Ora, os clássicos…

Por Gustavo Araujo

Se a virtude está no meio, então, é possível dosar a narrativa com descrições suficientes, nunca exageradas, com certa dose de introspecção, além de emprestar profundidade psicológica mínima para que os personagens não soem esquemáticos.

 

É comum a ideia de que todo escritor deve, antes de tudo, ser um insaciável leitor. Este é o estágio necessário, imprescindível, para que se atinja um mínimo de maturidade na escrita. Nos desafios literários do Entre Contos é possível vislumbrar as influências de best sellers recentes, especialmente da chamada literatura para jovens adultos, conhecida pela sigla YA, na maneira com que os participantes se expressam.

Inspirados por autores modernos, especialmente estrangeiros, os escritores mais novos torcem o nariz para textos considerados tradicionais, mais lentos e introspectivos, preferindo narrativas dinâmicas, sem muitas descrições, e que vão direto ao ponto.

Naturalmente, há um choque.

Autores mais afetos à escola tradicional criticam a cultura enlatada, consumida com avidez instantânea, que, alegam, caracteriza os romances mais vendidos atualmente. A fim de embasar seus argumentos, apontam com certo desdém que falta às novas gerações contato com as obras clássicas. Citam, como exemplos, por vezes com uma intimidade fingida, obras de Machado de Assis, Guimarães Rosa, José de Alencar, Manuel Bandeira e toda a trupe presente nas aulas de Literatura da época do “científico” ou do “segundo grau”. Para os defensores dessa corrente, escritor algum poderia ostentar tal epíteto se não fosse capaz de citar, de coração, trechos de “Macunaíma” ou de “Memórias no Cárcere”.

Os autores modernos se defendem, afirmando com orgulho que jamais leram os clássicos e que não têm a mínima intenção de fazê-lo. Apontam que os clássicos são aborrecidos e que, não fosse a obrigação de conhecê-los na escola, ninguém se importaria com eles.

Como Aristóteles (ou seria Confúcio?), penso que a virtude está no meio.

Não acho que ler os clássicos seja condição indispensável para que alguém seja um bom escritor. Claro, é bom, é aconselhável, mas não se trata de pressuposto inarredável.

Muitas vezes, a meu ver, a argumentação da escola tradicionalista soa como despeito. Os autores que atualmente mais vendem não mereceriam tal sorte porque têm trapaceado, relegando os clássicos às prateleiras poeirentas de museus que ninguém visita.

Não concordo. Os autores que mais vendem têm seus méritos – entre os quais o de entender a linguagem falada atualmente, em todos os sentidos da expressão, quer para o bem, quer para o mal.

Não se pode considerar alguém “menos preparado” porque não leu medalhões. Chego a duvidar, em alguns casos, que os defensores dessa tese realmente leram os livros que indicam, preferindo brandir um meme com uma citação de Clarice Lispector.

Também acho, do fundo do meu coração, que certos “livros indispensáveis” são extremamente tediosos. Diante da linguagem que temos hoje, da velocidade com que gira o mundo, com que muda a cultura, com que se expressa a linguagem, os parágrafos intermináveis de “Sagarana” ou “Grande Sertão: Veredas” são tudo menos empolgantes.

Mas não podemos generalizar. Há livros clássicos muito bons, como “Dom Casmurro” e “O Tempo e o Vento”, que certamente influenciariam de maneira muito positiva os novos autores. Aí, há que se apontar a preguiça da nova geração em travar contato como que se escreveu há mais de um século, o que, no fim, revela-se um pecado imperdoável.

Para mim, o bom escritor terá mais chances de sucesso se souber reconhecer as obras – quer clássicas, quer modernas – que lhe permitam construir seu próprio estilo. E, muito importante, deve reconhecer que a fórmula encontrada diz respeito apenas a si mesmo, evitando conselhos fáceis e, por vezes, arrogantes.

Se a virtude está no meio, então, é possível dosar a narrativa com descrições suficientes, nunca exageradas, com certa dose de introspecção, além de emprestar profundidade psicológica mínima para que os personagens não soem esquemáticos. Com tal construção é possível, aí sim, atirar-se à aceleração e ao dinamismo. Um sem o outro, pelo menos atualmente, torna qualquer história aleijada.

Enfim, penso que o autor de hoje deve procurar conjugar os estilos, evitando a armadilha fácil de se aferrar a um deles e desmoralizar o outro, como tantos fazem.

Se posso fazer uma sugestão, peço que digam não aos reacionários da literatura. Abandonem a escola única e deixem-se contaminar pelo que ambas têm de melhor. No fim, misture a si mesmo nessa ideia. Talvez dê certo.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Seu livro “Pretérito Imperfeito” será publicado pela Caligo em 2015.

Plágio e Inspiração – a tênue fronteira

Por Gustavo Araujo

Há algo estranho na inspiração provocada pelos nossos livros favoritos. Ao mesmo tempo em que nos desperta, que nos conduz adiante, que nos força a escrever, também nos transforma em escravos, em discípulos de seus estilos e de suas ideias, em sanguessugas da criatividade alheia.

 

Em 2008, durante uma viagem de férias, encontrei uma edição maltratada de “Não Tenho Medo”, do italiano Niccolò Ammaniti, colocada a esmo na estante ensebada de um albergue da juventude. Ao abrir suas páginas ásperas e amareladas, linhas de uma narrativa ágil e irresistível brotaram como galhos, me agarrando pelo pescoço. Foi impossível largar o livro.

O ritmo rápido porém detalhista, pontuado por divagações filosóficas – às vezes sarcásticas – e sem abrir mão do suspense fizeram com que eu esquecesse onde estava. Foi a leitura mais rápida da minha vida. No fim, mais do que a trama bem montada, terminei conquistado pela habilidade do autor em abordar aspectos da infância e da adolescência de modo extremamente sensível, falando de suas dificuldades e desafios, de suas surpresas e decepções.

Foi nesse momento que pensei: “poxa, eu poderia (ou eu queria) escrever sobre isso também”.

Essa sensação se reforçou quando parti para outros livros dele, como “I’ll Steal you Away” (sem tradução para português) e “Como Deus Manda”, publicado por aqui pela Bertrand Brasil.

Pois bem, todo mundo que escreve tem um livro favorito, um autor favorito, que em determinado momento fez surgir essa centelha, essa vontade de colocar no papel tudo aquilo que se sente.

Sempre há um responsável por desencadear essa premência em escrever. Às vezes, isso decorre de uma só fonte. Às vezes, são diversos os mananciais. O fato é que em qualquer das hipóteses, deveremos nosso despertar criativo a alguém.

O que ocorre a partir daí é algo curioso. A mim, pelo menos, a maneira de escrever minhas próprias tramas derivava do modo como Ammaniti costurava suas histórias. Estou usando de eufemismo. Na verdade, eu – talvez de forma inconsciente – praticamente o imitava na hora de escrever.

Então conheci Carlos Ruiz Zafón. “A Sombra do Vento” e, principalmente, “O Jogo do Anjo” alcançaram os primeiros lugares no ranking que mantenho mentalmente sobre obras inspiradoras. O resultado foi que minha escrita começou a se parecer – ou a imitar – o jeito de Zafón. Claro, eu não seria capaz de tanto. Jamais teria a habilidade do autor espanhol para metáforas e especialmente para descrições que parecem transformar determinada cena em 3D.

Logo surgiu John Boyne e seus meninos – o do Pijama Listrado e o No Convés. De novo percebi minha escrita adernar para um quase-plágio.

Há algo estranho na inspiração provocada pelos nossos livros favoritos. Ao mesmo tempo em que nos desperta, que nos conduz adiante, que nos força a escrever, também nos transforma em escravos, em discípulos de seus estilos e de suas ideias, em sanguessugas da criatividade alheia.

Talvez por isso atualmente haja tantas pessoas escrevendo sobre vampiros, castelos, magos e batalhas medievais. É gente influenciada pela vertente literária que mais vende, gente que teve despertada a vontade de escrever por ter lido “O Senhor dos Anéis” e saga Crepúsculo. Enfim, uma galera enorme que sentiu vontade de usar o universo de Tolkien e de Stephenie Meyer para criar e contar suas próprias histórias.

Plágio ou inspiração? Ou, posto de outra maneira, é possível ser 100% original hoje em dia? Ou, uma pergunta ainda mais espinhosa, é possível começar a escrever sem a influência de nossos autores e livros favoritos? É possível, enfim, fugir deles?

Penso que não. Talvez a saída para o novo autor seja misturar. Para tanto, é preciso abrir o leque, travar contato com outros escritores, com outros tipos de literatura que não apenas aquela com a qual ele mais se identifica. Em suma, é necessário sair da zona de conforto.

Não há só Ammaniti, Zafón e John Boyne nesse mundo, eu deveria dizer a mim mesmo. Se eu quiser desenvolver um estilo próprio, ainda que influenciado por eles, é indispensável abandonar meus preconceitos e ler aquilo que os outros indicam, não importando o apelo em termos academicistas ou comerciais.

James Joyce, Nicholas Sparks, aqui vou eu!

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Seu livro “Pretérito Imperfeito” será publicado pela Caligo em 2015.

A verdade sobre a capa

Por Gustavo Araujo

 Se o autor é desconhecido, então, uma capa bacana torna-se o grande diferencial. Faz, no fim, com que o livro seja alçado à estratosfera ou arremessado às profundezas das Marianas.

O clichê é mais surrado do que Judas em véspera de Páscoa: não se julga (ou não se compra) um livro pela capa. Sim, lindo. Um daqueles ensinamentos que todo mundo se apressa em declamar como uma verdade suprema e incontestável – até para soar artificialmente inteligente – mas que, na verdade, quase ninguém aplica. É o politicamente correto do universo literário. Admitir que se compra, sim, um livro por causa da capa é como confessar que se gosta de ouvir Fiuk.

Vou nessa maré. Não, não ouço Fiuk, mas compro livros pela capa. Às vezes dou sorte. O fato é que o apelo visual é o que destaca um livro dos demais. Se o autor é desconhecido, então, uma capa bacana torna-se o grande diferencial. Faz, no fim, com que o livro seja alçado à estratosfera ou arremessado às profundezas das Marianas. Claro, o fato de ser exposto na estante de lançamentos das grandes livrarias ajuda muito, mas tenho dúvidas se um livro desconhecido e com uma capa horrível seria comprado mesmo com essa vantagem de visualização.

Comigo aconteceu com “A Sombra do Vento”. Na época em que pouca gente havia falado de Carlos Ruiz Zafón, a capa em branco e preto que mostrava um homem de mãos dadas com um garoto – pai e filho – me chamou a atenção na mesma hora. Nem a sinopse precisei ler. Comprei por instinto.

capas

O mesmo aconteceu com os livros de Jon Krakauer (“No Ar Rarefeito” e “Na Natureza Selvagem”) e de Joe Simpson (“Tocando o Vazio”) – em ambos os casos, as fotos de montanhas chamam a atenção naturalmente. Também “A Estrada”, de Cormac McCarthy, assim como “Contato”, de Carl Sagan, e “Corações Sujos”, de Fernando Morais, sem falar de “Estrela Solitária” e “Carmen”, de Ruy Castro. Não posso deixar de citar “Trem Fantasma para a Estrela do Oriente”, de Paul Theroux, e a edição americana de “Do que eu falo quando falo de corrida”, de Haruki Murakami.

Agora, o contrário: livros ótimos, mas de capas horríveis. Só acabei lendo depois de convencido de que as narrativas eram inversamente proporcionais às capas. “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini, e “O Último Lugar da Terra”, de Roland Huntford.

Outros, de capas deprimentes, que só comprei porque sabia que os autores eram bons, foram “Amar e Morrer”, de Eric Maria Remarque, publicado pela Itatiaia, “Como Deus Manda”, de Niccolò Ammaniti, e muitos dos livros de John Grisham.

Também há livros com capas excelentes, mas cujas histórias deixam (muito) a desejar. Para mim, encaixam-se nessa categoria “Correr”, de Jean Echenoz, que conta a vida do velocista Emil Zatopek, além de “Everest”, de Waldemar Niclevicz, “O Livreiro de Cabul”, de Asne Seierstad, e “Fawcett”, de Hermes Leal.

Atualmente, a moda é apelar para a simplicidade. Daí surgem as boas ideias de “A Culpa é das Estrelas”, de John Green, “Tudo se Ilumina”, de Jonathan Safran Foer, e até “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera, e os livros de John Boyne (todos no mesmo estilo listrado de “O Menino do Pijama…”) onde se privilegiam os títulos, ou melhor, as letras que os compõem, em detrimento de desenhos ou de alguma foto. Vale mais o design.

O fato é que apesar da falsa-verdade que diz “não julgue um livro pela capa”, nenhum autor, nenhum editor em sã consciência despreza a capa da obra. Não é exagero dizer que assim como nas relações humanas, a aparência conta muito. É isso que decidirá se o livro merece ou não ser apanhado da estante. Tão importante quanto o título, a capa sintetiza o espírito da obra e por isso deve instigar o leitor, aguçar sua curiosidade, fazê-lo perguntar a si mesmo o que existe naquelas páginas todas.

Por isso, vamos deixar de hipocrisia, seja como autores, seja como leitores, e admitir, sem qualquer espécie de vergonha, que damos um valor enorme à capa.

Vamos dar asas à arte e à criatividade. Libertemo-nos.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Seu livro “Pretérito Imperfeito” será publicado pela Caligo em 2015.

A Noite do Oscar

Por Gustavo Araujo

Confesso que fiquei atordoado ao perceber que essa é a realidade do mercado. Que é isso o que espera o escritor novato. Uma das possibilidades para fugir desse labirinto, pelo que percebi, são os concursos literários.

Tempos atrás finalizei meu primeiro livro. Contente, resolvi submetê-lo à análise de algumas das grandes editoras. Claro, para ser solenemente ignorado por todas elas. Não, minto. Uma me respondeu, usando aquele chavão de que a “a-obra-é-muito-interessante-mas-no-momento-não-se-encaixa-na-nossa-linha-editorial”.
Demorou um pouco até eu perceber que o objetivo delas é o lucro e não necessariamente a qualidade. Que publicar um desconhecido é o mesmo que apostar que existe petróleo no quintal de casa.
Em consequência tentei contato com editoras menores, na esperança de que ao menos eles não tivessem o dinheiro como estrela guia.
Garoto ingênuo, eu.
A grande maioria das editoras nanicas não está nem aí para a qualidade. Trabalham com o binômio “bajulação-extorsão”. Ao tempo em que adulam o interessado convencem-no a tomar um caminho sem volta, obrigando-o a aderir a “serviços indispensáveis para a publicação”, extraindo do pobre coitado até a última moedinha – mesmo aquela escondida no fundo da carteira.
Desculpem. Isso não é característica das editoras pequenas. Muita gente trabalha assim –até editoras que têm algum nome – manipulando a vontade que todo escritor tem de se ver impresso num “livro de verdade” e, dessa forma, ganhando dinheiro sem estar realmente preocupada com as vendas do que publica.
Confesso que fiquei atordoado ao perceber que essa é a realidade do mercado. Que é isso o que espera o escritor novato.
Uma das possibilidades para fugir desse labirinto, pelo que percebi, são os concursos literários. Não qualquer concurso, pois alguns nada mais são do que armadilhas – especialmente aqueles “submeta-seu-texto-para-participar-da-nossa-antologia-desde-que-você-também-adquira-um-número-X-de-exemplares”. Falo dos concursos sérios, daqueles que tradicionalmente se preocupam em lançar novos autores sem se preocupar com seus currículos ou em cobrá-los pela publicação.
Tive a sorte de participar de três seleções finais desse tipo, a última agora, em maio.
O clima na noite de premiação é interessante. É mais ou menos como estar no Oscar, imagino. Gente arrumada – ainda que se trate de gente bem simples, vê-se – que leva a família, os amigos, os namorados. Coquetelzinho, salgadinho, docinho e refrigerante. Não obrigado, eu só tomo água, digo, chato como sempre.
De repente todo mundo vai para o auditório. Com a plateia lotada, começa o show. Anunciam-se os jurados, as categorias, os concorrentes. Um casal faz uma performance teatral no palco. Todos aplaudem. Então vem o anúncio dos prêmios. Uma moça bonita chama um escritor famoso para entregar o troféu. O sujeito sobe no palco e fica com uma expressão encabulada aguardando. Aí vem o momento “and-the-oscar-goes-to”. A moça bonita abre o envelope. Inevitavelmente meu coração acelera. Eu penso “sou-eu-sou-eu-sou-eu” para dar sorte. Que nada… O vencedor é uma menina de quinze anos. Faço minha cara de bom perdedor e bato palmas como todo mundo, ainda que na realidade, minha vontade seja de imitar Samuel L. Jackson na entrega do prêmio de melhor ator coadjuvante em 1995, e, vendo-me perdedor, manifestar minha indignação com um “shit!”diante de mais de um bilhão de pessoas.
Mas, no fim, o que fica é a sensação de que tudo valeu a pena. Estar entre os selecionados – e que serão publicados – é sempre um bom consolo. Sem que tenha sido preciso abrir mão da dignidade, choramingando um lugar entre os “grandes” (e vendendo a eles a alma), ou fingir que tudo é normal enquanto se é explorado pelos “pequenos”.
Concursos sérios são um bom caminho. Assim como editoras pequenas que não tenham por objetivo tirar o couro do ingênuo autor novato. Tanto num caso como no outro, trata-se de raridades. Mas que existem, existem.
Boa garimpagem aos interessados. E que continuem escrevendo.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Atualmente escreve o romance “Cartas de Cecília”.

E o Título?

Por Gustavo Araujo

Naturalmente, um título bem pensado não é garantia de um texto de qualidade. Da mesma forma, um título horrível poderá iniciar uma história excelente. Há diversos exemplos nesse sentido.

Tão difícil quanto elaborar um final de história é pensar num título para ela. Não importa se é um romance ou conto. Comédia, drama ou um conto sobre amor. A necessidade de se condensar em uma frase, ou às vezes em uma palavra, o que há de mais importante no texto pode deixar o autor tão indeciso quanto alguém que escolhe o nome de um filho.

Muitos dizem que não se deve julgar um livro pela capa (embora eu discorde disso), mas não há dúvidas de que o título que se dá à história tem um poder enorme de atrair ou de repelir leitores, na medida em que desperta ou afoga a curiosidade.

Fugindo um pouco do universo literário, podemos citar como exemplo disso diversos clássicos do cinema cujas traduções (se é que podemos chamá-las assim) determinaram seu sucesso ou fracasso. Aproveitando o gancho do gênero Faroeste, tema do corrente desafio no Entre Contos, podemos perguntar: o que seria de The Searchers, se a tradução para o português seguisse a literalidade simplória de Hollywood? Convenhamos, Rastros de Ódio ficou muito melhor do que um insosso e improvável Os Exploradores. O mesmo aconteceu com The Wild Bunch, que por felicidade não chegou até nós como ridículo nome O Bando Selvagem, mas sim como o mil vezes mais instigante Meu Ódio Será Tua Herança. Sem esquecer de Rio Bravo, que por aqui virou Onde Começa o Inferno e, ainda, The Man Who Shot Liberty Valance, aqui chamado de O Homem que Matou o Facínora. Os casos são inúmeros.

Naturalmente, um título bem pensado não é garantia de um texto de qualidade. Da mesma forma, um título horrível poderá iniciar uma história excelente. Há diversos exemplos nesse sentido. Citei outro dia aqui, O Sócio, de John Grisham. O título é de uma pobreza broxante. A história, porém, é das melhores. O autor americano, aliás, é pródigo em apresentar romances muito bons com títulos horrorosos, como O Júri, A Firma ou O Advogado, ainda que O Homem que Fazia Chover ou Tempo de Matar representem um alento à criatividade que se espera de alguém de seu quilate.

Recentemente, tem-se apelado a subtítulos para atrair o leitor, mas nem sempre isso funciona. Títulos inteligentes dispensam qualquer pseudo-explicação. É o caso de A Culpa é das Estrelas, para ficarmos com um exemplo recente, ou de Cem Anos de Solidão, se quisermos nos referir a um clássico. Mesmo Cervantes sabia disso, quando escreveu El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha. São títulos que fazem, ou fariam, o leitor buscar mais informações, abrir a capa, ler a orelha e a contracapa.

Gosto também daqueles que fogem do óbvio, apesar de falarem de assuntos batidos, como Tocando o Vazio e O Último Lugar da Terra, em termos de literatura de aventura. Ou Corações Sujos e Os Últimos Soldados da Guerra Fria, livros-reportagem de Fernando Morais – aliás, na minha concepção, um gênio para dar nome ao seu (excelente) trabalho. Claro, sem esquecer de Estrela Solitária, uma das poucas biografias que não apelam diretamente ao nome do biografado.

Um bom título deve ter esse magnetismo natural, ser criativo e pouco óbvio. Deve apresentar a história ao leitor, fazendo com que ele queira, e mais do que isso, que considere imprescindível ler o que existe abaixo das letras garrafais. Em suma, o título deve unir o escritor a seu público, razão mais do que suficiente para que se dispense a ele o mesmo esforço criativo empregado na história em si.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Atualmente escreve um romance para futura publicação pela Caligo Editora.

Afinal, o Final

Por Gustavo Araujo

[…] como amarrar as pontas surgidas do nada, como arrematar aquelas ideias fabulosas, como dar à história um fim à altura do desenvolvimento imaginado, como, afinal, deixar o leitor de boca aberta em admiração, desesperado porque a história terminou?

Então você teve uma ideia fantástica para uma história. Conto, novela ou romance, você consegue visualizar perfeitamente os personagens, a trama principal, as reviravoltas, o clímax e… Simplesmente se vê incapaz de pensar em um final à altura dessa empolgação.

Essa é uma dificuldade corrente no meio literário. Isso porque na verdade o autor jamais é dono completo do enredo que cria. Sim, a gênese parte de sua imaginação, mas a partir daí a história teima em se desviar do rumo preconcebido, muitas vezes levando o autor ao desespero. Mais ou menos como ocorre com os filhos.

Autores (assim como pais) mais experientes conhecem alguns truques para trazer a criação de volta à trilha original, mas mesmo aí, na segurança de uma estrutura bem montada, as surpresas aparecem.

De todo modo, ficam as perguntas: como amarrar as pontas surgidas do nada, como arrematar aquelas ideias fabulosas, como dar à história um fim à altura do desenvolvimento imaginado, como, afinal, deixar o leitor de boca aberta em admiração, desesperado porque a história terminou?

Isso se torna ainda mais desesperador quando nos deparamos com alguma história em que, sim, o autor soube criar um final de mestre. Vi isso em O Sócio, de John Grisham. Terminei o livro com uma inveja gigantesca de sua habilidade em surpreender. Para mim, até hoje é um dos melhores finais já escritos.

Pois bem, de olho em algum método milagroso para criar finais memoráveis procurei alguns fóruns e conversei com gente mais experiente. Contudo não encontrei um consenso. Uma ideia que se sobressaiu, entretanto, foi a de escrever a narrativa de trás para frente, ou seja, tendo o final definido seria mais fácil criar uma história que chegasse até o desejado.

Para mim, jamais funcionaria. Isso devido ao que eu disse antes, que toda e qualquer história tem vida própria. Mesmo que eu imaginasse antes de tudo o final da trama, nada poderia garantir que, ao desenvolvê-la, meus personagens não se rebelariam, não levariam a narrativa a um sentido totalmente diverso do necessário.

O fantástico Bill Watterson, criador de Calvin e Haroldo, disse certa vez que jamais começava uma tirinha com a história completamente pronta em sua cabeça. A ideia inicial, de fato, surgia em dois ou três quadrinhos, mas daí por diante, eram os personagens que conduziam o roteiro até a piada arrebatadora.

Depois de meditar sobre essa questão como um todo, concluí que o mestre Watterson estava correto. Não adianta forçar a natureza. O verdadeiro barato de escrever é justamente a garantia de que nada será como o imaginado. Ou seja, mesmo escrevendo, mesmo na posição de narrador onisciente e dono de todos os destinos, haveremos de nos deparar com rumos desconhecidos tomados à nossa revelia e é isso que termina tornando a escrita algo tão prazeroso.

Aproveitemos então esse livre arbítrio que nos torna meros espectadores de nosso eu subconsciente. Surpreendamo-nos com nossa própria imaginação, deixando-a correr livre. Escrever uma história, enfim, pode ser tão surpreendente quanto ler obras alheias.

Assim, talvez, nosso tão desejado final surpreendente se mostre maneira natural, sem parecer engessado ou pré-fabricado.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Atualmente escreve o romance “Cartas de Cecília”.

A Crítica e a Rachadura

Por Gustavo Araujo

Mas não nos desesperemos. Mesmo autores consagrados padecem desse inconformismo. O melhor é aceitar que isso faz parte do ofício.

Um dos maiores prazeres para qualquer escritor é ver o reflexo de suas ideias, a impressão que sua escrita causa em outras pessoas. Esse retorno é essencial para que possamos entender a maneira como nossos textos chegam aos leitores, para saber se nossa escrita agrada ou não.

De fato, uma espécie de satisfação pessoal – alguns dizem, inigualável – nos atinge quando alguém pronuncia algo próximo de “olha, gostei muito do que você escreveu.” Realmente, isso funciona como um bálsamo, um atestado de que aquilo que escrevemos toca o coração dos outros, levando-nos a uma sensação de onipotência. No alto do Olimpo, sentimo-nos deuses, capazes de qualquer façanha.

Mas, e quando o que escrevemos gera comentários negativos? Ah, quando isso acontece, é como se alguém gritasse “Parem as prensas!” Uma crítica a um texto é como falar mal de um de nossos filhos. Até podemos aceitar que não são perfeitos, mas aceitar que outros apontem suas falhas é demais.

A grande maioria dos autores – pelo que percebo nos comentários postados nos textos do EntreContos – parte em defesa de seus escritos como um general convocado às pressas para uma grande e decisiva batalha. Como um exército improvisado, normalmente essa defesa carece de elementos técnicos. O autor, ofendido, trata de expor justificativas que, na maior parte das vezes, tendem a levar o debate para o campo das suposições abstratas. Isso quando não carregam um tom evidentemente depreciativo direcionado àquele que manifestou a opinião desfavorável.

Escritores são extremamente competitivos. Ao termos revelados nossos defeitos, sentimo-nos diminuídos, jogados um passo atrás na corrida evolucionista, perdedores nesse darwinismo literário.

Talvez por uma questão de natureza, de genética até, não estamos preparados para ouvir opiniões negativas a respeito do que escrevemos. É claro que existem aqueles que, contrariando os instintos mais básicos, presentes no DNA desde o tempo das cavernas, conseguem passar uma imagem de frieza e distância, do tipo que não dá a mínima para as críticas. Não nos enganemos, mesmo esses, quando se deparam com uma crítica (qualquer uma, mesmo as ditas construtivas) querem, na verdade, esganar aquele que esfregou em suas caras o quanto ainda devem melhorar.

Mas não nos desesperemos. Mesmo autores consagrados padecem desse inconformismo. O melhor é aceitar que isso faz parte do ofício. Tanto as críticas como a vontade de rebatê-las com um taco de beisebol na cara de quem as formula. O caminho, por mais óbvio que pareça, passa pela percepção de que não, não estamos no Olimpo. E que não, não somos deuses. Elogios são como máscaras de nossos defeitos onipresentes e críticas representam degraus rumo à evolução literária. Devemos sempre repetir esse mantra, ainda que seja difícil colocá-lo em prática.

Por isso, em que pese o tom leve deste texto, não creio que críticas devam ser rebatidas. Um texto deve se sustentar sozinho, sem que o autor venha em seu auxílio. Justificar impressões negativas acaba sendo o mesmo que reparar a rachadura de um prédio usando chiclete. Não funciona. Só parece engraçado para quem vê de longe.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Atualmente escreve o romance “Cartas de Cecília”.

Machado de Assis e a Saga Crepúsculo

Por Gustavo Araujo

A palavra é insistir. Não ter medo da velha guarda, dos detratores que se apegam a um suposto dever de que os autores brasileiros deveriam escrever sobre temas brasileiros apenas.

Tenho visto em alguns fóruns discussões bastante interessantes sobre os rumos literários preferidos pelos jovens autores (alguns não tão jovens). Dia desses debatia-se acerca do excesso de estrangeirismos em obras recentes, traduzido nas infindáveis histórias sobre vampiros, zumbis, feiticeiros e temas afins. E também sobre o fato de se ambientar histórias em outros países.

Para os críticos, isso revelaria uma negação da cultura típica brasileira, uma ignorância auto imposta, tanto dos autores clássicos como dos romances consagrados da literatura nacional. Mais do que isso, ao abraçar fontes de inspiração de outros países e, de modo mais amplo, ao se deixar influenciar por temas “da moda”, nossos jovens aspirantes a escritor estariam cavando a própria sepultura, já que tais temas, quando assinados por autores nacionais, não seriam atrativos para o mercado editorial.

As questões surgidas, então, podem ser assim resumidas: 1) É válido surfar a onda de modismos estrangeiros? É aceitável que autores nacionais criem narrativas que se passam em outros países? Ou os que assim optam devem ser automaticamente classificados como preguiçosos, traidores ignorantes da cultura a que pertencem? 2) Ao embarcar em temas que agradam ao mercado mundial, ou que se passam no estrangeiro, autores brasileiros estão fatalmente fadados ao fracasso de vendas?

Para responder a primeira questão peço licença aos puristas. Com a tal globalização e especialmente com o advento da internet, qualquer um que goste de escrever tem diante de si uma fonte inesgotável de autores e de romances estrangeiros. A influência de tais obras passa a ser tão ou mais relevante que os clássicos autores nacionais. Somado a isso pode-se dizer que a imposição, nos anos de escola, de obras extremamente cansativas da literatura brasileira termina por criar um tipo de ojeriza ao que é nacional.

Do mesmo modo, existem milhares de informações sobre aspectos culturais diversos de cidades e países de outros continentes. Às vezes até mais acessíveis que os nossos próprios. Se bem ambientada, ou seja, se descrita com honestidade e acerto, a ambientação estrangeira, mesmo quando realizada por um autor brasileiro, pode ser muito interessante.

Penso que num mundo como o que vemos hoje, em que fronteiras culturais existem apenas na cabeça das pessoas, escrever sobre “temas da moda”, sobre assuntos que agradam o grande público internacional, ou até sobre outros países, não é, para o autor brasileiro, motivo de vergonha. Tampouco é negar toda uma tradição literária que apostava no folclore e em regionalismos maçantes. Isso é evolução. Se somos bombardeados com filmes, músicas e programas de TV vindos de todas as partes do globo, nada mais natural que adotemos também as fontes literárias. Nada mais natural que escrevamos como nossos autores favoritos, não importando suas origens.

Isso nos leva à segunda questão. Há hoje espaço para que o autor brasileiro venda quando escreve sobre esses temas mundialmente consagrados, sobre assuntos passados em outros países? Infelizmente, grandes editoras apostam numa segmentação bem conhecida: de autores nacionais há auto-ajuda, livros religiosos e, quando muito, crônicas. Ponto.

Porém, isso não significa que está tudo perdido. Editoras menores têm apostado em autores nacionais que se entregam sem medo ao vampirismo, ao terror, aos lobisomens e a cidades como Praga, Londres, Paris ou Nova Iorque.

Naturalmente, o volume de vendas não se aproxima dos medalhões de outros países, aqueles publicados pelos grandes, mas isso demonstra que há, sim, espaço para o autor brazuca nessas searas. O público anda ávido por histórias de monstros, de fantasia, de fadas, por romances passados na Europa ou na América do Norte. Claro que autores estrangeiros seguem mais atrativos para quem vive da venda de livros, mas é bacana perceber que autores nacionais estão conquistando seu espaço.

A palavra é insistir. Não ter medo da velha guarda, dos detratores que se apegam a um suposto dever de que os autores brasileiros deveriam escrever sobre temas brasileiros apenas. Para mim, isso revela uma tacanhez sem fronteiras, uma negação ao fato de que as fontes de inspiração mudaram de setenta anos para cá.

O mundo é único. Viva John Lennon, que aliás era inglês.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Atualmente escreve o romance “Cartas de Cecília”.