Uma crítica sobre a crítica

Por Thais Lemes Pereira

O segredo está nas mãos do autor. Ao receber a crítica de sua obra – ou analisar a opinião de alguém sobre o livro de outro escritor – é crucial conhecer a pessoa que a emitiu, se quiser levá-la em consideração.

 

O texto está pronto. Seja o romance, o conto ou o artigo. Um dos próximos passos dado por escritores – iniciantes ou não – é submetê-lo à análise crítica de escritores e leitores; muitas vezes de amigos. Um passo importante quando se trata de identificar erros gramaticais e possíveis furos na história. O autor, tão envolvido e compenetrado com a obra, muitas vezes não consegue enxergá-los após dedicar certo tempo àquela escrita. Opiniões são bem-vindas, mas exprimir um “conceito pessoal” (preconceito) a respeito da obra de alguém é positivo ou negativo?

Na verdade, a pessoa que irá emitir essa opinião não tem muito que fazer. Expressar um conceito, hoje em dia, é algo difícil e livrar-nos dos nossos gostos, na hora de apontar, algo mais difícil ainda. Seria maravilhoso se cada leitor beta tivesse a capacidade de olhar para uma obra deixando de lado suas crenças e emitindo a real sintonia que teve com a obra. Audácia que muitos diriam não resultar em nada, pois o objetivo dessas leituras é distinguir o que determinado público achará da história e da forma como foi contada. Porém, muitas vezes, submetemos nossos textos à análise de pessoas que não se distinguem culturalmente uma das outras. Conseguimos, assim, catar as pedras do feijão, mas poucos são capazes de colocá-lo para cozinhar.

O segredo está nas mãos do autor. Ao receber a crítica de sua obra – ou analisar a opinião de alguém sobre o livro de outro escritor – é crucial conhecer a pessoa que a emitiu, se quiser levá-la em consideração. É importante que o receptor conheça quais os parâmetros que levaram o leitor a fazer determinado comentário. Perguntando se foram formulados a partir de conceitos ou de crenças, pois a última é mutável. Posso, nesse segundo, emitir a opinião sobre determinado texto e, ao lê-lo novamente, adquirir uma visão completamente diferente.

Tema que não vale apenas para escritores, mas para leitores que se deixam induzir pelo julgamento traçado de outra pessoa, sem levantar questionamentos. Sem pensar o quanto somos diferentes em nossos gostos, mesmo que sejam parecidos. Definimos, com a ajuda de críticos (que podem ser qualquer pessoa que emite opinião sobre determinado texto e não apenas o profissional), o que é uma obra boa e outra ruim e a resignação resulta na falta da liberdade de escolha.

Apesar disso, é uma etapa que não deve ser ignorada. O confronto das ideias é o processo válido, que trará o resultado desejado. Aceitar a opinião de alguém, sem confrontá-la com a sua ou, melhor ainda, de outras pessoas, não surte efeito no que diz respeito ao crescimento pessoal como escritor: no crescimento da sua obra. No que diz respeito ao conforto, quando apreciam o que escrevemos sem traçar pontos a serem melhorados, muitas vezes, devemos nos fazer as mesmas perguntas.

Então, será que não posso aceitar nada de bom grado? Em minha opinião “pessoal”, não! Uma crítica será bem aproveitada quando analisada, mesmo que já seja fruto de uma análise. É o ato de saborear o que o leitor pensa sobre seu texto, sem apenas ingerir.

Critiquem minha crítica sobre a crítica e todas as demais que encontrarem pela frente, caso cheguem a conclusão de que é viável.

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thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.

Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

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Entrevista: Gustavo Araujo

Por Thais Lemes Pereira

Em 2015, a Caligo Editora publicará o livro “Pretérito Imperfeito”, do escritor Gustavo Araujo. Além de escrever, Gustavo é organizador do site Entre Contos, que promove Desafios Literários. Formado em Direito, pai de família, um pouco de tudo pode ser conferido na entrevista que ele me concedeu durante a semana: o que o motiva a escrever, suas inspirações e, principalmente, o que devemos esperar do tão aguardado “Pretérito Imperfeito”.

 

– De onde surgiu a inspiração para o livro Pretérito Imperfeito?
Em 2009 eu passei pela experiência mais dramática que um homem pode experimentar. Fui pai pela primeira vez. Em pouco tempo a rotina da casa se transformou, com todas as atenções voltadas para a nossa bebezinha, chamada Sofia.
Como todos os pais de primeira viagem, desde o início tentamos influenciar positivamente nossa pequenina com o que os estudiosos consideravam positivo: música clássica, principalmente Mozart, e vídeos do Baby Einstein. Funcionou por um tempo, mas assim que a Sofia cresceu, nosso poder de decisão foi diminuindo. Como resultado, em pouco tempo éramos bombardeados com Patati Patatá e Galinha Pintadinha.
Certa manhã, assistíamos pela enésima vez à “Galinha Pintadinha 2”. Para quem não sabe, são músicas infantis populares ilustradas com desenhos animados. Quem tem filhos sabe que a criançada adora. Pois bem, uma das canções da coletânea é a famosa “Se essa rua fosse minha”, cuja animação é especialmente caprichada.
Não sei se eu estava especialmente sensível na ocasião, mas de alguma maneira, a música me capturou. Quando dei por mim, estava imerso na melodia e na letra, completamente tomado pela melancolia e pela nostalgia que permeiam os versos.
A menina que se apaixona por um anjo que vive num bosque. Um amor impossível.
Inspirado, escrevi um conto chamado “A Menina na Floresta” e publiquei na comunidade “Contos Fantásticos”, do antigo Orkut. A repercussão foi bastante positiva, o que terminou por plantar na minha cabeça a ideia de um dia desenvolvê-la na forma de um romance.

 

– Para aqueles que ainda não conhecem, qual a história do livro?
Levei um bom tempo para começar a transformar “A Menina na Floresta” em um romance. Acho que de certo modo eu tinha receio dessa transformação. Não dava simplesmente para manter a mesma linha narrativa e encher linguiça. Além do mais, todo mundo que escreve sabe que o autor jamais é dono da história. À medida que escrevemos, a narrativa ganha autonomia, conduz a trama a situações que nem sequer imaginávamos. Isso sem falar na rebeldia dos personagens, que praticamente exigem mudanças naquilo que se havia planejado.
Bom, de todo modo, um dia, eu resolvi me sentar e escrever. Em poucas horas tinha a espinha dorsal montada e, apesar da origem “Pretérito Imperfeito” terminou bastante diferente de “A Menina…”
Sim, a linha argumentativa principal permaneceu a mesma: um menino e uma menina que inadvertidamente se encontram em um bosque e que acabam se apaixonando. No entanto, por se tratar de uma história maior, um romance, outros elementos foram inseridos, de modo a tornar a narrativa toda mais rica e os personagens mais profundos.
Pois bem, a história se passa, na maior parte do tempo, na cidade fictícia de Porto Esperança, no interior do Paraná, ainda que haja “locações” em Passo Fundo e em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, além do Rio de Janeiro.
A trama toda, na verdade, se divide em três.
A primeira trata de Toninho.  É um menino de treze anos com uma dificuldade enorme para ler em público, o que lhe traz problemas na escola, e que também vive uma relação complicada com o próprio pai. Por conta disso, prefere se isolar. Passa os dias estudando passarinhos usando um velho manual de aves que ganhou de presente da mãe, já falecida, e refugiando-se em uma clareira do bosque que circunda a cidade.
Paralelamente, conhecemos a menina Cecília, não por meio de um narrador onisciente, mas por intermédio de cartas, trechos de seu diário endereçados a alguém chamada Carol. Cecília é muito inteligente e questionadora. Adora ler e escrever. Porém, vê-se em uma situação difícil, impedida de sair de casa devido às atividades misteriosas em que seu pai está envolvido.
Um terceiro foco narrativo aborda a vida do pai de Toninho. Espalhada em capítulos alternados, a história de Pedro Vieira é narrada desde sua infância árdua num sítio no Rio Grande do Sul até os anos que antecedem a velhice, já em Porto Esperança. Pedro é dono de um passado perturbador, tendo trabalhado como agente da polícia secreta de Filinto Müller nos anos 30, uma fase da vida que ele gostaria de esquecer.
Naturalmente essas três realidades – de Toninho, de Cecília e de Pedro Vieira – se entrelaçam no tempo e no espaço, trazendo à tona questões pessoais, arrependimentos, erros, sacrifícios e redenção.
Gosto, entretanto, de dizer que o livro trata de amor. Amor que é descoberto pela primeira vez, amor entre pais e filhos, amor por literatura, amor pela escrita, amor por quem já se foi. Pode parecer piegas, mas creio que o tema, longe de ter se esgotado, ainda permite abordagens fora do contexto usual.

 

 – As mulheres, em suas histórias, são sempre muito marcantes. Nomes fortes, personalidades definidas. Porém, seu novo livro conta com dois personagens importantes na história: Toninho e seu pai. Foi difícil desenvolvê-los?
Na verdade, essa personalidade forte que tento emprestar às mulheres nas histórias que escrevo é algo mais recente. No início, meus contos gravitavam o universo adolescente masculino, influência de meus próprios dias de menino. A leitura de autores como Niccolò Ammaniti, Carlos Ruiz Zafón, Khaled Hosseini e John Boyne só reforçaram essa tendência, de modo que escrever sobre Toninho foi algo quase natural.
Já com o pai, Pedro Vieira, o processo de criação foi bem diferente. Para ser franco, na primeira versão do “Pretérito…”, ele era pouco mais que um figurante, alguém cujas características eram referidas apenas de modo indireto. A intenção, na época, foi cobri-lo com uma aura de mistério. Porém, como eu disse antes, a trama às vezes se rebela contra o criador, criando vida própria, com personagens demandando mudanças. Foi o que aconteceu. Ao reler a primeira versão tive a sensação de que faltava algo, que talvez devesse desenvolver mais o pai de Toninho. Discuti a questão com alguns amigos e a sugestão foi que eu desse vazão a essa necessidade.
Escrevi, então, a história de Pedro Vieira. Hoje não consigo conceber o “Pretérito…” sem ele, sem a riqueza de detalhes que permeia sua existência. Embora o foco principal da narrativa continue com Toninho e Cecília, é Pedro quem captura a atenção do leitor ávido por questões filosóficas, com seus inúmeros defeitos, com sua transformação de menino ingênuo em alguém a um passo da monstruosidade.
Para dar-lhe profundidade, busquei inspiração em obras como “O Continente”, de Érico Veríssimo, “Camaradas”, de William Waack, e principalmente em “Olga”, de Fernando Morais. Arrisco a dizer que Pedro é, em maior ou menor grau, alguém que conhecemos, de repente nós mesmos, com nossos pecados, com nossos arrependimentos e com nossa eterna busca por redenção.

 

– É possível perceber, em seus textos, a influência de autores e livros que você encontra afinidade, chegando a comentar isso algumas vezes. Isso ocorre de forma consciente?
Totalmente. Não há autor que consiga se desvencilhar daqueles que admira. Se gostamos de determinada obra ou estilo, inevitavelmente acabaremos por aproveitá-lo. Foi a isso que me referi na resposta da pergunta anterior, sobre os autores que escrevem a respeito do universo adolescente.

 

– E o quanto sua vida está presente na escrita?
Eu diria que 90%. Lugares, pessoas, fatos. Nossa escrita, por mais que resulte em um universo imaginário, reflete nossas próprias experiências. Pelo menos é o que eu acho. Na minha concepção, é isso que torna a história verossímil: falar do que se conhece, especialmente se há dramas pessoais e relações humanas. Obviamente, é dado ao autor ousar – e é até recomendável que o faça – mas se não souber, ou se não pesquisar profundamente sobre o desconhecido, o resultado pode ser ruim. Não há nada pior do que uma narrativa desprovida de credibilidade.

 

– Além de escrever, você mantém o Site Entre Contos, que promove Desafios Literários. As discussões, em torno dos contos que são publicados, colaboraram de alguma forma na construção do seu livro?
Sim, colaboram muito. O Entre Contos é uma experiência que tem se revelado fantástica na medida em que permite a troca de experiências, o aprofundamento de questões técnicas e de mérito e, o mais importante, a lapidação do estilo do autor.
Naturalmente, todo escritor quer ser lido. Chego a pensar que isso vale mais do que dinheiro para quem escreve, afinal, ninguém que tem na escrita o ofício preferido tem a ilusão de se tornar milionário.
O Entre Contos deu certo por causa disso. É um dos poucos lugares em que escritores de todos os níveis têm seus textos examinados, não só sob o aspecto técnico, mas principalmente sob a ótica emocional, sob o impacto que causam.
No que diz respeito a mim, aproveitei, em mais de uma ocasião, para criar contos que de algum modo apresentassem fatos parecidos como aqueles presentes no “Pretérito…”, até para aferir a receptividade do leitor. Quase todos os contos que escrevi para os desafios do EC guardam alguma semelhança com trechos do “Pretérito…”, especialmente as questões filosóficas e as relações interpessoais. “Reconstruindo Sarah Parker”, “Radiação” e “Tábula Rasa” são alguns exemplos.

 

– Houve altos e baixos durante o processo de criação do livro? Alguma hora você pensou em parar de escrevê-lo? O que te motiva?
Escrever um romance é algo que, para mim, demanda muita dedicação. Não pude mergulhar de cabeça no processo de criação do “Pretérito…”, ainda que tivesse bem definida a linha a seguir, porque sua elaboração se deu durante a gravidez e o nascimento de minha segunda filha, a Alice, a quem, aliás, o livro é dedicado.
Evidentemente, custei para terminar o romance. Levei cerca de três anos para completá-lo, desde a concepção original até a versão final, remetida para a Caligo. Apesar desse tempo todo, não posso dizer que houve altos e baixos. Houve, sim, épocas em que eu me permiti dedicar mais tempo ao livro. Mas a ideia, os fatos, a trama, tudo esteve sempre na minha cabeça, embora eu tenha demorado um tanto para colocar tudo no papel.

 

 – O que o leitor deve esperar de Pretérito Imperfeito?
Sinceramente, não pretendi criar uma história redondinha, com questões edificantes ou lições moralmente consagradas. Nada disso. O “Pretérito…” é orgulhosa, ostensiva e propositalmente imperfeito. Minha intenção foi simples: criar uma narrativa que despertasse no leitor curiosidade suficiente para virar a página, para prosseguir, para se envolver na trama.
Em algum ou em outro momento, o leitor haverá de se identificar com os personagens e com as situações, indagando a si mesmo o que faria, qual seria sua própria reação, criando ao mesmo tempo angústia e enlevo.
Foi essa, em suma, a intenção: jogar com as emoções, não deixar o leitor indiferente.

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Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013. Atualmente escreve o romance “Homicídios Manchados de Rosa”.

Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Literatura infantil: os primeiros passos

Por Thais Lemes Pereira

 

Com a expansão dos meios de comunicação, ficamos cada dia mais surpresos com os livros que as crianças andam lendo. Alguns sequer possuem características que antes considerávamos básicas para atrair novos leitores.

 

O primeiro livro que li, emprestado da escola em que estudava, foi “Uma Professora Muito Maluquinha”, do Ziraldo. Desde então sou apaixonada pela Literatura Infantil e Infantojuvenil, mesmo que não me arrisque por esse mundo. É preciso muito mais do que saber escrever e ter sido uma criança. Uma responsabilidade muito grande, pois a partir desse passo é que os próximos serão dados e uma impressão passada durante a infância pode ser carregada para o resto da vida.

Qualquer adulto que não cultivou o hábito de ler pode adquiri-lo, mas o gosto pela leitura é melhor aproveitando quando ainda somos crianças. A fase das novidades é também o momento de despertar o interesse por assuntos que carregaremos ao longo dos anos. Por isso esses livros têm um papel fundamental na sociedade.

O mais engraçado é que batemos sempre na mesma tecla dizendo que a leitura deve ser incentivada desde a infância, mas raríssimas são as vezes que tomamos conhecimento que algum livro do gênero foi publicado. Isso porque automaticamente associamos a publicação aos autores consagrados como Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Cecília Meireles, Ana Maria Machado e tantos outros.

Ressaltando todas as mudanças que ocorreram nos últimos tempos, principalmente no que diz respeito à comunicação, percebemos que a Literatura Infantil sofreu uma transformação muito grande. Antigamente, para o público infantil e jovem, a forma mais fácil de ter acesso aos livros era pegando-os emprestado das bibliotecas escolares ou municipais – abrindo pequenas exceções. A leitura ficava delimitada pela faixa etária e era mais comum encontrar autores nacionais nas estantes.

Recentemente, visitei uma escola pública de Ensino Fundamental e notei nas mãos das crianças livros para todos os gostos: finos, grossos, nacionais, estrangeiros, com gravuras ou sem. Alguns, inclusive, que possuo na estante. Com a expansão dos meios de comunicação, ficamos cada dia mais surpresos com os livros que as crianças andam lendo. Alguns sequer possuem características que antes considerávamos básicas para atrair novos leitores.

Torna-se admirável quando autores conseguem cativar esse público tão questionador e cheio de novas ideias. É passando antes por eles que outros autores, no futuro, terão o trabalho lido e contemplado.

Hoje as crianças possuem a personalidade mais definida do que há alguns anos atrás. São capazes de criticar com argumentos sólidos o que acabaram de ler. A mesma crítica que em um artigo anterior − Sobre “Galáxias” e a influência das leituras que não nos cativam – afirmei ser necessária para desenvolver habilidades de escrita, além de despertar a criatividade.

Por isso, é fundamental que professores e pais estejam dispostos a conduzir os primeiros passos. E quem sabe, depois de aprender a andar sozinho, seja hora de sentar e escrever.

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thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

25 de julho – Dia Nacional do Escritor

Por Thais Lemes Pereira

E se nós, escritores, colocássemos na balança a quantidade de livros nacionais e estrangeiros que lemos nos últimos meses, qual sobressairia?

Ser Escritor no Brasil

Dia 25 de julho comemoraremos o Dia Nacional do Escritor. Data que marca a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, promovido por João Peregrino Júnior e Jorge Amado, na década de 1960. Lendo sobre o assunto na internet, me deparei com uma reportagem (dezembro/2013) que dizia que o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo afirmando que “ser escritor no Brasil é a mais patética das profissões”.

O primeiro erro daqueles que sonham com a publicação de um livro e dos que já publicaram é encarar a escrita como uma profissão. Afirmar isso é o mesmo que dizer para aqueles que escrevem em qualquer veículo de comunicação sem gratificação, ou para seu próprio deleite, que não são escritores. Entende-se por profissão a atividade social remunerada. Logo, o sonho de se tornar escritor estará diretamente ligado à venda e possível fama. Não adianta julgar jovens e adultos por escrevem histórias pensando em renda, pois o próprio título com o passar dos anos desencadeou essa ideia.

O que pode ser levado em consideração é que muitos autores estrangeiros alcançam a fama e conseguem sobreviver com a venda de seus livros, fato que deve ter influenciado a visão de quem escreveu para o jornal norte-americano. Talvez a culpa seja até dos próprios brasileiros – e quando digo isso envolvo mídias, determinadas editoras e os próprios leitores.

Observamos que o número de leitores brasileiros aumentou nos últimos anos, o que deveria trazer uma maior visibilidade aos escritores do país. Mas, infelizmente, desde que o Brasil foi colonizado, percebemos a grande influência do estrangeiro em nossa vida.

Durante o dia 06 de julho realizei uma pesquisa em uma comunidade literária no Facebook, perguntando quantos livros nacionais e estrangeiros haviam sido lidos nos últimos seis meses. O resultado assusta, mas não surpreende:

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Ser escritor no Brasil não é fácil, mas será que é tão difícil?

Depende da intenção.

Certa vez, li que as pessoas que se formam em Jornalismo hoje em dia são loucas (principalmente depois da queda do diploma), pois o mercado de trabalho anda escasso. Penso o contrário: após a difusão da internet as possibilidades estão maiores, basta saber usá-las. O mesmo acontece com o escritor.

Claro que ter a publicação física do seu livro é mais prazeroso e temos boas editoras que fazem o trabalho sem custo para o autor. Algumas após avaliações, outras com impressão sob demanda. Para os adeptos à leitura digital as oportunidades são as mesmas. Uma dica interessante para aqueles que buscam a visibilidade, é a participação em concursos e desafios literários. Algo que exige paciência, mas que pode ser encarado de uma forma bastante positiva, levando em consideração aperfeiçoamento e amadurecimento.

Mas apenas isso não basta! É preciso quebrar o conceito de que os bons livros são os que recebem destaque pela mídia e que estão presentes nas livrarias. E se nós, escritores, colocássemos na balança a quantidade de livros nacionais e estrangeiros que lemos nos últimos meses, qual sobressairia? Não é preciso deixar os grandes nomes e autores estrangeiros de lado, mas é importante desvendar novas possibilidades.

Para dissolver a imagem estabelecida pelo The New York Times? Não. Para romper o conceito que nós próprios formamos. Afinal, o artigo publicado no jornal é assinado por Vanessa Bárbara, uma escritora brasileira.

Feliz 25 de julho para os escritores do nosso país, principalmente para aqueles que se orgulham disso.

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Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Por quais ruas caminham os poetas?

Por Thais Lemes Pereira

Ouso dizer que o público da poesia é o mais cativo de todos. São pessoas que se encontram em eventos culturais diversos e carregam consigo uma bagagem esplêndida de ensinamentos.

Abril Poético 2014 (Grupo LESMA) – Foto: Amarantha Dudalla

 

Não é difícil encontrar escritores relatando que, antes de escreverem em prosa, faziam versos. O contrário também pode acontecer, mas é muito raro. Temos a falsa impressão de que poesia hoje em dia não tem público, pois vem acompanhada da visão de que “não vende”.

O poeta pediu uma poesia

de prato,

era barato,

enchia a barriga,

e pra viagem sobraria (…)

– Flávia Borges

 Lembro quando comecei a pesquisar editoras para encaminhar o original do meu primeiro livro: das vinte e cinco primeiras que encontrei, apenas quatro aceitavam originais de poesia. Uma delas aceitou a publicação e, após a assinatura do contrato, comecei a divulgação do lançamento. As pessoas sentiam-se felizes por eu ter realizado meu sonho, mas quando perguntavam do que se tratava o livro, algumas condenavam que poesia não vendia. Outras diziam: “mas e aquele seu romance, não vai publicar?”

 Não falemos mais da vaidade de um instante.

No meio da noite, vem toda a novidade.

E vai ser assim: de verdade para te trazer felicidade.

– C. R. Angst

 Algo que vemos com muita frequência ultimamente, não apenas com a poesia, mas com muitos outros gêneros da literatura: escritores criando histórias visando lucro e status social. Consequentemente, as pessoas pensam que o prestígio do autor deve sobressair à obra. O reflexo disso é que maior parte das editoras sequer aceitam analisar originais de poesia. Por que o gênero não tem público? Muito pelo contrário…

 

Na indomável solidão

Que o acorrenta aos pés,

Rabiscas uns versos na contramão

Opondo-se as suas paixões viés (…)

– Jonathan Mendes Caris

 

Ouso dizer que o público da poesia é o mais cativo de todos. São pessoas que se encontram em eventos culturais diversos e carregam consigo uma bagagem esplêndida de ensinamentos. Não escrevem para viver, mas vivem para escrever (e recitar, cantar, dançar…). A diferença é que os poetas − os bons poetas − não determinam um valor para sua obra e por isso não sentem a necessidade de vender seus livros como se fossem doces.

 

Nas mãos luminosas da musa

Poemas eriçados

Intuindo carmim, carmesim, plasma do passado.

Um poema articulado a retinas prismáticas…

Partículas poéticas avizinhadas 

Em páginas e profundidades (…)

– Jana Cruz

 

O prazer não é ver sua poesia ser comercializada, mas sim tocando a vida das pessoas com a mesma intensidade que desvendou sua própria essência. Interpretar uma poesia não é tarefa fácil: dependendo do momento vivido a análise muda completamente. Isso faz com que elas nunca morram e sejam para sempre atuais, independente da época em que foram escritas.

Por isso os livros são necessários: para eternizá-las. Nas muitas ou poucas casas que os adotarem. Mas o importante não é a quantidade e sim (a qualidade? Não…) o valor, intangível, aplicado na obra.

 

* Os versos citados são todos de poetas contemporâneos.

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Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.

Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Dos Clássicos aos Best-Sellers: Existe Livro Bom ou Ruim?

Por Thais Lemes Pereira

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O que não pode ser negado é que muitos jovens entram no mundo da literatura ao lerem livros que fazem sucesso e no futuro encontram-se atraídos por qualquer outro gênero.

 

A semana que passou foi marcada por questionamentos sobre a simplificação das obras de Machado de Assis. Argumentos defendendo e criticando a ação apoiada pelo Ministério da Cultura bombardearam as redes sociais. Entre eles, um me chamou muito a atenção. A postagem defendia a ideia que quem se entrega à sedução dos best-sellers não havia nascido para ler obras clássicas da literatura.

Não é difícil de encontrar pessoas que definem livros como “bons” ou “ruins”. Difícil é encontrar leitores que aceitem que o gosto pessoal é muito pré-conceituoso para decidir o que alguém deve ou não ler. Durante o debate traçado em cima da postagem, defenderam a tese de que o problema não seria ler best-sellers, mas ler apenas best-sellers. Uma afirmação perigosa, pois, em contrapartida, não seria errado ler apenas clássicos?

Submeter-se a um gênero específico é perigoso, pois é capaz de mostrar para seu cérebro que só aquele tipo de literatura deve ser contemplado. Algo pior acontece quando livros fazem sucesso, pois tachá-los de ruins reflete a opinião que temos sobre a sociedade. Acabamos por definir a personalidade das pessoas em razão do que elas leem. Algumas, inclusive, sentem-se receosas de confessar que estão lendo livros que são reprovados.

O que não pode ser negado é que muitos jovens entram no mundo da literatura ao lerem livros que fazem sucesso e no futuro encontram-se atraídos por qualquer outro gênero. Entendo a posição de algumas escolas quando solicitam que seus alunos leiam José de Alencar e Aluísio Azevedo, mas muitas vezes esses estudantes não cultivaram o hábito de ler e acabam considerando-os tediosos para o resto da vida. Uma espécie de “trauma”.

Samanta Meireles, aluna do nono ano do ensino médio da Escola Estadual Clóvis Salgado (Cambuquira – MG), afirma que no momento nenhum título é obrigatório na turma em que estuda. Ela e seus colegas de sala vão até a biblioteca e escolhem os livros que gostariam de ler para que, posteriormente, possam responder as perguntas do professor sobre a história ou fazer uma ficha literária. Mas também disse que gostaria que clássicos fossem indicados, para que todos pudessem valorizar um pouco mais a literatura brasileira. Provavelmente aqueles que se dedicam a essa atividade não se sentirão intimidados nos próximos anos para ler Senhora ou O Cortiço.

Dos clássicos aos best-sellers, todos os livros têm algo bom para oferecer (sim, eu disse todos). Por mais que um autor não nos agrade e uma história não nos defina, abrir a mente para encontrar novas opiniões é o fator que determinará seu nível de crescimento com a leitura. Levando isso em consideração, acabamos descobrindo que não existem livros bons ou ruins. Existem livros que agradam e outros que não, mas todos são capazes de transmitir algum conhecimento.

Deliberar o que alguém deve ler nos dias atuais é muito simples. Devemos tomar cuidado para não impor condições e sim abrir possibilidades. O importante não é o que leio e sim o proveito que tiro daquilo que leio.

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thata-pereira

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.

Sobre “Galáxias” e a influência das leituras que não nos cativam

Por Thais Lemes Pereira

Era exatamente aquilo: o que não te incomoda não te acrescenta, até mesmo na hora de escrever.

Dizem que ser um leitor assíduo ajuda na hora de escrever. Com certeza, em algum momento da sua vida, você já deve ter lido ou ouvido sobre. Artigos nomeados “Como Escrever Bem” adoram apontar a leitura como uma das principais influências na hora de escrever. Justificativa mais comum: amplia o vocabulário. A falta de exploração no assunto sempre me fez questionar se a declaração era verdadeira ou apenas algo que foi dito uma vez e repetido conforme a música.

Quando a tia do Ensino Fundamental pediu que meus colegas e eu lêssemos algum dos livros disponíveis na biblioteca, eu já carregava na bagagem toda a obra infantil do Monteiro Lobato e O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. Infelizmente, não era o suficiente para que minhas produções de texto lhe agradassem. Com a nova afirmativa de que “ler ajuda a escrever melhor”, fiquei me questionando o que estava fazendo de errado.

A resposta veio quando comecei a ler livros que não me agradavam. Sem o interesse na história, continuava a leitura dando uma maior atenção à construção das frases e pontuações. Sendo uma leitora mais cuidadosa, aprendi que ler não basta para escrever bem, mas ler criticamente é fundamental. Depositar uma maior atenção ao que é oferecido e criar nossos conceitos sobre o que é lido, desenvolve um sentido mais aguçado na hora de escrever. Muitas vezes, inconsciente.

Neste ano, minha teoria sofreu uma nova mutação quando um professor indicou o livro-poema “Galáxias” do poeta Haroldo de Campos na aula de Teoria da Comunicação. O primeiro contato com o texto foi um misto de surpresa e indignação, influenciada pelos pré-conceitos do que eu tinha como “certo” e “errado” na hora de escrever, me deparando com um livro sem pontuação e sem letras maiúsculas. Sem contar nas diversas palavras que produziam ecos. Mesmo assim, continuei fiel à leitura, levando em consideração a frase dita pelo mesmo professor: o que não te incomoda, não te acrescenta.

Na metade da leitura do livro, comecei a escrever um conto. Pequeno, apenas para satisfazer a necessidade de escrevê-lo. Quando li a história pronta, fiquei maravilhada com o que havia acontecido: vírgulas faltando e em todos os parágrafos havia um eco. Como aquilo poderia ter acontecido? Eu não enxergava interferência dos bons livros que lia na minha escrita, mas quando a leitura não agradava era evidente.

Era exatamente aquilo: o que não te incomoda não te acrescenta, até mesmo na hora de escrever. Sem generalizar – até porque tomando conhecimento disso a história muda o rumo − ao ler algo que gostamos, nossa crítica é abafada pela identificação. Sendo assim, a possibilidade de crescermos com algo que não estamos acostumados é bem maior do que se continuarmos lendo os mesmos gêneros, os mesmos autores.

Ler colabora na hora de escrever: fica claro que sim. Mas limitar a leitura ao que é confortável é prejudicial, pois faz com que olhemos sempre no mesmo ângulo e nos fecha para outras possibilidades. Quantos livros e outros textos deixamos para trás por conta de uma linguagem rebuscada, de termos que repelimos ou porque o gênero não agrada? O bom leitor não se deixa intimidar diante do apresentado e saberá fazer uso do que lhe incomoda de uma forma positiva na hora de escrever. Viajar pelo que nunca foi explorado é ampliar conhecimento e essa é a verdadeira influência que a leitura tem na nossa escrita.

Thais Lemes Pereira nasceu em Guarulhos- SP, mas mora atualmente em Cambuquira- MG. Estudante de Jornalismo, desistiu do sonho de cursar Arquitetura para dedicar-se ao que realmente gostava: escrever. É autora do livro de poesias Pensamentos de Outrora (Editora Multifoco), lançado em outubro de 2013.
Contato: thaislemespereira@yahoo.com.br.