O mistério do escritor, ou Quem sou eu?

Por Fernando de Abreu Barreto

Então é isso? Chegamos a esse ponto? Os livros não serão lidos porque a foto do autor não é adequada? Porque ele gagueja quando fala em público? Porque não sabe olhar direto para a câmera? Porque fala da intimidade em sua página no Facebook? Sim. Não. É um mistério.

 

Queria escrever sobre escritores. Queria escrever sobre escritores e seus livros. E o processo de criação, os obstáculos, as ferramentas e os macetes. Queria escrever sobre as manias e os anseios de escritores, o que esperam de seus livros, de suas carreiras. O que eles gostam de ouvir sobre escritores e seus livros.
Leio o que foi escrito sobre escritores e seus livros. O que foi escrito sobre literatura na última semana nos principais veículos de comunicação, pelos melhores escritores. O que foi dito pelos profissionais expoentes.
Releio, também, o que escrevi sobre escritores, seus livros e literatura. Reafirmo a certeza que nunca me abandonou: podemos separar escritores entre os comerciais e os mais literários.
Chuck Palahniuk aconselha escritores novatos a não usar verbos de pensamento a fim de melhorar a qualidade literária do texto. Que se dane o Chuck, esse aqui não é um texto literário. Portanto, posso dizer que acredito (penso, acho…) que existam autores mais comerciais e outros cujo texto tem maior valor literário. E acredito, logo em seguida, que alguns textos mais literários podem ser comerciais e algumas obras comerciais podem conter textos com valor literário.
Dito isso, descubro que esse texto tomou um rumo diferente do que eu esperava. Queria escrever sobre autores comerciais, como são apresentados em eventos literários, como se promovem através de diferentes plataformas, como alcançam tanto ou mais valor que seus livros – discussão que encheu as páginas do Caderno Prosa de O Globo do dia 09/08/2014 com excelentes reflexões. Mas descobri, pelo que produzi até aqui (o pouco que produzi), que não sei se eu mesmo sou comercial ou literário.
Aproveitando o mote do último texto do Fabio Shiva, a questão se tornou um grande suspense pra mim. Sempre busco acrescentar valor literário aos meus textos de ficção e acredito (Chuck que se dane, de novo) que sei como fazê-lo. Acredito que tenho sucesso. Mas recentemente o que ouvi a respeito de A Forma da Sombra, que lançarei no próximo dia 30, são elogios ao seu viés comercial.
Queria escrever sobre escritores e a exposição na mídia, nas feiras literárias, na Internet. O primeiro conselho que recebi da agente literária foi alterar minha foto no Facebook, a antiga não condizia com a imagem de escritor que eu projetava e na qual ela passou a acreditar após nossa primeira conversa. Um conselho honesto e corajoso (como deve ser), se você conhecer o tamanho da minha vaidade. Acredito que a atual ainda não esteja adequada. Um dia aprendo a escolher, ou contrato um consultor.
Então é isso? Chegamos a esse ponto? Os livros não serão lidos porque a foto do autor não é adequada? Porque ele gagueja quando fala em público? Porque não sabe olhar direto para a câmera? Porque fala da intimidade em sua página no Facebook? Sim. Não. É um mistério. Ninguém sabe ao certo o que torna um autor vendável, mas suspeita-se do que pode torná-lo comercialmente inviável.
Queria aproveitar o mote do excelente texto do Fabio Shiva e dizer que a promessa do suspense e o embuste da ameaça não estão restritos à ficção literária ou audiovisual. Eles se estendem por tudo o mais. Queria escrever sobre escritores e a exposição na mídia e na internet. Como essa exposição pode ajudar a vender livros e como pode atrapalhar a vender o escritor (se for mal elaborada e executada). A opção que o autor deve fazer entre o mistério que provoca curiosidade e a massificação que impele o consumidor (essa pergunta me veio à cabeça: o escritor que se refugia na montanha foi aposentado pelo mestre da autopromoção?).
Lembrei que não sei onde estou na classificação que eu mesmo ajudo a promover entre obras literárias e comerciais. Não sei que escritor eu sou. Termino personagem de mim mesmo, aguardando convites para feiras literárias e programas de rádio/televisão em que pretendo falar sobre livros e escritores e literatura. O escritor que não consegue adequar a foto da rede social à imagem real. Uma personagem misteriosa. Suspense ou ameaça?

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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Medo

Por Fernando de Abreu Barreto

Fazer literatura é correr riscos, que são muitos. Em um país que não lê autores nacionais, começa por aí. Nesse aspecto, podemos afirmar que qualquer autor brasileiro que não seja um mago tem a coragem de um cavaleiro.

Sempre tive medo de altura, medo de tubarão, medo de viajar em avião, medo de câncer, medo de apagar a luz após assistir a filmes de terror, medo de ficar sozinho na velhice, medo de rato, medo de relâmpago, medo de dirigir em estradas sem separação de pistas, medo do diabo, medo de soco na cara, medo de morrer dormindo, medo de cobras. Mas nunca tive medo de escrever.
Não por obra do corretor de texto, que em nada melhora minhas letras. Nasci sem essa parte do cérebro. E mesmo quando, anos mais tarde, releio algo que escrevi,mesmo quando esse texto antigo me desagrada,não me assusto nem me arrependo.
Fazer literatura é correr riscos, que são muitos. Em um país que não lê autores nacionais, começa por aí. Nesse aspecto, podemos afirmar que qualquer autor brasileiro que não seja um mago tem a coragem de um cavaleiro.
O risco, no entanto, é maior quando partimos para a literatura experimental, que por si só já é difícil de definir. É preciso coragem. Excelente matéria de capa do Cândido (jornal da Biblioteca Pública do Estado do Paraná), investiga a literatura experimental, sob a ótica de autores, acadêmicos e editores, todos com a mesma opinião: o experimentalismo é voluntário, por isso o risco é maior e de conhecimento do autor.
Aquele que optar por esse caminho deve ser, além de consciente, paciente, a despeito de todo rancor latente que parece inundar muitas almas escritoras.
Carlos Henrique Schroeder afirma, na matéria mencionada, que é natural a relutância das grandes editoras comerciais em apostar em autores experimentais. Está certíssimo, o risco é do autor e deve ser assumido por ele sem ressentimento.
Como todo espaço vazio sempre é preenchido, pequenas editoras têm feito a garimpagem no mercado. Pequenos peixes-pilotos, conseguem levar ao mercado o que é visto com desconfiança pelas grandes.
Editoras pequenas são como escritores experimentais, por motivos diferentes. Os autores gostam do risco que correm, as pequenas têm pouca opção (e pouco dinheiro). Mas vivem uma simbiose que mantém vivo o experimentalismo que enriquece e transforma a literatura.
Ainda na matéria do Cândido, Dirce W. do Amarante (especialista em Literatura pela UFSC) afirma que “[…] o autor que é de fato experimental não pode deixar de escrever assim sem mais nem menos só porque o mercado o exige. Ser experimental é crucial. O autor experimental tem mil razões para ser teimoso, e essa teimosia é uma postura ética, política, estética da maior relevância para a sobrevivência da arte”, eu acrescentaria que é uma postura corajosa.
Porque ser experimental, diferente, contrário, alternativo, fora de foco, ser a curva na reta é um ato de coragem. O risco de permanecer comercialmente inviável, prêmios que não virão, falta de reconhecimento, estar afastado do mainstream são possibilidades mais reais que falsas. E pode não haver prazer algum que recompense essa postura, tampouco obrigação ética, politica ou estética, pode ser apenas algo natural, um traço de quem nasceu sem medo de escrever.
Preciso mencionar que não me considero um autor experimental. Mas termino no mesmo cercado, por ser um autor em início de carreira que busca fazer literatura sem amarras. Autores iniciantes têm essa vantagem; são livres, e a liberdade tem o poder de bloquear o medo.
É necessário dizer, também, que muitos autores experimentais, corajosos, que se arriscam, chegaram aos andares mais altos da carreira. Dizer, portanto, que manter-se experimental resulta em uma carreira falida é falácia. A diversão está exatamente em descobrir aonde você chegará. Para isso é preciso deixar o medo de lado.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

O Processo II – Luz sobre a Sombra

Por Fernando de Abreu Barreto

Muito do projeto foi mantido, mas a alma, descobri com o tempo, era outra. Solidão, transtorno antissocial ou isolamento eram o meio para que eu chegasse ao centro da obra, a diferença entre as pessoas.

Quando terminei de escrever a coluna sobre processo criativo percebi que errei. Porque a editora me pediu que escrevesse sobre o processo criativo de A forma da sombra, novela de minha autoria a ser publicada pela Caligo Editora neste ano.

Um autor iniciante não procura se informar sobre a rotina de autores experimentados por curiosidade inconveniente. Quando pergunta sobre o processo criativo (que muitas vezes confunde com a rotina do escritor e os instrumentos que facilitam a construção da obra literária), procura orientação. Participei de inúmeras oficinas literárias movido por essa busca, até descobrir que assim como não há modelo que enquadre o processo criativo, não há norma que defina a rotina do autor.

Notas e perfis de personagens são muito importantes, ajudam a dar sustentação ao texto. Leitura em voz alta ajuda a corrigir vícios. Pesquisa e leituras de obras referenciais ampliam possibilidades. O projeto é essencial, é por meio dele que a obra começa a se tornar física. E muito disso – esses pequenos trabalhos que separados parecem autônomos, e somados ajudam a compor a obra – é parte do processo criativo.

Ainda assim, não há regra, e um livro pode ser escrito sem que nada disso seja observado. Charles Bukowski, por exemplo, escreveu parte de sua obra sem qualquer planejamento (o que não é aconselhável). Escrevendo A Forma da Sombra vivi experiência diferente do que vivera até ali.

Não sou uma pessoa organizada, o que torna angustiante a tarefa de programar o trabalho, ou elaborar notas, fichar informações. Negligencio a leitura em voz alta e raramente faço perfis extensos dos personagens. Por outro lado, tudo o que escrevo costuma ir para o papel com o destino traçado (ao menos com o desfecho imaginado), o que é um contrapeso à falta de organização.

Mas no caso de minha última novela, já mais maduro e buscando um aprimoramento profissional, a primeira coisa que fiz foi elaborar o projeto literário. Escrevi a novela sob supervisão constante. Fui forçado a criar perfis mais detalhados dos personagens. Li o texto diariamente em voz alta, escondido na varanda (essa prática ainda me constrange).

No meio do processo houve uma inversão radical no projeto. A ideia inicial era escrever uma novela, em primeira pessoa, tempo presente, sobre os efeitos do isolamento. Elaborei um personagem que elegeu a misantropia como norte. A solidão era o fim.

Muito do projeto foi mantido, mas a alma, descobri com o tempo, era outra. Solidão, transtorno antissocial ou isolamento eram o meio para que eu chegasse ao centro da obra, a diferença entre as pessoas. Isso acontece. Você projeta o trabalho, acha que sabe do que está falando e toma uma rasteira. O livro caminha sozinho em dado momento.

Relendo o projeto, encontro o trecho “criar uma história sobre os efeitos do isolamento social e da prolongada falta de exposição à luz do sol”. Nesse momento eu acreditava que o livro trataria disso, um homem que se modifica pelo completo isolamento, e que mesmo no trabalho em que conduz milhares de pessoas de um lado ao outro da cidade (o personagem é um condutor do metrô) permanece solitário e sem ver o sol.

O personagem, porém, foi crescendo e fui compreendendo melhor suas motivações, até descobrir que a perspectiva estava invertida, porque o seu isolamento é proposital. Nesse momento eu enxerguei tudo o que estava oculto.

Aquela frase escrita no projeto inicial poderia ser substituída por “criar uma história sobre a diferença. Alguém que se descobre diferente, se envergonha, se isola, porque ainda não compreende quem, ou o que é. Uma perspectiva pessoal, vertical, sem interferências. Sem conflito externo. Uma história sobre o medo de revelar quem, ou o que é, que leva o personagem a um isolamento social tão intenso – manifestado pela fuga para os subterrâneos da cidade – que o leva a odiar a humanidade”.

A frase não estava errada, ela estava invertida. Em A Forma da Sombra, o isolamento é consequência, não causa. Essa mudança não acusa erro na elaboração do projeto, mas demonstra que o processo de criação literária é vivo, ilimitado. E por isso, não pode se submeter a fórmulas prontas.

Obs: escrevi esse artigo ouvindo Melody Gardot e bebendo seguidas xícaras de café.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

O Processo

Por Fernando de Abreu Barreto

Para quem vê a produção literária como produção de arte (existem os que a veem de outra forma), determinar um método universal e absoluto de criação é contrassenso.

Busque “processo de criação literária” no Google e você encontrará mais de um milhão de referências (some um, a partir da publicação desse texto). Segundo a revista Exame, em 2010 o mesmo site de buscas indicava existirem no mundo aproximadamente 129 milhões de livros publicados. Não quis me afogar em números e não procurei saber o número de escritores.
Caso fosse possível encontrar o número exato de autores espalhados pelo mundo aquela primeira informação prestada pelo oráculo da web continuaria a mesma? Acredito que o número de autores será sempre inferior ao número de processos de criação literária existentes no mundo. Parece estranho, mas não é.
A insegurança natural do autor iniciante gera muitos questionamentos, dentre eles qual o melhor processo de criação literária. Nesse caso só encontro uma resposta possível: não existe.
Para quem vê a produção literária como produção de arte (existem os que a veem de outra forma), determinar um método universal e absoluto de criação é contrassenso. Não raro o mesmo autor aplica a duas obras distintas métodos diferentes de trabalho, o que por si só desmistifica a importância de se eleger uma fórmula especial.
Há, ainda, que se diferenciar o processo de criação específico de uma obra, do projeto literário desenvolvido ao longo da carreira de um escritor. Sendo o segundo um conjunto de tudo o que foi proposto e praticado em cada obra.
Não se pode, no entanto, confundir qualquer deles com hábitos (alguns, vícios) que compõem sua rotina de trabalho. Há o grande mito (não sei de onde vem, se alguém souber, por favor me conte) do escritor produzindo ao som de jazz (ou clássicos), fumando feito louco e bebendo xícaras e xícaras de café. Ou do autor sofrendo diante do papel em branco, solitário, sentado no canto de uma cafeteria.
Não considero método de trabalho esses pequenos cacoetes. São mais um meio de tornar a tarefa menos desconfortável, mais fácil. Da mesma forma que não considero o horário de trabalho como parte do método, é mais circunstancial.
Houve um período em que eu preferia escrever pela manhã. Acordava por volta das seis horas, preparava o café, ligava o computador, lia as principais notícias. Às sete começava a reler o que havia produzido no dia anterior, para enfim digitar as primeiras palavras às oito. Escrevia até o meio-dia, quando parava para almoçar. Depois, ia para o escritório em que trabalhava como advogado. Não era parte do método, era o horário em que eu podia me dedicar ao livro que estava escrevendo por circunstancias cotidianas favoráveis.
Costumava, nesse tempo, levar para o trabalho o texto produzido naquela manhã e, no final da tarde, sentar na mesma cadeira do mesmo café todos os dias, para revisar e acrescentar algo. À noite, passava as anotações da tarde para o arquivo no computador, que seria ligado às seis da manhã do dia seguinte. Não há nada de método nisso, embora a organização do horário facilite o trabalho.
Da mesma forma, não vejo como parte do processo criativo escrever um número mínimo de palavras por dia, o que é alardeado como a força motriz da escola americana.
Separados os hábitos do processo criativo, volto alguns parágrafos. O que se pode dizer concretamente sobre o assunto é que não há fórmula. Entendendo a arte como linguagem e meio de manifestação da convulsão provocada pelas experiências pessoais de vida em contato com o meio externo. Temos de admitir que o processo de criação é puramente instintivo no princípio. Só depois somos capazes de domá-lo através da razão.
A partir desse momento a arte e o processo criativo se fundem, porque a arte é a própria construção da arte. O livro não existe apenas depois de publicado, ele surge muito antes, sempre existiu, desde antes. Nasce do primeiro fato que gerou o fato que modifica ou cria algo dentro do autor. A publicação, portanto, é o ato final de transformação da arte em livro, e não o livro em si.
O autor Ricardo Lísias em vídeo recentemente publicado na internet explica que o verdadeiro prazer estético reside nos detalhes que constroem a obra. Mais, afirma ainda que a pergunta correta a ser feita diante de uma obra de arte é como o artista tenta dar significado, e não o que a obra significa, ajudando a solidificar a ideia de que o processo de criação e o objeto da arte se fundem em uma arte final.
Nessa mesma direção, Carola Saavedra transforma a ideia em ficção em seu mais recente romance, O inventário das coisas ausentes (Companhia das Letras, 2014), no qual o próprio processo de criação é parte da obra, literalmente.
Resta constatar que não existe receita. Sendo o processo individual, único, específico, não aplicável a qualquer outra obra. Tudo mais é rotina: o café quentinho, os cigarros (evitem), a cadeira confortável, Ella Fitzgerald sussurrando ao seu ouvido, não transformam o que existe de abstrato dentro de você em palavras.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

Cheese-Book

Por Fernando de Abreu Barreto

Na vida experimentamos muitas situações em que é mais fácil determinar se algo é bom, ou ruim. Nossas escolhas são orientadas por essa percepção. Todos nós somos assim, e temos a liberdade de escolher o que entendemos melhor. E de dizer que achamos algo melhor. Na literatura, não!

Quem decide se o livro é bom, ou não, é o leitor. Ele vive a experiência pessoal da leitura e sente seus efeitos. Mas a literatura é expressão de arte, e como tal possui aspectos objetivos que merecem respeito para além da subjetividade.

A divisão entre o que é boa literatura e literatura ruim sofre ataques constantes, desde muito tempo. E tem, também, seus defensores (geralmente acusados de academicistas). Eu que não sou um acadêmico da literatura confesso: tenho pouca coragem de meter minha colher na discussão. Mas tenho acompanhado alguns embates como quem assiste a um programa policial vespertino com curiosidade.

E o que mais tenho visto é a clássica discussão de botequim. Todos gritam, se impõem, ninguém ouve, não há reflexão. No final, todos vão para casa cheios de si, nada muda. Serve apenas como desabafo.

Opiniões à parte, em outras formas de arte a discussão inexiste. Em outros ramos de atividade, em outras áreas da vida somos capazes de separar o que é bom do que é ruim, com relativa facilidade.

Mas em literatura é proibido, taxado como uma violação à livre criação. Aquele que deseja classificar uma obra como vazia, menor, desimportante; aquele que procura estabelecer parâmetros técnicos objetivos para avaliar a qualidade de uma peça literária é tratado como formalista, quadrado, careta.

A discussão está muito acima do que é popular, ou elitista. Vai além do que é vendável, ou o que é sucesso de crítica. Muito além do que é divertimento, ou não. A contraditória palavra de ordem, nesse caso, é NÃO. Na literatura não podemos dizer que algo é ruim ou bom. Temos que aceitar como literatura algo intocável.

Passei um tempo fazendo uma enquete com amigos músicos que me responderam que o Xou da Xuxa é um disco muito bem produzido, traz composições de artistas consagrados, atinge o público alvo, vendeu 2,5 milhões de cópias, mas traz um punhado de músicas ruins (deve ser um péssimo exemplo, porque é um álbum infantil, e não se pode esperar muito de um disco voltado para esse público, portanto, vamos esquecer a Arca de Noé).

Continuei na música e tratei do novo álbum do Latino (nem sabia que gravam álbuns nos dias de hoje, mas acredite, o Latino lançou recentemente um novo álbum). Ninguém soube classificá-lo porque ninguém a quem questionei ouviu o disco. Não achei correto colocar os comentários de quem não conhecia a peça, mas os comentários existiram porque todos consideram o Latino ruim. E não parece feio considerar o Latino ruim. Especialmente se você colocá-lo ao lado do Beethoven, dos Beatles, do Barão Vermelho ou do B. B. King (só pra ficar na letra ‘b’).

É fácil compreender por que: as letras são pobres, vazias, muitas vezes escatológicas. Além disso, a construção melódica e harmônica é pobre (isso não é sobre música, não me aprofundarei). Por fim, sua voz não soa agradável. É a combinação de fatores objetivos que nos permite dizer que o Latino produz música ruim, embora venda muitos álbuns e faça shows com lotação máxima por todo o Brasil.

Houve uma época em que as músicas tinham construção melódica simples (note que simples não é pobre), uma multidão de bandas surgiu apoiada em músicas com três acordes. Essas bandas são consideradas ótimas, e seu trabalho é considerado música de alta qualidade.

Por que o rock goza desse privilégio? Porque apesar da simplicidade (que não era regra) e míngua de acordes, era apoiado por letras profundas, que geraram reflexão e revoluções (individuais e coletivas) significativas. Porque procuravam mais que o puro divertimento, e ainda assim divertiam. Era o ajuntamento quase perfeito entre a estética e o entretenimento.

Muita gente pode não gostar de rock, mas não conheço ninguém que em 2014 afirme se tratar de um gênero menor. Será que em 2035 a obra do Latino será vista como grande contribuição para a música brasileira?

Não se trata de preconceito, estou tratando do caráter técnico, embora no botequim isso não seja tão importante. Lá ninguém assume que gosta do Latino, mas todos dançam loucamente sua música em festas de casamento. Latino serve, então, para nos divertir quando estamos bêbados, o que não o torna especial, ou eleva sua música de categoria. Todo mundo sabe disso.

Você consegue determinar que uma comida é boa e outra ruim, embora submetida a subjetividades essa classificação mude frequentemente. Minha mulher adora caqui, eu não suporto a textura, a cor, o gosto. Mas não é de subjetividade que trato.

Há critérios objetivos que podem determinar se uma comida é boa, outra ruim. Não inventaram nada melhor que cheese-bacon, leite condensado e Coca-Cola. São comidas divertidas, unanimidades (exceto o cheese-bacon, enquanto houver vegetarianos), sucesso de vendas. Mas são péssimas, e todo mundo concorda com isso.

A dieta do Mediterrâneo é o que há de melhor no universo dos alimentos, afirmam muitos especialistas. Frutas e hortaliças, oleaginosas, azeite, peixe e vinho tinto são capazes de torná-lo indestrutível. Mas quem gosta de hortaliças e cereais? De Legumes, quem gosta? Muita gente gosta, mas a dieta não é boa porque muita gente gosta, ela é boa porque regula o organismo e fortalece a saúde (e ainda diverte de vez em quando, apesar da recomendação do uso moderado do vinho tinto).

Ninguém tem medo de dizer que a dieta do Mediterrâneo é melhor que o leite condensado. Mas isso aqui trata de arte, e a comida deve ser descartada. É um argumento frágil (é argumento?).

Na vida experimentamos muitas situações em que é mais fácil determinar se algo é bom, ou ruim. Nossas escolhas são orientadas por essa percepção. Todos nós somos assim, e temos a liberdade de escolher o que entendemos melhor. E de dizer que achamos algo melhor.

Na literatura, não!

Não se pode avaliar um livro objetivamente, porque você limita a criação. Não se pode avaliar subjetivamente, porque você está sendo raso. Grande bobagem.

Há critérios objetivos que devem ser sempre considerados, como o uso correto da norma (ou o uso incorreto, desde que o autor conheça o uso correto e o erro seja parte da obra, o que o torna adequado). A busca pela inovação, pela intervenção nas velhas formas de linguagem, porque, embora clichê, a língua é viva e evolui. A literatura deve gerar reflexão, o leitor tem de ser outro após fechar o livro. A obra deve ser uma malha, que funcione como um filtro através do qual as experiências do leitor irão passar.

Não por isso deve (mas pode) ser exageradamente complexa e chata. Um exemplo de obra simples de qualidade elevada é Desabrigo e outros trecos (Antonio Fraga), de simplicidade quase pueril e profundidade assustadora é o exemplo de que a qualidade não está na pompa, mas que simplicidade não é sinônimo de pobreza. Por outro lado, há livros complexos que proporcionam prazer sincero, como O Cortiço (Aluísio Azevedo) ou Dom Quixote (Cervantes), muito divertidos, mas não só isso.
Dizem que James Joyce gargalhava ao escrever Ulysses, outro exemplo de boa literatura, divertida, sucesso de vendas e crítica. Ela existe. Não há nada de errado em pensar que há boa literatura e má literatura.

Como não há nada de errado em pensar que um livro pode ser puro divertimento, um produto bem construído exclusivamente para entreter e vender (no final, o leitor é o modulador, que é pouco influenciado pela opinião que vem de fora, como se vê em interessante texto na coluna da Raquel Cozer publicada na Folha de São Paulo). Mas nesse caso não será jamais literatura boa, será cheese-bacon.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

Cortem as Palavras!

Por Fernando de Abreu Barreto

Preferências à parte, concluí que não me entendo bem com os contos. No campo do romance ainda me perco nos muitos caminhos que se abrem. A novela tem a justa medida da minha escrita.

O primeiro livro que tentei escrever foi sepultado como um romance mal acabado de aproximadamente quatrocentas páginas (cem mil palavras). Apesar de feio, uma leitora crítica experiente enxergou a possibilidade de haver um escritor por trás daquele monte de vocábulos.
Depois da primeira experiência, produzi outro latifúndio de mais de trezentas páginas (pouco menos de noventa mil palavras). Apesar da proposta clara e de estar mais organizado que o primeiro, o segundo romance que tentei escrever terminou enterrado no mesmo cemitério que o primeiro: uma pasta chamada ‘livros’ no HD do meu computador.
Impulsionado por uma ansiedade incontrolável, comecei a escrever o que deveria ter sido meu terceiro romance. Quando alcancei a centésima vigésima página, súbito, o trabalho travou.
Passei a achar que tudo o que havia escrito até ali era de péssima qualidade, quer pela linguagem, quer pela trama. Reli tudo o que havia feito, buscando entender o que passara a me incomodar em livros que tinham proporcionado prazer sincero enquanto os escrevia.
Eram muitas palavras, muita informação, muitos detalhes. O que me incomodava era o “muito”.
Desprezei (ou desconhecia) até ali o que diferencia a literatura dos relatórios. Enquanto nos relatórios é preciso detalhar cada informação, o que empresta valor a uma peça literária, em sua maior parte, é o não dito.
E comecei a cortar palavras.
Coincidência, ou não, nesse período passei a dedicar mais tempo à leitura de novelas e romances curtos. Reli A Hora da Estrela de Clarice Lispector. Conheci Albert Camus em sua mais perfeita forma através de A Queda e O Estrangeiro. Voltei a ler O Processo, de Kafka e conheci alguns dos mais valiosos talentos recentes da literatura nacional, como Michel Laub, que escreveu os melhores contos que li na atualidade (e o pequeno e grandioso Diário da Queda) e Carol Bensimon com seu romance de estreia, Sinuca embaixo d’água.
Mesma época em que li, pela primeira vez, sobre o trabalho de Cesar Aira e sua preferência por narrativas curtas. “Desconfio de pessoas que falam demais, políticos, pregadores, e dos que se exibem e dão lições. Acredito que a literatura é o contrário do charlatanismo e do exibicionismo. Calar-se e esconder-se é mais próprio do escritor, mais eficaz para sua prática” diria o autor, ao ser perguntado sobre a marca do artista. Sua visão de arte e seu projeto literário, em que estão incluídas novelas e publicações em pequenas tiragens, mudaram de vez minha perspectiva. Corri, comprei Haikus e passei a acompanhar e estudar a carreira de Aira.
Já estava irremediavelmente dragado pela narrativa curta, quando li um artigo de Ian McEwan publicado na revista The New Yorker sobre o tema. O título Some notes on the Novella chamou minha atenção. Depois da leitura resolvi assumir o que até ali não tive coragem, minha preferência por novelas.
O escritor britânico abre o artigo com o seguinte parágrafo: “When a character in my recent book, “Sweet Tooth,” publishes his short first work of fiction, he finds some critics are suggesting that he has done something unmanly or dishonest. His experience reflects my own. A novella? Perhaps you don’t have the necessary creative juice. Isn’t the print rather large, aren’t the lines too widely spaced? Perhaps you’re trying to pass off inadequate goods and fool a trusting public.” Uma defesa explícita do ponto de vista que ainda viria a lançar três parágrafos abaixo, quando diz que acredita que a “novela é a forma perfeita de prosa de ficção. É a bela filha de um desmedido, inchado gigante mal barbeado (mas um gigante que é um gênio em seus melhores dias)”, em referência direta ao romance.
Tudo se encaixou. A repentina insatisfação me levou ao corte desembestado de palavras, que, com o tempo, amainou, transformando-se em concisão natural, e cheguei à “forma narrativa perfeita”. Preferências à parte, concluí que não me entendo bem com os contos. No campo do romance ainda me perco nos muitos caminhos que se abrem. A novela tem a justa medida da minha escrita.
Algum tempo depois, participei de uma oficina com Marina Colasanti em que ela repetia a cada novo encontro que na literatura não há palavra vã, revelou sua luta pelo uso adequado dos adjetivos, mas, principalmente, deixou claro que a literatura se reforça com o não dito. O silêncio que explica tudo e se esconde entre as linhas barulhentas.
Ano passado desengavetei Vidas Secas, que havia lido na escola por obrigação, e agora se transformou em referência final. O grande objetivo. Perto de onde quero (ou gostaria de) chegar.
Em 2014 meu primeiro livro será publicado. Uma novela, a bela filha dos meus romances, gigantes natimortos, que talvez reencarnem em novelas, ou ressuscitem como gigantes vitoriosos. A forma narrativa pouco importa, desde que haja neles apenas as palavras e os silêncios necessários.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog “O Nariz do Fernando”, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.