É tempo de comemorar. E de continuar.

Há três anos, em um dia 25 de julho, a Caligo foi criada. Começou a sair do plano das ideias, transformou-se em algo que poderia realmente funcionar. Até ela se tornar uma empresa foram mais de seis meses. Mas desde o Dia Nacional do Escritor de 2012 ela existe. Tem nome, com a ajuda do amigo Vitor Toledo. Tem um slogan, com auxílio da amiga Martha Angelo. Bendito aquele que tem amigos escritores, pois nunca passará aperto na hora de criar algo do tipo! =)

Foi uma gestação de mais ou menos três anos. Três anos pensando a respeito, se valia realmente a pena, diante de tudo o que a gente já sabia do mercado editorial. Não sabíamos muito, até hoje sabemos quase nada. Mas desde aquela época sabíamos o mais importante e amedrontador fato: não seria fácil, pois o mercado editorial brasileiro é cheio de meandros, é território injusto, e quanto menor a editora, quanto menos dinheiro possível de ser investido, mais difícil ainda. Nós, pequenos editores sem dinheiro, seremos loucos, então? Talvez. Provavelmente. Porque mesmo sabendo de todas as dificuldades, a vontade de fazer algo nesse sentido, de publicar livros de autores que julgamos serem merecedores disso, essa vontade era cada vez maior.

Até o começo do ano conseguimos segurar as pontas, fomos indo conforme a maré. Muitas vezes pensamos desistir. Todo dia, aliás. Mas o desejo de continuar também é forte, é imenso. E luta como um gigante dentro de nós. Ah, esse desejo é teimoso!

O que fazer, então? Durante os últimos meses, refletimos muito a respeito do que é, hoje, a Caligo, assim como pensamos muito a respeito do que queremos que a Caligo seja. E chegamos à conclusão de que não podemos pensar que queremos ser uma editora que publica livros de autores nacionais. As possibilidades são maiores se pensamos em publicar textos bons, de bons autores. Porque pensando assim, não importa a forma de edição. Nossa missão é publicar textos, estamos deixando isso bem definido a partir de agora. E é isso o que vamos fazer.

Para os próximos meses, temos então:

– Criação de uma revista digital, gratuita, bimestral, com material produzido por autores selecionados: contos, artigos, matérias. Com isso, queremos fazer com que esses autores, seus textos, e o trabalho da Caligo chegue ao maior número possível de leitores, já que a distribuição de material físico é caro, é complicado, é uma longa história que uma hora a gente explica, e talvez você até conheça essa história de ouvir falar por aí;

– Início da produção de e-books dos livros físicos já editados pela Caligo e antologias e contos avulsos que forem planejados a partir de agora. Ainda estamos vendo a respeito da venda desses e-books, se será pela Amazon ou de outra forma, mas o que sabemos é que os valores serão bem reduzidos, voltando ao ponto: fazer com que os textos desses autores cheguem ao maior número possível de leitores;

– Vamos fazer algumas mudanças aqui no site, por isso desativamos algumas páginas, que retornarão em breve. A intenção é concentrar a venda dos livros aqui, saindo da plataforma da Loja Integrada. Motivo: reduzir custos, pois mesmo a Loja Integrada sendo gratuita até o limite de 50 produtos cadastrados, de cada livro vendido temos uma taxa a pagar para o site, fora a taxa do PagSeguro e BCash. Muito provável então que as vendas se concentrem aqui também, assim poderemos até baixar o preço de capa dos livros físicos. E dos e-books.

– Talvez a Caligo mude de nome de fantasia. O motivo é que ela está registrada como ME, gerando assim muitos custos. Nos próximos meses queremos transferir para MEI, Micro Empreendedor Individual, um custo bem, bem mais reduzido. Mas tudo bem. Parafraseando Shakespeare: o que é um nome? Tudo para não parar no meio do caminho. Vai valer a pena, nós sabemos disso.

Sei lá, esse negócio de fazer livro, de produzir livro, é viciante. Vicia mais que ler, desconfiamos que vicia até mais que escrever. Duvida? Experimente produzir um livro e volte aqui para descrever a sensação desse processo. Depois do primeiro, você não consegue mais parar, e se parar, será algo inesquecível, do qual sempre se lembrará. Não dizem que a leitura dos livros muda as pessoas? Pois editá-los também.

E afinal, parar algo que significa tanto para nós, para quê? Por quê? Nessas horas vale mais dar um passo para trás, ou parar um pouco à beira do caminho para tomar um fôlego e depois seguir em frente. Somos loucos por essa coisa de livro e está certo, você já entendeu isso. Então a gente para hoje por aqui, evitando repetições.

Até o próximo informe!

O autor anônimo

Por Braulio Tavares*

Hoje em dia, um livro que saia sem indicação do autor, mesmo um nome falso ou um pseudônimo, é quase inimaginável.

 

A questão dos direitos autorais está ligada, de um lado, à remuneração do trabalho do autor (aspecto material) e a um aspecto que poderíamos chamar imaterial ou simbólico, que é referido nos contratos como “o direito de ser reconhecido como o autor da obra X”. Este é um aspecto interessante porque implica numa vantagem (se não o fosse, não seria reivindicado pelos autores), mas uma vantagem de caráter abstrato. Esse direito e essa vantagem nos parecem indiscutíveis, mas a verdade é que, pelo menos na literatura, nem sempre havia a pressuposição tácita de que o autor gostaria de ser identificado com a obra. Às vezes, entretanto, o autor preferia ficar na sombra.

Edgar Allan Poe publicou em 1837 seu primeiro livro, Tamerlane and other poems, assinando-se como “Um bostoniano”. Talvez uma tentativa de sentir-se mais integrado à população de Boston, cidade onde nasceu e com quem manteve uma relação de amor e ódio. Talvez por ter apenas 18 anos, estar servindo ao Exército sob nome falso (“Edgar Perry”) e não querer chamar atenção sobre si próprio. Sempre achei este episódio semelhante ao que ocorreu com Manuel Antonio de Almeida, que publicou em 1852 as Memórias de um Sargento de Milícias, assinando-se como “Um brasileiro”. Por quê? Já li num ensaio ou prefácio que Almeida limitou-se, como jornalista, a escutar as histórias narradas por um personagem real, e as transpôs para o livro sem muita interferência.. Por isso sentia-se meio desconfortável em apresentar-se publicamente como o inventor daquilo tudo, coisa que não era.

Folheando uma reedição recente do Frankenstein de Mary Shelley vi uma reprodução da página de rosto da edição original de 1818, em três volumes. O livro saiu sem menção ao autor, o que só ocorreu da segunda edição em diante. Pelo fato de ser uma mulher? Talvez, mas o livro era prefaciado por Percy Shelley (marido da autora) e trazia uma dedicatória ao pai dela, o filósofo William Godwin. Hoje em dia, um livro que saia sem indicação do autor, mesmo um nome falso ou um pseudônimo, é quase inimaginável. Livros anônimos são, às vezes, livros que podem produzir reações polêmicas, como os Vestígios da História Natural da Criação, que Robert Chambers publicou anonimamente em 1844, com uma teoria cósmica da evolução.

Entre o autor que receia ser revelado e o autor que não faz a menor questão de ser conhecido vai uma grande distância. Se tomássemos no seu sentido mais amplo as palavra “história” e “canção”, e fosse feito um balanço de muitos séculos, veríamos que numa espantosa percentagem delas nunca se veio a saber quem foi o seu criador.

*Publicado originalmente no blog Mundo Fantasmo, créditos ao autor.

A jornada do escritor: investimento em livros

Por Ben Oliveira

Além de investir tempo na prática da escrita, os autores precisam ser leitores vorazes, entendedores da literatura.

 

A Jornada do Escritor, ou seja, o caminho percorrido por aqueles que sonham em se tornarem escritores profissionais envolve não só escrever, mas também buscar o conhecimento. Uma das melhores formas de se aprender mais sobre a escrita literária é através dos livros: literatura, técnicos, crítica literária, ensaios e demais áreas de conhecimentos que possam ajudá-lo a entender melhor os seres humanos e a arte de escrever.

Um dos principais erros de escritores iniciantes é o de se aventurarem no universo da escrita, sem antes terem uma boa bagagem literária. Não estou dizendo que existe um número mínimo de livros que alguém precisa ler, para que possa finalmente começar a escrevê-los – aliás, a jornada do escritor é muito pessoal e cada um deve saber como empreendê-la –, porém se você for analisar os conselhos deixados por grandes autores, vai perceber que a maioria destes profissionais recomenda muita leitura!

Por que é tão importante essa leitura? Bom, primeiro porque antes de inventar de escrever um livro de terror, fantasia, ficção científica, ou seja lá qual for a temática que você desejar abordar, é necessário que você entenda quais são as características que não podem faltar em sua história. Além de entender a temática que você deseja escrever, você precisa se familiarizar com o gênero literário escolhido: conto, romance ou novela. Um conto é muito mais do que uma história curta, assim como um romance não é só um livro longo, dividido em vários capítulos.

Todos os meses, ou quando tenho dinheiro, eu invisto em adquirir livros que possam aumentar a minha bagagem cultural. Hoje, ao terminar de ler dois livros sobre técnicas de escrita (literatura comercial) em uma tarde, fiquei pensando: “Será que realmente valeu a pena comprá-los?”. E a resposta veio quando, ao terminar um dos exercícios de escrita livre, eu consegui encontrar o final do romance que estou escrevendo. Não importa se o livro é pequeno ou grande, se é técnico ou reflexivo, o que faz a diferença é a sua leitura, assim como a maneira que você explora as informações, somando com os seus próprios conhecimentos.

Outra série de livros que comprei, por exemplo, são oficinas de escrita. O livro traz diversos exercícios que funcionam como se o leitor estivesse participando de um curso, sendo guiado pelo autor. O escritor iniciante ou até mesmo o veterano, à medida que desenvolve a escrita, vai saindo da zona de conforto. O livro é extremamente prático – cabe ao leitor fazer suas próprias reflexões e utilizá-lo da melhor maneira possível.

Quando leio livros de literatura, gosto de marcar os meus trechos favoritos, reviravoltas, metáforas e algumas técnicas utilizadas pelo autor para tornar o livro mais interessante. Isso me ajuda bastante a aprender sobre a minha própria escrita e, é claro, na hora de resenhar o livro, pois facilita na hora de recordar as passagens mais marcantes da obra e tentar entrar em contato com a essência do escritor.

Se o seu objetivo é aprender mais sobre a arte da ficção, no momento em que está lendo é necessário ter uma visão diferenciada, não basta ler por mero entretenimento. Acredite, entender um fragmento que seja da essência de um escritor é tão prazeroso quanto lê-lo só para passar o tempo. A sensação que fica é a de que você e o autor compartilharam segredos, confidências – é o famoso “ler nas entrelinhas”.

A leitura dos clássicos da literatura também é importante, afinal, muitas obras contemporâneas surgiram do diálogo com esses livros escritos há séculos (intertextualidade), além de ser uma ótima forma de compreender quais elementos da narrativa fizeram tanto sucesso a ponto de conquistarem leitores até os dias atuais.

Não se pode ignorar a força de alguns autores contemporâneos best-sellers para quem deseja entender por que eles vendem tanto. No entanto, até eles tiveram que beber em fontes do passado para escreverem seus romances. Por exemplo, se você gosta de distopia, tema que tem vendido muito atualmente, não basta ler livros como Divergente (Veronica Roth) e Jogos Vorazes (Suzanne Collins), é preciso se aventurar também em Laranja Mecânica (Anthony Burgess) e 1984 (George Orwell).

Não basta ler os livros técnicos com soluções “rápidas e fáceis” para escrita, como se escrever um livro fosse como seguir a receita de um bolo. É interessante que o escritor tenha conhecimentos sobre teorias (linguística, literária, comunicação) e compreender os assuntos que deseja abordar em seus livros. Logo, além dos livros servirem como ótimos materiais de estudo, eles também são ótimas ferramentas de pesquisa. Por exemplo, escrevi um romance de fantasia sobre bruxaria, e mesmo tendo conhecimento da religião, precisei reler alguns livros. Não importa se o seu livro é de fantasia, os símbolos, rituais e demais elementos precisam ser verossímeis e fazer sentido.

Portanto, se você sonha em se tornar escritor profissional – sobreviver de sua carreira literária –, é melhor transformar esse sonho em um objetivo e começar a traçar seu caminho. Não adianta achar que o escritor somente escreve e magicamente tudo sai lindo e perfeito. Além de investir tempo na prática da escrita, os autores precisam ser leitores vorazes, entendedores da literatura. Ninguém está dizendo que você precisa escrever um livro que vá agradar todo mundo ou se tornar um Mestre da Teoria Literária. Tenha em mente que mesmo autores que já foram massacrados pelos especialistas, como Stephen King, dominam a arte de escrever. Seus textos, muitas vezes, são criticados pelo debate literatura arte x literatura comercial, embora quem lê as entrelinhas percebe vários elementos que enriquem suas obras literárias.

Se o seu objetivo é só publicar um livro, bom, existem inúmeras opções atualmente, algumas até mesmo gratuitas, como a Amazon, ou a autopublicação, na qual você pode recuperar o seu dinheiro gasto se vender os livros para seus amigos, familiares e conhecidos. Porém, se o que deseja é se profissionalizar como escritor, busque aprender sempre, entender o mercado editorial, investir na leitura e escrita, ter paciência, entender que você vai ter que sacrificar algumas coisas para conquistar outras e ser humilde para admitir que todos temos algo que precisa ser melhorado em nossos textos, nossas vidas. Parece óbvio, embora muitos não percebam. Mais absurdo do que um escritor que não escreve – independente dos inúmeros fatores que pouca diferença faz para o leitor e para editores (falta de tempo, preguiça, procrastinação, falta de inspiração, bloqueio criativo) – é um escritor que não lê!

 

Ben Oliveira é graduado em Jornalismo, blogueiro e escritor com alguns contos publicados em antologias. Possui também romances que ainda não foram publicados. Escreve no blog Ben Oliveira e é um dos parceiros da Caligo Editora.

Eu, uma editora com TPI

Por Bia Machado

Egg timer smashing open

Quando aceito essa brecha, a vozinha interior até fica contente comigo: “Boa menina”. E não perde a oportunidade de me alfinetar: “Que tal dormir mais cedo hoje?” Hum, aí já é pedir demais.

 

É muito bom trabalhar com livros. Falar sobre eles, planejar, pensar em capa, revisar, escrever (claro), mas confesso, sofro de TPI: Tensão Pré-Impressão. Sim, nesses dias em que quatro livros publicados pela Caligo estão indo para a gráfica, quase na deadline, tento dizer a mim mesma que há tempo de folga. Porém, costumo duvidar de minha própria vozinha interior, aquela coisa: confiar desconfiando! Juro que se a gráfica fosse aqui na cidade, eu iria todo santo dia até lá, perguntaria se, por acaso, assim como quem não quer nada,  eles não gostariam de uma ajudazinha, de alguma forma e… É, melhor mesmo que ela esteja em outro estado.

Assumo meus defeitos e minhas neuras. Sou superpreocupada com esse negócio de prazo. Talvez porque às vezes a procrastinação chega assolando todas as minhas vontades, ou quase todas. Sobrevivem a vontade de escrever, de ler, e sempre sobreviverá a de ficar ao lado das pessoas queridas. Hoje mesmo, eu querendo terminar a revisão do miolo de um dos livros e o sono – acumulado – não querendo me dar trégua. Marido me chama pra jantar, eu não respondo nada e ele diz: “Vai jantar depois, né? Quando terminar a última página”. Aquelas palavras fizeram com que eu despertasse de alguma forma. Chamei todo mundo para a mesa e ficamos lá, falando da vida, sem a menor culpa. E foi bom curtir isso, nessas últimas duas semanas o que mais fiz foi ficar distante deles, em momentos em que não deveria ficar. Ainda bem que eles conseguem abrir uma brecha nesse meu momento de TPI. Quando aceito essa brecha, a vozinha interior até fica contente comigo: “Boa menina”. E não perde a oportunidade de me alfinetar: “Que tal dormir mais cedo hoje?” Hum, aí já é pedir demais. Justo agora que uma ideia surgiu para o Desafio do EntreContos? Justo agora que estou querendo terminar as últimas páginas de uma leitura da qual estou gostando tanto?

Curioso é que na maior parte do tempo pareço estar tranquila, no mais absoluto controle: “Calma, tem tempo. Vai dar tudo certo. Tá no prazo ainda”. Até eu mesma quase acredito. Alguns podem dizer: “Mas tinha que ser assim mesmo, afinal é quase só você pra tudo”. Enquanto isso, chegam diariamente e-mails e e-mails de revisores, tradutores, capistas, todo mundo querendo trabalhar com a Caligo. É, mas ainda não dá, por um bom tempinho – não disse longo, mas bom, vejam a diferença – a Caligo ainda continuará nesse ritmo. Apesar de tudo, eu precisava sentir na pele esse desespero, loucura, insanidade toda que é lançar vários livros de uma vez só. Uma das mudanças para 2015 é repetir como um mantra o lema: “Um livro de cada vez”. Até porque não dá pra ter tranquilidade trabalhando com mais de um, ao mesmo tempo. Aliás, no próximo texto conto o que estou planejando para a Caligo 2015.

Deve haver alguma parte do cérebro que controla nossa vontade por querer fazer (quase) tudo ao mesmo tempo, e da melhor forma possível. Algo me diz que tenho um leve distúrbio nessa parte da anatomia. Bem, enquanto não encontram a cura (e sei lá se quererei ser curada…), vou tentando me controlar, mas não muito, para evitar uma reação alérgica. 😉

P.S.: Como puderam perceber, não foi hoje que dormi cedo.

É a editora da Caligo. Trabalha como professora e revisora. Tenta escrever para que seus personagens não fiquem tão zangados com ela e não voltem para puxar seu pé de madrugada. Leitora voraz. Cinéfila frustrada. Se pudesse, faria outras coisas mais, mas para quem não tem sangue azul, nem sorte no jogo, isso já está bom, não dá para reclamar. Ou dá? Escreve (ou tenta escrever) no blog Vida e Etcétera a respeito de quase tudo, mas admite que acaba escrevendo mais sobre suas leituras. Contato: magiadaliteratura@gmail.com.

Quando entrevistei o filho de John Fante

Por Felipe Rodrigues

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou.

John Fante morreu, mas deixou um grande legado. Além da sua produção toda, contando clássicos como “Espere a Primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”, passou os genes de escritor para Dan Fante, seu filho. Lembro-me mais ou menos. Era final de 2007, as luzinhas já caindo pelas janelas. Eu procurava por contos do FILHO DO HOMEM em português e acabei caindo em seu site oficial. Logo na abertura, ouvia-se uma sequência de sucessos do blues tradicional, além de indicações de alguns escritores novos (bravo, Dan!), livros do autor e recortes com críticas que tinham saído em jornais e revistas.

Anotei o e-mail do cara e resolvi entrar em contato. Na época eu era um ASPIRANTE A JORNALISTA COM UM BLOGSPOT. Então, como diabos iria convencê-lo a responder as minhas perguntas? Convencido de que Dan Fante deletaria o e-mail e fumaria outro cigarro, resolvi inventar que eu era de algum jornal. Se bem me lembro, disse que a entrevista seria para um jornal de “grande circulação” de São Paulo.

Inexperiente e sem nenhum material sobre Dan Fante para ler – à época nem a Folha de S.Paulo e nem o El País tinham ROUBADO A MINHA IDEIA (hehe) – elaborei algumas perguntas – muitos clichês e questões ingênuas – e enviei para o cara. Na outra semana, para o bem ou para o mal, ele me retornou.

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou. Infelizmente, não consegui falar muito sobre a sua obra, afinal, seus livros ainda não tinham sido publicados no Brasil – e ainda não foram (passados sete anos). Porém, ganhei um presente de Natal. Ele me mandou na íntegra o arquivo final de “86’d”, à época seu último romance.

BRUTAS, SECAS, ÁCIDAS e por vezes blasés, seguem as respostas de Dan Fante à minha “entrevista”.

Você já leu algum escritor brasileiro?
Infelizmente, não tenho familiaridade com escritores brasileiros. Eu leio somente em “americano” e costumo odiar traduções.

Como foi a amizade com Charles Bukowski?
Eu conheci Hank. Ele costumava visitar meu pai. Admiro sua poesia, extremamente.

Algum de seus livros será lançado no Brasil?
A editora Harper Collins vai lançar quatro de meus livros, eu espero que todos eles sejam traduzidos.

Aqui no Brasil é muito difícil ser escritor ou até mesmo lançar um livro, como isso funciona nos Estados Unidos?
Você talvez precise de uma pistola para fazer os editores lerem seu trabalho. É muito difícil, os americanos perderam o costume da leitura. Um escritor tem que ser persistente.

Quais escritores novos você lê?
Não muitos. Tony O’Neill tem um bom livro que sairá agora e há uma boa coletânea de histórias de Mark SaFranko (da Murder Slim Press, Inglaterra). Vale a pena ler os dois.

Qual é o seu maior objetivo com a literatura?
Ter todo o meu trabalho lido e publicado em todos os países.

Você ainda tem um trabalho miserável?
SIM, SOU UM ESCRITOR.

A que se deve o sucesso dos seus livros na Europa?
Europeus têm bom gosto para escritores.

Você poderia contar alguma história sobre seu pai?
Ele fez muita grana escrevendo todos os dias para os estúdios de Hollywood. Fazia uma reunião com sua secretária todas as manhãs e dizia para ela que anotasse todos os recados, então ia jogar golf. ELE FEZ ISSO POR 20 ANOS.

No seu site tem uma apresentação de slides com algumas de suas fotos, que música é aquela? Que tipo de música você gosta?
Eu gosto de blues norte-americano: John Lee Hooker, Jimmy Reed, Sonny Terry e Brownie McGee.

Como era a cena beat do Greenwich Village quando você tinha 19 anos?
Era engraçado: um monte de poetas loucos e todo mundo queria mudar o mundo. Então chegou Lyndon Johnson…

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

Adeus, Orkut, onde quase tudo começou

Por Bia Machado

 

[…] é preciso aprender com críticas que sejam coerentes, e aprender a separar o coerente do incoerente, tendo a consciência de que qualquer rede social tem os seus defeitos. Foi o que sempre tentei fazer e recebi muitas opiniões e comentários valiosos.

Sim, o Orkut está dando adeus em definitivo, resta-lhe pouco tempo. Porém, quantas recordações ele vai deixar! Sou uma das pessoas que nunca vai esquecer essa rede social que me aproximou ainda mais dos livros, da escrita, da leitura, ainda mais do que eu já era próxima, por incrível que pareça. Já fiz backup das fotos, assim como já tinha feito da parte escrita. As lembranças, guardo na memória e sigo em contato com as amizades que sobrevivem ao seu término e que farei o possível para que perdurem.

Quando o Orkut começou, confesso que não dei muita bola. Os blogs e outros sites supriam minha vida virtual, mas é uma pena que, dessa época efervescente da blogosfera, poucas amizades (sim, virtuais, mas amigos) restaram. O que me levou  a entrar nessa rede social, então? Em primeiro lugar, as comunidades literárias! A primeira de todas: Agatha Christie Brasil. Finalmente eu podia conversar com alguém de fora do meu cotidiano sobre essa escritora que é uma das que mais admiro, coisa de infância mesmo. Encontrei comunidade sobre Stephen King, sobre Ficção Científica, de Amantes do Romance Policial, de Resenhas Literárias, de Contos Fantásticos, de Escritores Amadores, de Histórias e Contos de Terror. Claro que participava de outras que nada tinham a ver com esse universo, mas as que me marcaram foram aquelas em que a escrita, a leitura, os livros eram o foco. Elas alimentaram minha vontade de finalmente terminar algo que escrevi, fizeram com que eu perdesse a vergonha de mostrar meus escritos aos outros, e até mesmo de ser publicada. Uma coisa maravilhosa foi ter conhecido tantas pessoas, e ter mantido contato com elas até hoje, e espero que sempre, tantas pessoas com quem posso dividir essa paixão pelos livros, essa vontade de estar com eles, de trabalhar com eles. Feliz por terem passado para o lado real da minha vida, junto com a Caligo, pessoas como Fabio Shiva, Angélica Bernardino, Amadeu Jr. (o primeiro leitor beta), Cintya e Cláudio Veiga (o primeiro a criticar um texto meu de uma forma que fez com que eu me sentisse em plena final de um concurso literário, como faz até hoje), Vitor Toledo, Rubem Cabral, Fernando de Abreu Barreto, Marcelo Amado e Celly Borges, Teresa Fiore, Pedro Viana, Martha Angelo, Hosana Alves, Gustavo Araujo, Glaucia Fortes, e tantos outros, felizmente muitos!

Meus primeiros contos, de terror, foram publicados sob demanda, é verdade, mas esse foi o primeiro passo para eu entender como essa tal publicação podia acontecer e dela tirar minhas conclusões (que ficam para outro artigo). Foi durante os debates a respeito de livros, do mercado editorial, dos posts de chamadas para submissão de contos que a Caligo foi tomando forma. Sim, não nego e não sinto qualquer tipo de vergonha ao afirmar isso. Por quê? Por ter visto que era possível, sim, tentar. Por ter visto que as dificuldades são muitas, mas onde existe só facilidade nessa vida? Sempre considerei que tudo que vem fácil demais, não dá certo, não dá satisfação suficiente. Não foi o pensamento de que “puxa, vou ganhar dinheiro com essa coisa de fazer livro, tá na moda publicar sob demanda, tá fácil arrancar dinheiro de escritor que está louco pra publicar”, mas sim: “Ei, eu quero fazer isso, acho que consigo fazer e até melhor. E será bacana, será um desafio. E isso vai me trazer satisfação, nem que eu publique apenas um livro, vai ser muito bom poder ajudar um autor a realizar isso”, e outras (muitas) coisas mais.

Ou seja, o Orkut me mostrou um lado da produção editorial que eu, apenas leitora, nunca tinha me dado conta que existia, o lado das médias e pequenas editoras (e, por que não, dos autores independentes?) que trabalham muito, mas conseguem atingir seus objetivos. Para mim, na época, editoras eram grandes empresas, poderosas, com muito dinheiro para colocar um livro no mercado, imagine como autora! Jamais cogitara a ideia de enviar um manuscrito meu para qualquer uma dessas poderosas, para mim não haveria nunca uma chance. Claro que, de qualquer forma, independente do tamanho, há editoras e editorasmas a ideia de que trabalhar com livros não tendo a grana e o poder das grandes é totalmente possível, não é apenas pura ficção.

Participar por cerca de dois anos das comunidades Contos Fantásticos, da Histórias, Contos de Terror e da Eu Sou Escritor Amador principalmente me ajudaram com a parte de escrever sabendo que não seria apenas eu a leitora, mas que haveria outros leitores. Leitores que só chegariam ao final do seu texto, fragmentado em pequenos posts, se o enredo fosse realmente interessante. Leitores que, mesmo o texto sendo ruim, leriam até o final e nesse caso… Bem, é preciso aprender com críticas que sejam coerentes, e aprender a separar o coerente do incoerente, tendo a consciência de que qualquer rede social tem os seus defeitos. Foi o que sempre tentei fazer e recebi muitas opiniões e comentários valiosos. Hoje esse trabalho de escrita de contos de vários autores e comentários por meio de desafios mensais tem sido levado adiante por outros, como é o caso do nosso parceiro e também autor, Gustavo Araujo, com o site EntreContos.

Enfim, adeus, Orkut. Foi bom enquanto durou. A gente fica por aqui, dando continuidade a essa coisa que foi tão bacana, o suficiente para ficar marcado com tanta força, e tanto carinho.

É a editora da Caligo. Trabalha como professora e revisora. Tenta escrever para que seus personagens não fiquem tão zangados com ela e não voltem para puxar seu pé de madrugada. Leitora voraz. Cinéfila frustrada. Se pudesse, faria outras coisas mais, mas para quem não tem sangue azul, nem sorte no jogo, isso já está bom, não dá para reclamar. Ou dá? Escreve (ou tenta escrever) no blog Flor do Cotidiano a respeito de quase tudo, mas admite que acaba escrevendo mais sobre suas leituras. Contato: magiadaliteratura@gmail.com.

Saudosas cantadas

Por Fernanda Botta

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor […]

 

Despudorados como um gracejo de botequim. Assim são os livros da já saudosa – e, diga-se de passagem, acertadamente nomeada – coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense. Criada nos anos 1980 e focada no público jovem, a Cantadas Literárias dedicava-se a lançar escritores então desconhecidos. Foi através dela que toda uma geração conheceu Paulo Leminski, que a pedido dos editores escreveu o romance “Agora é Que São Elas”; Caio Fernando Abreu, que por meio da coleção publicou o cult “Morangos Mofados”, e Marcelo Rubens Paiva, que na ocasião nem podia imaginar que o seu “Feliz Ano Velho” se tornaria um sucesso comercial, com direito a filme estrelado pela atriz Malu Mader. Também com ela muita gente conheceu a poesia de Chacal, Chico Alvim, Ana Cristina César e Martha Medeiros, que à época era uma jovem estudante de publicidade.

Embora estilisticamente díspares, todos os autores discorriam francamente sobre sexo, drogas e identidade, entre outras questões típicas de jovens de qualquer tempo e lugar. Em suma, tinham em comum uma temática e uma linguagem mais acessíveis. Ou pelo menos mais próximas do jovem do que os aborrecidos clássicos que ele era obrigado a ler na escola. Perdoem-me os puristas, mas esperar que alguém tenha prazer na leitura partindo de O Guarani, de José de Alencar – e suas longas e muitas linhas apenas sobre o banho de uma mocinha – é pedir demais. Eu sei disso, você sabe disso, Caio Prado Júnior sabia disso. Quando pensou em uma literatura que pudesse efetivamente aproximar o adolescente dos livros, o então diretor da Brasiliense acertou em cheio. “É verdade que se lê pouco no Brasil?”, perguntava na contracapa do primeiro número. A coleção vendeu como água.

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor – ou pelo menos a dezenas de citações de sua obra. Para quem usa o Twitter, é ainda mais fácil. É só seguir o usuário @CaioFAbreu, criado por um leitor, e voilà! As citações aparecem em sua página. Citar Caio Fernando Abreu hoje é banal como escovar os dentes. Mas nem sempre foi assim.

É claro que os pais e a crítica torceram o nariz. Imagine só um livro que narre, de qualquer forma, o ato sexual? Ou que tenha em seu vocabulário uma boa dúzia de termos para descrever a genitália humana, termos que nem meu blog de família teria a coragem de reproduzir? Ou que fale abertamente sobre drogas ilícitas? Ou pior, faça tudo isso de forma despojada, livre das amarras daquilo que era considerado correto dentro da literatura? Era uma afronta. Fernando de Barros e Silva, em um artigo de 1989 do falecido suplemento Letras, do jornal Folha de S. Paulo, considerou a coleção um investimento dos editores “em temas do cotidiano e textos fáceis para arrebanhar um público sem cultura e carente de referências literárias”.

Mas o tempo passa, o tempo voa, e a coleção hoje é referência. E é uma pena que, tão esquecida e necessária quanto aquele bilhete desavergonhado com um número de telefone trazido pelo garçom, só se encontre em sebos.

Fernanda Botta, 27 anos. Jornalista cultural, tradutora freelancer, escritora de ocasião, péssima com definições. Tem mais textos dela no blog bissexto (como ela mesma define) 8linepoem.

Criação Literária: planejamento

Por Ben Oliveira

Definir as respostas para essas perguntas antes de iniciar a escrita pode facilitar e muito na hora de organizar as ideias e escrever sua história no papel.

Quando se pensa em escrita de ficção ou até mesmo a de não-ficção, muitos leitores não imaginam o trabalho que o escritor tem para planejar o seu texto, seja um conto, com um tamanho menor e linguagem direta, um romance médio ou longo, uma trilogia ou uma série de livros. Sem esta organização, muitas vezes, o projeto não sai da mente, não chega a se materializar em um livro.
Para começar, é preciso entender que não existem fórmulas mágicas. Existem formas de estruturar seu romance que são aceitáveis comercialmente e agradam a algumas editoras, o que não significa que você não possa dar o seu próprio toque e desenvolver o seu estilo. Os primeiros passos dos escritores iniciantes, geralmente, consistem em analisar obras literárias que tenham o tema parecido com o que você deseja escrever, ler muito e usar o mesmo esqueleto como referência.
Ao planejar um livro, há alguns elementos que o escritor precisa levar em conta, os quais eu explico brevemente a seguir:

Gênero: Qual será o gênero literário? Neste aspecto pode se levar em conta qual será o formato, um conto, novela ou romance. Ou será um livro de crônicas, poemas e autobiográfico? Cada gênero possui suas particularidades, desde a extensão do texto até a quantidade de elementos narrativos.

Temática: Como o livro será classificado?Fantasia, Ficção Científica, Terror, Suspense, Thriller, entre tantas formas de classificar que estão surgindo. Por exemplo, a história fantástica tem suas particularidades, assim como as de ficção científica. Para se enquadrar em determinada temática, a história precisa ter algumas características que a qualifiquem como tal. Os gêneros podem se misturar, porém, geralmente, há a predominância de um deles.

Público-alvo: Para quem você está escrevendo? A linguagem de um livro infantil ou juvenil é diferente de um livro para adultos. Um chick-lit (voltado para mulheres modernas) pode não agradar a um leitor homem, assim como um livro de terror pesado e com cenas de sexo, sem dúvidas, não é o mais adequado para crianças. O mesmo acontece quando se trata de não-ficção, um livro voltado para médicos, advogados ou economistas pode ter muitos termos técnicos que são desconhecidos ao leitor geral – assim, como a proposta pode ser abordar assuntos de livros especializados, mas com uma linguagem acessível e que possa atingir um público maior.

Personagens: Tão importante quanto definir o gênero, tema e o público-alvo, é o desenvolvimento de personagens com os quais os leitores possam se identificar ou não, mas que sejam verossímeis. Quantos personagens sua história vai ter? Quantos realmente são necessários ou podem ser cortados, sem fazer nenhuma diferença? Quais são as características (físicas, psicológicas) marcantes deles? Cada personagem precisa ter voz própria, personalidade que o diferencia de outro.

Trama: Como a história irá se desenrolar. Há escritores que prefiram criar primeiro a trama e depois pensar nos personagens, assim como acontece o contrário. É importante lembrar que quando se trata da escrita não existem fórmulas, e sim recomendações para tornar a história agradável, mas que podem ser quebradas pelos autores experientes. A “receita do romance” faz com que muitas histórias fiquem parecidas e se tornem óbvias aos leitores.

Tempo/Espaço: A época e o local em que a história se passa irão moldar a maneira que os personagens se comunicam, modo de vestir, questões relacionadas à moralidade, comportamento, enfim, aspectos culturais e como os personagens interagem neste ambiente. No terreno da fantasia, por exemplo, o personagem começa em um ambiente comum e atravessa um limiar. Já num livro de ficção científica, a história inteira pode se passar no futuro ou até mesmo dentro de uma nave espacial.

Foco narrativo: A história será narrada em primeira pessoa ou em terceira pessoa? O narrador será o próprio protagonista ou quem sabe um personagem que só vai contar a história? Cada escolha de narrador tem suas vantagens e limitações. Nos livros de não ficção, muitos autores usam a segunda pessoa, permitindo um diálogo direto com o leitor, além de também usarem alguns recursos da escrita de ficção para ilustraras informações e conhecimentos que estão tentando transmitir.

Bom, é isto! Este é o básico do básico, mas pode fazer toda a diferença para quem está começando a desenvolver um projeto literário. Definir as respostas para essas perguntas antes de iniciar a escrita pode facilitar e muito na hora de organizar as ideias e escrever sua história no papel.

Lembrando que este planejamento é uma ferramenta para ajudar e não atrapalhar o fluxo criativo – muitos escritores iniciantes imaginam e idealizam os seus escritores veteranos favoritos sentados em frente à máquina de escrever ou ao computador e escrevendo por horas e horas sem direção. Às vezes, o escritor está tão habituado com sua escrita que as ideias fluem de forma natural, o subconsciente auxilia na organização.

A não ser que você já esteja completamente familiarizado com os termos descritos acima, a ponto de não precisar escrevê-los no papel, recomendo aprenda mais sobre eles. A escrita de ficção e a de não ficção – nesta última, muitas vezes, o autor paga um ghost writer para escrever o livro para ela – exige uma boa bagagem cultural, análise de obras literárias e o principal, escrita. Não tenha medo de escrever, ler, revisar, reler, reescrever, editar. Afinal, quem vê o livro publicado, brilhando na livraria ou na estante de sua casa, não sabe quanto tempo o escritor dedicou ao lado de seu filho, antes de soltá-lo no mundo.
.

Ben Oliveira é graduado em Jornalismo, blogueiro e escritor com alguns contos publicados em antologias. Possui também romances que ainda não foram publicados. Escreve no blog Ben Oliveira e é um dos parceiros da Caligo Editora.

Por que não escrevo uma trilogia

Por José Geraldo Gouvêa

Em um aspecto, porém, todos os auto­res, exceto os gênios, os excep­ci­o­nais, os mila­gres da natu­reza, estão de acordo: este apren­di­zado leva tempo e pas­sar por cer­tas eta­pas, que são muito cla­ras na car­reira da mai­o­ria dos auto­res.

É recor­rente o apa­re­ci­mento de jovens que dizem escre­ver seu pri­meiro “livro”, mui­tos até pro­me­tendo con­ti­nu­a­ções ou decla­rando que a obra é (ou será) uma tri­lo­gia. Não conheço a qua­li­dade des­tas obras e nem des­tes escri­to­res, embora supo­nha, com razo­a­bi­li­dade, que as pri­mei­ras são com­pa­tí­veis com a idade, a expe­ri­ên­cia de vida e o nível cul­tu­ral dos segun­dos. E quando digo isso, devo acres­cen­tar, com algum eufe­mismo, que não é com muita frequên­cia que nasce um Rim­baud ou um Radiguet.

Este des­file de obras de grande fôlego, ins­pi­rado nos best-​​sellers de sucesso, me faz pen­sar que alguns des­tes auto­res estão quei­mando eta­pas que não podem ser quei­ma­das, estão igno­rando lições do começo do curso e par­tindo para o final. Este sen­ti­mento me faz escre­ver esta breve apologia.

Escre­ver não é fácil. Se fosse fácil, todo mundo escre­ve­ria. Escre­ver não é nem “rela­ti­va­mente fácil”. Se fosse, a mai­o­ria dos que escre­vem pro­du­zi­ria tex­tos de qua­li­dade. Há difi­cul­da­des por todos os lados. É difí­cil por razões intrín­se­cas: domi­nar as pala­vras, usar os recur­sos da lín­gua, pro­du­zir a beleza, con­tar bem his­tó­rias etc. É difí­cil por razões extrín­se­cas tam­bém, a prin­ci­pal delas é que só se des­ta­cam os melho­res, então, à medida que aumenta a quan­ti­dade de bons auto­res, vai subindo a linha de corte. Para se des­ta­car numa lite­ra­tura pobre basta mos­trar alguma qua­li­dade. Mas para se des­ta­car em uma lite­ra­tura forte, é pre­ciso algo maior. Entre as razões pelas quais o Bra­sil ainda não ganhou um Nobel de lite­ra­tura está o fato de que nossa lite­ra­tura não é tão densa.

Entre as difi­cul­da­des de escre­ver está o apren­di­zado. Que, para come­çar, muita gente diz que pre­cisa par­tir de algo inato, o “talento”. Mesmo supondo que o talento não exista, o apren­di­zado é algo tão com­plexo e inde­fi­ní­vel que é pra­ti­ca­mente impos­sí­vel deter­mi­nar o que é que faz um autor ser genial. Afi­nal, todos os auto­res rele­van­tes tive­ram cole­gas de classe, vizi­nhos, ami­gos, pes­soas que tive­ram mais ou menos as mes­mas expe­ri­ên­cias e con­di­ções, que estu­da­ram coi­sas pare­ci­das. Mas fica­ram para trás na poeira do tempo.

Em um aspecto, porém, todos os auto­res, exceto os gênios, os excep­ci­o­nais, os mila­gres da natu­reza, estão de acordo: este apren­di­zado leva tempo e pas­sar por cer­tas eta­pas, que são muito cla­ras na car­reira da mai­o­ria dos auto­res. Eça de Quei­rós come­çou escre­vendo con­tos para revis­tas, a pri­meira obra publi­cada de James Joyce foi a cole­tâ­nea de con­tos Dubli­nen­ses, por exemplo.

Tam­bém parece exis­tir no Bra­sil um certo pre­con­ceito con­tra a fic­ção curta que vai além do fas­cí­nio dos jovens pelas tri­lo­gias da moda: em meus con­ta­tos com edi­to­ras mui­tas vezes eu ouvi que havia mais pos­si­bi­li­dade de publi­car roman­ces do que con­tos. Aliás, eu só come­cei a escre­ver roman­ces por­que edi­to­res me con­ven­ce­ram que eu jamais publi­ca­ria nada se ficasse “limi­tado ao conto”, como se ele fosse um gênero menor em impor­tân­cia, além do tama­nho. Não me arre­pendo de ter come­çado a fazer roman­ces, mas me inco­moda que tão pouco valor se dê ao conto, a ponto de o movi­mento blo­gueiro estar à morte por­que nin­guém mais se inte­ressa em lê-​​los.

O conto pre­cisa ser revalorizado.

Em pri­meiro lugar por­que, acom­pa­nhado da crô­nica, ele é a prin­ci­pal escola de escri­to­res. Não é à toa que os gran­des auto­res come­ça­ram fazendo crô­ni­cas e con­tos: a fic­ção curta per­mite maior con­trole sobre a trama e os per­so­na­gens, além de per­mi­tir um sen­ti­mento de rea­li­za­ção mais ime­di­ata — o que serve de estí­mulo para continuar.

Digo isto por­que não sei quan­tos des­ses jovens efe­ti­va­mente rea­li­za­rão a tri­lo­gia sonhada. Tal­vez se escre­ves­sem con­tos eles man­ti­ves­sem o estí­mulo até o fim. Além disso, a ado­les­cên­cia e a juven­tude são momen­tos na vida em que muda­mos muito, de valo­res, de estilo, de filo­so­fias, de tudo. O longo tempo gasto na escrita de uma obra de várias cen­te­nas de pági­nas pode fazer com que, ao che­gar ao fim do tra­ba­lho, o autor des­cu­bra que lá no começo o seu estilo ainda era cru, e tenha de rees­cre­ver. Ou pode des­co­brir, durante a escrita, que mudou de ideia sobre o sen­tido do enredo, e então terá que rees­cre­ver cen­te­nas de pági­nas. Tudo isto somado cons­pira con­tra a pos­si­bi­li­dade prá­tica de um ado­les­cente efe­ti­va­mente pro­du­zir uma tri­lo­gia, ou mesmo um romance longo ou, alter­na­ti­va­mente, cons­pira con­tra tal tra­ba­lho pos­suir alguma qua­li­dade, a menos que o ado­les­cente em ques­tão seja um dos tais fenô­me­nos raros da natureza.

Não gosto de reco­men­dar o meu cami­nho, por­que ele só me trouxe até onde estou, e não é um lugar onde mui­tos gos­ta­riam de estar (o lugar cobi­çado é o dos auto­res de best-​​sellers). Mas quem se inte­res­sar saiba que come­cei fazendo poe­mas, pas­sei à crô­nica e logo ao conto, onde per­ma­neci por muito tempo, até que em 2007 iniciei um romance, que foi publi­cado em 2010. Quinze anos de minha vida eu pas­sei sem escre­ver roman­ces, ape­nas pen­sando que um dia ten­ta­ria escre­ver um. Minhas rea­li­za­ções podem não reco­men­dar o meu cami­nho, mas segui os pas­sos de gente que se deu melhor do que eu.

Acho que alguns jovens se bene­fi­ci­a­riam da ideia de escre­ver con­tos.

*Artigo originalmente publicado no blog Letras Elétricas.

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). É autor do conto “A Noiva Liberdade”, a ser publicado em 2014 pela Caligo, na Antologia RedruM. Escreve no blog “Letras Elétricas”.

A Nova Literatura como feudo de celebridades

Por Alexandre Coslei

O resultado que se observa é um vácuo na literatura brasileira que inunda as livrarias com títulos estrangeiros, traduções capengas e o cultivo de um gosto duvidoso. Estamos recolonizando a nossa literatura, esse é o preço do estrelato individual.

A literatura, tal qual a lendária cidade de Troia, foi um dos últimos bastiães que cedeu ao avanço das barbáries da globalização. Resistiu com bravura à vilipendiação dos valores e à corrupção da alma. No entanto, resistir é inútil, já pressagiavam os Borgs de Star Trek. A arte literária também está sendo assimilada pelo consumismo hedonista para se enquadrar às normas da indústria cultural do século XXI, que é avessa a mergulhos profundos e impõe que as nossas preferências se limitem à epiderme das coisas.
Livros com capas coloridas, chamativas; autor com pose de pop star, patinando deslumbrado sob holofotes e flashes de câmaras digitais. A palavra que renuncia ao conteúdo para se transformar em imagem plástica, mais palpável, palatável e lucrativa. A palavra realocada num mundo onde prevalece o objeto comercial. Book trailers, palcos, escritores-celebridades, feiras literárias como grandes anfiteatros para uma gente bonita mostrar seu valor. É a literatura intimada a ser espetáculo.

O escritor recluso e tímido, que escolheu a solidão para fecundar o pensamento e a visão intimista sobre o mundo, esse está em desuso, perde lugar para o showman e para as faces conhecidas da TV (que também decidiram se enveredar pelas letras). Há poucos dias ouvi uma definição bem humorada sobre isso, estamos na era dos globetrottersliterários. Não, definitivamente não existe lugar ao sol para o misantropo. Ou ele se metamorfoseia em pavão ou que apodreça nos porões do anonimato.

O que se ganha com a literatura midiática? Sem dúvida, arrebanham-se mais leitores, fortalecem-se alguns grupos editoriais, aumentam as tiragens. E o que se perde? A qualidade endógena das obras entrou em decadência, a estética foi depreciada pelo objetivo de atingir leitores menos qualificados e leitores desqualificados geram escritores medíocres. O resultado que se observa é um vácuo na literatura brasileira que inunda as livrarias com títulos estrangeiros, traduções capengas e o cultivo de um gosto duvidoso. Estamos recolonizando a nossa literatura, esse é o preço do estrelato individual. Não é à toa que uma pesquisa recente, realizada neste ano pelo Jornal O Globo nas principais bibliotecas públicas cariocas, constatou que o interesse dos leitores pelos best-sellers internacionais supera com larga vantagem a consulta por autores nacionais, inclusive, os clássicos.

Algumas poucas trincheiras tentam preservar a literatura como arte, editoras como a Patuá e Confraria do Vento semearam e colheram autores valorosos que emplacaram como finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2014.

Infelizmente, o caráter desta literatura nacional recolonizada, feudo de celebridades, movida por nichos e modismos, não aparenta vontade de reverter seus passos em direção ao lucro e nem exibe remorso pela depredação estética que promove. Quando tentamos prever um cenário futuro, o panorama que se esboça é nebuloso, imprevisível. Quem sabe, lá na frente, nos deparemos somente com as ruínas de um território devastado e saqueado pela sanha dos ególatras. Uma Troia incendiada. Porém, mesmo diante do trágico desfecho da Ilíada, Aquiles e Heitor, os dois heróis épicos, ainda inspiram o que é eterno. Aos que amam literatura, resta a fé. Acreditar é sobreviver.

Alexandre Coslei, natural do Rio de Janeiro, onde sempre morou. É jornalista, agregando formação em Letras pela UFRJ. Autor do livro “Os paralelepípedos da Vila Mimosa”, publicado pela Multifoco em 2009, uma seleção de histórias inspiradas na maior Zona boêmia carioca. Escreve no site Parágrafo.