Resenha: em busca desse conceito perdido*

Por Juliana Brina

Façamos, porém, o caminho oposto. Se o último estágio da sabedoria é a simplicidade; se o demônio esconde-se nos detalhes; e se o dicionário é o pai dos burros, sejamos humildes e consultemos, nos velhos e bons alfarrábios, o significado da misteriosa palavra resenha […]

A despeito do crescimento recente do número de blogs literários no Brasil, o uso da palavra resenha tem sido cada vez mais raro na blogosfera brasileira. Enquanto, nos blogues gringos, ninguém tem pudor de assumir que faz book review, Buchrezension, recensione letteraria, critique littéraire, ou reseña de libros, na terra brasillis, a simples palavra resenha é tratada com a deferência especial dos iniciados. Fala-se em impressões de leitura, quase-resenha (um quase-conceito?), experiência de leitura (?), breves observações de leitura (??), vivências de livros (???). A lista de substitutivos para o vocábulo resenha é extensa, criativa (afinal, temos nosso famoso jeitinho), por vezes poética, mas nada precisa. Em conversa com um velho integrante da blogosfera brasileira, fui informada de que o conceito de resenha “exige uma escrita complexa”, e que tal conceito está “fundado em teorias”. Que me perdoe o amigo, mas, experimentada na longa tradição dos academicismos de nossa República de Bacharéis, não posso deixar de me lembrar da Novilíngua, tal como descrita na obra 1984 de Orwell: a remoção de palavras, ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de se reduzir o escopo do pensamento.

Vejam bem: estudar teorias e abstrações é meu mais querido passatempo. Esse prazer foi o principal motivo pelo qual tive o sonho (e, posteriormente, a sorte) de estudar em um país que é muito conhecido pela capacidade de abstração e sistematização de alguns de seus pensadores. Por isso, o uso descontextualizado e meramente retórico da palavra “teoria” é algo que sempre me entristece. Uma das coisas mais importantes que aprendi na terra do Apfelstrudel é a seguinte: os grandes teóricos que eu tanto admiro buscam, inicialmente, dominar os conceitos mais simples de sua área do conhecimento; apenas posteriormente, a partir de tais tijolos pequeninos, constroem suas grandes abstrações. Não basta dizer o que uma coisa não é: faz-se necessário, ainda, efetivamente dizer o que ela é, ou seja, defini-la em termos precisos. Não é à toa que os vocábulos em alemão são de uma precisão e concretude por vezes espantosa. No Brasil, não raro, fazemos o caminho contrário: partimos da palavra “teoria”, lançada em abstrato para imposição de nossos argumentos, e negligenciamos os aspectos mais básicos ou concretos do tema que pretendemos expor. Afinal, a palavra “teoria” é um curinga eficiente, e soa muito mais convincente e definitiva – quase VIP.

Façamos, porém, o caminho oposto. Se o último estágio da sabedoria é a simplicidade; se o demônio esconde-se nos detalhes; e se o dicionário é o pai dos burros, sejamos humildes e consultemos, nos velhos e bons alfarrábios, o significado da misteriosa palavra resenha:

– Dicionário Aurélio:
s.f. Relação minuciosa. / Enumeração por partes. / Escrito em que se dá uma ideia geral e sumária de uma obra, sem se demorar em apreciações críticas. (grifo meu)

– Houaiss:
substantivo feminino
ato ou efeito de resenhar
1 descrição feita com detalhes, com pormenores
2 contagem, conferência, verificação
3 tipo de resumo de texto de extensão maior que a da sinopse
4 análise crítica ou informativa de um livro; recensão

– Dicionário Priberam da língua portuguesa:
re·se·nha
(derivação regressiva de resenhar)
substantivo feminino
1. Enumeração.
2. Relação.
3. Descrição minuciosa.
4. Resumo detalhado de um texto. (grifo meu)
5. Análise crítica de um artigo ou de uma obra (ex.: resenha de um livro). = RECENSÃO (grifo meu)

– Michaelis:
re.se.nha
sf (der regressiva de resenhar) 1 Ação ou efeito de resenhar. 2 Descrição minuciosa. 3 Enumeração cuidadosa e circunstanciada. 4 Lista pormenorizada. 5 Notícia em que há certo número de nomes ou assuntos similares.

– Léxico.pt:
n.f.
1. Caracterização pormenorizada;
2. Denominação utilizada para contagem, enumeração;
3. Avaliação de caráter informativo ou crítico de uma obra literária ou de um artigo. (grifo meu)

– Infopédia.pt (Porto Editora):
recensão
nome feminino
1. ver recenseamento
2. breve apreciação crítica de um livro ou de um escrito (grifo meu)
3. operação de crítica textual que consiste em reunir, descrever e classificar os testemunhos

Interessante observar, ainda, a origem do vocábulo resenhar: do latim resignāre, «lançar em rol», enumerar. Por meio da análise do que há de comum entre os conceitos acima expostos podemos perceber que o conceito de resenha compõe-se dos seguintes elementos: enumeração; descrição; brevidade; simplicidade; avaliação crítica não aprofundada; impressões pessoais; caráter informativo; ideia geral e sumária.

Como já nos ensinou Paulo Freire, o simples não é fácil, e é difícil ser simples. Como todos já vivemos algo semelhante à situação retratada no conto A roupa nova do rei, muitas vezes é difícil perceber e assumir situações auto-evidentes: o rei está nu? Tenhamos em mente que o dicionário pode ser considerado uma fonte não autorizada pelos críticos do uso do vocábulo resenha, que demandam um substrato “teórico”. Enquanto esses críticos não escrevem seu dicionário pessoal e nos dão a conhecer o que as coisas são, aprofundemos nossa análise sobre esse tema nada profundo.

Uma resenha não é mero resumo, porque contém, ainda, as impressões pessoais do leitor. Porém, resenha não se confunde com ensaio, e não é o mesmo que artigo científico, nem equivale a uma peça de crítica literária acadêmica. Leitores não precisam ser teóricos de literatura, para possuírem impressões pessoais sobre livros. Não precisamos de neologismos, temos conceitos suficientes: resumo, resenha, ensaio, artigo, monografia, e por aí vai. Pretender impor “objetividade conceitual” por meio da substituição do uso da palavra resenha por conceitos pouco precisos (como “quase-resenha”) é, no mínimo, contraditório. Entretanto, como somos quase-puristas e escrevemos nossas quase-resenhas, mesmo no meio informal da blogosfera, leiamos o que nos ensina o Guia de produção textual da PUC/RS, no capítulo Como elaborar uma resenha, disponível aqui.

1. Definições

Resenha-resumo:
É um texto que se limita a resumir o conteúdo de um livro, de um capítulo, de um filme, de uma peça de teatro ou de um espetáculo, sem qualquer crítica ou julgamento de valor. Trata-se de um texto informativo, pois o objetivo principal é informar o leitor.

Resenha-crítica:
É um texto que, além de resumir o objeto, faz uma avaliação sobre ele, uma crítica, apontando os aspectos positivos e negativos. Trata-se, portanto, de um texto de informação e de opinião, também denominado de recensão crítica.

(…)

3. Objetivo da resenha
O objetivo da resenha é divulgar objetos de consumo cultural – livros,filmes peças de teatro, etc. Por isso a resenha é um texto de caráter efêmero, pois “envelhece” rapidamente, muito mais que outros textos de natureza opinativa.

(…)

6. O que deve constar numa resenha
Devem constar:
O título
A referência bibliográfica da obra
Alguns dados bibliográficos do autor da obra resenhada
O resumo, ou síntese do conteúdo
A avaliação crítica (grifos meus)

Eva Maria Lakatos e Marina Marconi, em sua obra Fundamentos da Metodologia Científica, ensinam-nos que resenha é uma produção textual, por meio da qual o autor faz uma breve apreciação, e uma descrição a respeito de obras (cinematográficas, musicais, teatrais ou literárias), com o objetivo de apresentar tal objeto, de forma sintetizada. Uma resenha deve conter uma análise e um julgamento (de verdade ou de valor). Segundo as autoras, uma resenha pode ser: 1) técnica ou descritiva, como no caso dos resumos de livros técnicos; 2) crítica ou opinativa, na qual um objeto é avaliado segundo critérios de valor, de beleza, ou estilo; 3) temática, na qual são apresentados vários textos ou autores que tratam do mesmo tema.

Após essa breve pesquisa, confesso que distinguir entre os conceitos de resenha (não acadêmica) e impressões de leitura ou quase-resenhas é tarefa para puristas ou adeptos da Novilíngua. Mas que o façam em termos precisos, e não se escondam atrás de palavras vagas, como a curinga “teoria”. Uma resenha pode ser considerada esteticamente boa ou ruim por alguém; mas não deixará de ser… resenha. Não tenhamos pudor de usar essa que é uma das mais úteis palavras de nossa bela e última flor do Lácio.

Sobre o uso retórico da palavra “teoria”

A palavra “teoria”, quando utilizada em termos abstratos, reduz-se a mero artifício retórico: “Cheguei a essa conclusão, depois de analisar e estudar inúmeras teorias”; “Em teoria, é assim”; “Sob o ponto de vista teórico, entendo que…”. Qual teoria específica? Quem a formulou? Em qual contexto? Sob qual justificativa? E, mais importante, por que você adota essa teoria em detrimento das demais já formuladas sobre o mesmo tema? Quando a palavra é usada no plural (“as teorias”), a abstração é ainda maior: Quais teorias? São conciliáveis entre si do ponto de vista lógico? Quanto maior o número de teorias, mais fundamentado é seu argumento? Trata-se de uma questão quantitativa, ou qualitativa? Mostre suas cartas, amigo.

A falta de maior especificação do marco teórico adotado é deveras conveniente para aquele que pretende fundamentar seu argumento em formulações do gênero “meu pensamento está embasado em teorias”: 1) o falante se exime da responsabilidade por sua afirmação, na medida em que dá a entender que essa estaria embasada em fundamentos incontestáveis; 2) o falante se exime da possibilidade de ter cometido um erro (“não sou eu que afirmo, são ‘as teorias’ “); 3) o falante se exime da responsabilidade de fornecer argumentos mais consistentes (a palavra “teorias” soa como algo superior e aprofundado); 4) o falante não possui maturidade intelectual para permitir que suas ideias sejam criticadas, sem que isso seja visto como um ataque pessoal; 5) o falante pretende se imunizar contra críticas, especialmente quando evoca a palavra “teoria” em um debate não-teórico; 6) o falante pretende eliminar a possibilidade da discordância, porque não é apto a conviver com quem pensa diferente; 7) o falante pretende fechar um debate que, por sua própria natureza, é aberto (teorias contrastantes há várias, basta que se tenha a honestidade de especificá-las); 8) o falante se esconde por trás de um argumento de autoridade, uma falácia do tipo ad verecundiam ou magister dixit. Lembremo-nos, nesse ponto, da Lógica de Aristóteles: o argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit, também conhecido como argumento de autoridade, é uma falácia lógica, na qual, a fim de validar seu argumento, o falante apela para a palavra de alguma autoridade.

Afinal, o que é uma teoria? Consultemos os alfarrábios:

– Aurélio:
s.f. Conhecimento especulativo, ideal, independente das aplicações. / Conjunto de regras, de leis sistematicamente organizadas, que servem de base a uma ciência e dão explicação a um grande número de fatos. / Conjunto sistematizado de opiniões, de idéias sobre determinado assunto. / Fam. Utopia, irrealidade. (grifos nossos)

– Houaiss:
substantivo feminino
1 conjunto de regras ou leis, mais ou menos sistematizadas, aplicadas a uma área específica
2 conhecimento especulativo, metódico e organizado de caráter hipotético e sintético
3 Derivação: por metonímia.
doutrina ou sistema resultantes dessas regras ou leis
4 conjunto sistemático de opiniões e ideias sobre um dado tema
5 qualquer noção abrangente; generalidade

Alguns elementos comuns ao vocábulo mencionado são seu caráter especulativo, abstrato, sistemático, voltado para a formulação de leis e categorias gerais que permitam a explicação de um fenômeno. A adoção da teoria X em detrimento à Y não fecha um debate: ela o abre. Por sua generalidade, teorias procuram explicar objetos mais amplos do conhecimento: a teoria da evolução; a teoria das supercordas; a teoria da justiça; a teoria literária… Uma “teoria sobre o conceito de resenha” possuiria um objeto um tanto restrito, para que se permitam maiores abstrações, e para que o uso do termo “teoria” se justifique. Entretanto, não considero improvável que algo do gênero tenha sido realizado: lembremo-nos das Viagens de Gulliver e da simpática máquina de inventar teorias…

Brincadeiras à parte, gostaria de citar aqui a melhor teoria já formulada sobre o tema em debate: a Teoria do Medalhão, no conto de Machado de Assis, disponível em domínio público aqui.

“Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória.(…) proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.”

Machado de Assis, Teoria do Medalhão

* Texto originalmente publicado aqui.

Juliana Brina é brasileira e atualmente mora na Alemanha. Cuida dos livros como velhos conhecidos que são, falando sobre eles em um canal do YouTube pra lá de ótimo (quem não conferiu ainda, que largue tudo e vá correndo!). Também escreve em um blog chamado “O Pintassilgo na Biblioteca”.

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