Ben Oliveira entrevista Rubem Cabral

Rubem Cabral concedeu entrevista ao Blog do Ben Oliveira, contando um pouco sobre a distopia que está escrevendo e dando dicas a autores. Escritor com conto premiado no exterior, Rubem já participou de diversas antologias nacionais e é o organizador da Antologia “!” de Contos Fantásticos, publicada pela Caligo em 2013.

Confira aqui!

O inferno dos conselhos sobre como escrever e outras rabugices

Por Rubem Cabral

Tanta repetição! Que falta de respeito com a pontuação! Como se escreve assim, com tanta vírgula, sem quebrar parágrafos? Que interessante!

 

Não. Não abuse de frases curtas. Não escreva – de forma alguma, jamais, fuja como o diabo da cruz – sentenças muito longas. Não repita palavras e mais palavras muito próximas, mas escreva de forma “natural”, pô. Escreva simples: use vocábulos comuns, que o leitor médio não precise de dicionário, mas construa metáforas ricas e inéditas, que colem à memória como visgo de jaca em pé de passarinho. Nada de estrangeirismos! Keep it simple, cabrón! Ora, óbvio que textos curtos são o ideal para a geração Twitter, que lê no iPad ou no smartphone. Escreva uma trilogia de fantasia medieval: é o que vende que nem pão quente. Nada de neologismos! Deslembre-os! Ficção-científica é um tiro de laser no pé. Autoajuda dá dinheiro. Ambiente a história somente no Brasil, porém Londres na era Vitoriana tinha um charme todo especial… Escreva estritamente sobre o que você viveu. Use a imaginação e pesquise! Palavrões são chulos. Porra, calão dá mais autenticidade.

 Escrever não é fácil, nunca foi. Todos os que já tentaram sabem muito bem disso. Um enredo criativo, com narração inspirada, diálogos críveis, personagens que gerem empatia, plot twists, clímax, descrições ricas, que resultem na imersão de quem lê. Contudo, mesmo que tais objetivos sejam todos miraculosamente alcançados, ainda assim, o leitor “A” não gostará da personagem “X” ter usado a palavra “gorda”, pois denota preconceito (não só da personagem, provavelmente também do autor, um lipofóbico de marca maior – não use neologismos!). O leitor “B” desistirá do livro no terceiro parágrafo ao ler “efêmero” e não ter a mais pálida ideia do significado (afinal, você abusou mesmo com o “lapso” e o “maniqueísta” nos 1° e 2° parágrafos, o que se poderia esperar?). “C” dirá que houve pistas demais sobre quem era o misterioso assassino, “D”, que tudo ficou escondido e demasiadamente críptico. Houve violência além da conta, faltou um sanguinho…

 Quase todos os dias, quando passo os olhos em tópicos de grupos de escritores, leio tais conselhos conflitantes. Quando escrevo algo e exponho, recebo muitas vezes feedbacks que são como água e óleo. E que lição tiramos de tais ideias, do retorno dos nossos leitores? Ou dos conselhos de nossos colegas de infortúnio?

 A resposta talvez esteja nos livros de alguns autores consagrados. Abro um de meus preferidos e leio: “– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram.”

 O que raios é “nonada” ou “prascóvio”? Vou ao dicionário e aprendo algo novo. Minha nossa! Quanta beleza bruta num parágrafo só!

 “[…] O médico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora, ou parecido, Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso óculos, E diz-me que foi de repente, Sim, senhor doutor, Como uma luz que se apaga, Mais como uma luz que se acende, Nestes últimos dias tinha sentido alguma diferença na vista, Não, senhor doutor, Há, ou houve, algum caso de cegueira na sua família, Nos parentes que conheci ou de quem ouvi falar, nenhum, Sofre de diabetes, Não, senhor doutor, De sífilis, Não, senhor doutor, De hipertensão arterial ou intracraniana,[…]”

 Tanta repetição! Que falta de respeito com a pontuação! Como se escreve assim, com tanta vírgula, sem quebrar parágrafos? Que interessante!

 Em “2666” do Roberto Bolaño – que usa pontuação convencional – há frases que se esticam por páginas e páginas. O autor também costuma nomear suas personagens com nome e sobrenome e repeti-los (os nomes completos) sem preocupação, sem usar sinônimos, sujeito oculto e outros artifícios. Que falta de respeito pelo leitor, não?

 E dá-lhe o Machadão conversando com suas queridas leitoras. E a inclassificável Clarice Lispector dividindo a literatura brasileira em A.C. e D.C. (e o “C” não é de Cristo).

 A verdade, a verdade (veja, estou repetindo!) é que não há receitas. Que é impossível ir de encontro a todos os gostos, não ofender por causa de “X” ou “Y”. Escrever é correr riscos, acho que foi o colega Fernando de Abreu que já escreveu isso.

 Um bom livro sempre encontrará bons leitores – seja nessa geração ou na próxima – pois você não esperava ficar rico com literatura, não? Simplifique, vai, isso, nivela por baixo baseado no que você espera como público, e você terá uma obra menor, sombra da que você não teve bagos para parir. Pasteurize, seu corno, seja politicamente correto, e você terá menos processos com os quais se preocupar. Terá também com o que se arrepender, por saber que preferiu se chafurdar na mediocridade, que não ousou, que teve a oportunidade mas não subiu às montanhas e nunca tocou o rosto de deus.

 Moça ou cara: o seu objetivo é não morrer, é deixar sua marca neste mundo. Este deve ser o seu norte. A sua obra é seu ticket para a imortalidade.

 Não quero dizer, em absoluto, que não existam conselhos valiosos, que bons leitores não possam fornecer um retorno inestimável, que gente mais experiente e culta não deva ser consultada. Apenas quero destacar que você, escritor, você deve estar no comando, o timão firme em suas mãos durante a borrasca. Se tiver certeza, siga o caminho, o seu coração, intuição ou o que o valha. Se tiver dúvidas, consulte aqueles cujas opiniões você considera e respeita, depois decida.

 Não. Tente. Agradar. A. Todos. Não se deixe podar. Taí, talvez, alguns conselhos que você possa aprovar sem restrições…

Rubem Cabral é engenheiro de software, nascido na cidade do Rio de Janeiro e radicado em Zurique, Suíça. Apaixonado por literatura fantástica, já foi publicado em algumas antologias, tais como a bem conhecida “FC do B”, uma coletânea de ficção científica anual da Tarja Editorial. O autor foi selecionado em primeiro lugar na categoria conto no concurso Raízes, em Genebra no ano de 2010. É o organizador da Antologia “!” de Contos Fantásticos e em setembro deste ano lança seu livro de contos, “A Linha Tênue”, em uma nova edição pela Caligo. Para conhecer mais sobre seu trabalho, visite o blog do autor: Contos Agridoces. Contato: rudam@msn.com

Escrever para deixar a alma falar

Por Rubem Cabral

E então veio a necessidade urgente de colocar aquilo tudo para fora, de expulsar aquele frio de alma, a dor paralisante que poderia até me matar se eu não me mexesse. E, ainda na velha rede social Orkut, descobri comunidades de gente que escrevia e eu pensei: “oras, acho que consigo fazer isso também”.

Em 2008, como resultado de alguma conspiração do destino, vi-me de repente completamente sem chão: vendi – literalmente – tudo que tinha, colei um visto laranja e dourado no meu passaporte e migrei para viver num país que eu conhecera por curtos dois dias, quando vim fazer a minha entrevista alguns meses antes.

Permita-me explicar melhor: em junho de 2008, depois de um bom tempo poupando e fazendo mil planos, eu viajei à Europa como turista, com ideia maluca de conhecer a República Tcheca, Grécia, Áustria, Dinamarca, Polônia e Suécia (ufa!) em apenas 25 dias. O que eu não esperava é que duas semanas antes de viajar eu seria contatado por um ex-colega de trabalho que vivia em Zurique, enviaria meu currículo por e-mail e acabaria inserindo também a Suíça no meu roteiro já tão complicado, para visitar a cidade num feriado e fazer a tal entrevista no dia seguinte.

Quando cheguei ao Brasil, depois de férias tão cansativas, senti um frio na barriga, pois estava lá, na minha caixa do correio: o contrato por assinar, a coisa que mudaria a minha vida…

Bem, usamos esse espaço aqui da Caligo para falar sobre escrever, sobre livros, leituras e assuntos afins, e o que essa introdução tem a ver com o que esse espaço se propõe?

Eu não escrevia ficção até vir viver no exterior, até novembro de 2008, e talvez a principal mola propulsora para que eu escrevesse tenha sido a minha solidão.

Sou do tipo de pessoa naturalmente de bem com a vida, não me deixo abater por dificuldades e tristezas, não sou como a Poliana das histórias, porém costumo ver os copos quase sempre meio cheios. Entretanto, eu seguramente dera um passo maior do que as pernas, descobri que eu não estava preparado para tal desafio: encarar um longo inverno, escuro e gelado, ficar longe de todos os que amo, aprender uma nova língua e cultura, ter que refazer todos os meus laços.

Depois da euforia da novidade do início, fui perdendo o ânimo aos poucos. Toda sexta-feira, depois de chegar do trabalho, sentava no sofá da sala, assistia à tevê, navegava a esmo na internet e me afundava numa depressão que era inédita para mim. Dormia ali, no mesmo sofá, e quando a noite do domingo chegava e eu notava que não saíra do lugar, conseguia afundar ainda mais.

E então veio a necessidade urgente de colocar aquilo tudo para fora, de expulsar aquele frio de alma, a dor paralisante que poderia até me matar se eu não me mexesse. E, ainda na velha rede social Orkut, descobri comunidades de gente que escrevia e eu pensei: “oras, acho que consigo fazer isso também”.

Eu não tenho formação em Letras ou curso semelhante, já li muito, porém sempre fui muito eclético e provavelmente consumi muito mais abobrinhas, HQ’s e Best-Sellers do que os “grandes clássicos da literatura”. Sou alguém de Exatas, minhas melhores notas sempre foram em matérias da área. Graduei-me em Engenharia Química e em Tecnólogo de Sistemas: nunca tive que criar parágrafos com frases lindamente construídas ou inserir poesia em relatórios.

Em função disso, naturalmente, quando comecei a tentar escrever ficção, eu era muito ruim. Adjetivava com uma metralhadora cuja munição era infinita, pontuava feito um canguru bêbado num navio durante uma borrasca, repetia palavras tal qual alguém desmemoriado, desenterrava vocábulos de fossas abissais e enfeitava meus textos com muitos deles, sentindo-me um novo Imortal da Academia Brasileira de Letras. E achava tudo o que eu escrevia ótimo, fantástico. Descobrira o Hemingway e o Machado de Assis que viviam dentro de mim!

No entanto, não existe paraíso sem serpente… Logo surgiram detratores de meu talento inquestionável – malditos, malditos! – gente invejosa que ousava dizer: “isso está muito mal escrito!”, ou pior: “não entendi nada!” Contudo, feito eu comentei antes, eu não sou do tipo que se abata com facilidade, sou o Joseph Climber da literatura. Ora, está mal escrito?! Irei mostrar então o que eu consigo fazer! This… is… Sparta!

E esse caminho de aprendizado, de tentar fazer melhor, de inventar novas formas de escrever, de experimentar porque eu não suporto repetir, eu tenho tentado segui-lo desde então. Muitas vezes sendo rechaçado ou incompreendido, outras vezes elogiado, e em todas as ocasiões, sempre aprendendo muito.

Comecei a ter mais fé na minha capacidade de criar algo que prestasse ao ser premiado em concursos literários, ao ter contos selecionados para antologias em que eu – incrivelmente – não tivera que pagar um centavo sequer!

Hoje, vejo a obra modesta que construí nesses anos. Contos selecionados em publicações importantes, como a FC do B (Tarja), Anuário Fantástico (Terracota). Antologias, como a maravilhosa “!” publicada pela Caligo, com textos ótimos do período super fértil da comunidade literária “Contos Fantásticos”, e muitas outras mais.

E outra vez, agora encaro o desafio de tentar fazer algo maior, de escrever um romance, com muitas personagens, muitos cenários, amarrar as pontas, dar voz e personalidade a cada um. Dar pistas do que vai ocorrer, sem soltar spoilers de minhas próprias ideias e, principalmente, tentar controlar minha afobação de velho principiante.

Escrever talvez tenha salvado a minha vida, ou ao menos me salvou de algum tratamento com antidepressivos, e o melhor de tudo: me forneceu instrumentos para dar vazão ao turbilhão que ferve em minha mente. E como não fosse suficiente, ainda me fez conhecer gente que admiro, que vibro ao ler cada novo trabalho, ainda que não conheça pessoalmente. Contudo, são como velhos amigos, cujas vozes imaginárias eu posso escutar mesmo estando tão distante de casa.

Então, para você que tem medo de ousar, de tentar escrever e expor suas ideias, um conselho: não tenha mais. E mais um conselho: aceite as críticas, de coração aberto. Algumas serão frívolas e despeitadas, porém as boas críticas te colocarão no eixo e efetivamente farão com que você cresça como escritor.

Rubem Cabral é engenheiro de software, nascido na cidade do Rio de Janeiro e radicado em Zurique, Suíça. Apaixonado por literatura fantástica, já foi publicado em algumas antologias, tais como a bem conhecida “FC do B”, uma coletânea de ficção científica anual da Tarja Editorial. O autor foi selecionado em primeiro lugar na categoria conto no concurso Raízes, em Genebra no ano de 2010. É o organizador da Antologia “!” de Contos Fantásticos. Para conhecer mais sobre seu trabalho, visite o blog do autor: Contos Agridoces. Contato: rudam@msn.com