Mapas, cartas, diários e outras antiguidades

Por José Geraldo Gouvêa

O desa­pa­re­ci­mento da carta foi tão grande que se você fizer seus per­so­na­gens tro­ca­rem car­tas os lei­to­res jovens pro­va­vel­mente enten­de­rão o con­texto mais ou menos como a ilu­mi­na­ção de per­ga­mi­nhos na Idade Média. Para os ado­les­cen­tes de hoje, não há muita dife­rença entre uma carta e um per­ga­mi­nho de fei­ti­ços.

 

Ocorreu-​​me ontem, ao ler mais uma sinopse de romance, o quanto nós ainda esta­mos pre­sos ao pas­sado de for­mas que não per­ce­be­mos. Os índios do Xingu tem um con­ceito que expressa bem isso. Segundo nar­rou Orlando Villas-​​Boas, quando ele e outros ser­ta­nis­tas acom­pa­nha­vam os índios em cami­nha­das pela flo­resta, se os bran­cos for­ça­vam muito o ritmo, os índios pediam para fazer uma parada. Depois de ver isso ocor­rer várias vezes, perguntaram-​​lhes por que e os índios dis­se­ram que os bran­cos que­riam andar muito depressa, mas era pre­ciso parar quando em vez, para dar tempo às suas almas para alcan­ça­rem os seus cor­pos. Sim, parece-​​me que o mundo evo­lui tão depressa que dei­xa­mos nos­sas almas per­di­das lá atrás. Isso tal­vez expli­que por­que, mesmo no mundo louco e tec­no­ló­gico em que já vive­mos ainda este­ja­mos pen­sando segundo mode­los men­tais de um pas­sado recente.

Um bom exem­plo são os diá­rios. Mui­tos auto­res ainda fazem seus per­so­na­gens escrevê-​​los, mas nada é tão ana­crô­nico. Quem em sã cons­ci­ên­cia ainda abre um caderno para escre­ver « que­rido diá­rio » no alto de uma folha? Só cri­an­ças, mas elas ainda o fazem por­que o con­ceito ainda está na tele­vi­são e na lite­ra­tura infantil.

O diá­rio sur­giu com os alqui­mis­tas, que toma­vam notas diá­rias de suas expe­ri­ên­cias para acom­pa­nhar o seu desen­vol­vi­mento. Os nave­ga­do­res tam­bém tinham o seu tipo de diá­rio, que cos­tu­mava incluir as coor­de­na­das geo­grá­fi­cas em que cada entrada era escrita. Ambos tinham uma obses­são com a con­ta­gem do tempo, embora por moti­vos dife­ren­tes. O diá­rio pes­soal surge mais tarde, na Europa, por influên­cia do diá­rio de nave­ga­ção. As famí­lias de mari­nhei­ros, ou os pró­prios mari­nhei­ros apo­sen­ta­dos ou em folga, ou o hábito des­tes de regis­tra­rem em forma de diá­rio suas vicis­si­tu­des. Porém, dife­rente dos outros, o diá­rio pes­soal tinha uma forma mais livre. Afi­nal, as coor­de­na­das geo­grá­fi­cas não mudam muito quando você está cur­tindo a apo­sen­ta­do­ria sen­tado em uma cadeira de balanço.

Com o tempo o diá­rio se tor­nou « coisa de meni­ni­nha » ou de dona de casa ente­di­ada que, sem ter com quem con­ver­sar, enchia cader­nos escre­vendo « que­rido diá­rio ». Foi essa a ima­gem de diá­rio que mais se per­pe­tuou. O diá­rio de bordo pra­ti­ca­mente já não tem uso, por­que os navios são acom­pa­nha­dos em tempo real atra­vés de GPS e radi­o­co­mu­ni­ca­ção. O diá­rio cien­tí­fico ainda é usado, embora já não seja pare­cido com o que se fazia no pas­sado, e hoje se chama « relatório ».

O diá­rio pes­soal é um ana­cro­nismo por­que já não exis­tem as razões pelas quais era escrito. As donas de casa ente­di­a­das quase já não exis­tem, e os diá­rios foram subs­ti­tuí­dos por blogs e redes soci­ais. Por­tanto, é extre­ma­mente impro­vá­vel que seu per­so­na­gem escreva um diá­rio, a menos que ele seja um per­so­na­gem de época, ou um per­so­na­gem meio ridículo.

Por sua vez, o hábito de escre­ver car­tas já desa­pa­re­ceu, e desa­pa­re­ceu tão rápido que mal o vimos desfazer-​​se no ar. Em 1997 a carta ainda era o prin­ci­pal meio de comu­ni­ca­ção. Quando criei a revista lite­rá­ria « Trem Azul », em par­ce­ria com o Emer­son « Toqui­nho » Tei­xeira Car­doso, reu­ni­mos um fichá­rio com os ende­re­ços de mais de 500 escri­to­res do Bra­sil e do mundo. Quando vol­tei de minha ina­ti­vi­dade lite­rá­ria, em 2005, subi­ta­mente aquilo não tinha mais nenhum valor.

As car­tas per­de­ram o sen­tido com a inven­ção do e-​​mail e a popu­la­ri­za­ção de tele­fo­nes celu­la­res. Da segunda vez que fiz uma revista lite­rá­ria, toda a comu­ni­ca­ção foi feita por cor­reio ele­trô­nico. Uma situ­a­ção como a do filme « Cen­tral do Bra­sil », em que pes­soas anal­fa­be­tas paga­vam a uma outra para que escre­vesse car­tas para a famí­lia dis­tante, nos parece mais ali­e­ní­gena do que uma civi­li­za­ção mar­ci­ana. Aquele filme tal­vez não tenha ganhado o Oscar por­que nos EUA a revo­lu­ção do e-​​mail já acon­te­cia, enquanto nós ainda está­va­mos pre­sos no século XIX. Hoje um filme como aquele não seria feito, não só por­que o assunto já não existe, mas por­que o público de hoje já teria difi­cul­da­des para enten­der: o anal­fa­be­tismo pra­ti­ca­mente desa­pa­re­ceu e quase nin­guém escreve cartas.

A ideia de espe­rar sema­nas pela res­posta parece exas­pe­rante aos jovens de hoje, e eles tem razão: car­tas eram uma merda para fins de comu­ni­ca­ção, e sua única van­ta­gem era a pos­si­bi­li­dade de serem cole­ci­o­na­das e pos­te­ri­or­mente publi­ca­das. Uma das per­das do futuro será não ter­mos mais a « cor­res­pon­dên­cia » dos escri­to­res edi­tada. Será uma perda grande. E-​​mails e redes soci­ais são pre­cá­rios e pro­va­vel­mente se per­de­rão no buraco da memó­ria. Se eu ama­nhã ou depois me tor­nar uma lenda da lite­ra­tura, os filó­lo­gos e crí­ti­cos do futuro não terão como desen­ca­var minha cor­res­pon­dên­cia com meus pares: ela não exis­tirá, embora eu tenha sido muito atu­ante nas redes soci­ais (Orkut, Forms­pring, Face­book, Plus e VK.com).

O desa­pa­re­ci­mento da carta foi tão grande que se você fizer seus per­so­na­gens tro­ca­rem car­tas os lei­to­res jovens pro­va­vel­mente enten­de­rão o con­texto mais ou menos como a ilu­mi­na­ção de per­ga­mi­nhos na Idade Média. Para os ado­les­cen­tes de hoje, não há muita dife­rença entre uma carta e um per­ga­mi­nho de fei­ti­ços. Em duas gera­ções, já não sen­ti­rão dife­rença entre um livro físico e um gri­mó­rio. O livro, aliás, já está se tor­nando uma espé­cie de feti­che, o que denun­cia sua deca­dên­cia como mídia. As pes­soas chei­ram livros como se eles fos­sem entes que­ri­dos, que­rem tê-​​los em edi­ções de luxo como se fos­sem tesou­ros. Anti­ga­mente os livros eram vis­tos de uma forma estri­ta­mente uti­li­tá­ria: nin­guém valo­ri­zava mais uma obra por ter « capa dura » ou « papel pólen ». Mui­tos livros de qua­li­dade só foram ganhar edi­ções de luxo déca­das após sua publi­ca­ção ori­gi­nal. Mui­tos auto­res famo­sos foram publi­ca­dos ini­ci­al­mente em revis­tas impres­sas em papel rús­tico (« pulp ») e de capa mole. Essa mudança já é reflexo do papel mís­tico que está sendo atri­buído ao livro, e o futuro nos reserva uma revi­são radi­cal do papel e da forma da lei­tura na sociedade.

Uma revo­lu­ção com­pa­rá­vel à do mapa rodo­viá­rio (e dos mapas em geral, mas o caso do mapa rodo­viá­rio é tan­gí­vel). Antes da inven­ção do GPS as via­gens de férias pre­ci­sa­vam do infa­ti­gá­vel « Guia 4Rodas », com seu « Mapa Rodo­viá­rio do Bra­sil », que repre­sen­tava as prin­ci­pais estra­das do país atra­vés de linhas colo­ri­das e códi­gos engra­ça­dos. Em caso de dúvida, parar na beira da estrada, esten­der o mapa sobre o capô e ten­tar des­co­brir para onde ir. Quase sem­pre a cena inde­fec­tí­vel dos anti­gos fil­mes de via­gem: o marido que tei­mava em con­fiar no mapa em vez de per­gun­tar pelo cami­nho aos tran­seun­tes aca­bava indo parar em algum fim de mundo assom­brado. Ainda nos anos 1990 a revista « Pira­tas do Tietê » publi­cou uma tiri­nha sobre um entre­ga­dor de pizza que foi parar no inferno ten­tando seguir um mapa rodo­viá­rio até Guai­a­na­ses. Se suas his­tó­rias estão ambi­en­ta­das no pas­sado, seus per­so­na­gens pre­ci­sam pas­sar por essa dificuldade.

Mas hoje em dia nin­guém com­pra­ria o Guia 4Rodas, tal­vez nin­guém mais saiba ler um mapa rodo­viá­rio. Eu mesmo já me esqueci como era. Esta­mos acos­tu­ma­dos à ideia do Goo­gle Mapas (ou do iMaps, para você que pre­fere pro­du­tos da Apple) e dos GPS. O mapa não pode ser uma folha de papel dobrada, pre­cisa ser algo dinâ­mico, que se pode con­sul­tar enquanto dirige. A ideia de parar na beira da estrada para ler um mapa nos parece tão absurda quanto espe­rar sema­nas pela res­posta a uma carta de amor. Vive­mos a velo­ci­dade, em todos os aspec­tos, e pre­ci­sa­mos da ins­tan­ta­nei­dade, do macar­rão ao amor de nos­sas vidas, tudo tem que vir em três minu­tos, e ser con­su­mido igual­mente rápido.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas.

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

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José Geraldo Gouvêa

José Geraldo Gouvêa é um autor mineiro de ficção. Criatura do interior, nasceu e sempre viveu na Zona da Mata Mineira, em cidades pequenas e de muita proximidade com o universo rural. Sua ficção reflete isso, procurando uma dicção coloquial e simples, embora raramente a ache.

Casado e pai de duas filhas que também adoram “inventar histórias”, escreve desde os 14 anos, mais intensamente desde 2006.
Formado em História e pós-graduado em Administração (MBA), é bancário e polemista de plantão nas redes sociais, onde ganhou o apelido de “ogro” por sua sinceridade e pela defesa intransigente do aspecto nacional da literatura.

Publicou o romance “Praia do Sossego” pela editora Multifoco.

Publicou contos em antologias das editoras Multifoco e CBJE. Participou como tradutor da antologia “O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft”, da editora Clock Tower, traduzindo os contos “A Busca de Iranon”, “O Habitante das Trevas”, “Um Sussurro na Escuridão”, “O Inominável” e “O Depoimento de Randolph Carter”.

Participa da antologia RedruM – Contos de Crime e Morte com o texto “A Noiva Liberdade”.

Pode ser encontrado no site www.letraseletricas.blog.br, ou envie mensagem para jggouvea@yahoo.com.

Textos publicados no site:

 – Impressões da leitura de “Piquenique na Estrada”, dos Irmãos Strugatsky

– A morte da escrita é a falta de tempo

– A qualidade não é uma roupa

– Façamos a literatura feia

– Por que não escrevo uma trilogia

– Mapas, cartas, diários e outras antiguidades

Por que não escrevo uma trilogia

Por José Geraldo Gouvêa

Em um aspecto, porém, todos os auto­res, exceto os gênios, os excep­ci­o­nais, os mila­gres da natu­reza, estão de acordo: este apren­di­zado leva tempo e pas­sar por cer­tas eta­pas, que são muito cla­ras na car­reira da mai­o­ria dos auto­res.

É recor­rente o apa­re­ci­mento de jovens que dizem escre­ver seu pri­meiro “livro”, mui­tos até pro­me­tendo con­ti­nu­a­ções ou decla­rando que a obra é (ou será) uma tri­lo­gia. Não conheço a qua­li­dade des­tas obras e nem des­tes escri­to­res, embora supo­nha, com razo­a­bi­li­dade, que as pri­mei­ras são com­pa­tí­veis com a idade, a expe­ri­ên­cia de vida e o nível cul­tu­ral dos segun­dos. E quando digo isso, devo acres­cen­tar, com algum eufe­mismo, que não é com muita frequên­cia que nasce um Rim­baud ou um Radiguet.

Este des­file de obras de grande fôlego, ins­pi­rado nos best-​​sellers de sucesso, me faz pen­sar que alguns des­tes auto­res estão quei­mando eta­pas que não podem ser quei­ma­das, estão igno­rando lições do começo do curso e par­tindo para o final. Este sen­ti­mento me faz escre­ver esta breve apologia.

Escre­ver não é fácil. Se fosse fácil, todo mundo escre­ve­ria. Escre­ver não é nem “rela­ti­va­mente fácil”. Se fosse, a mai­o­ria dos que escre­vem pro­du­zi­ria tex­tos de qua­li­dade. Há difi­cul­da­des por todos os lados. É difí­cil por razões intrín­se­cas: domi­nar as pala­vras, usar os recur­sos da lín­gua, pro­du­zir a beleza, con­tar bem his­tó­rias etc. É difí­cil por razões extrín­se­cas tam­bém, a prin­ci­pal delas é que só se des­ta­cam os melho­res, então, à medida que aumenta a quan­ti­dade de bons auto­res, vai subindo a linha de corte. Para se des­ta­car numa lite­ra­tura pobre basta mos­trar alguma qua­li­dade. Mas para se des­ta­car em uma lite­ra­tura forte, é pre­ciso algo maior. Entre as razões pelas quais o Bra­sil ainda não ganhou um Nobel de lite­ra­tura está o fato de que nossa lite­ra­tura não é tão densa.

Entre as difi­cul­da­des de escre­ver está o apren­di­zado. Que, para come­çar, muita gente diz que pre­cisa par­tir de algo inato, o “talento”. Mesmo supondo que o talento não exista, o apren­di­zado é algo tão com­plexo e inde­fi­ní­vel que é pra­ti­ca­mente impos­sí­vel deter­mi­nar o que é que faz um autor ser genial. Afi­nal, todos os auto­res rele­van­tes tive­ram cole­gas de classe, vizi­nhos, ami­gos, pes­soas que tive­ram mais ou menos as mes­mas expe­ri­ên­cias e con­di­ções, que estu­da­ram coi­sas pare­ci­das. Mas fica­ram para trás na poeira do tempo.

Em um aspecto, porém, todos os auto­res, exceto os gênios, os excep­ci­o­nais, os mila­gres da natu­reza, estão de acordo: este apren­di­zado leva tempo e pas­sar por cer­tas eta­pas, que são muito cla­ras na car­reira da mai­o­ria dos auto­res. Eça de Quei­rós come­çou escre­vendo con­tos para revis­tas, a pri­meira obra publi­cada de James Joyce foi a cole­tâ­nea de con­tos Dubli­nen­ses, por exemplo.

Tam­bém parece exis­tir no Bra­sil um certo pre­con­ceito con­tra a fic­ção curta que vai além do fas­cí­nio dos jovens pelas tri­lo­gias da moda: em meus con­ta­tos com edi­to­ras mui­tas vezes eu ouvi que havia mais pos­si­bi­li­dade de publi­car roman­ces do que con­tos. Aliás, eu só come­cei a escre­ver roman­ces por­que edi­to­res me con­ven­ce­ram que eu jamais publi­ca­ria nada se ficasse “limi­tado ao conto”, como se ele fosse um gênero menor em impor­tân­cia, além do tama­nho. Não me arre­pendo de ter come­çado a fazer roman­ces, mas me inco­moda que tão pouco valor se dê ao conto, a ponto de o movi­mento blo­gueiro estar à morte por­que nin­guém mais se inte­ressa em lê-​​los.

O conto pre­cisa ser revalorizado.

Em pri­meiro lugar por­que, acom­pa­nhado da crô­nica, ele é a prin­ci­pal escola de escri­to­res. Não é à toa que os gran­des auto­res come­ça­ram fazendo crô­ni­cas e con­tos: a fic­ção curta per­mite maior con­trole sobre a trama e os per­so­na­gens, além de per­mi­tir um sen­ti­mento de rea­li­za­ção mais ime­di­ata — o que serve de estí­mulo para continuar.

Digo isto por­que não sei quan­tos des­ses jovens efe­ti­va­mente rea­li­za­rão a tri­lo­gia sonhada. Tal­vez se escre­ves­sem con­tos eles man­ti­ves­sem o estí­mulo até o fim. Além disso, a ado­les­cên­cia e a juven­tude são momen­tos na vida em que muda­mos muito, de valo­res, de estilo, de filo­so­fias, de tudo. O longo tempo gasto na escrita de uma obra de várias cen­te­nas de pági­nas pode fazer com que, ao che­gar ao fim do tra­ba­lho, o autor des­cu­bra que lá no começo o seu estilo ainda era cru, e tenha de rees­cre­ver. Ou pode des­co­brir, durante a escrita, que mudou de ideia sobre o sen­tido do enredo, e então terá que rees­cre­ver cen­te­nas de pági­nas. Tudo isto somado cons­pira con­tra a pos­si­bi­li­dade prá­tica de um ado­les­cente efe­ti­va­mente pro­du­zir uma tri­lo­gia, ou mesmo um romance longo ou, alter­na­ti­va­mente, cons­pira con­tra tal tra­ba­lho pos­suir alguma qua­li­dade, a menos que o ado­les­cente em ques­tão seja um dos tais fenô­me­nos raros da natureza.

Não gosto de reco­men­dar o meu cami­nho, por­que ele só me trouxe até onde estou, e não é um lugar onde mui­tos gos­ta­riam de estar (o lugar cobi­çado é o dos auto­res de best-​​sellers). Mas quem se inte­res­sar saiba que come­cei fazendo poe­mas, pas­sei à crô­nica e logo ao conto, onde per­ma­neci por muito tempo, até que em 2007 iniciei um romance, que foi publi­cado em 2010. Quinze anos de minha vida eu pas­sei sem escre­ver roman­ces, ape­nas pen­sando que um dia ten­ta­ria escre­ver um. Minhas rea­li­za­ções podem não reco­men­dar o meu cami­nho, mas segui os pas­sos de gente que se deu melhor do que eu.

Acho que alguns jovens se bene­fi­ci­a­riam da ideia de escre­ver con­tos.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas.

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

Façamos a Literatura Feia

Por José Geraldo Gouvêa

Alguns dos meus auto­res favo­ri­tos come­ça­ram escre­vendo em revis­tas que eram impres­sas em papel de baixa qua­li­dade. Love­craft, Asi­mov, Brad­bury, Hein­lein, Ashton-​​Smith. Outros come­ça­ram publi­cando em jor­nais. Dos­toiévski, Machado de Assis, Manuel Antô­nio de Almeida. Não acho que qual­quer des­ses auto­res des­res­peite ou tenha des­res­pei­tado o seu público.

Em um mundo lite­rá­rio no qual o meu modo de pen­sar é visto como um des­vio, uma falta de edu­ca­ção, é recon­for­tante, de quando em vez, ler alguém que tam­bém não se con­forma com as nuvens róseas que pre­ten­dem pre­do­mi­nar na lite­ra­tura. Gus­tavo Czeks­ter lavou a minha alma ao publi­car no Lite­ra­Tor­tura um artigo devas­ta­do­ra­mente bom que expressa, melhor do que eu pró­prio o faria, aquilo que penso sobre lite­ra­tura. E havia tanto tempo que não lia nada assim, que não me depa­rava com um espe­lho de minhas pró­prias ideias, que eu já quase não me lem­brava mais como penso.

E o que penso é: esta­mos ouvindo demais aque­les que pen­sam uma lite­ra­tura con­for­mista, e ata­cando demais aque­les que pro­poem uma lite­ra­tura com ideias (a tal lite­ra­tura « feia » a que Gus­tavo se referiu).

Sinto sau­dade quase física de ler uma obra que não esteja sub­me­tida às nor­mas das polí­ti­cas edi­to­ri­ais e do lucro fácil. Von­tade de ler lite­ra­tura, e não livros.

Eu já começo a acre­di­tar que o autor não vale a lei­tura quando ele diz que escre­veu um « livro ». Livro é o objeto físico que con­tém a obra, não é a obra em si. Sonhar em escre­ver livros é uma com­pre­en­são feti­chista, infan­ti­li­zada, do fazer lite­rá­rio. Durante milê­nios os livros não exis­ti­ram, exis­ti­ram papi­ros, per­ga­mi­nhos, manus­cri­tos ilu­mi­na­dos, tabui­nhas de argila, mas a obra lite­rá­ria já exis­tia. Futu­ra­mente o « livro » dei­xará de exis­tir, ainda que eu lamente isso, mas a obra per­sis­tirá. Auto­res que têm alguma remota ideia do que estão falando pen­sam em escre­ver con­tos, roman­ces, nove­las, fábu­las, poe­mas, não « livros ».

E se existe algo trá­gico que aprendi é que, quanto mais bonito o livro, mais frá­gil e incons­tante é a sua trama.

Quando o livro se torna um feti­che — e é disso que esta­mos falando — é natu­ral que se con­cen­tre muito esforço em torná-​​lo um pro­duto bonito. Mais de uma vez recebi ofer­tas de edi­to­res para publi­car obras minhas, medi­ante módi­cos paga­men­tos, uti­li­zando papel « de pri­mei­rís­sima qua­li­dade », capa dura ou com aca­ba­mento fosco, pro­jeto grá­fico feito por desig­ners pre­mi­a­dos etc.

Certa vez, em uma comu­ni­dade de lite­ra­tura no Orkut, eu afir­mei que gos­ta­ria de ver milhões de exem­pla­res de minhas obras, mesmo que impres­sas em papel higi­ê­nico sujo e com capa de papel de pão com man­chas de man­teiga. Eu não penso em meu livro como um objeto de luxo para eu enfei­tar minha estante e para exi­bir às visi­tas « olha que livro bonito eu fiz » — mesmo por­que o « bonito » de tal livro não foi feito por mim, mas pela editora.

A res­posta que me deram foi que tal livro, publi­cando segundo meu desíg­nio, seria um « des­res­peito ao lei­tor ». Com a devida vênia aos que gos­tam de ter exem­pla­res boni­tos dos seus livros favo­ri­tos, eu digo que não pode haver maior des­res­peito ao « lei­tor » do que o livro ser ruim. Ele ser feio pode até des­res­pei­tar a esté­tica da casa, o padrão de deco­ra­ção da estante, a neces­si­dade de impres­si­o­nar visi­tas que não vão ler o que está escrito. Mas não des­res­peita o leitor.

Alguns dos meus auto­res favo­ri­tos come­ça­ram escre­vendo em revis­tas que eram impres­sas em papel de baixa qua­li­dade. Love­craft, Asi­mov, Brad­bury, Hein­lein, Ashton-​​Smith. Outros come­ça­ram publi­cando em jor­nais. Dos­toiévski, Machado de Assis, Manuel Antô­nio de Almeida. Não acho que qual­quer des­ses auto­res des­res­peite ou tenha des­res­pei­tado o seu público. E se você se sente ofen­dido com uma edi­ção barata dos Irmãos Kara­má­zovi, sinto muito dizer que você não entende o que é literatura.

Quem sabe téc­nica lite­rá­ria ou teo­ria con­se­gue ver com cla­reza as esco­lhas nar­ra­ti­vas do autor, o motivo da per­so­na­gem prin­ci­pal ser uma cri­ança ou um rapaz da classe média, a razão do tempo da nar­ra­tiva ser no pre­sente ou no futuro, a esco­lha do cená­rio urbano ou rural.

Isso, claro, na lite­ra­tura best-​​seller, que é pro­du­zida segundo parâ­me­tros devi­da­mente estu­da­dos. Em algum lugar alguém acha que deco­di­fi­cou os fato­res de sucesso dos gran­des clás­si­cos, e todos os jovens auto­res são acon­se­lha­dos a seguir estas ins­tru­ções de sucesso. É sério, mas um edi­tor me acon­se­lhou a uti­li­zar a « Jor­nada do Herói », de Joseph Camp­bell, como padrão para defi­nir os meus pro­ta­go­nis­tas. A obra deste autor é vista, por cer­tos edi­to­res, como uma bíblia para quem pre­tende escre­ver épi­cos. Não importa que os mito­lo­gis­tas tor­çam o nariz para a inter­pre­ta­ção de Camp­bell, considerando-​​a sim­pli­fi­cada, falo­cên­trica e limi­ta­dora de inter­pre­ta­ções alternativas.

Ler tam­bém é ser desa­fi­ado pelo autor e pela visão do mundo que ele des­creve, e os livros atu­ais evi­tam con­fron­tar o lei­tor, como se ele fosse feito de cristal.

Essa é a dife­rença pro­funda entre os livros publi­ca­dos como negó­cio e os livros publi­ca­dos como arte. Os livros publi­ca­dos como negó­cio dão lucro, mesmo quando não são um sucesso inter­na­ci­o­nal. Este sucesso é para pou­cos, e neces­sa­ri­a­mente para grin­gos. Mas os jovens naci­o­nais podem fazer fan­fic ou imi­ta­ções pala­tá­veis des­tas fór­mu­las que caí­ram no gosto público e assim ven­der alguns milha­res de exem­pla­res, que darão lucro à editora.

A medi­o­cri­dade que vende é a mal­di­ção de nosso mer­cado edi­to­rial colo­ni­zado, que vive per­ma­nen­te­mente de cos­tas para as novi­da­des naci­o­nais, para Por­tu­gal, para a África lusó­fona, para outros paí­ses onde não se fale inglês.

Esta medi­o­cri­dade se cria com as « anto­lo­gias », que dão muito lucro às edi­to­ras e vam­pi­ri­zam os auto­res ingê­nuos. Publi­car numa anto­lo­gia é um trote que alguma edi­tora impõe ao autor que deseja ten­tar uma publi­ca­ção solo. Isso não é inven­ção. Isso me foi dito por um edi­tor: « Nós nos com­pro­me­te­mos mais com os auto­res que pri­meiro se com­pro­me­te­ram conosco. Par­ti­cipe de nos­sas anto­lo­gias pri­meiro, para abrir seu espaço na Casa. »

Para publi­car na anto­lo­gia o autor pre­cisa ser apro­vado, o que sig­ni­fica que o seu texto tem que se con­for­mar com os obje­ti­vos comer­ci­ais da edi­tora, tra­du­zi­dos em um arco temá­tico ou até mesmo em regras de escrita mais deter­mi­na­das. Nor­mal­mente o autor pagará para publicar-se em tais ara­pu­cas lite­rá­rias, com a des­culpa de que está « adqui­rindo exem­pla­res » (o número varia de acordo com a quan­ti­dade de auto­res) para fazer seu lan­ça­mento, ou para “indenizar” a editora pelas despesas de publicação. O autor que fizer tal evento de lan­ça­mento estará, de fato, lan­çando o pro­duto da edi­tora, cujo nome fica na capa, e não a pró­pria obra. Fazer tal lan­ça­mento é pas­sar um ates­tado de bur­rice tão extrema que até comove. É gas­tar dinheiro para anun­ciar o tra­ba­lho de quem se cria explo­rando o seu trabalho.

E, não custa repe­tir, a publi­ca­ção em tais anto­lo­gias con­di­ci­ona o autor a seguir as normas.

A arte neces­sita do feio, do desa­gra­dá­vel, do gro­tesco, do repug­nante, do mal­feito. A beleza eleva o espí­rito, mas a feiura nos fala a verdade.

E exa­ta­mente por isso a lite­ra­tura sem­pre recebe a acu­sa­ção de ser uma arte deca­dente entre deca­den­tes artes. E por causa disso a arte sem­pre é vista como algo peri­goso pelos con­tro­la­do­res do sta­tus quo, a ponto de todos os regi­mes opres­so­res incluí­rem alguma forma de opres­são da arte. Sem que­rer recuar no tempo, pois não temos ele­men­tos sufi­ci­en­te­mente deta­lha­dos para expli­car os pro­ces­sos de sécu­los pas­sa­dos, ou pelo menos eu não tenho, é sin­to­má­tico que o tota­li­ta­rismo sovié­tico tenha pro­du­zido o rea­lismo soci­a­lista, que o macarthismo tenha cri­ado o « Comics Code Autho­rity » e o nazismo tenha pro­posto uma « arte alemã ». Sem­pre que uma botina se assenta no trono, os artis­tas pagam o pato.

[…] alguns auto­res bus­cam o feio da forma mais pri­má­ria pos­sí­vel, qual seja, tra­tar de temas revol­tan­tes e de fácil apelo popu­lar, encher as obras de pala­vrões e des­cri­ções chu­las de sexo ou dis­tor­cer a lin­gua­gem com a uti­li­za­ção de ter­mos usa­dos no dia a dia.

Existe em alguns auto­res uma obses­são pela vio­lên­cia que é quase por­no­grá­fica. Mas esta vio­lên­cia agres­siva e revol­tante não é « feia » no sen­tido empre­gado por Gus­tavo, como ele escla­rece (« A sim­ples ideia de usar ima­gens ou itens feios para fazer uma “arte feia” envolve uma esti­li­za­ção do pró­prio con­ceito de beleza. »). Esta vio­lên­cia exces­siva é uma esté­tica, é cal­cu­lada, é vista como um padrão de beleza em nega­tivo. Existe tanto for­ma­lismo nessa pro­fu­são de den­tes que­bra­dos, tiros e tor­tu­ras quanto no deli­cado aca­ri­ciar de uma flor pelos dedos macios de uma elfa no cio. Tudo é esté­tica. E por­tanto é tudo vazio: “[…] ao ten­tar trans­for­mar o feio em arte, ele se torna este­ti­ca­mente apre­ciá­vel e, por con­se­guinte, falso como uma nota de três reais”.

Os escri­to­res (e o mer­cado) supe­res­ti­mam o lei­tor, dando-​​lhe mais impor­tân­cia e cari­nho do que ele merece. O lei­tor não sabe o que quer; prova disto é que boa parte das mai­o­res obras de arte só foram reco­nhe­ci­das depois da morte do seu criador.

Irre­to­cá­vel em rela­ção à arte, mas não em rela­ção ao best-​​seller. É evi­dente que, para mui­tos auto­res e quase todos os edi­to­res, esse negó­cio de reco­nhe­ci­mento é só uma pala­vra bonita. O impor­tante é ganhar dinheiro. A edi­tora quer fechar o balanço no azul e con­ti­nuar exis­tindo, não quer falir cedo mas pas­sar a his­tó­ria como a publi­ca­dora ori­gi­nal de uma obra genial. Não cen­suro quem pensa assim, focado no fei­jão a ponto de esque­cer o sonho, mas é uma tra­gé­dia que em um mundo tão grande não exista espaço para quem pensa o dife­rente, para quem tra­ba­lha o « feio.«

 Crédito das citações do corpo do texto: Gus­tavo Czeks­ter, Por uma literatura mais feia, publicado no site Literatortura.com.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas, em 25-04-2014.

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

A Qualidade Não É Uma Roupa*

Por José Geraldo Gouvêa

A grosso modo, qual­quer capiau con­se­gue con­tar uma his­tó­ria. Junte uma dezena de pes­soas em torno de uma fogueira de acam­pa­mento e sai­rão dez his­tó­rias diver­ti­das. Mas uma delas será a melhor, tirará o sono dos pre­sen­tes, será levada de lem­brança por eles por uma vida inteira.

Alguns crí­ti­cos de arte cos­tu­mam detec­tar a deca­dên­cia da arte helenístico-​​romana (e por con­se­guinte da civi­li­za­ção medi­ter­râ­nea antiga) jus­ta­mente no momento em que acon­tece a sepa­ra­ção entre o a cons­tru­ção e o orna­mento. Pois aí, a arte dei­xou de ser vista como uma expres­são para se tor­nar um opci­o­nal. O prag­ma­tismo aca­bou triun­fando sobre a beleza, favo­re­cendo esco­lhas menos esté­ti­cas para favo­re­cer maior fun­ci­o­na­li­dade. O resul­tado, a longo prazo, é o fim da bela arqui­te­tura, subs­ti­tuída pela arqui­te­tura gran­di­osa e resis­tente, não neces­sa­ri­a­mente bela. O res­pon­sá­vel por este divór­cio entre a estru­tura e a beleza teria sido o con­creto armado (inven­ção romana, para quem não sabe). Ora, sendo a deco­ra­ção apli­cada sobre a estru­tura bruta de con­creto, ela era uma pre­o­cu­pa­ção pos­te­rior, menor, tal­vez pas­sí­vel de can­ce­la­mento se andasse estou­rado o orça­mento. Pos­si­vel­mente seria exe­cu­tada com mate­rial de pior qua­li­dade. Cer­ta­mente seria « remo­ví­vel » (e por­tanto substituível).

Mário Quin­tana, comen­tando sobre isso, obser­vou que « o aspecto mais lamen­tá­vel da arqui­te­tura moderna é a dura­bi­li­dade do seu mate­rial. » Uma frase vene­nosa pois, em razão do emprego do con­creto armado, a arqui­te­tura moderna é bem mais durá­vel (quando bem cons­truída) do que a antiga. Mas a dura­bi­li­dade do con­creto se dá ao preço da suti­leza. Assim não temos mais os finos deta­lhes de arqui­te­tu­ras pas­sa­das, mas pesa­das cha­pas de cimento a que se tenta dar flui­dez, forma ou cor.

Estas fra­ses me vie­ram à cabeça quando, pela cen­té­sima vez na vida, me depa­rei com um jovem que sonha em ser escri­tor, apa­renta ter lido muito pouco (a jul­gar pela pro­fu­são de erros orto­grá­fi­cos de sua escrita) e que ainda tem dúvi­das bási­cas sobre con­cei­tos pri­má­rios (tipos de nar­ra­dor). Quando lhe disse que era ainda cedo para ele pen­sar em escre­ver, quase me cru­ci­fi­ca­ram. Por sorte já era Pás­coa, e não havia mais cru­zes e pre­gos à dis­po­si­ção dos centuriões.

O pri­meiro comen­tá­rio em defesa do garoto foi este:

A par­tir do momento que você con­siga man­ter a lógica, não existe uma res­tri­ção… Na minha opi­nião só existe uma regra para escri­to­res: Coerência. (sic) 

Embora a coe­rên­cia seja uma boa qua­li­dade para um escri­tor, há dois comen­tá­rios que gos­ta­ria de fazer a res­peito desta frase. Pri­meiro, que duvido que um des­co­nhe­ce­dor dos aspec­tos mais bási­cos do idi­oma e das téc­ni­cas nar­ra­ti­vas seria capaz de man­ter a coe­rên­cia e a lógica. Segundo, que mui­tos bons tex­tos lite­rá­rios explo­ra­ram jus­ta­mente a falta de coe­rên­cia (sur­re­a­lismo, beat­nicks etc.). É só uma opi­nião minha, mas não acho que a coe­rên­cia seja mais impor­tante do que a capa­ci­dade de encan­tar o lei­tor com uma prosa agradável.

O pró­prio garoto se defen­deu dizendo que o « World » (sic) o aju­dava com o por­tu­guês e que não have­ria motivo para criticá-​​lo pelo modo como escreve no Facebook.

A pri­meira ideia é obtusa em si, pois o « World » sequer é um pro­grama feito por lusó­fo­nos e por isso falha em inú­me­ros aspec­tos de sua cor­re­ção, tanto na gra­má­tica quanto no reco­nhe­ci­mento do sig­ni­fi­cado de homó­gra­fos pelo con­texto. Mas a segunda ideia é mais sutil, merece um pará­grafo à parte, e jus­ti­fica a men­ção aos roma­nos e ao con­creto armado.

A qua­li­dade não pode ser vista como algo sepa­rado da estru­tura, a qua­li­dade não é um apli­que de gesso que você coloca sobre uma placa feia de con­creto. A qua­li­dade não é uma roupa que você veste em cer­tas oca­siões, mas em outras não.

Sei que essa ideia de indis­so­ci­a­bi­li­dade não vai encon­trar eco no mundo de hoje. Vive­mos em um mundo feito de con­creto, lite­ral e meta­fo­ri­ca­mente. Mas tam­bém um mundo de maqui­a­gem, rou­pas, cirur­gias plás­ti­cas. De car­ros que mudam de dese­nho, mas não de mecâ­nica. De gente que pensa uma coisa e diz outra. De livros que levam na capa o nome de alguém que o ditou, mas não o escreveu.

Nesse mundo, pen­sar a qua­li­dade como algo que se aluga, como algo que você paga alguém para fazer, é o mais natu­ral. Posso pagar a alguém para pegar meu maço de gar­ran­chos ou meu arquivo de caco­gra­fias batu­ca­das e trans­for­mar isso em algo que eu ache que está bom. Mas se eu não tenho sufi­ci­ente cul­tura e qua­li­dade, como posso ava­liar a qua­li­dade daquilo que pago a alguém para fazer por mim?

Eu acho que não se pode dele­gar a ter­cei­ros a qua­li­dade. Fazer isso é como dele­gar o pra­zer de sua namo­rada a um Ricar­dão. Ou como pen­sar em ganhar uma cor­rida de moto­ci­cle­tas ape­nas tendo apren­dido a peda­lar um velo­trol. Qua­li­dade é algo que você deve ter, ou não será capaz de reco­nhe­cer. Pagará para que lhe for­ne­çam, mas a sua igno­rân­cia não o aju­dará na esco­lha de quem seja com­pe­tente. Então você pagará quem lhe agrade, mas o seu gosto tosco o ori­en­tará a esco­lher o que tam­bém é tosco, é pobre, é ruim. O revi­sor pegará o seu dinheiro e lhe dará o livro que você quer, mas você não terá o que sonhou. Por­que a qua­li­dade não é algo evi­dente, a qua­li­dade pode ser um deta­lhe mínimo:

Por exem­plo… se eu escrevo errado, não quer dizer que eu não saiba man­ter a coe­rên­cia… só quer dizer que não me dete­nho em detalhes… (sic)

A lite­ra­tura é feita de deta­lhes. A grosso modo, qual­quer capiau con­se­gue con­tar uma his­tó­ria. Junte uma dezena de pes­soas em torno de uma fogueira de acam­pa­mento e sai­rão dez his­tó­rias diver­ti­das. Mas uma delas será a melhor, tirará o sono dos pre­sen­tes, será levada de lem­brança por eles por uma vida inteira. Essa é a his­tó­ria que tem os melho­res deta­lhes. É aquela his­tó­ria que fala de um tipo espe­cí­fico de pio de pás­saro, de um modo pecu­liar com que o vento sopra, de um estalo dife­rente no tronco de uma árvore. Então sopra o vento, pia um pás­saro, estala um galho e a his­tó­ria ganha vida. E pela vida inteira, nem vento, nem pás­saro e nem galho dei­xa­rão de evo­car aquela fogueira.

 

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas .

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

A Morte da Escrita é a Falta de Tempo*

Por José Geraldo Gouvêa

A tris­teza do escri­tor é a de não ter tempo para escre­ver, não poder desen­vol­ver as ideias que fer­vem na sua mente, e ao mesmo tempo não per­ce­ber que esse ine­xo­ravelmente se esgota, sem que a obra prima seja com­pleta

Quando era estu­dante deparei-​​me, certa vez, com uma trova por­tu­guesa, cuja auto­ria se per­deu nas tre­vas, que dizia o seguinte: « o tempo não me dá tempo/​ de bem do tempo fruir /​ e nessa falta de tempo /​ não vejo o tempo fluir ». Como sem­pre ocorre quando nos depa­ra­mos com ver­da­des que ainda esta­mos ver­des para comer, demo­rei trinta anos para come­çar a dige­rir esses qua­tro versos  singelos.

A tris­teza do escri­tor é a de não ter tempo para escre­ver, não poder desen­vol­ver as ideias que fer­vem na sua mente, e ao mesmo tempo não per­ce­ber que esse ine­xo­ravelmente se esgota, sem que a obra prima seja com­pleta, o reconheci­mento venha e torne-​​se pos­sí­vel a frui­ção da vida segundo o sonho. Mas não se limita a isso a tal tris­teza. Gra­du­al­mente per­ce­be­mos que não nos sobra tampouco o tempo para usufruir de coi­sas que ape­nas nos dariam pra­zer. É como se o mundo em torno de nós cons­pirasse sempre con­tra o pra­zer e o ócio, que são a essên­cia da ati­vi­dade literária.

Entre os pra­ze­res cita­dos está o da des­co­berta. Con­tra­ri­a­mente ao que pen­sam mui­tos jovens que acham que são escri­to­res só porque escre­vem, há no escri­tor um pra­zer de achar o novo. Qual­quer novi­dade sem­pre repre­senta uma opor­tu­ni­dade para aprender o ainda igno­rado, para aper­fei­çoar algo que ainda é inci­pi­ente, para supe­rar o que já deve­ria estar esque­cido. A descoberta é um pro­cesso que pode ser longo: mui­tos auto­res pre­fe­rem inves­tir déca­das des­co­brindo antes de come­ça­rem a escrever, mas há outros que fazem dela uma fer­ra­menta de pro­gresso depois que já come­ça­ram, e ainda há os que a temem, por­que toda desco­berta ame­aça um preconceito.

Não sou melhor do que nin­guém (de fato sou até pior que mui­tos), mas amo este pra­zer pequeno de me depa­rar com coi­sas diferentes. Mui­tas foram as vezes em que eu para­li­sei a minha vida por horas, ou até dias, embe­ve­cido na con­tem­pla­ção de novidades, algu­mas até sin­ge­las. Lembro-​​me de mara­to­nas de lei­tura de auto­res novos, em que mer­gu­lhava em uni­ver­sos alheios e me esque­cia até mesmo a hora do almoço. Foi assim que li Sta­nis­law Lem, Phi­lip K. Dick, João Gui­ma­rães Rosa, José Cân­dido de Car­va­lho, Robert A. Hein­lein, José Lins do Rego, Manuel Antô­nio de Almeida, Eça de Quei­rós, Joa­quim Manuel de Macedo, Lima Bar­reto, H. P. Love­craft e Niko­lai Gógol. Lembro-​​me de fil­mes que me dei­xa­ram em ver­da­deiro estado catatô­nico: Robo­Cop, 2001: Uma Odis­seia no Espaço, Per­sé­po­lis, Boniti­nha mas Ordi­ná­ria, Stalker.

Mas o tempo, que não me dá tempo de bem dele fruir, tem cada vez cons­pi­rado mais con­tra esses peque­nos pra­ze­res edu­ca­ti­vos. Tra­ba­lhando agora de oito às dezoito, de segunda à sexta-​​feira, sobra-​​me pouco estô­mago, aos qua­renta e um anos, para dige­rir a mon­ta­nha de novi­da­des inte­res­san­tes com que o mundo me cum­pri­menta todos os dias. Nessa situa­ção, é natu­ral que se comece a esco­lher com cau­tela. Em vez de me ati­rar nos bra­ços de toda notí­cia, tento adi­vi­nhar, sei lá como, quais mere­cem minu­tos de meu escasso tempo. É uma esco­lha arris­cada, mais base­ada em pre­con­ceito ou achismo do que em método. Mui­tas vezes a esco­lha é feita com base na repu­ta­ção do amigo que indica, mas o amigo pode ter indi­cado por causa de outro amigo, que eu não conheço, e o resul­tado é que, de fato, eu estou ape­nas limi­tando minha expo­si­ção ao novo, mas sem nenhum parâmetro.

Dias atrás tive a per­cep­ção exata da cru­el­dade disto quando, num momento de pura falta do que fazer, sob o impé­rio de uma densa pre­guiça men­tal, resolvi cli­car num link ofe­re­cido por um amigo que tem por hábito me indi­car coi­sas insa­nas que nem sem­pre me agra­dam. Da última vez que cli­quei num link dele eu vi um vide­o­clipe de música dan­çante em dese­nho ani­mado, envol­vendo um cava­leiro inglês, uma cam­po­nesa, lam­bi­das em um cavalo e uma música chi­clete difí­cil de tole­rar. Mas este clipe era diferente.

A come­çar pelo título, « Monty Cant­sin – I Beli­eve in Neoism », parte de um álbum intitu­lado « Ahora Neois­mus ». A ima­gem de capa suge­rindo vaga­mente o rea­lismo soci­a­lista, de uma forma aliás aná­loga à do « Lit­tle Red Record » (Pequena Gra­va­ção Vermelha, álbum lan­çado pelo grupo pro­gres­sivo inglês Mat­ching Mole em 1973). Por incrí­vel que pareça eu, um razoá­vel conhece­dor da ico­no­gra­fia soci­a­lista e dotado de alguma noção dos movi­mentos van­guar­dis­tas do iní­cio do século pas­sado, não dei aten­ção ini­cial ao compartilha­mento de meu amigo.

É evi­dente nos dois casos o tom de sátira a íco­nes da cul­tura esquer­dista pop. A influên­cia óbvia do « Lit­tle Red Record » (título que em si sati­riza o « Livri­nho Ver­me­lho », de Mao Tse Tung) é o rea­lismo soci­a­lista sta­li­nista, mas Monty Cant­sin parece mis­tu­rar um pouco disso, via ico­no­gra­fia norte core­ana, com doses de visual otaku e k-​​pop. Não tenho uma cul­tura visual sufi­ci­ente para decodi­fi­car todas as refe­rên­cias, e espero que nos comentá­rios os meus lei­to­res me aju­dem a escla­re­cer melhor.

Quando final­mente topei cli­car no link, espantei-​​me ao ouvir uma longa série de aplau­sos, com um efeito de eco, como se esti­vesse em um está­dio, depois, adicionou-​​se sobre ela uma espé­cie de dis­curso que pare­cia polí­tico, que soava como Hitler em Nurem­berg, ou como Stá­lin falando pelo rádio, ou Getú­lio Var­gas. Um dis­curso polí­tico anti­quado na ento­nação, mas estra­nha­mente incongruente em seu con­teúdo, que é difí­cil de tra­du­zir jus­tamente por ser vazio de todo con­teúdo, como um poema dadaísta, ou um discurso popu­lista de governo tota­litário, que começa pare­cendo ter algum sen­tido, mas vai der­re­tendo a cada frase, até se transfor­mar em uma bal­búr­dia ridícula.

Peo­ple, here I am stan­ding in front of you and stan­ding with you, peo­ple. You are part of me, and I’m tel­ling you to this day: without me life has no mea­ning and I’m the best fri­end you’ll ever have. I’ve come to touch myself: No! No! No! I’ll never touch myself […] Do you want to know what time is it? No! What time is it? I am sur­pri­sed now to hear this ques­tion. What time is it? Can you tell me what time is it? Have you the time? Tell me, ‘cos I never watch that clock. Time is a « fig­men­tion. » I never watch that clock, but I can tell you what time is it because there is only one impor­tant time in our lives. Six o’clock. Yes, in our land is always six o’clock. It’s six o’clock sharp. Six o’clock is happi­ness. Six o’clock means love, joy. Six o’clock is total fre­e­dom. Six o’clock is when you do what you like. Ahora neois­mus. Ahora neois­mus. You don’t need the clock, you don’t need your watch …

Quando ter­mi­nei de ouvir a faixa eu estava mudado. Sob a capa de apa­rente imbe­ci­li­dade parece haver pul­sando algo que faz sentido. Estava deter­mi­nado a des­co­brir mais sobre Monty Cant­sin e o neoísmo, seja lá o que isso for. E esta busca ocu­pou o resto do meu sábado e um pedaço do meu domingo. Uma des­co­berta nova, coisa que rara­mente acon­tece comigo nesta fase vazia da minha vida. É uma pena que eu não tenha muito tempo para apren­der mais, que os fru­tos do tempo este­jam pas­sa­dos e eu não tenha con­se­guido tudo o que que­ria. A morte da escrita é a falta de tempo. Se ele falta, falta a vida, falta a des­co­berta, e sobre o nada não se escreve coisa alguma que mereça ser lido.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas .

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). Escreve no blog “Letras Elétricas”.

Impressões da Leitura de “Piquenique na Estrada”, dos Irmãos Strugatsky*

Por José Geraldo Gouvêa

Roadside Picnic é um livro sobre uma visita extraterrestre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a centenas de outros. Mas quando você o lê, percebe que há poucas obras parecidas.

“Piquenique na Estrada” (Roadside Picnic) é um dos maiores clássicos da ficção científica soviética. Publicado em 1965, este romance de autoria dos irmãos Bóris e Arcádio Strugatsky merecia ser mais conhecido e lido, não só por suas qualidades literárias como por seu teor sutilmente político, contendo uma corajosa sátira ao comunismo.

Inicialmente vou dizer umas breves palavras sobre os autores. São tidos pela crítica especializada como verdadeiros gênios literários incompreendidos, cuja obra não pode ser perfeitamente fruída pelos ocidentais devido à profunda carga linguística que ela possui, mesclando neologismos e arcaísmos, coloquialismos e terminologia científica (e pseudocientífica). Não pude, obviamente, ver nada disso na tradução americana (que, aliás, me pareceu bastante “porca”), mas detectei vários dos outros elementos que são apontados como evidências da genialidade dos irmãos: a curiosa (e sempre inquietante) mistura entre sátira, idealismo, cinismo, ateísmo, superstições e construção psicológica de personagens muito densos e complexos. Resumindo: trata-se realmente de um trabalho literário de alta envergadura. Os irmãos estão, no gênero ficção científica, na mesma categoria dos “quatro grandes” (Asimov, Bradbury, Clarke e Heinlein) e, sob certos aspectos, estão acima.

Pode parecer surpreendente que eu afirme isso sem ter lido sua obra no original, mas o que se pode entrever nesta tradução que li justifica plenamente a reputação dos dois: eles são simplesmente ousados além da conta, em todo e qualquer aspecto (exceto na formalidade da narrativa e da pontuação). Vamos por partes.

Roadside Picnic é uma obra carregada de sátira. Pelo que leio das sinopses, todas as obras dos irmãos Strugatsky são amargamente satíricas. É surpreendente que eles não tenham sido deportados para a Sibéria e morrido lá. Talvez o expediente de deslocar sua sátira para mundos inventados do futuro ou países estrangeiros (como o Canadá, nesse romance) tenha permitido que os censores não percebessem que o alvo da sátira era o comunismo. É preciso ser “muito macho” para satirizar o comunismo se você nasceu em 1925 na União Soviética. Os irmãos Strugatsky foram, e morreram de velhice (embora algumas de suas obras, entre elas esta, tenham sido severamente censuradas antes da publicação e só tenham sido restauradas após o fim do comunismo). Em Roadside Picnic a sátira não está exatamente dirigida ao comunismo, mas ao seu cientificismo. Ao longo do livro os cientistas (mostrados como pessoas idealistas, mas ingênuas) comportam-se como crianças que procuram entender os brinquedos que ganharam. A religião também é satirizada (neste livro está a célebre frase “A hipótese de Deus nos dá uma oportunidade absolutamente incomparável de entender tudo e não saber nada”), bem como o ideal do self made man (os heroicos personagens do livro se revelam pessoas absolutamente detestáveis, como Burbridge, ou meros instrumentos da ganância do “sistema”, como o protagonista).

O livro literalmente atira para todos os lados: os personagens são de vários tipos, um comerciante corrupto, um cientista ingênuo, um ladrão que se acha um tipo de herói, um cientista absolutamente cínico, um policial violento, um barman covarde, um negro supersticioso… cada um deles se relaciona de uma forma diferente com o grande mistério de que fala o livro: as “Zonas”.

Roadside Picnic é um livro sobre uma visita extraterrestre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a centenas de outros. Mas quando você o lê, percebe que há poucas obras parecidas. Para começar, a visita em si é apenas uma hipótese desenvolvida para explicar um fato: o aparecimento sobre a Terra de sete estranhas “zonas” onde ocorrem fenômenos que contradizem a lei da física, onde se encontram objetos estranhos e inexplicáveis, onde tudo subitamente parece que se tornou hostil à vida como a conhecemos (os pássaros não voam sobre as “zonas” e lá não há insetos).

Os extraterrestres não aparecem, ninguém os viu (ou sobreviveu após vê-los para poder contar). Mas o seu legado, os objetos e fenômenos que eles deixam para trás, assombram o livro do começo ao fim e, revelando o alcance do cinismo dos autores, demonstram-se tão indiferentes à nossa existência que um personagem chega a dizer que isso foi uma sorte, pois se nos tivessem notado, teriam feito conosco como fazemos com as formigas que poderiam atrapalhar nosso piquenique à beira da estrada (nesse ponto, lá pelo meio do livro, você entende o porquê do título). Para os extraterrestres nós nem sequer somos visíveis. Se os espanhóis tiveram dúvidas se os ameríndios eram humanos, Strugatsky argumenta que talvez nós e os Visitantes nem nos reconhecêssemos como seres vivos e pensantes: “Usualmente uma definição trivial [de racionalidade] é usada: a razão é a função humana que nos distingue dos animais. Ou seja, uma tentativa de distinguir entre o homem e o seu cão, que a tudo entende mas não sabe falar.”

Resta-nos, então, coletar os restos de suas fogueiras, as pilhas descarregadas de seus rádios, migalhas de seu pão, uma bola de pingue-pongue perdida no lago, um talher de plástico quebrado, gotas do óleo de seu carro que pingaram na grama, o lenço perfumado, talvez uma camisinha usada… “Exatamente. Um piquenique durante a viagem, à beira de alguma estrada do universo. E você me pergunta se eles vão voltar.”

Estou agora determinado a continuar lendo as obras de Bóris e Arcádio Strugatsky. Eles são bons, são livros densos e que fazem pensar. São ficção científica para gente que gosta de refletir, e não para jovens obcecados com um vírus que faz zumbis ou com robôs alienígenas que se transformam em carrões. E os títulos prometem: Um Besouro no Formigueiro, Segunda Começa no Sábado, Certamente Talvez, Como É Duro Ser um Deus, Um Arco Íris ao Longe, Meio-Dia no Século XXII, O Último Círculo do Paraíso, O Mowgli do Espaço… Seria ótimo se estas obras geniais estivessem disponíveis em português, mas quase me dá vontade de aprender russo para lê-las.

“Piquenique na Estrada” foi adaptado para o cinema através do filme “Stalker”, de Andrei Tarkovski, com trilha sonora de Eduard Artemiev. Embora pouco fiel ao universo do livro, o filme (que adota uma abordagem menos obviamente “sci-fi”) consegue prestar uma bonita homenagem ao livro, além de nos brindar com uma curiosa sonoridade, em que todos os sons, menos as vozes das personagens e o motor de uma solitária moto, são sintetizados por Artemiev em instrumentos artesanais de sua construção.

*Artigo originalmente publicado em 2011, no blog Letras Elétricas .

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). Escreve no blog “Letras Elétricas”.