O autor anônimo

Por Braulio Tavares*

Hoje em dia, um livro que saia sem indicação do autor, mesmo um nome falso ou um pseudônimo, é quase inimaginável.

 

A questão dos direitos autorais está ligada, de um lado, à remuneração do trabalho do autor (aspecto material) e a um aspecto que poderíamos chamar imaterial ou simbólico, que é referido nos contratos como “o direito de ser reconhecido como o autor da obra X”. Este é um aspecto interessante porque implica numa vantagem (se não o fosse, não seria reivindicado pelos autores), mas uma vantagem de caráter abstrato. Esse direito e essa vantagem nos parecem indiscutíveis, mas a verdade é que, pelo menos na literatura, nem sempre havia a pressuposição tácita de que o autor gostaria de ser identificado com a obra. Às vezes, entretanto, o autor preferia ficar na sombra.

Edgar Allan Poe publicou em 1837 seu primeiro livro, Tamerlane and other poems, assinando-se como “Um bostoniano”. Talvez uma tentativa de sentir-se mais integrado à população de Boston, cidade onde nasceu e com quem manteve uma relação de amor e ódio. Talvez por ter apenas 18 anos, estar servindo ao Exército sob nome falso (“Edgar Perry”) e não querer chamar atenção sobre si próprio. Sempre achei este episódio semelhante ao que ocorreu com Manuel Antonio de Almeida, que publicou em 1852 as Memórias de um Sargento de Milícias, assinando-se como “Um brasileiro”. Por quê? Já li num ensaio ou prefácio que Almeida limitou-se, como jornalista, a escutar as histórias narradas por um personagem real, e as transpôs para o livro sem muita interferência.. Por isso sentia-se meio desconfortável em apresentar-se publicamente como o inventor daquilo tudo, coisa que não era.

Folheando uma reedição recente do Frankenstein de Mary Shelley vi uma reprodução da página de rosto da edição original de 1818, em três volumes. O livro saiu sem menção ao autor, o que só ocorreu da segunda edição em diante. Pelo fato de ser uma mulher? Talvez, mas o livro era prefaciado por Percy Shelley (marido da autora) e trazia uma dedicatória ao pai dela, o filósofo William Godwin. Hoje em dia, um livro que saia sem indicação do autor, mesmo um nome falso ou um pseudônimo, é quase inimaginável. Livros anônimos são, às vezes, livros que podem produzir reações polêmicas, como os Vestígios da História Natural da Criação, que Robert Chambers publicou anonimamente em 1844, com uma teoria cósmica da evolução.

Entre o autor que receia ser revelado e o autor que não faz a menor questão de ser conhecido vai uma grande distância. Se tomássemos no seu sentido mais amplo as palavra “história” e “canção”, e fosse feito um balanço de muitos séculos, veríamos que numa espantosa percentagem delas nunca se veio a saber quem foi o seu criador.

*Publicado originalmente no blog Mundo Fantasmo, créditos ao autor.

Ora, os clássicos…

Por Gustavo Araujo

Se a virtude está no meio, então, é possível dosar a narrativa com descrições suficientes, nunca exageradas, com certa dose de introspecção, além de emprestar profundidade psicológica mínima para que os personagens não soem esquemáticos.

 

É comum a ideia de que todo escritor deve, antes de tudo, ser um insaciável leitor. Este é o estágio necessário, imprescindível, para que se atinja um mínimo de maturidade na escrita. Nos desafios literários do Entre Contos é possível vislumbrar as influências de best sellers recentes, especialmente da chamada literatura para jovens adultos, conhecida pela sigla YA, na maneira com que os participantes se expressam.

Inspirados por autores modernos, especialmente estrangeiros, os escritores mais novos torcem o nariz para textos considerados tradicionais, mais lentos e introspectivos, preferindo narrativas dinâmicas, sem muitas descrições, e que vão direto ao ponto.

Naturalmente, há um choque.

Autores mais afetos à escola tradicional criticam a cultura enlatada, consumida com avidez instantânea, que, alegam, caracteriza os romances mais vendidos atualmente. A fim de embasar seus argumentos, apontam com certo desdém que falta às novas gerações contato com as obras clássicas. Citam, como exemplos, por vezes com uma intimidade fingida, obras de Machado de Assis, Guimarães Rosa, José de Alencar, Manuel Bandeira e toda a trupe presente nas aulas de Literatura da época do “científico” ou do “segundo grau”. Para os defensores dessa corrente, escritor algum poderia ostentar tal epíteto se não fosse capaz de citar, de coração, trechos de “Macunaíma” ou de “Memórias no Cárcere”.

Os autores modernos se defendem, afirmando com orgulho que jamais leram os clássicos e que não têm a mínima intenção de fazê-lo. Apontam que os clássicos são aborrecidos e que, não fosse a obrigação de conhecê-los na escola, ninguém se importaria com eles.

Como Aristóteles (ou seria Confúcio?), penso que a virtude está no meio.

Não acho que ler os clássicos seja condição indispensável para que alguém seja um bom escritor. Claro, é bom, é aconselhável, mas não se trata de pressuposto inarredável.

Muitas vezes, a meu ver, a argumentação da escola tradicionalista soa como despeito. Os autores que atualmente mais vendem não mereceriam tal sorte porque têm trapaceado, relegando os clássicos às prateleiras poeirentas de museus que ninguém visita.

Não concordo. Os autores que mais vendem têm seus méritos – entre os quais o de entender a linguagem falada atualmente, em todos os sentidos da expressão, quer para o bem, quer para o mal.

Não se pode considerar alguém “menos preparado” porque não leu medalhões. Chego a duvidar, em alguns casos, que os defensores dessa tese realmente leram os livros que indicam, preferindo brandir um meme com uma citação de Clarice Lispector.

Também acho, do fundo do meu coração, que certos “livros indispensáveis” são extremamente tediosos. Diante da linguagem que temos hoje, da velocidade com que gira o mundo, com que muda a cultura, com que se expressa a linguagem, os parágrafos intermináveis de “Sagarana” ou “Grande Sertão: Veredas” são tudo menos empolgantes.

Mas não podemos generalizar. Há livros clássicos muito bons, como “Dom Casmurro” e “O Tempo e o Vento”, que certamente influenciariam de maneira muito positiva os novos autores. Aí, há que se apontar a preguiça da nova geração em travar contato como que se escreveu há mais de um século, o que, no fim, revela-se um pecado imperdoável.

Para mim, o bom escritor terá mais chances de sucesso se souber reconhecer as obras – quer clássicas, quer modernas – que lhe permitam construir seu próprio estilo. E, muito importante, deve reconhecer que a fórmula encontrada diz respeito apenas a si mesmo, evitando conselhos fáceis e, por vezes, arrogantes.

Se a virtude está no meio, então, é possível dosar a narrativa com descrições suficientes, nunca exageradas, com certa dose de introspecção, além de emprestar profundidade psicológica mínima para que os personagens não soem esquemáticos. Com tal construção é possível, aí sim, atirar-se à aceleração e ao dinamismo. Um sem o outro, pelo menos atualmente, torna qualquer história aleijada.

Enfim, penso que o autor de hoje deve procurar conjugar os estilos, evitando a armadilha fácil de se aferrar a um deles e desmoralizar o outro, como tantos fazem.

Se posso fazer uma sugestão, peço que digam não aos reacionários da literatura. Abandonem a escola única e deixem-se contaminar pelo que ambas têm de melhor. No fim, misture a si mesmo nessa ideia. Talvez dê certo.

Gustavo Araujo mora em Brasília-DF, com a esposa e as duas filhas. Administra o site Entre Contos. Participa com dois contos na Antologia “!”  e também é autor do livro “O Artilheiro”, publicado em 2013. Seu livro “Pretérito Imperfeito” será publicado pela Caligo em 2015.

Entrevista: Gustavo Araujo

Por Thais Lemes Pereira

Em 2015, a Caligo Editora publicará o livro “Pretérito Imperfeito”, do escritor Gustavo Araujo. Além de escrever, Gustavo é organizador do site Entre Contos, que promove Desafios Literários. Formado em Direito, pai de família, um pouco de tudo pode ser conferido na entrevista que ele me concedeu durante a semana: o que o motiva a escrever, suas inspirações e, principalmente, o que devemos esperar do tão aguardado “Pretérito Imperfeito”.

 

– De onde surgiu a inspiração para o livro Pretérito Imperfeito?
Em 2009 eu passei pela experiência mais dramática que um homem pode experimentar. Fui pai pela primeira vez. Em pouco tempo a rotina da casa se transformou, com todas as atenções voltadas para a nossa bebezinha, chamada Sofia.
Como todos os pais de primeira viagem, desde o início tentamos influenciar positivamente nossa pequenina com o que os estudiosos consideravam positivo: música clássica, principalmente Mozart, e vídeos do Baby Einstein. Funcionou por um tempo, mas assim que a Sofia cresceu, nosso poder de decisão foi diminuindo. Como resultado, em pouco tempo éramos bombardeados com Patati Patatá e Galinha Pintadinha.
Certa manhã, assistíamos pela enésima vez à “Galinha Pintadinha 2”. Para quem não sabe, são músicas infantis populares ilustradas com desenhos animados. Quem tem filhos sabe que a criançada adora. Pois bem, uma das canções da coletânea é a famosa “Se essa rua fosse minha”, cuja animação é especialmente caprichada.
Não sei se eu estava especialmente sensível na ocasião, mas de alguma maneira, a música me capturou. Quando dei por mim, estava imerso na melodia e na letra, completamente tomado pela melancolia e pela nostalgia que permeiam os versos.
A menina que se apaixona por um anjo que vive num bosque. Um amor impossível.
Inspirado, escrevi um conto chamado “A Menina na Floresta” e publiquei na comunidade “Contos Fantásticos”, do antigo Orkut. A repercussão foi bastante positiva, o que terminou por plantar na minha cabeça a ideia de um dia desenvolvê-la na forma de um romance.

 

– Para aqueles que ainda não conhecem, qual a história do livro?
Levei um bom tempo para começar a transformar “A Menina na Floresta” em um romance. Acho que de certo modo eu tinha receio dessa transformação. Não dava simplesmente para manter a mesma linha narrativa e encher linguiça. Além do mais, todo mundo que escreve sabe que o autor jamais é dono da história. À medida que escrevemos, a narrativa ganha autonomia, conduz a trama a situações que nem sequer imaginávamos. Isso sem falar na rebeldia dos personagens, que praticamente exigem mudanças naquilo que se havia planejado.
Bom, de todo modo, um dia, eu resolvi me sentar e escrever. Em poucas horas tinha a espinha dorsal montada e, apesar da origem “Pretérito Imperfeito” terminou bastante diferente de “A Menina…”
Sim, a linha argumentativa principal permaneceu a mesma: um menino e uma menina que inadvertidamente se encontram em um bosque e que acabam se apaixonando. No entanto, por se tratar de uma história maior, um romance, outros elementos foram inseridos, de modo a tornar a narrativa toda mais rica e os personagens mais profundos.
Pois bem, a história se passa, na maior parte do tempo, na cidade fictícia de Porto Esperança, no interior do Paraná, ainda que haja “locações” em Passo Fundo e em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, além do Rio de Janeiro.
A trama toda, na verdade, se divide em três.
A primeira trata de Toninho.  É um menino de treze anos com uma dificuldade enorme para ler em público, o que lhe traz problemas na escola, e que também vive uma relação complicada com o próprio pai. Por conta disso, prefere se isolar. Passa os dias estudando passarinhos usando um velho manual de aves que ganhou de presente da mãe, já falecida, e refugiando-se em uma clareira do bosque que circunda a cidade.
Paralelamente, conhecemos a menina Cecília, não por meio de um narrador onisciente, mas por intermédio de cartas, trechos de seu diário endereçados a alguém chamada Carol. Cecília é muito inteligente e questionadora. Adora ler e escrever. Porém, vê-se em uma situação difícil, impedida de sair de casa devido às atividades misteriosas em que seu pai está envolvido.
Um terceiro foco narrativo aborda a vida do pai de Toninho. Espalhada em capítulos alternados, a história de Pedro Vieira é narrada desde sua infância árdua num sítio no Rio Grande do Sul até os anos que antecedem a velhice, já em Porto Esperança. Pedro é dono de um passado perturbador, tendo trabalhado como agente da polícia secreta de Filinto Müller nos anos 30, uma fase da vida que ele gostaria de esquecer.
Naturalmente essas três realidades – de Toninho, de Cecília e de Pedro Vieira – se entrelaçam no tempo e no espaço, trazendo à tona questões pessoais, arrependimentos, erros, sacrifícios e redenção.
Gosto, entretanto, de dizer que o livro trata de amor. Amor que é descoberto pela primeira vez, amor entre pais e filhos, amor por literatura, amor pela escrita, amor por quem já se foi. Pode parecer piegas, mas creio que o tema, longe de ter se esgotado, ainda permite abordagens fora do contexto usual.

 

 – As mulheres, em suas histórias, são sempre muito marcantes. Nomes fortes, personalidades definidas. Porém, seu novo livro conta com dois personagens importantes na história: Toninho e seu pai. Foi difícil desenvolvê-los?
Na verdade, essa personalidade forte que tento emprestar às mulheres nas histórias que escrevo é algo mais recente. No início, meus contos gravitavam o universo adolescente masculino, influência de meus próprios dias de menino. A leitura de autores como Niccolò Ammaniti, Carlos Ruiz Zafón, Khaled Hosseini e John Boyne só reforçaram essa tendência, de modo que escrever sobre Toninho foi algo quase natural.
Já com o pai, Pedro Vieira, o processo de criação foi bem diferente. Para ser franco, na primeira versão do “Pretérito…”, ele era pouco mais que um figurante, alguém cujas características eram referidas apenas de modo indireto. A intenção, na época, foi cobri-lo com uma aura de mistério. Porém, como eu disse antes, a trama às vezes se rebela contra o criador, criando vida própria, com personagens demandando mudanças. Foi o que aconteceu. Ao reler a primeira versão tive a sensação de que faltava algo, que talvez devesse desenvolver mais o pai de Toninho. Discuti a questão com alguns amigos e a sugestão foi que eu desse vazão a essa necessidade.
Escrevi, então, a história de Pedro Vieira. Hoje não consigo conceber o “Pretérito…” sem ele, sem a riqueza de detalhes que permeia sua existência. Embora o foco principal da narrativa continue com Toninho e Cecília, é Pedro quem captura a atenção do leitor ávido por questões filosóficas, com seus inúmeros defeitos, com sua transformação de menino ingênuo em alguém a um passo da monstruosidade.
Para dar-lhe profundidade, busquei inspiração em obras como “O Continente”, de Érico Veríssimo, “Camaradas”, de William Waack, e principalmente em “Olga”, de Fernando Morais. Arrisco a dizer que Pedro é, em maior ou menor grau, alguém que conhecemos, de repente nós mesmos, com nossos pecados, com nossos arrependimentos e com nossa eterna busca por redenção.

 

– É possível perceber, em seus textos, a influência de autores e livros que você encontra afinidade, chegando a comentar isso algumas vezes. Isso ocorre de forma consciente?
Totalmente. Não há autor que consiga se desvencilhar daqueles que admira. Se gostamos de determinada obra ou estilo, inevitavelmente acabaremos por aproveitá-lo. Foi a isso que me referi na resposta da pergunta anterior, sobre os autores que escrevem a respeito do universo adolescente.

 

– E o quanto sua vida está presente na escrita?
Eu diria que 90%. Lugares, pessoas, fatos. Nossa escrita, por mais que resulte em um universo imaginário, reflete nossas próprias experiências. Pelo menos é o que eu acho. Na minha concepção, é isso que torna a história verossímil: falar do que se conhece, especialmente se há dramas pessoais e relações humanas. Obviamente, é dado ao autor ousar – e é até recomendável que o faça – mas se não souber, ou se não pesquisar profundamente sobre o desconhecido, o resultado pode ser ruim. Não há nada pior do que uma narrativa desprovida de credibilidade.

 

– Além de escrever, você mantém o Site Entre Contos, que promove Desafios Literários. As discussões, em torno dos contos que são publicados, colaboraram de alguma forma na construção do seu livro?
Sim, colaboram muito. O Entre Contos é uma experiência que tem se revelado fantástica na medida em que permite a troca de experiências, o aprofundamento de questões técnicas e de mérito e, o mais importante, a lapidação do estilo do autor.
Naturalmente, todo escritor quer ser lido. Chego a pensar que isso vale mais do que dinheiro para quem escreve, afinal, ninguém que tem na escrita o ofício preferido tem a ilusão de se tornar milionário.
O Entre Contos deu certo por causa disso. É um dos poucos lugares em que escritores de todos os níveis têm seus textos examinados, não só sob o aspecto técnico, mas principalmente sob a ótica emocional, sob o impacto que causam.
No que diz respeito a mim, aproveitei, em mais de uma ocasião, para criar contos que de algum modo apresentassem fatos parecidos como aqueles presentes no “Pretérito…”, até para aferir a receptividade do leitor. Quase todos os contos que escrevi para os desafios do EC guardam alguma semelhança com trechos do “Pretérito…”, especialmente as questões filosóficas e as relações interpessoais. “Reconstruindo Sarah Parker”, “Radiação” e “Tábula Rasa” são alguns exemplos.

 

– Houve altos e baixos durante o processo de criação do livro? Alguma hora você pensou em parar de escrevê-lo? O que te motiva?
Escrever um romance é algo que, para mim, demanda muita dedicação. Não pude mergulhar de cabeça no processo de criação do “Pretérito…”, ainda que tivesse bem definida a linha a seguir, porque sua elaboração se deu durante a gravidez e o nascimento de minha segunda filha, a Alice, a quem, aliás, o livro é dedicado.
Evidentemente, custei para terminar o romance. Levei cerca de três anos para completá-lo, desde a concepção original até a versão final, remetida para a Caligo. Apesar desse tempo todo, não posso dizer que houve altos e baixos. Houve, sim, épocas em que eu me permiti dedicar mais tempo ao livro. Mas a ideia, os fatos, a trama, tudo esteve sempre na minha cabeça, embora eu tenha demorado um tanto para colocar tudo no papel.

 

 – O que o leitor deve esperar de Pretérito Imperfeito?
Sinceramente, não pretendi criar uma história redondinha, com questões edificantes ou lições moralmente consagradas. Nada disso. O “Pretérito…” é orgulhosa, ostensiva e propositalmente imperfeito. Minha intenção foi simples: criar uma narrativa que despertasse no leitor curiosidade suficiente para virar a página, para prosseguir, para se envolver na trama.
Em algum ou em outro momento, o leitor haverá de se identificar com os personagens e com as situações, indagando a si mesmo o que faria, qual seria sua própria reação, criando ao mesmo tempo angústia e enlevo.
Foi essa, em suma, a intenção: jogar com as emoções, não deixar o leitor indiferente.

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thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013. Atualmente escreve o romance “Homicídios Manchados de Rosa”.

Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

O mistério do escritor, ou Quem sou eu?

Por Fernando de Abreu Barreto

Então é isso? Chegamos a esse ponto? Os livros não serão lidos porque a foto do autor não é adequada? Porque ele gagueja quando fala em público? Porque não sabe olhar direto para a câmera? Porque fala da intimidade em sua página no Facebook? Sim. Não. É um mistério.

 

Queria escrever sobre escritores. Queria escrever sobre escritores e seus livros. E o processo de criação, os obstáculos, as ferramentas e os macetes. Queria escrever sobre as manias e os anseios de escritores, o que esperam de seus livros, de suas carreiras. O que eles gostam de ouvir sobre escritores e seus livros.
Leio o que foi escrito sobre escritores e seus livros. O que foi escrito sobre literatura na última semana nos principais veículos de comunicação, pelos melhores escritores. O que foi dito pelos profissionais expoentes.
Releio, também, o que escrevi sobre escritores, seus livros e literatura. Reafirmo a certeza que nunca me abandonou: podemos separar escritores entre os comerciais e os mais literários.
Chuck Palahniuk aconselha escritores novatos a não usar verbos de pensamento a fim de melhorar a qualidade literária do texto. Que se dane o Chuck, esse aqui não é um texto literário. Portanto, posso dizer que acredito (penso, acho…) que existam autores mais comerciais e outros cujo texto tem maior valor literário. E acredito, logo em seguida, que alguns textos mais literários podem ser comerciais e algumas obras comerciais podem conter textos com valor literário.
Dito isso, descubro que esse texto tomou um rumo diferente do que eu esperava. Queria escrever sobre autores comerciais, como são apresentados em eventos literários, como se promovem através de diferentes plataformas, como alcançam tanto ou mais valor que seus livros – discussão que encheu as páginas do Caderno Prosa de O Globo do dia 09/08/2014 com excelentes reflexões. Mas descobri, pelo que produzi até aqui (o pouco que produzi), que não sei se eu mesmo sou comercial ou literário.
Aproveitando o mote do último texto do Fabio Shiva, a questão se tornou um grande suspense pra mim. Sempre busco acrescentar valor literário aos meus textos de ficção e acredito (Chuck que se dane, de novo) que sei como fazê-lo. Acredito que tenho sucesso. Mas recentemente o que ouvi a respeito de A Forma da Sombra, que lançarei no próximo dia 30, são elogios ao seu viés comercial.
Queria escrever sobre escritores e a exposição na mídia, nas feiras literárias, na Internet. O primeiro conselho que recebi da agente literária foi alterar minha foto no Facebook, a antiga não condizia com a imagem de escritor que eu projetava e na qual ela passou a acreditar após nossa primeira conversa. Um conselho honesto e corajoso (como deve ser), se você conhecer o tamanho da minha vaidade. Acredito que a atual ainda não esteja adequada. Um dia aprendo a escolher, ou contrato um consultor.
Então é isso? Chegamos a esse ponto? Os livros não serão lidos porque a foto do autor não é adequada? Porque ele gagueja quando fala em público? Porque não sabe olhar direto para a câmera? Porque fala da intimidade em sua página no Facebook? Sim. Não. É um mistério. Ninguém sabe ao certo o que torna um autor vendável, mas suspeita-se do que pode torná-lo comercialmente inviável.
Queria aproveitar o mote do excelente texto do Fabio Shiva e dizer que a promessa do suspense e o embuste da ameaça não estão restritos à ficção literária ou audiovisual. Eles se estendem por tudo o mais. Queria escrever sobre escritores e a exposição na mídia e na internet. Como essa exposição pode ajudar a vender livros e como pode atrapalhar a vender o escritor (se for mal elaborada e executada). A opção que o autor deve fazer entre o mistério que provoca curiosidade e a massificação que impele o consumidor (essa pergunta me veio à cabeça: o escritor que se refugia na montanha foi aposentado pelo mestre da autopromoção?).
Lembrei que não sei onde estou na classificação que eu mesmo ajudo a promover entre obras literárias e comerciais. Não sei que escritor eu sou. Termino personagem de mim mesmo, aguardando convites para feiras literárias e programas de rádio/televisão em que pretendo falar sobre livros e escritores e literatura. O escritor que não consegue adequar a foto da rede social à imagem real. Uma personagem misteriosa. Suspense ou ameaça?

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog O Nariz do Fernando, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É colunista da Revista Pacheco. Sua novela de estreia será publicada em 2014 pela Caligo Editora.

Literatura infantil: os primeiros passos

Por Thais Lemes Pereira

 

Com a expansão dos meios de comunicação, ficamos cada dia mais surpresos com os livros que as crianças andam lendo. Alguns sequer possuem características que antes considerávamos básicas para atrair novos leitores.

 

O primeiro livro que li, emprestado da escola em que estudava, foi “Uma Professora Muito Maluquinha”, do Ziraldo. Desde então sou apaixonada pela Literatura Infantil e Infantojuvenil, mesmo que não me arrisque por esse mundo. É preciso muito mais do que saber escrever e ter sido uma criança. Uma responsabilidade muito grande, pois a partir desse passo é que os próximos serão dados e uma impressão passada durante a infância pode ser carregada para o resto da vida.

Qualquer adulto que não cultivou o hábito de ler pode adquiri-lo, mas o gosto pela leitura é melhor aproveitando quando ainda somos crianças. A fase das novidades é também o momento de despertar o interesse por assuntos que carregaremos ao longo dos anos. Por isso esses livros têm um papel fundamental na sociedade.

O mais engraçado é que batemos sempre na mesma tecla dizendo que a leitura deve ser incentivada desde a infância, mas raríssimas são as vezes que tomamos conhecimento que algum livro do gênero foi publicado. Isso porque automaticamente associamos a publicação aos autores consagrados como Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Cecília Meireles, Ana Maria Machado e tantos outros.

Ressaltando todas as mudanças que ocorreram nos últimos tempos, principalmente no que diz respeito à comunicação, percebemos que a Literatura Infantil sofreu uma transformação muito grande. Antigamente, para o público infantil e jovem, a forma mais fácil de ter acesso aos livros era pegando-os emprestado das bibliotecas escolares ou municipais – abrindo pequenas exceções. A leitura ficava delimitada pela faixa etária e era mais comum encontrar autores nacionais nas estantes.

Recentemente, visitei uma escola pública de Ensino Fundamental e notei nas mãos das crianças livros para todos os gostos: finos, grossos, nacionais, estrangeiros, com gravuras ou sem. Alguns, inclusive, que possuo na estante. Com a expansão dos meios de comunicação, ficamos cada dia mais surpresos com os livros que as crianças andam lendo. Alguns sequer possuem características que antes considerávamos básicas para atrair novos leitores.

Torna-se admirável quando autores conseguem cativar esse público tão questionador e cheio de novas ideias. É passando antes por eles que outros autores, no futuro, terão o trabalho lido e contemplado.

Hoje as crianças possuem a personalidade mais definida do que há alguns anos atrás. São capazes de criticar com argumentos sólidos o que acabaram de ler. A mesma crítica que em um artigo anterior − Sobre “Galáxias” e a influência das leituras que não nos cativam – afirmei ser necessária para desenvolver habilidades de escrita, além de despertar a criatividade.

Por isso, é fundamental que professores e pais estejam dispostos a conduzir os primeiros passos. E quem sabe, depois de aprender a andar sozinho, seja hora de sentar e escrever.

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thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Você é o escritor?

Por Braulio Tavares*

Alguma coisa não batia. Era o escritor que não podia ser preso, ou o preso que não podia ser escritor?

Quando Dashiell Hammett, o autor de O Falcão Maltês, passou alguns meses preso, ficou amigo do funcionário que cuidava da biblioteca da cadeia. Hammett foi preso em 1951 por se recusar a testemunhar contra seus amigos comunistas (ele próprio era membro do Partido) durante a famosa “caça às bruxas” em Hollywood. Ele aproveitou para botar a leitura em dia, e leu obras como Jane Eyre de Charlotte Bronte, Almas Mortas de Gogol, Tess of the d’Urbervilles e Judas o Obscuro de Thomas Hardy, além de obras de Dostoiévski e Victor Hugo.

O rapaz da biblioteca tinha uma perplexidade: o fato de que os livros de Hammett estavam ali na estante, e o autor estava preso na própria cadeia! Alguma coisa não batia. Era o escritor que não podia ser preso, ou o preso que não podia ser escritor? Hammett achava graça: “Já ouviu falar em André Gide? Ele disse que eu sou um escritor comparável a Balzac”.

Jorge Luís Borges trabalhou durante nove anos numa biblioteca municipal de Buenos Aires, um desses empregos públicos modestos e levemente humilhantes onde os escritores tantas vezes se refugiam. Procurava evitar a convivência muito estreita com os outros funcionários, cujas conversas só giravam em torno de “corridas de cavalos, partidas de futebol e estórias obscenas.” Diz ele que certa vez um colega, folheando uma enciclopédia, achou na seção de literatura o nome de um tal Jorge Luís Borges e chamou-lhe a atenção para a coincidência: “Olhe só!… Até a data de nascimento dele é igual à sua!”. Para o bibliotecário, uma coincidência naquele nível de detalhe era algo mais provável do que aquele sujeito tímido, meio apalermado, ser alguém importante.

O nome nas enciclopédias ou a obra nas estantes parecem não ter nada a ver com as pessoas a que pertencem. Não há muito em comum entre o best-seller adaptado em Hollywood e aquele homem magro, com dentadura postiça, de 57 anos, que passa os dias lendo e olhando os retratos da netinha. O nome na enciclopédia, é claro, não pode se referir àquele funcionário míope, distraído, que passa as intermináveis horas do expediente lendo a obra de Gibbon, de Faulkner, de Virginia Woolf. Existe uma lógica intuitiva nesse tipo de visão, no ato de distinguir entre o homem que escreveu os livros e o homem que está vivendo a vida. Mais do que se imagina, são dois homens diferentes. O homem que escreve é um acesso temporário de concentração, energia, lucidez, paciência e fúria que acomete aquele indivíduo manso. É o “daemon”, que o ser humano pode receber de vez em quando, mas não poderia hospedar 24 horas por dia, sob pena de arder de repente, consumir-se na fogueira da combustão espontânea.

*Braulio Tavares é escritor e cedeu gentilmente este texto, publicado em sua coluna no Jornal da Paraíba e em seu blog Mundo Fantasmo (um blog que todo escritor deve conferir, por sinal).

Beckett: A repetição sem fim e o abismo do mundo

Por Thiago da Silva Prada

Para além da quebra da tradição literária, a trilogia beckettiana refletiria também dentro de sua obra a máquina burocrática de Kafka, a sociedade carcerária e do suplício que Foucault descreve das microrrelações e o niilismo que Nietzsche prenuncia.

 

Os livros de Samuel Beckett que compõem sua trilogia, “Molloy”, “Malone Morre” e “O Inominável” são realizados em forma de monólogo, em que as personagens relatam suas vivências e pensamentos num discorrer ininterrupto, balbuciante, confuso, com constantes contradições em seus dizeres, certezas, quebradas sempre pelo “talvez”, “se”, “pode ser que”, “não sei bem”.

Nessa trilogia Beckett narra a aniquilação do eu lírico, e até mais, do sujeito moderno que nos é tão caro em nossa tradição ocidental do cogito cartesiano, o “penso, logo existo”, o sujeito racional, de posse de sua razão, certeza e clareza de sua busca e respostas. Em Beckett, somos levados para o outro lado de um cotidiano que existe na realidade suja, escura e de luta constante da vida, em que personagens marginais, desmemoriados, sem saberem seus próprios nomes, uma conduta moral, percorrem espaços e experiências sem sentido algum.

A degradação e aniquilação do sujeito começa aos poucos com “Molloy”, personagem vagabundo e errante, sem memória, objetivos que percorre sua cidade e termina da mesma maneira que começou; em seguida, em “Malone Morre”, temos um homem que está imóvel em uma cama de um asilo, ou hospital, ou?… e narra uma história que se confunde com sua história, passamos do vagabundo errante para o confinamento físico do homem que só pode se recordar, lamentar, sem nenhuma liberdade de movimento e passamos finalmente para “O Inominável” em que o personagem é completamente diluído em uma voz que se repete sem fim, sobre o ato de calar a si mesma, falando sozinha, que se repete sem fim.

Tudo está sempre entre o quase e o talvez, ou seria o nada? Afinal, “nada é mais real que nada” (BECKETT, Samuel, Malone Morre, 2004, p. 26) Em nenhum dos três livros existe um progresso quanto à história e objetivo final das personagens, nenhum é alcançado, o desfecho é o abismo aberto, Molloy nas valas da terra da penúria humana, Malone às portas da morte e Mahood/Worm segue sua fala interminável e repetitiva em busca do silêncio.

Para além da quebra da tradição literária, a trilogia beckettiana refletiria também dentro de sua obra a máquina burocrática de Kafka, a sociedade carcerária e do suplício que Foucault descreve das microrrelações e o niilismo que Nietzsche prenuncia. E para além, refletiria a experimentação do limite extremo da vivência humana em sua auto-aniquilação do sujeito, defrontado com o absurdo do mundo, só lhe restaria a repetição, o balbuciar e o gaguejar de uma repetição sem fim, de um esvaziamento da linguagem onde não haveria mais um sentido único, nem uma direção a seguir.

Com as influências de Nietzsche, Schopenhauer, com a presença que teve durante um tempo no círculo existencialista de Sartre antes deste se aliar ao marxismo tendo Joyce e Kafka como pano de fundo literário, Beckett realiza uma obra do desespero humano, dos seres mais abjetos, margeando entre a lucidez vigorosa e a tortuosidade de suas visões do mundo e de si mesmos, bem como uma crítica à capacidade humana racional de progresso, tecnologia e superioridade no silêncio e vazio da linguagem fora da unidade e coesão do “eu”.

Não há em Beckett uma luz no fim do túnel, nenhum elemento racional, religioso ou metafísico capaz de salvar ou dar uma direção às suas personagens, o silêncio do mundo e Deus é denso e fixo e a condição miserável presente e descrita a todo o momento. Beckett não traz nenhuma utopia ou solução, seria um existencialismo mais radical e extremo, onde nem o elemento da liberdade e engajamento está presente. É a visão apocalíptica para onde se encaminharia a humanidade, num abismo, onde muitas situações e pensamentos descritos em suas obras se tornam vívidos cada vez mais em nosso mundo atual.

Talvez se possa dizer que com a realização dessa visão da hecatombe humana ele nos traga o asco, a raiva, a revolta e uma renovação de possibilidade de mudança. Seria possível olhar-se diante do espelho em penúria e não revoltar-se? Se sim, algo há que se fazer em meio ao silêncio, caso contrário, resta-nos morrer como um de seus personagens, isolados em nossa própria cama a qual chamamos Humanidade.

Nestes livros de Beckett existe uma lucidez nos e entre seus personagens, mas não é uma lucidez que revelaria mistérios ou clareasse o caminho à frente para a certeza das coisas, das ações e, sobretudo de si mesmo, é antes uma, talvez melhor dizendo, anti-lucidez, num movimento às avessas: é uma lucidez da não lucidez que se possui.

 

Livros de Samuel Beckett:
Molloy, Editora Globo, 2008
Malone Morre, Editora Conex, 2004 (tradução do nosso poeta Paulo Leminski, obrigatório!)
O Inominável, Editora Globo, 2009
Livros citados:
Vigiar e Punir, Michel Foucault, Editora Vozes, 2007
O Processo, Franz Kafka, Editora Cia das Letras, 1997

Thiago da Silva Prada é um bicho de sete cabeças, quimera de livros, filmes, pensamentos, filosofias, poesias que se entrelaçam. Tem uma queda pelo Romantismo, se debate com os monstros da Razão, mas cumprimenta os que estão debaixo da cama. Está no Mestrado em Ciências Sociais na PUC-SP, é graduado em Psicologia, apaixonado por Filosofia, apreciador de Literatura e Cinema, jogador de xadrez nas horas vagas, poeta por necessidade existencial e leitor por ofício de vida. “Os Céus de Van Gogh”, publicado em 2014 pela Caligo, é seu primeiro livro de poesias.

 Contato: sonhosdepompeia@gmail.com

Quando entrevistei o filho de John Fante

Por Felipe Rodrigues

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou.

John Fante morreu, mas deixou um grande legado. Além da sua produção toda, contando clássicos como “Espere a Primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”, passou os genes de escritor para Dan Fante, seu filho. Lembro-me mais ou menos. Era final de 2007, as luzinhas já caindo pelas janelas. Eu procurava por contos do FILHO DO HOMEM em português e acabei caindo em seu site oficial. Logo na abertura, ouvia-se uma sequência de sucessos do blues tradicional, além de indicações de alguns escritores novos (bravo, Dan!), livros do autor e recortes com críticas que tinham saído em jornais e revistas.

Anotei o e-mail do cara e resolvi entrar em contato. Na época eu era um ASPIRANTE A JORNALISTA COM UM BLOGSPOT. Então, como diabos iria convencê-lo a responder as minhas perguntas? Convencido de que Dan Fante deletaria o e-mail e fumaria outro cigarro, resolvi inventar que eu era de algum jornal. Se bem me lembro, disse que a entrevista seria para um jornal de “grande circulação” de São Paulo.

Inexperiente e sem nenhum material sobre Dan Fante para ler – à época nem a Folha de S.Paulo e nem o El País tinham ROUBADO A MINHA IDEIA (hehe) – elaborei algumas perguntas – muitos clichês e questões ingênuas – e enviei para o cara. Na outra semana, para o bem ou para o mal, ele me retornou.

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou. Infelizmente, não consegui falar muito sobre a sua obra, afinal, seus livros ainda não tinham sido publicados no Brasil – e ainda não foram (passados sete anos). Porém, ganhei um presente de Natal. Ele me mandou na íntegra o arquivo final de “86’d”, à época seu último romance.

BRUTAS, SECAS, ÁCIDAS e por vezes blasés, seguem as respostas de Dan Fante à minha “entrevista”.

Você já leu algum escritor brasileiro?
Infelizmente, não tenho familiaridade com escritores brasileiros. Eu leio somente em “americano” e costumo odiar traduções.

Como foi a amizade com Charles Bukowski?
Eu conheci Hank. Ele costumava visitar meu pai. Admiro sua poesia, extremamente.

Algum de seus livros será lançado no Brasil?
A editora Harper Collins vai lançar quatro de meus livros, eu espero que todos eles sejam traduzidos.

Aqui no Brasil é muito difícil ser escritor ou até mesmo lançar um livro, como isso funciona nos Estados Unidos?
Você talvez precise de uma pistola para fazer os editores lerem seu trabalho. É muito difícil, os americanos perderam o costume da leitura. Um escritor tem que ser persistente.

Quais escritores novos você lê?
Não muitos. Tony O’Neill tem um bom livro que sairá agora e há uma boa coletânea de histórias de Mark SaFranko (da Murder Slim Press, Inglaterra). Vale a pena ler os dois.

Qual é o seu maior objetivo com a literatura?
Ter todo o meu trabalho lido e publicado em todos os países.

Você ainda tem um trabalho miserável?
SIM, SOU UM ESCRITOR.

A que se deve o sucesso dos seus livros na Europa?
Europeus têm bom gosto para escritores.

Você poderia contar alguma história sobre seu pai?
Ele fez muita grana escrevendo todos os dias para os estúdios de Hollywood. Fazia uma reunião com sua secretária todas as manhãs e dizia para ela que anotasse todos os recados, então ia jogar golf. ELE FEZ ISSO POR 20 ANOS.

No seu site tem uma apresentação de slides com algumas de suas fotos, que música é aquela? Que tipo de música você gosta?
Eu gosto de blues norte-americano: John Lee Hooker, Jimmy Reed, Sonny Terry e Brownie McGee.

Como era a cena beat do Greenwich Village quando você tinha 19 anos?
Era engraçado: um monte de poetas loucos e todo mundo queria mudar o mundo. Então chegou Lyndon Johnson…

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

25 de julho – Dia Nacional do Escritor

Por Thais Lemes Pereira

E se nós, escritores, colocássemos na balança a quantidade de livros nacionais e estrangeiros que lemos nos últimos meses, qual sobressairia?

Ser Escritor no Brasil

Dia 25 de julho comemoraremos o Dia Nacional do Escritor. Data que marca a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, promovido por João Peregrino Júnior e Jorge Amado, na década de 1960. Lendo sobre o assunto na internet, me deparei com uma reportagem (dezembro/2013) que dizia que o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo afirmando que “ser escritor no Brasil é a mais patética das profissões”.

O primeiro erro daqueles que sonham com a publicação de um livro e dos que já publicaram é encarar a escrita como uma profissão. Afirmar isso é o mesmo que dizer para aqueles que escrevem em qualquer veículo de comunicação sem gratificação, ou para seu próprio deleite, que não são escritores. Entende-se por profissão a atividade social remunerada. Logo, o sonho de se tornar escritor estará diretamente ligado à venda e possível fama. Não adianta julgar jovens e adultos por escrevem histórias pensando em renda, pois o próprio título com o passar dos anos desencadeou essa ideia.

O que pode ser levado em consideração é que muitos autores estrangeiros alcançam a fama e conseguem sobreviver com a venda de seus livros, fato que deve ter influenciado a visão de quem escreveu para o jornal norte-americano. Talvez a culpa seja até dos próprios brasileiros – e quando digo isso envolvo mídias, determinadas editoras e os próprios leitores.

Observamos que o número de leitores brasileiros aumentou nos últimos anos, o que deveria trazer uma maior visibilidade aos escritores do país. Mas, infelizmente, desde que o Brasil foi colonizado, percebemos a grande influência do estrangeiro em nossa vida.

Durante o dia 06 de julho realizei uma pesquisa em uma comunidade literária no Facebook, perguntando quantos livros nacionais e estrangeiros haviam sido lidos nos últimos seis meses. O resultado assusta, mas não surpreende:

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Ser escritor no Brasil não é fácil, mas será que é tão difícil?

Depende da intenção.

Certa vez, li que as pessoas que se formam em Jornalismo hoje em dia são loucas (principalmente depois da queda do diploma), pois o mercado de trabalho anda escasso. Penso o contrário: após a difusão da internet as possibilidades estão maiores, basta saber usá-las. O mesmo acontece com o escritor.

Claro que ter a publicação física do seu livro é mais prazeroso e temos boas editoras que fazem o trabalho sem custo para o autor. Algumas após avaliações, outras com impressão sob demanda. Para os adeptos à leitura digital as oportunidades são as mesmas. Uma dica interessante para aqueles que buscam a visibilidade, é a participação em concursos e desafios literários. Algo que exige paciência, mas que pode ser encarado de uma forma bastante positiva, levando em consideração aperfeiçoamento e amadurecimento.

Mas apenas isso não basta! É preciso quebrar o conceito de que os bons livros são os que recebem destaque pela mídia e que estão presentes nas livrarias. E se nós, escritores, colocássemos na balança a quantidade de livros nacionais e estrangeiros que lemos nos últimos meses, qual sobressairia? Não é preciso deixar os grandes nomes e autores estrangeiros de lado, mas é importante desvendar novas possibilidades.

Para dissolver a imagem estabelecida pelo The New York Times? Não. Para romper o conceito que nós próprios formamos. Afinal, o artigo publicado no jornal é assinado por Vanessa Bárbara, uma escritora brasileira.

Feliz 25 de julho para os escritores do nosso país, principalmente para aqueles que se orgulham disso.

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Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Saudosas cantadas

Por Fernanda Botta

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor […]

 

Despudorados como um gracejo de botequim. Assim são os livros da já saudosa – e, diga-se de passagem, acertadamente nomeada – coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense. Criada nos anos 1980 e focada no público jovem, a Cantadas Literárias dedicava-se a lançar escritores então desconhecidos. Foi através dela que toda uma geração conheceu Paulo Leminski, que a pedido dos editores escreveu o romance “Agora é Que São Elas”; Caio Fernando Abreu, que por meio da coleção publicou o cult “Morangos Mofados”, e Marcelo Rubens Paiva, que na ocasião nem podia imaginar que o seu “Feliz Ano Velho” se tornaria um sucesso comercial, com direito a filme estrelado pela atriz Malu Mader. Também com ela muita gente conheceu a poesia de Chacal, Chico Alvim, Ana Cristina César e Martha Medeiros, que à época era uma jovem estudante de publicidade.

Embora estilisticamente díspares, todos os autores discorriam francamente sobre sexo, drogas e identidade, entre outras questões típicas de jovens de qualquer tempo e lugar. Em suma, tinham em comum uma temática e uma linguagem mais acessíveis. Ou pelo menos mais próximas do jovem do que os aborrecidos clássicos que ele era obrigado a ler na escola. Perdoem-me os puristas, mas esperar que alguém tenha prazer na leitura partindo de O Guarani, de José de Alencar – e suas longas e muitas linhas apenas sobre o banho de uma mocinha – é pedir demais. Eu sei disso, você sabe disso, Caio Prado Júnior sabia disso. Quando pensou em uma literatura que pudesse efetivamente aproximar o adolescente dos livros, o então diretor da Brasiliense acertou em cheio. “É verdade que se lê pouco no Brasil?”, perguntava na contracapa do primeiro número. A coleção vendeu como água.

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor – ou pelo menos a dezenas de citações de sua obra. Para quem usa o Twitter, é ainda mais fácil. É só seguir o usuário @CaioFAbreu, criado por um leitor, e voilà! As citações aparecem em sua página. Citar Caio Fernando Abreu hoje é banal como escovar os dentes. Mas nem sempre foi assim.

É claro que os pais e a crítica torceram o nariz. Imagine só um livro que narre, de qualquer forma, o ato sexual? Ou que tenha em seu vocabulário uma boa dúzia de termos para descrever a genitália humana, termos que nem meu blog de família teria a coragem de reproduzir? Ou que fale abertamente sobre drogas ilícitas? Ou pior, faça tudo isso de forma despojada, livre das amarras daquilo que era considerado correto dentro da literatura? Era uma afronta. Fernando de Barros e Silva, em um artigo de 1989 do falecido suplemento Letras, do jornal Folha de S. Paulo, considerou a coleção um investimento dos editores “em temas do cotidiano e textos fáceis para arrebanhar um público sem cultura e carente de referências literárias”.

Mas o tempo passa, o tempo voa, e a coleção hoje é referência. E é uma pena que, tão esquecida e necessária quanto aquele bilhete desavergonhado com um número de telefone trazido pelo garçom, só se encontre em sebos.

Fernanda Botta, 27 anos. Jornalista cultural, tradutora freelancer, escritora de ocasião, péssima com definições. Tem mais textos dela no blog bissexto (como ela mesma define) 8linepoem.