escrever para si mesmo.

As críticas negativas a respeito do livro afetaram em cheio o escritor, que via sua obra sendo qualificada nos jornais e revistas literárias como “insalubre”, “falha mortal”, “abominável”, “monstruosamente artificial”, “horrorosa e suja”, entre outros adjetivos.

Afora a temática do livro, há diversas semelhanças biográficas entre Pierre e Melville. Roubando um termo usado por Paulo Leminski, “Pierre” pode ser considerada uma dúplice ficção. Um escritor decepcionado cria um romance sobre outro escritor, que busca inspiração a todo custo. Fora isso, a origem de Melville e Pierre é a mesma: ambos bem nascidos e herdeiros de famílias ricas.

Talvez, a crise emocional vivida por Melville enquanto escrevia “Pierre” tenha delineado o destino trágico dos personagens e seus perfis bizarros. O relacionamento do protagonista e sua mãe, por exemplo, é realmente estranho, pois ela faz questão de se manter arrumada toda vez que vê o filho e, além disso, os dois chamam-se de “irmãos”, o que sugere outra relação incestuosa. Isabel, por sua vez, é emocionalmente instável e envolta em mistérios.

O filme Pola X (1999), do diretor francês Leos Carax – baseado em “Pierre” – consegue captar a densidade e traduzir o universo confuso do romance e, por consequência, do que se passava com o escritor. Uma das cenas mais interessantes do filme ocorre quando Pierre encontra Isabel na escuridão de uma floresta. A mulher em andrajos, aparentando desespero, começa a sussurrar frases desconexas e ambos caminham sem rumo.

Livro de derrocada e desapontamento, Pierre, or, The Ambiguities tem seu maior valor como malha de recordações e retrato da situação de Melville àquele período de isolamento. Foi crucial para o estudo de sua vida e obra a partir de 1920, quando seu trabalho ganhou uma revisão por parte dos críticos literários, fazendo a importância do autor emergir 30 anos após a sua morte.

O escritor era praticamente desconhecido ao final da vida, tanto que o jornal The New York Times publicou uma carta enviada à seção de obituários com o nome do escritor grafado de forma incorreta: The Late Hiram Melville (O Falecido Hiram Melville).

A obra que ficou mais conhecida após o revival foi o seu último manuscrito, Billy Budd, adaptado para óperas e para o cinema e considerado uma “pérola da literatura em língua inglesa”. Já Moby Dick, que apresentou a baleia mais conhecida do ocidente, talvez atrás – sinal dos tempos – da estrela do Seaworld, Shamu, tornou-se um clássico, ganhando adaptações para crianças, para o mundo dos quadrinhos e do cinema.

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Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

O Canto dos Esquecidos

Por Felipe Rodrigues

Ao longo da vida, diz-se, o “Velho Safado” chegou a rejeitar grandes editoras em nome de uma lealdade a Martin. Mas alguns anos mais tarde, algo começou a cheirar podre.

No momento em que livros e autores de pequenas editoras nacionais são reconhecidos com prêmios importantes, vale lembrar a história de uma editora norte-americana independente dos anos 1960: a Black Sparrow Press. Através dela, foram apresentados muitos escritores talentosos à literatura contemporânea.

Da sua fundação até 2002, quando vendeu os direitos das obras dos seus principais autores para a gigante HarperCollins, publicou mais de 650 mil títulos, com lucros anuais chegando a um milhão de dólares.

Tudo começou em uma situação inusitada. John Martin, um pesquisador de novos autores, encontrou-se com um velho beberrão metido a poeta. Martin, que não tocava em uma gota de álcool, deparou-se com a poesia de Bukowski em revistas independentes que costumava folhear. O escritor, até então, não havia lançado e nem escrito um romance – tinha um trabalho pesado na agência dos Correios. Curioso, Martin leu toda a sua obra disponível e, para marcar uma reunião, ofereceu-lhe algumas cervejas.

Bukowski sequer entendia a existência de John Martin: “Se ele não bebe, o que deve fazer, então?”. Mas o jovem editor estava realmente interessado na poesia dele, e entre a recusa de uma lata e outra no bangalô do escritor, acabou abrindo um armário lotado de papéis. “O que é isso?”, perguntou. “Meus trabalhos”. Martin leu tudo, interessou-se pelos poemas, separou e levou alguns, já pensando em abrir sua própria empresa.

O nome da nova editora inspirava-se em uma poesia do poeta William Carlos Williams, que citava um sparrow (pardal). Martin gostou da associação da cor preta com um pássaro comum e assim nomeou a Black Sparrow Press, em 1966. Era uma proposta ousada no mercado: publicar os outsiders. Na definição de Martin, escritores que tinham sido reprovados pelos editores de Nova Iorque e não se rendiam aos padrões vigentes do que era considerado aceitável em literatura. Optando pelo segundo grupo, começou a espalhar as histórias do pesadelo americano.

Aliado à sua esposa, Barbara Martin – que fazia as artes dos volumes de cabo a rabo – o editor conseguiu arrecadar 50 mil dólares com a venda de seus livros para uma biblioteca – era um colecionador inveterado de primeiras edições.

Inspirado por B. W. Huebsch, o primeiro a publicar as obras de James Joyce nos EUA e editor da Viking Press, Martin começou a apostar no trabalho de Bukowski, lançando 30 cópias de uma de suas poesias, “True Story”, que apresentava um tema pesado mesmo para aqueles anos lisérgicos: um homem que tinha acabado de mutilar o próprio pênis com uma lata enferrujada e andava sem rumo por uma rodovia.

Para manter o “Velho Safado” escrevendo constantemente, Martin pagava-lhe um salário de 100 dólares por mês (para telefone, alimentação, aluguel, gasolina, pensão, cigarros e bebida). Assim, o autor não precisava mais de um trabalho miserável. Esse foi um grande passo para a editora e para o escritor.

Em alguns dias, Bukowski ligou para Martin. “Venha buscar”. “O quê?”. “O romance”. Tratava-se de “Cartas na Rua”, obra irregular, inovadora e cômica que fez a editora deslanchar. A partir daí, conquistando uma grande audiência, a Black Sparrow começou a investir em outros autores, como Joyce Carol Oates e Paul Bowles, e a publicar escritores já conhecidos – o maldito Henry Miller – além de trazer à tona esquecidos como John Fante, com a republicação de sua segunda novela.

Outra característica marcante da Black Sparrow era a arte de Barbara. As capas dos livros são, até hoje, facilmente reconhecidas pelo design enxuto, baseado em cores pastel e formas geométricas, que as faziam ser tão impressionantes quanto as de grandes editoras. Essas edições, de baixa tiragem e receita, eram muito bonitas e tornaram-se a marca registrada da editora, sendo procuradas por colecionadores até hoje.

No início dos anos 2000, com mais de 70 anos, Martin vendeu os direitos autorais de Bukowski, Fante, Oates e Bowles, entre outros autores, à Ecco Press, selo da editora HarperCollins. Atualmente, o distribuidor licenciado da Black Sparrow é David R. Godine, que não reeditou nenhum dos livros, comercializando-os da mesma forma que foram feitos por John e Barbara Martin.

Nunca confie num pardal abstêmio

O longo casamento entre a Black Sparrow e Bukowski – em que um tirou o outro do anonimato – foi feliz até a morte do escritor, em 1994. Ao longo da vida, diz-se, o “Velho Safado” chegou a rejeitar grandes editoras em nome de uma lealdade a Martin. Mas alguns anos mais tarde, algo começou a cheirar podre.

Perturbado pelo tom dissonante das obras póstumas de Bukowski – ele era tão prolífico que Martin teve material inédito para publicar após a sua morte por mais de uma década – um fã do escritor, Michael Phillips, administrador do site Bukowski.net, decidiu pesquisar a raiz do problema.

Em posse dos manuscritos, comparou esses originais com as últimas obras editadas pela Black Sparrow e verificou que John Martin publicou muitos dos poemas grotescamente alterados – suprimindo referências a bebidas, drogas e sexo, alterando a ordem das palavras e até mesmo incluindo versos inteiros. Desde então, Phillips denuncia as alterações na obra póstuma de Bukowski, a que chamou de “estupro”, em artigos no site mjpbooks.com.

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

Nada como uma boa fora-da-lei

Por Felipe Rodrigues

Assim, essas bandidas – símbolos sinceros da própria causa e manifestos vivos – acabam sendo apedrejadas e difamadas em praça pública e, normalmente, acabam mal na(s) história(s). E não é isso que acontece com quem expõe demais a alma?

Gostaria de poder elencar todas as mulheres outsiders da literatura, mas não é possível. Puxando pela memória, me vem à cabeça a personagem feminina do último romance brasileiro que li, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino, autor que merecia uma estatueta por este título tão bom. A garota-problema do livro é Lavínia, apresentada como uma criatura de dupla personalidade: ora é a mulher respeitada de um pastor, ora é uma libertina que escapa para visitar o amante.
Afora a duplicidade da personagem criada por Aquino, ao adentrarmos com um pouco mais de profundidade na história de Lavínia, percebemos que as metamorfoses da moça são uma questão de sobrevivência, de adaptação (Darwin adoraria o livro). Ex-prostituta, ela encontra a redenção de uma vida miserável – dividia apartamento com um travesti – pelas mãos bondosas e firmes de Ernani, um homem religioso. Tirada da vida de boneca noturna, Lavínia desenvolve uma relação de dependência com o pastor, que tenta moldá-la a ser uma esposa exemplar.
Obviamente, Ernani não consegue mudar Lavínia completamente. A personagem apenas adormece em seu círculo de fogo, encontrando a segunda redenção em Cauby (sim, há piadas sobre esse nome e o do cantor no romance), o fotógrafo por quem se apaixona. A partir daí, torna-se uma autêntica bela da tarde tupiniquim, mas em vez de dinheiro, recebe em sexo, música clássica, conhaque, maconha e fotos nuas.
Há outras personagens desse tipo, como Tristessa, do livro homônimo de Jack Kerouac – uma prostituta mexicana com quem o protagonista se envolve, além de Camilla Lopez, a garçonete também mexicana (que fixação dos escritores americanos, não?) que some no deserto do romance Pergunte ao Pó, de John Fante.
Voltando ao Brasil, há a dupla de garotas do livro de Carol Bensimon, Todos nós adorávamos caubóis – que viajam sem rumo pelos confins do Rio Grande do Sul à procura de respostas e de autoconhecimento – além de outra Camila, alter ego da escritora Clara Averbuck no romance Máquina de Pinball.
Para além de análises do ponto de vista feminista e da discussão de gêneros, esse tipo de personagem torna-se marcante por simbolizar o forte instinto de liberdade feminino – a mulher odeia mais do que o homem ficar enclausurada – que obriga essas “fora-da-lei”, contidas dentro de cascos frágeis e pressões sociais, a se libertarem do cotidiano barato, alçando voos explosivos (e subversivos) por alamedas perigosas e, por isso mesmo, excitantes.
Assim, essas bandidas – símbolos sinceros da própria causa e manifestos vivos – acabam sendo apedrejadas e difamadas em praça pública e, normalmente, acabam mal na(s) história(s). E não é isso que acontece com quem expõe demais a alma?
Com sofrimento ou vergonha, em todas as artes, do cinema (Thelma & Louise, Messidor) à música (A Case of You, Doidivana), espero que as benditas fora-da-lei continuem surgindo e caminhando pela ponte escura entre realidade e o imaginário.

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.