A jornada do escritor: investimento em livros

Por Ben Oliveira

Além de investir tempo na prática da escrita, os autores precisam ser leitores vorazes, entendedores da literatura.

 

A Jornada do Escritor, ou seja, o caminho percorrido por aqueles que sonham em se tornarem escritores profissionais envolve não só escrever, mas também buscar o conhecimento. Uma das melhores formas de se aprender mais sobre a escrita literária é através dos livros: literatura, técnicos, crítica literária, ensaios e demais áreas de conhecimentos que possam ajudá-lo a entender melhor os seres humanos e a arte de escrever.

Um dos principais erros de escritores iniciantes é o de se aventurarem no universo da escrita, sem antes terem uma boa bagagem literária. Não estou dizendo que existe um número mínimo de livros que alguém precisa ler, para que possa finalmente começar a escrevê-los – aliás, a jornada do escritor é muito pessoal e cada um deve saber como empreendê-la –, porém se você for analisar os conselhos deixados por grandes autores, vai perceber que a maioria destes profissionais recomenda muita leitura!

Por que é tão importante essa leitura? Bom, primeiro porque antes de inventar de escrever um livro de terror, fantasia, ficção científica, ou seja lá qual for a temática que você desejar abordar, é necessário que você entenda quais são as características que não podem faltar em sua história. Além de entender a temática que você deseja escrever, você precisa se familiarizar com o gênero literário escolhido: conto, romance ou novela. Um conto é muito mais do que uma história curta, assim como um romance não é só um livro longo, dividido em vários capítulos.

Todos os meses, ou quando tenho dinheiro, eu invisto em adquirir livros que possam aumentar a minha bagagem cultural. Hoje, ao terminar de ler dois livros sobre técnicas de escrita (literatura comercial) em uma tarde, fiquei pensando: “Será que realmente valeu a pena comprá-los?”. E a resposta veio quando, ao terminar um dos exercícios de escrita livre, eu consegui encontrar o final do romance que estou escrevendo. Não importa se o livro é pequeno ou grande, se é técnico ou reflexivo, o que faz a diferença é a sua leitura, assim como a maneira que você explora as informações, somando com os seus próprios conhecimentos.

Outra série de livros que comprei, por exemplo, são oficinas de escrita. O livro traz diversos exercícios que funcionam como se o leitor estivesse participando de um curso, sendo guiado pelo autor. O escritor iniciante ou até mesmo o veterano, à medida que desenvolve a escrita, vai saindo da zona de conforto. O livro é extremamente prático – cabe ao leitor fazer suas próprias reflexões e utilizá-lo da melhor maneira possível.

Quando leio livros de literatura, gosto de marcar os meus trechos favoritos, reviravoltas, metáforas e algumas técnicas utilizadas pelo autor para tornar o livro mais interessante. Isso me ajuda bastante a aprender sobre a minha própria escrita e, é claro, na hora de resenhar o livro, pois facilita na hora de recordar as passagens mais marcantes da obra e tentar entrar em contato com a essência do escritor.

Se o seu objetivo é aprender mais sobre a arte da ficção, no momento em que está lendo é necessário ter uma visão diferenciada, não basta ler por mero entretenimento. Acredite, entender um fragmento que seja da essência de um escritor é tão prazeroso quanto lê-lo só para passar o tempo. A sensação que fica é a de que você e o autor compartilharam segredos, confidências – é o famoso “ler nas entrelinhas”.

A leitura dos clássicos da literatura também é importante, afinal, muitas obras contemporâneas surgiram do diálogo com esses livros escritos há séculos (intertextualidade), além de ser uma ótima forma de compreender quais elementos da narrativa fizeram tanto sucesso a ponto de conquistarem leitores até os dias atuais.

Não se pode ignorar a força de alguns autores contemporâneos best-sellers para quem deseja entender por que eles vendem tanto. No entanto, até eles tiveram que beber em fontes do passado para escreverem seus romances. Por exemplo, se você gosta de distopia, tema que tem vendido muito atualmente, não basta ler livros como Divergente (Veronica Roth) e Jogos Vorazes (Suzanne Collins), é preciso se aventurar também em Laranja Mecânica (Anthony Burgess) e 1984 (George Orwell).

Não basta ler os livros técnicos com soluções “rápidas e fáceis” para escrita, como se escrever um livro fosse como seguir a receita de um bolo. É interessante que o escritor tenha conhecimentos sobre teorias (linguística, literária, comunicação) e compreender os assuntos que deseja abordar em seus livros. Logo, além dos livros servirem como ótimos materiais de estudo, eles também são ótimas ferramentas de pesquisa. Por exemplo, escrevi um romance de fantasia sobre bruxaria, e mesmo tendo conhecimento da religião, precisei reler alguns livros. Não importa se o seu livro é de fantasia, os símbolos, rituais e demais elementos precisam ser verossímeis e fazer sentido.

Portanto, se você sonha em se tornar escritor profissional – sobreviver de sua carreira literária –, é melhor transformar esse sonho em um objetivo e começar a traçar seu caminho. Não adianta achar que o escritor somente escreve e magicamente tudo sai lindo e perfeito. Além de investir tempo na prática da escrita, os autores precisam ser leitores vorazes, entendedores da literatura. Ninguém está dizendo que você precisa escrever um livro que vá agradar todo mundo ou se tornar um Mestre da Teoria Literária. Tenha em mente que mesmo autores que já foram massacrados pelos especialistas, como Stephen King, dominam a arte de escrever. Seus textos, muitas vezes, são criticados pelo debate literatura arte x literatura comercial, embora quem lê as entrelinhas percebe vários elementos que enriquem suas obras literárias.

Se o seu objetivo é só publicar um livro, bom, existem inúmeras opções atualmente, algumas até mesmo gratuitas, como a Amazon, ou a autopublicação, na qual você pode recuperar o seu dinheiro gasto se vender os livros para seus amigos, familiares e conhecidos. Porém, se o que deseja é se profissionalizar como escritor, busque aprender sempre, entender o mercado editorial, investir na leitura e escrita, ter paciência, entender que você vai ter que sacrificar algumas coisas para conquistar outras e ser humilde para admitir que todos temos algo que precisa ser melhorado em nossos textos, nossas vidas. Parece óbvio, embora muitos não percebam. Mais absurdo do que um escritor que não escreve – independente dos inúmeros fatores que pouca diferença faz para o leitor e para editores (falta de tempo, preguiça, procrastinação, falta de inspiração, bloqueio criativo) – é um escritor que não lê!

 

Ben Oliveira é graduado em Jornalismo, blogueiro e escritor com alguns contos publicados em antologias. Possui também romances que ainda não foram publicados. Escreve no blog Ben Oliveira e é um dos parceiros da Caligo Editora.

Literatura infantil: os primeiros passos

Por Thais Lemes Pereira

 

Com a expansão dos meios de comunicação, ficamos cada dia mais surpresos com os livros que as crianças andam lendo. Alguns sequer possuem características que antes considerávamos básicas para atrair novos leitores.

 

O primeiro livro que li, emprestado da escola em que estudava, foi “Uma Professora Muito Maluquinha”, do Ziraldo. Desde então sou apaixonada pela Literatura Infantil e Infantojuvenil, mesmo que não me arrisque por esse mundo. É preciso muito mais do que saber escrever e ter sido uma criança. Uma responsabilidade muito grande, pois a partir desse passo é que os próximos serão dados e uma impressão passada durante a infância pode ser carregada para o resto da vida.

Qualquer adulto que não cultivou o hábito de ler pode adquiri-lo, mas o gosto pela leitura é melhor aproveitando quando ainda somos crianças. A fase das novidades é também o momento de despertar o interesse por assuntos que carregaremos ao longo dos anos. Por isso esses livros têm um papel fundamental na sociedade.

O mais engraçado é que batemos sempre na mesma tecla dizendo que a leitura deve ser incentivada desde a infância, mas raríssimas são as vezes que tomamos conhecimento que algum livro do gênero foi publicado. Isso porque automaticamente associamos a publicação aos autores consagrados como Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Cecília Meireles, Ana Maria Machado e tantos outros.

Ressaltando todas as mudanças que ocorreram nos últimos tempos, principalmente no que diz respeito à comunicação, percebemos que a Literatura Infantil sofreu uma transformação muito grande. Antigamente, para o público infantil e jovem, a forma mais fácil de ter acesso aos livros era pegando-os emprestado das bibliotecas escolares ou municipais – abrindo pequenas exceções. A leitura ficava delimitada pela faixa etária e era mais comum encontrar autores nacionais nas estantes.

Recentemente, visitei uma escola pública de Ensino Fundamental e notei nas mãos das crianças livros para todos os gostos: finos, grossos, nacionais, estrangeiros, com gravuras ou sem. Alguns, inclusive, que possuo na estante. Com a expansão dos meios de comunicação, ficamos cada dia mais surpresos com os livros que as crianças andam lendo. Alguns sequer possuem características que antes considerávamos básicas para atrair novos leitores.

Torna-se admirável quando autores conseguem cativar esse público tão questionador e cheio de novas ideias. É passando antes por eles que outros autores, no futuro, terão o trabalho lido e contemplado.

Hoje as crianças possuem a personalidade mais definida do que há alguns anos atrás. São capazes de criticar com argumentos sólidos o que acabaram de ler. A mesma crítica que em um artigo anterior − Sobre “Galáxias” e a influência das leituras que não nos cativam – afirmei ser necessária para desenvolver habilidades de escrita, além de despertar a criatividade.

Por isso, é fundamental que professores e pais estejam dispostos a conduzir os primeiros passos. E quem sabe, depois de aprender a andar sozinho, seja hora de sentar e escrever.

-***-

thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

25 de julho – Dia Nacional do Escritor

Por Thais Lemes Pereira

E se nós, escritores, colocássemos na balança a quantidade de livros nacionais e estrangeiros que lemos nos últimos meses, qual sobressairia?

Ser Escritor no Brasil

Dia 25 de julho comemoraremos o Dia Nacional do Escritor. Data que marca a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, promovido por João Peregrino Júnior e Jorge Amado, na década de 1960. Lendo sobre o assunto na internet, me deparei com uma reportagem (dezembro/2013) que dizia que o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo afirmando que “ser escritor no Brasil é a mais patética das profissões”.

O primeiro erro daqueles que sonham com a publicação de um livro e dos que já publicaram é encarar a escrita como uma profissão. Afirmar isso é o mesmo que dizer para aqueles que escrevem em qualquer veículo de comunicação sem gratificação, ou para seu próprio deleite, que não são escritores. Entende-se por profissão a atividade social remunerada. Logo, o sonho de se tornar escritor estará diretamente ligado à venda e possível fama. Não adianta julgar jovens e adultos por escrevem histórias pensando em renda, pois o próprio título com o passar dos anos desencadeou essa ideia.

O que pode ser levado em consideração é que muitos autores estrangeiros alcançam a fama e conseguem sobreviver com a venda de seus livros, fato que deve ter influenciado a visão de quem escreveu para o jornal norte-americano. Talvez a culpa seja até dos próprios brasileiros – e quando digo isso envolvo mídias, determinadas editoras e os próprios leitores.

Observamos que o número de leitores brasileiros aumentou nos últimos anos, o que deveria trazer uma maior visibilidade aos escritores do país. Mas, infelizmente, desde que o Brasil foi colonizado, percebemos a grande influência do estrangeiro em nossa vida.

Durante o dia 06 de julho realizei uma pesquisa em uma comunidade literária no Facebook, perguntando quantos livros nacionais e estrangeiros haviam sido lidos nos últimos seis meses. O resultado assusta, mas não surpreende:

graf-leitor-thais

Ser escritor no Brasil não é fácil, mas será que é tão difícil?

Depende da intenção.

Certa vez, li que as pessoas que se formam em Jornalismo hoje em dia são loucas (principalmente depois da queda do diploma), pois o mercado de trabalho anda escasso. Penso o contrário: após a difusão da internet as possibilidades estão maiores, basta saber usá-las. O mesmo acontece com o escritor.

Claro que ter a publicação física do seu livro é mais prazeroso e temos boas editoras que fazem o trabalho sem custo para o autor. Algumas após avaliações, outras com impressão sob demanda. Para os adeptos à leitura digital as oportunidades são as mesmas. Uma dica interessante para aqueles que buscam a visibilidade, é a participação em concursos e desafios literários. Algo que exige paciência, mas que pode ser encarado de uma forma bastante positiva, levando em consideração aperfeiçoamento e amadurecimento.

Mas apenas isso não basta! É preciso quebrar o conceito de que os bons livros são os que recebem destaque pela mídia e que estão presentes nas livrarias. E se nós, escritores, colocássemos na balança a quantidade de livros nacionais e estrangeiros que lemos nos últimos meses, qual sobressairia? Não é preciso deixar os grandes nomes e autores estrangeiros de lado, mas é importante desvendar novas possibilidades.

Para dissolver a imagem estabelecida pelo The New York Times? Não. Para romper o conceito que nós próprios formamos. Afinal, o artigo publicado no jornal é assinado por Vanessa Bárbara, uma escritora brasileira.

Feliz 25 de julho para os escritores do nosso país, principalmente para aqueles que se orgulham disso.

thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Saudosas cantadas

Por Fernanda Botta

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor […]

 

Despudorados como um gracejo de botequim. Assim são os livros da já saudosa – e, diga-se de passagem, acertadamente nomeada – coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense. Criada nos anos 1980 e focada no público jovem, a Cantadas Literárias dedicava-se a lançar escritores então desconhecidos. Foi através dela que toda uma geração conheceu Paulo Leminski, que a pedido dos editores escreveu o romance “Agora é Que São Elas”; Caio Fernando Abreu, que por meio da coleção publicou o cult “Morangos Mofados”, e Marcelo Rubens Paiva, que na ocasião nem podia imaginar que o seu “Feliz Ano Velho” se tornaria um sucesso comercial, com direito a filme estrelado pela atriz Malu Mader. Também com ela muita gente conheceu a poesia de Chacal, Chico Alvim, Ana Cristina César e Martha Medeiros, que à época era uma jovem estudante de publicidade.

Embora estilisticamente díspares, todos os autores discorriam francamente sobre sexo, drogas e identidade, entre outras questões típicas de jovens de qualquer tempo e lugar. Em suma, tinham em comum uma temática e uma linguagem mais acessíveis. Ou pelo menos mais próximas do jovem do que os aborrecidos clássicos que ele era obrigado a ler na escola. Perdoem-me os puristas, mas esperar que alguém tenha prazer na leitura partindo de O Guarani, de José de Alencar – e suas longas e muitas linhas apenas sobre o banho de uma mocinha – é pedir demais. Eu sei disso, você sabe disso, Caio Prado Júnior sabia disso. Quando pensou em uma literatura que pudesse efetivamente aproximar o adolescente dos livros, o então diretor da Brasiliense acertou em cheio. “É verdade que se lê pouco no Brasil?”, perguntava na contracapa do primeiro número. A coleção vendeu como água.

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor – ou pelo menos a dezenas de citações de sua obra. Para quem usa o Twitter, é ainda mais fácil. É só seguir o usuário @CaioFAbreu, criado por um leitor, e voilà! As citações aparecem em sua página. Citar Caio Fernando Abreu hoje é banal como escovar os dentes. Mas nem sempre foi assim.

É claro que os pais e a crítica torceram o nariz. Imagine só um livro que narre, de qualquer forma, o ato sexual? Ou que tenha em seu vocabulário uma boa dúzia de termos para descrever a genitália humana, termos que nem meu blog de família teria a coragem de reproduzir? Ou que fale abertamente sobre drogas ilícitas? Ou pior, faça tudo isso de forma despojada, livre das amarras daquilo que era considerado correto dentro da literatura? Era uma afronta. Fernando de Barros e Silva, em um artigo de 1989 do falecido suplemento Letras, do jornal Folha de S. Paulo, considerou a coleção um investimento dos editores “em temas do cotidiano e textos fáceis para arrebanhar um público sem cultura e carente de referências literárias”.

Mas o tempo passa, o tempo voa, e a coleção hoje é referência. E é uma pena que, tão esquecida e necessária quanto aquele bilhete desavergonhado com um número de telefone trazido pelo garçom, só se encontre em sebos.

Fernanda Botta, 27 anos. Jornalista cultural, tradutora freelancer, escritora de ocasião, péssima com definições. Tem mais textos dela no blog bissexto (como ela mesma define) 8linepoem.

Dos Clássicos aos Best-Sellers: Existe Livro Bom ou Ruim?

Por Thais Lemes Pereira

casmurro2

O que não pode ser negado é que muitos jovens entram no mundo da literatura ao lerem livros que fazem sucesso e no futuro encontram-se atraídos por qualquer outro gênero.

 

A semana que passou foi marcada por questionamentos sobre a simplificação das obras de Machado de Assis. Argumentos defendendo e criticando a ação apoiada pelo Ministério da Cultura bombardearam as redes sociais. Entre eles, um me chamou muito a atenção. A postagem defendia a ideia que quem se entrega à sedução dos best-sellers não havia nascido para ler obras clássicas da literatura.

Não é difícil de encontrar pessoas que definem livros como “bons” ou “ruins”. Difícil é encontrar leitores que aceitem que o gosto pessoal é muito pré-conceituoso para decidir o que alguém deve ou não ler. Durante o debate traçado em cima da postagem, defenderam a tese de que o problema não seria ler best-sellers, mas ler apenas best-sellers. Uma afirmação perigosa, pois, em contrapartida, não seria errado ler apenas clássicos?

Submeter-se a um gênero específico é perigoso, pois é capaz de mostrar para seu cérebro que só aquele tipo de literatura deve ser contemplado. Algo pior acontece quando livros fazem sucesso, pois tachá-los de ruins reflete a opinião que temos sobre a sociedade. Acabamos por definir a personalidade das pessoas em razão do que elas leem. Algumas, inclusive, sentem-se receosas de confessar que estão lendo livros que são reprovados.

O que não pode ser negado é que muitos jovens entram no mundo da literatura ao lerem livros que fazem sucesso e no futuro encontram-se atraídos por qualquer outro gênero. Entendo a posição de algumas escolas quando solicitam que seus alunos leiam José de Alencar e Aluísio Azevedo, mas muitas vezes esses estudantes não cultivaram o hábito de ler e acabam considerando-os tediosos para o resto da vida. Uma espécie de “trauma”.

Samanta Meireles, aluna do nono ano do ensino médio da Escola Estadual Clóvis Salgado (Cambuquira – MG), afirma que no momento nenhum título é obrigatório na turma em que estuda. Ela e seus colegas de sala vão até a biblioteca e escolhem os livros que gostariam de ler para que, posteriormente, possam responder as perguntas do professor sobre a história ou fazer uma ficha literária. Mas também disse que gostaria que clássicos fossem indicados, para que todos pudessem valorizar um pouco mais a literatura brasileira. Provavelmente aqueles que se dedicam a essa atividade não se sentirão intimidados nos próximos anos para ler Senhora ou O Cortiço.

Dos clássicos aos best-sellers, todos os livros têm algo bom para oferecer (sim, eu disse todos). Por mais que um autor não nos agrade e uma história não nos defina, abrir a mente para encontrar novas opiniões é o fator que determinará seu nível de crescimento com a leitura. Levando isso em consideração, acabamos descobrindo que não existem livros bons ou ruins. Existem livros que agradam e outros que não, mas todos são capazes de transmitir algum conhecimento.

Deliberar o que alguém deve ler nos dias atuais é muito simples. Devemos tomar cuidado para não impor condições e sim abrir possibilidades. O importante não é o que leio e sim o proveito que tiro daquilo que leio.

-***-

thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

O Processo

Por Fernando de Abreu Barreto

Para quem vê a produção literária como produção de arte (existem os que a veem de outra forma), determinar um método universal e absoluto de criação é contrassenso.

Busque “processo de criação literária” no Google e você encontrará mais de um milhão de referências (some um, a partir da publicação desse texto). Segundo a revista Exame, em 2010 o mesmo site de buscas indicava existirem no mundo aproximadamente 129 milhões de livros publicados. Não quis me afogar em números e não procurei saber o número de escritores.
Caso fosse possível encontrar o número exato de autores espalhados pelo mundo aquela primeira informação prestada pelo oráculo da web continuaria a mesma? Acredito que o número de autores será sempre inferior ao número de processos de criação literária existentes no mundo. Parece estranho, mas não é.
A insegurança natural do autor iniciante gera muitos questionamentos, dentre eles qual o melhor processo de criação literária. Nesse caso só encontro uma resposta possível: não existe.
Para quem vê a produção literária como produção de arte (existem os que a veem de outra forma), determinar um método universal e absoluto de criação é contrassenso. Não raro o mesmo autor aplica a duas obras distintas métodos diferentes de trabalho, o que por si só desmistifica a importância de se eleger uma fórmula especial.
Há, ainda, que se diferenciar o processo de criação específico de uma obra, do projeto literário desenvolvido ao longo da carreira de um escritor. Sendo o segundo um conjunto de tudo o que foi proposto e praticado em cada obra.
Não se pode, no entanto, confundir qualquer deles com hábitos (alguns, vícios) que compõem sua rotina de trabalho. Há o grande mito (não sei de onde vem, se alguém souber, por favor me conte) do escritor produzindo ao som de jazz (ou clássicos), fumando feito louco e bebendo xícaras e xícaras de café. Ou do autor sofrendo diante do papel em branco, solitário, sentado no canto de uma cafeteria.
Não considero método de trabalho esses pequenos cacoetes. São mais um meio de tornar a tarefa menos desconfortável, mais fácil. Da mesma forma que não considero o horário de trabalho como parte do método, é mais circunstancial.
Houve um período em que eu preferia escrever pela manhã. Acordava por volta das seis horas, preparava o café, ligava o computador, lia as principais notícias. Às sete começava a reler o que havia produzido no dia anterior, para enfim digitar as primeiras palavras às oito. Escrevia até o meio-dia, quando parava para almoçar. Depois, ia para o escritório em que trabalhava como advogado. Não era parte do método, era o horário em que eu podia me dedicar ao livro que estava escrevendo por circunstancias cotidianas favoráveis.
Costumava, nesse tempo, levar para o trabalho o texto produzido naquela manhã e, no final da tarde, sentar na mesma cadeira do mesmo café todos os dias, para revisar e acrescentar algo. À noite, passava as anotações da tarde para o arquivo no computador, que seria ligado às seis da manhã do dia seguinte. Não há nada de método nisso, embora a organização do horário facilite o trabalho.
Da mesma forma, não vejo como parte do processo criativo escrever um número mínimo de palavras por dia, o que é alardeado como a força motriz da escola americana.
Separados os hábitos do processo criativo, volto alguns parágrafos. O que se pode dizer concretamente sobre o assunto é que não há fórmula. Entendendo a arte como linguagem e meio de manifestação da convulsão provocada pelas experiências pessoais de vida em contato com o meio externo. Temos de admitir que o processo de criação é puramente instintivo no princípio. Só depois somos capazes de domá-lo através da razão.
A partir desse momento a arte e o processo criativo se fundem, porque a arte é a própria construção da arte. O livro não existe apenas depois de publicado, ele surge muito antes, sempre existiu, desde antes. Nasce do primeiro fato que gerou o fato que modifica ou cria algo dentro do autor. A publicação, portanto, é o ato final de transformação da arte em livro, e não o livro em si.
O autor Ricardo Lísias em vídeo recentemente publicado na internet explica que o verdadeiro prazer estético reside nos detalhes que constroem a obra. Mais, afirma ainda que a pergunta correta a ser feita diante de uma obra de arte é como o artista tenta dar significado, e não o que a obra significa, ajudando a solidificar a ideia de que o processo de criação e o objeto da arte se fundem em uma arte final.
Nessa mesma direção, Carola Saavedra transforma a ideia em ficção em seu mais recente romance, O inventário das coisas ausentes (Companhia das Letras, 2014), no qual o próprio processo de criação é parte da obra, literalmente.
Resta constatar que não existe receita. Sendo o processo individual, único, específico, não aplicável a qualquer outra obra. Tudo mais é rotina: o café quentinho, os cigarros (evitem), a cadeira confortável, Ella Fitzgerald sussurrando ao seu ouvido, não transformam o que existe de abstrato dentro de você em palavras.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

Sobre “Galáxias” e a influência das leituras que não nos cativam

Por Thais Lemes Pereira

Era exatamente aquilo: o que não te incomoda não te acrescenta, até mesmo na hora de escrever.

Dizem que ser um leitor assíduo ajuda na hora de escrever. Com certeza, em algum momento da sua vida, você já deve ter lido ou ouvido sobre. Artigos nomeados “Como Escrever Bem” adoram apontar a leitura como uma das principais influências na hora de escrever. Justificativa mais comum: amplia o vocabulário. A falta de exploração no assunto sempre me fez questionar se a declaração era verdadeira ou apenas algo que foi dito uma vez e repetido conforme a música.

Quando a tia do Ensino Fundamental pediu que meus colegas e eu lêssemos algum dos livros disponíveis na biblioteca, eu já carregava na bagagem toda a obra infantil do Monteiro Lobato e O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. Infelizmente, não era o suficiente para que minhas produções de texto lhe agradassem. Com a nova afirmativa de que “ler ajuda a escrever melhor”, fiquei me questionando o que estava fazendo de errado.

A resposta veio quando comecei a ler livros que não me agradavam. Sem o interesse na história, continuava a leitura dando uma maior atenção à construção das frases e pontuações. Sendo uma leitora mais cuidadosa, aprendi que ler não basta para escrever bem, mas ler criticamente é fundamental. Depositar uma maior atenção ao que é oferecido e criar nossos conceitos sobre o que é lido, desenvolve um sentido mais aguçado na hora de escrever. Muitas vezes, inconsciente.

Neste ano, minha teoria sofreu uma nova mutação quando um professor indicou o livro-poema “Galáxias” do poeta Haroldo de Campos na aula de Teoria da Comunicação. O primeiro contato com o texto foi um misto de surpresa e indignação, influenciada pelos pré-conceitos do que eu tinha como “certo” e “errado” na hora de escrever, me deparando com um livro sem pontuação e sem letras maiúsculas. Sem contar nas diversas palavras que produziam ecos. Mesmo assim, continuei fiel à leitura, levando em consideração a frase dita pelo mesmo professor: o que não te incomoda, não te acrescenta.

Na metade da leitura do livro, comecei a escrever um conto. Pequeno, apenas para satisfazer a necessidade de escrevê-lo. Quando li a história pronta, fiquei maravilhada com o que havia acontecido: vírgulas faltando e em todos os parágrafos havia um eco. Como aquilo poderia ter acontecido? Eu não enxergava interferência dos bons livros que lia na minha escrita, mas quando a leitura não agradava era evidente.

Era exatamente aquilo: o que não te incomoda não te acrescenta, até mesmo na hora de escrever. Sem generalizar – até porque tomando conhecimento disso a história muda o rumo − ao ler algo que gostamos, nossa crítica é abafada pela identificação. Sendo assim, a possibilidade de crescermos com algo que não estamos acostumados é bem maior do que se continuarmos lendo os mesmos gêneros, os mesmos autores.

Ler colabora na hora de escrever: fica claro que sim. Mas limitar a leitura ao que é confortável é prejudicial, pois faz com que olhemos sempre no mesmo ângulo e nos fecha para outras possibilidades. Quantos livros e outros textos deixamos para trás por conta de uma linguagem rebuscada, de termos que repelimos ou porque o gênero não agrada? O bom leitor não se deixa intimidar diante do apresentado e saberá fazer uso do que lhe incomoda de uma forma positiva na hora de escrever. Viajar pelo que nunca foi explorado é ampliar conhecimento e essa é a verdadeira influência que a leitura tem na nossa escrita.

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Cheese-Book

Por Fernando de Abreu Barreto

Na vida experimentamos muitas situações em que é mais fácil determinar se algo é bom, ou ruim. Nossas escolhas são orientadas por essa percepção. Todos nós somos assim, e temos a liberdade de escolher o que entendemos melhor. E de dizer que achamos algo melhor. Na literatura, não!

Quem decide se o livro é bom, ou não, é o leitor. Ele vive a experiência pessoal da leitura e sente seus efeitos. Mas a literatura é expressão de arte, e como tal possui aspectos objetivos que merecem respeito para além da subjetividade.

A divisão entre o que é boa literatura e literatura ruim sofre ataques constantes, desde muito tempo. E tem, também, seus defensores (geralmente acusados de academicistas). Eu que não sou um acadêmico da literatura confesso: tenho pouca coragem de meter minha colher na discussão. Mas tenho acompanhado alguns embates como quem assiste a um programa policial vespertino com curiosidade.

E o que mais tenho visto é a clássica discussão de botequim. Todos gritam, se impõem, ninguém ouve, não há reflexão. No final, todos vão para casa cheios de si, nada muda. Serve apenas como desabafo.

Opiniões à parte, em outras formas de arte a discussão inexiste. Em outros ramos de atividade, em outras áreas da vida somos capazes de separar o que é bom do que é ruim, com relativa facilidade.

Mas em literatura é proibido, taxado como uma violação à livre criação. Aquele que deseja classificar uma obra como vazia, menor, desimportante; aquele que procura estabelecer parâmetros técnicos objetivos para avaliar a qualidade de uma peça literária é tratado como formalista, quadrado, careta.

A discussão está muito acima do que é popular, ou elitista. Vai além do que é vendável, ou o que é sucesso de crítica. Muito além do que é divertimento, ou não. A contraditória palavra de ordem, nesse caso, é NÃO. Na literatura não podemos dizer que algo é ruim ou bom. Temos que aceitar como literatura algo intocável.

Passei um tempo fazendo uma enquete com amigos músicos que me responderam que o Xou da Xuxa é um disco muito bem produzido, traz composições de artistas consagrados, atinge o público alvo, vendeu 2,5 milhões de cópias, mas traz um punhado de músicas ruins (deve ser um péssimo exemplo, porque é um álbum infantil, e não se pode esperar muito de um disco voltado para esse público, portanto, vamos esquecer a Arca de Noé).

Continuei na música e tratei do novo álbum do Latino (nem sabia que gravam álbuns nos dias de hoje, mas acredite, o Latino lançou recentemente um novo álbum). Ninguém soube classificá-lo porque ninguém a quem questionei ouviu o disco. Não achei correto colocar os comentários de quem não conhecia a peça, mas os comentários existiram porque todos consideram o Latino ruim. E não parece feio considerar o Latino ruim. Especialmente se você colocá-lo ao lado do Beethoven, dos Beatles, do Barão Vermelho ou do B. B. King (só pra ficar na letra ‘b’).

É fácil compreender por que: as letras são pobres, vazias, muitas vezes escatológicas. Além disso, a construção melódica e harmônica é pobre (isso não é sobre música, não me aprofundarei). Por fim, sua voz não soa agradável. É a combinação de fatores objetivos que nos permite dizer que o Latino produz música ruim, embora venda muitos álbuns e faça shows com lotação máxima por todo o Brasil.

Houve uma época em que as músicas tinham construção melódica simples (note que simples não é pobre), uma multidão de bandas surgiu apoiada em músicas com três acordes. Essas bandas são consideradas ótimas, e seu trabalho é considerado música de alta qualidade.

Por que o rock goza desse privilégio? Porque apesar da simplicidade (que não era regra) e míngua de acordes, era apoiado por letras profundas, que geraram reflexão e revoluções (individuais e coletivas) significativas. Porque procuravam mais que o puro divertimento, e ainda assim divertiam. Era o ajuntamento quase perfeito entre a estética e o entretenimento.

Muita gente pode não gostar de rock, mas não conheço ninguém que em 2014 afirme se tratar de um gênero menor. Será que em 2035 a obra do Latino será vista como grande contribuição para a música brasileira?

Não se trata de preconceito, estou tratando do caráter técnico, embora no botequim isso não seja tão importante. Lá ninguém assume que gosta do Latino, mas todos dançam loucamente sua música em festas de casamento. Latino serve, então, para nos divertir quando estamos bêbados, o que não o torna especial, ou eleva sua música de categoria. Todo mundo sabe disso.

Você consegue determinar que uma comida é boa e outra ruim, embora submetida a subjetividades essa classificação mude frequentemente. Minha mulher adora caqui, eu não suporto a textura, a cor, o gosto. Mas não é de subjetividade que trato.

Há critérios objetivos que podem determinar se uma comida é boa, outra ruim. Não inventaram nada melhor que cheese-bacon, leite condensado e Coca-Cola. São comidas divertidas, unanimidades (exceto o cheese-bacon, enquanto houver vegetarianos), sucesso de vendas. Mas são péssimas, e todo mundo concorda com isso.

A dieta do Mediterrâneo é o que há de melhor no universo dos alimentos, afirmam muitos especialistas. Frutas e hortaliças, oleaginosas, azeite, peixe e vinho tinto são capazes de torná-lo indestrutível. Mas quem gosta de hortaliças e cereais? De Legumes, quem gosta? Muita gente gosta, mas a dieta não é boa porque muita gente gosta, ela é boa porque regula o organismo e fortalece a saúde (e ainda diverte de vez em quando, apesar da recomendação do uso moderado do vinho tinto).

Ninguém tem medo de dizer que a dieta do Mediterrâneo é melhor que o leite condensado. Mas isso aqui trata de arte, e a comida deve ser descartada. É um argumento frágil (é argumento?).

Na vida experimentamos muitas situações em que é mais fácil determinar se algo é bom, ou ruim. Nossas escolhas são orientadas por essa percepção. Todos nós somos assim, e temos a liberdade de escolher o que entendemos melhor. E de dizer que achamos algo melhor.

Na literatura, não!

Não se pode avaliar um livro objetivamente, porque você limita a criação. Não se pode avaliar subjetivamente, porque você está sendo raso. Grande bobagem.

Há critérios objetivos que devem ser sempre considerados, como o uso correto da norma (ou o uso incorreto, desde que o autor conheça o uso correto e o erro seja parte da obra, o que o torna adequado). A busca pela inovação, pela intervenção nas velhas formas de linguagem, porque, embora clichê, a língua é viva e evolui. A literatura deve gerar reflexão, o leitor tem de ser outro após fechar o livro. A obra deve ser uma malha, que funcione como um filtro através do qual as experiências do leitor irão passar.

Não por isso deve (mas pode) ser exageradamente complexa e chata. Um exemplo de obra simples de qualidade elevada é Desabrigo e outros trecos (Antonio Fraga), de simplicidade quase pueril e profundidade assustadora é o exemplo de que a qualidade não está na pompa, mas que simplicidade não é sinônimo de pobreza. Por outro lado, há livros complexos que proporcionam prazer sincero, como O Cortiço (Aluísio Azevedo) ou Dom Quixote (Cervantes), muito divertidos, mas não só isso.
Dizem que James Joyce gargalhava ao escrever Ulysses, outro exemplo de boa literatura, divertida, sucesso de vendas e crítica. Ela existe. Não há nada de errado em pensar que há boa literatura e má literatura.

Como não há nada de errado em pensar que um livro pode ser puro divertimento, um produto bem construído exclusivamente para entreter e vender (no final, o leitor é o modulador, que é pouco influenciado pela opinião que vem de fora, como se vê em interessante texto na coluna da Raquel Cozer publicada na Folha de São Paulo). Mas nesse caso não será jamais literatura boa, será cheese-bacon.

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

A Tal da Literatura

Por Clara Taveira

Indicar, sugerir e opinar é uma coisa. Indicar pela diminuição, sugerir pela discriminação e opinar pela crítica destrutiva é outra completamente diferente.

Certo dia, durante uma conversa com um amigo que tem o costume de ler vários livros ao mesmo tempo, ouvi uma frase que me deixou impressionada. Ao ser questionado sobre como adquiriu esse costume, meu amigo prontamente respondeu: “Ah, é fácil ler vários livros! É só intercalar um livro sério com um livro bobinho, que não é literatura de verdade.”
Por mais que já esteja acostumada a ouvir certas barbaridades acerca do que é ou não “literatura de verdade”, confesso que esta resposta me chocou mais do que eu poderia imaginar. Não pelo que ela diz somente, mas sim pelo fato de que foi proferida por um adolescente de 16 anos de idade. Esse tipo de categorização extremamente preconceituosa sobre o que é ou não literatura (ou Literatura, com “L” maiúsculo) é, geralmente, repetida por professores de literatura, acadêmicos, pesquisadores, entre outros, ou seja, por pessoas que estudam a tal da Literatura. Ouvir esta declaração de um aluno de Ensino Médio, mesmo sabendo que há uma certa confusão por parte dele em relação à ideia de que há livros mais complexos e há livros mais simples de se ler (como por exemplo, Crime e Castigo, de Dostoiévski versus Crepúsculo, de Stephenie Meyer), me chocou principalmente por ver que o preconceito literário, travestido de ensinamento e esclarecimento, está mais presente nos dias de hoje do que eu poderia imaginar.
A partir dessa conversa comecei a notar que a ideia de que há uma Literatura – ou seja, um instrumento artístico, um cânone, algo superior – e de que há uma outra literatura – menor, mais simplória, criada com único objetivo de entreter grandes massas, sem profundidade, sem riqueza, sem relevância artística – vem sendo perpetuada por pessoas de diversas idades, áreas e mesmo por pessoas que não possuem um grande contato com livros, ou seja, pessoas que apenas repetem o discurso de outros.
Repetir críticas sem atestar sua veracidade e coerência parece ser algo comum nos dias de hoje, infelizmente. Quantos status de Facebook falando bobagens sobre as manifestações de 2013, o mensalão, a cirurgia dos seios de Angelina Jolie não foram compartilhados desde a criação da rede social? Quantos jornais já não publicaram absurdos sobre a situação das escolas públicas, a greve dos professores, o morador de rua loiro dos olhos azuis, entre outras situações, e quantas dessas notícias não foram repetidas sem a mínima reflexão em filas de banco?
Ora, se formos entrar no quesito, devo lembrar que há uma propaganda de cerveja fazendo um certo sucesso graças a sua proposta, digamos, inovadora de dar respostas: Por que você paga academia se não vai nunca? Porque sim. Por que faz trenzinho nos lugares mais movimentados no carnaval? Porque sim. Por que você toma essa cerveja? Porque sim. Reflexão? Nenhuma.
Mas voltemos ao assunto principal. O discurso de que se deve separar o joio do trigo na literatura parece ser dito a torto e a direito por aí, mesmo por quem não lê. Mas e quando a pessoa não só lê, mas estuda os livros? E quando a pessoa se formou e se informou sobre o assunto literatura? Isso torna o discurso da tal Literatura válido? O fato de uma pessoa com pós-doutorado bradar aos sete ventos que A Culpa é das Estrelas não é literatura e arte torna a afirmação mais relevante?
Creio que não. Com certeza uma de minhas alunas de 13 anos que leu este livro em poucos dias, se emocionou a ponto de chorar e sair escrevendo em seu caderno, estojo e tênis o famoso trecho “Okay? Okay.” vai concordar comigo. Para ela, o livro ultrapassou a barreira da diversão pura e atingiu o status de arte. A fez chorar, sorrir, se emocionar, se entristecer e se reconfortar. Ora, o que mais pode ser classificado como arte, se não algo que cause esse tipo de sentimentos?
Desprezar a função principal da literatura, ou seja, o gozo puro, nas palavras de André Gardel, é o mesmo que torná-la algo inalcançável, disponível apenas para poucos estudiosos que a entendem e dela usufruem, enquanto o resto das obras é tachado de não-literatura, sub-literatura, literatura do povão, de massa, de entretenimento puro. Ora, para que serve a literatura se não for para nosso deleite, para a nossa apreciação estética e/ou nosso divertimento e/ou experimentação de mundo e/ou… e/ou…? Para que serve a literatura se não for para todos?
É óbvio, existem livros e livros. Não estou querendo colocar todos num grande saco e dizer que são todos iguais. Dom Casmurro é um clássico, Harry Potter é um infanto-juvenil, Crepúsculo é um best-seller young adult. Dizer que Dom Casmurro é Literatura com um “L” imenso, Harry Potter é o máximo da Literatura infanto-juvenil contemporânea e Crepúsculo é o cúmulo da chatice literária teen também são rótulos válidos. Mas são os MEUS rótulos, a MINHA categorização, a MINHA opinião. Querer que todos achem a mesma coisa, que classifiquem seus livros como eu os classifico é retirar do leitor um dos seus direitos fundamentais: definir quais livros terão seu L maiúsculo e destaque em sua estante. Além disso, é subestimar a sua capacidade de discernir o que é bom ou ruim, o que é algo muito perigoso de se fazer em qualquer situação, imagine em relação a algo tão precioso como a formação de um leitor?
Já passou da hora de se quebrar essas barreiras separatistas. Ninguém é obrigado a gostar de Sidney Sheldon, assim como ninguém é obrigado a gostar de Eça de Queirós. Indicar, sugerir e opinar é uma coisa. Indicar pela diminuição, sugerir pela discriminação e opinar pela crítica destrutiva é outra completamente diferente. Leiamos e deixemos ler!

Clara Taveira é professora, vlogueira e blogueira no Capitu já leu? (blog e canal literário) e adepta da poligamia literária. Não liga muito para rótulos ou títulos. Com exceção do “professora”. Desse ela não abre mão.

Resenha: em busca desse conceito perdido*

Por Juliana Brina

Façamos, porém, o caminho oposto. Se o último estágio da sabedoria é a simplicidade; se o demônio esconde-se nos detalhes; e se o dicionário é o pai dos burros, sejamos humildes e consultemos, nos velhos e bons alfarrábios, o significado da misteriosa palavra resenha […]

A despeito do crescimento recente do número de blogs literários no Brasil, o uso da palavra resenha tem sido cada vez mais raro na blogosfera brasileira. Enquanto, nos blogues gringos, ninguém tem pudor de assumir que faz book review, Buchrezension, recensione letteraria, critique littéraire, ou reseña de libros, na terra brasillis, a simples palavra resenha é tratada com a deferência especial dos iniciados. Fala-se em impressões de leitura, quase-resenha (um quase-conceito?), experiência de leitura (?), breves observações de leitura (??), vivências de livros (???). A lista de substitutivos para o vocábulo resenha é extensa, criativa (afinal, temos nosso famoso jeitinho), por vezes poética, mas nada precisa. Em conversa com um velho integrante da blogosfera brasileira, fui informada de que o conceito de resenha “exige uma escrita complexa”, e que tal conceito está “fundado em teorias”. Que me perdoe o amigo, mas, experimentada na longa tradição dos academicismos de nossa República de Bacharéis, não posso deixar de me lembrar da Novilíngua, tal como descrita na obra 1984 de Orwell: a remoção de palavras, ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de se reduzir o escopo do pensamento.

Vejam bem: estudar teorias e abstrações é meu mais querido passatempo. Esse prazer foi o principal motivo pelo qual tive o sonho (e, posteriormente, a sorte) de estudar em um país que é muito conhecido pela capacidade de abstração e sistematização de alguns de seus pensadores. Por isso, o uso descontextualizado e meramente retórico da palavra “teoria” é algo que sempre me entristece. Uma das coisas mais importantes que aprendi na terra do Apfelstrudel é a seguinte: os grandes teóricos que eu tanto admiro buscam, inicialmente, dominar os conceitos mais simples de sua área do conhecimento; apenas posteriormente, a partir de tais tijolos pequeninos, constroem suas grandes abstrações. Não basta dizer o que uma coisa não é: faz-se necessário, ainda, efetivamente dizer o que ela é, ou seja, defini-la em termos precisos. Não é à toa que os vocábulos em alemão são de uma precisão e concretude por vezes espantosa. No Brasil, não raro, fazemos o caminho contrário: partimos da palavra “teoria”, lançada em abstrato para imposição de nossos argumentos, e negligenciamos os aspectos mais básicos ou concretos do tema que pretendemos expor. Afinal, a palavra “teoria” é um curinga eficiente, e soa muito mais convincente e definitiva – quase VIP.

Façamos, porém, o caminho oposto. Se o último estágio da sabedoria é a simplicidade; se o demônio esconde-se nos detalhes; e se o dicionário é o pai dos burros, sejamos humildes e consultemos, nos velhos e bons alfarrábios, o significado da misteriosa palavra resenha:

– Dicionário Aurélio:
s.f. Relação minuciosa. / Enumeração por partes. / Escrito em que se dá uma ideia geral e sumária de uma obra, sem se demorar em apreciações críticas. (grifo meu)

– Houaiss:
substantivo feminino
ato ou efeito de resenhar
1 descrição feita com detalhes, com pormenores
2 contagem, conferência, verificação
3 tipo de resumo de texto de extensão maior que a da sinopse
4 análise crítica ou informativa de um livro; recensão

– Dicionário Priberam da língua portuguesa:
re·se·nha
(derivação regressiva de resenhar)
substantivo feminino
1. Enumeração.
2. Relação.
3. Descrição minuciosa.
4. Resumo detalhado de um texto. (grifo meu)
5. Análise crítica de um artigo ou de uma obra (ex.: resenha de um livro). = RECENSÃO (grifo meu)

– Michaelis:
re.se.nha
sf (der regressiva de resenhar) 1 Ação ou efeito de resenhar. 2 Descrição minuciosa. 3 Enumeração cuidadosa e circunstanciada. 4 Lista pormenorizada. 5 Notícia em que há certo número de nomes ou assuntos similares.

– Léxico.pt:
n.f.
1. Caracterização pormenorizada;
2. Denominação utilizada para contagem, enumeração;
3. Avaliação de caráter informativo ou crítico de uma obra literária ou de um artigo. (grifo meu)

– Infopédia.pt (Porto Editora):
recensão
nome feminino
1. ver recenseamento
2. breve apreciação crítica de um livro ou de um escrito (grifo meu)
3. operação de crítica textual que consiste em reunir, descrever e classificar os testemunhos

Interessante observar, ainda, a origem do vocábulo resenhar: do latim resignāre, «lançar em rol», enumerar. Por meio da análise do que há de comum entre os conceitos acima expostos podemos perceber que o conceito de resenha compõe-se dos seguintes elementos: enumeração; descrição; brevidade; simplicidade; avaliação crítica não aprofundada; impressões pessoais; caráter informativo; ideia geral e sumária.

Como já nos ensinou Paulo Freire, o simples não é fácil, e é difícil ser simples. Como todos já vivemos algo semelhante à situação retratada no conto A roupa nova do rei, muitas vezes é difícil perceber e assumir situações auto-evidentes: o rei está nu? Tenhamos em mente que o dicionário pode ser considerado uma fonte não autorizada pelos críticos do uso do vocábulo resenha, que demandam um substrato “teórico”. Enquanto esses críticos não escrevem seu dicionário pessoal e nos dão a conhecer o que as coisas são, aprofundemos nossa análise sobre esse tema nada profundo.

Uma resenha não é mero resumo, porque contém, ainda, as impressões pessoais do leitor. Porém, resenha não se confunde com ensaio, e não é o mesmo que artigo científico, nem equivale a uma peça de crítica literária acadêmica. Leitores não precisam ser teóricos de literatura, para possuírem impressões pessoais sobre livros. Não precisamos de neologismos, temos conceitos suficientes: resumo, resenha, ensaio, artigo, monografia, e por aí vai. Pretender impor “objetividade conceitual” por meio da substituição do uso da palavra resenha por conceitos pouco precisos (como “quase-resenha”) é, no mínimo, contraditório. Entretanto, como somos quase-puristas e escrevemos nossas quase-resenhas, mesmo no meio informal da blogosfera, leiamos o que nos ensina o Guia de produção textual da PUC/RS, no capítulo Como elaborar uma resenha, disponível aqui.

1. Definições

Resenha-resumo:
É um texto que se limita a resumir o conteúdo de um livro, de um capítulo, de um filme, de uma peça de teatro ou de um espetáculo, sem qualquer crítica ou julgamento de valor. Trata-se de um texto informativo, pois o objetivo principal é informar o leitor.

Resenha-crítica:
É um texto que, além de resumir o objeto, faz uma avaliação sobre ele, uma crítica, apontando os aspectos positivos e negativos. Trata-se, portanto, de um texto de informação e de opinião, também denominado de recensão crítica.

(…)

3. Objetivo da resenha
O objetivo da resenha é divulgar objetos de consumo cultural – livros,filmes peças de teatro, etc. Por isso a resenha é um texto de caráter efêmero, pois “envelhece” rapidamente, muito mais que outros textos de natureza opinativa.

(…)

6. O que deve constar numa resenha
Devem constar:
O título
A referência bibliográfica da obra
Alguns dados bibliográficos do autor da obra resenhada
O resumo, ou síntese do conteúdo
A avaliação crítica (grifos meus)

Eva Maria Lakatos e Marina Marconi, em sua obra Fundamentos da Metodologia Científica, ensinam-nos que resenha é uma produção textual, por meio da qual o autor faz uma breve apreciação, e uma descrição a respeito de obras (cinematográficas, musicais, teatrais ou literárias), com o objetivo de apresentar tal objeto, de forma sintetizada. Uma resenha deve conter uma análise e um julgamento (de verdade ou de valor). Segundo as autoras, uma resenha pode ser: 1) técnica ou descritiva, como no caso dos resumos de livros técnicos; 2) crítica ou opinativa, na qual um objeto é avaliado segundo critérios de valor, de beleza, ou estilo; 3) temática, na qual são apresentados vários textos ou autores que tratam do mesmo tema.

Após essa breve pesquisa, confesso que distinguir entre os conceitos de resenha (não acadêmica) e impressões de leitura ou quase-resenhas é tarefa para puristas ou adeptos da Novilíngua. Mas que o façam em termos precisos, e não se escondam atrás de palavras vagas, como a curinga “teoria”. Uma resenha pode ser considerada esteticamente boa ou ruim por alguém; mas não deixará de ser… resenha. Não tenhamos pudor de usar essa que é uma das mais úteis palavras de nossa bela e última flor do Lácio.

Sobre o uso retórico da palavra “teoria”

A palavra “teoria”, quando utilizada em termos abstratos, reduz-se a mero artifício retórico: “Cheguei a essa conclusão, depois de analisar e estudar inúmeras teorias”; “Em teoria, é assim”; “Sob o ponto de vista teórico, entendo que…”. Qual teoria específica? Quem a formulou? Em qual contexto? Sob qual justificativa? E, mais importante, por que você adota essa teoria em detrimento das demais já formuladas sobre o mesmo tema? Quando a palavra é usada no plural (“as teorias”), a abstração é ainda maior: Quais teorias? São conciliáveis entre si do ponto de vista lógico? Quanto maior o número de teorias, mais fundamentado é seu argumento? Trata-se de uma questão quantitativa, ou qualitativa? Mostre suas cartas, amigo.

A falta de maior especificação do marco teórico adotado é deveras conveniente para aquele que pretende fundamentar seu argumento em formulações do gênero “meu pensamento está embasado em teorias”: 1) o falante se exime da responsabilidade por sua afirmação, na medida em que dá a entender que essa estaria embasada em fundamentos incontestáveis; 2) o falante se exime da possibilidade de ter cometido um erro (“não sou eu que afirmo, são ‘as teorias’ “); 3) o falante se exime da responsabilidade de fornecer argumentos mais consistentes (a palavra “teorias” soa como algo superior e aprofundado); 4) o falante não possui maturidade intelectual para permitir que suas ideias sejam criticadas, sem que isso seja visto como um ataque pessoal; 5) o falante pretende se imunizar contra críticas, especialmente quando evoca a palavra “teoria” em um debate não-teórico; 6) o falante pretende eliminar a possibilidade da discordância, porque não é apto a conviver com quem pensa diferente; 7) o falante pretende fechar um debate que, por sua própria natureza, é aberto (teorias contrastantes há várias, basta que se tenha a honestidade de especificá-las); 8) o falante se esconde por trás de um argumento de autoridade, uma falácia do tipo ad verecundiam ou magister dixit. Lembremo-nos, nesse ponto, da Lógica de Aristóteles: o argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit, também conhecido como argumento de autoridade, é uma falácia lógica, na qual, a fim de validar seu argumento, o falante apela para a palavra de alguma autoridade.

Afinal, o que é uma teoria? Consultemos os alfarrábios:

– Aurélio:
s.f. Conhecimento especulativo, ideal, independente das aplicações. / Conjunto de regras, de leis sistematicamente organizadas, que servem de base a uma ciência e dão explicação a um grande número de fatos. / Conjunto sistematizado de opiniões, de idéias sobre determinado assunto. / Fam. Utopia, irrealidade. (grifos nossos)

– Houaiss:
substantivo feminino
1 conjunto de regras ou leis, mais ou menos sistematizadas, aplicadas a uma área específica
2 conhecimento especulativo, metódico e organizado de caráter hipotético e sintético
3 Derivação: por metonímia.
doutrina ou sistema resultantes dessas regras ou leis
4 conjunto sistemático de opiniões e ideias sobre um dado tema
5 qualquer noção abrangente; generalidade

Alguns elementos comuns ao vocábulo mencionado são seu caráter especulativo, abstrato, sistemático, voltado para a formulação de leis e categorias gerais que permitam a explicação de um fenômeno. A adoção da teoria X em detrimento à Y não fecha um debate: ela o abre. Por sua generalidade, teorias procuram explicar objetos mais amplos do conhecimento: a teoria da evolução; a teoria das supercordas; a teoria da justiça; a teoria literária… Uma “teoria sobre o conceito de resenha” possuiria um objeto um tanto restrito, para que se permitam maiores abstrações, e para que o uso do termo “teoria” se justifique. Entretanto, não considero improvável que algo do gênero tenha sido realizado: lembremo-nos das Viagens de Gulliver e da simpática máquina de inventar teorias…

Brincadeiras à parte, gostaria de citar aqui a melhor teoria já formulada sobre o tema em debate: a Teoria do Medalhão, no conto de Machado de Assis, disponível em domínio público aqui.

“Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória.(…) proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.”

Machado de Assis, Teoria do Medalhão

* Texto originalmente publicado aqui.

Juliana Brina é brasileira e atualmente mora na Alemanha. Cuida dos livros como velhos conhecidos que são, falando sobre eles em um canal do YouTube pra lá de ótimo (quem não conferiu ainda, que largue tudo e vá correndo!). Também escreve em um blog chamado “O Pintassilgo na Biblioteca”.