O autor anônimo

Por Braulio Tavares*

Hoje em dia, um livro que saia sem indicação do autor, mesmo um nome falso ou um pseudônimo, é quase inimaginável.

 

A questão dos direitos autorais está ligada, de um lado, à remuneração do trabalho do autor (aspecto material) e a um aspecto que poderíamos chamar imaterial ou simbólico, que é referido nos contratos como “o direito de ser reconhecido como o autor da obra X”. Este é um aspecto interessante porque implica numa vantagem (se não o fosse, não seria reivindicado pelos autores), mas uma vantagem de caráter abstrato. Esse direito e essa vantagem nos parecem indiscutíveis, mas a verdade é que, pelo menos na literatura, nem sempre havia a pressuposição tácita de que o autor gostaria de ser identificado com a obra. Às vezes, entretanto, o autor preferia ficar na sombra.

Edgar Allan Poe publicou em 1837 seu primeiro livro, Tamerlane and other poems, assinando-se como “Um bostoniano”. Talvez uma tentativa de sentir-se mais integrado à população de Boston, cidade onde nasceu e com quem manteve uma relação de amor e ódio. Talvez por ter apenas 18 anos, estar servindo ao Exército sob nome falso (“Edgar Perry”) e não querer chamar atenção sobre si próprio. Sempre achei este episódio semelhante ao que ocorreu com Manuel Antonio de Almeida, que publicou em 1852 as Memórias de um Sargento de Milícias, assinando-se como “Um brasileiro”. Por quê? Já li num ensaio ou prefácio que Almeida limitou-se, como jornalista, a escutar as histórias narradas por um personagem real, e as transpôs para o livro sem muita interferência.. Por isso sentia-se meio desconfortável em apresentar-se publicamente como o inventor daquilo tudo, coisa que não era.

Folheando uma reedição recente do Frankenstein de Mary Shelley vi uma reprodução da página de rosto da edição original de 1818, em três volumes. O livro saiu sem menção ao autor, o que só ocorreu da segunda edição em diante. Pelo fato de ser uma mulher? Talvez, mas o livro era prefaciado por Percy Shelley (marido da autora) e trazia uma dedicatória ao pai dela, o filósofo William Godwin. Hoje em dia, um livro que saia sem indicação do autor, mesmo um nome falso ou um pseudônimo, é quase inimaginável. Livros anônimos são, às vezes, livros que podem produzir reações polêmicas, como os Vestígios da História Natural da Criação, que Robert Chambers publicou anonimamente em 1844, com uma teoria cósmica da evolução.

Entre o autor que receia ser revelado e o autor que não faz a menor questão de ser conhecido vai uma grande distância. Se tomássemos no seu sentido mais amplo as palavra “história” e “canção”, e fosse feito um balanço de muitos séculos, veríamos que numa espantosa percentagem delas nunca se veio a saber quem foi o seu criador.

*Publicado originalmente no blog Mundo Fantasmo, créditos ao autor.

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Você é o escritor?

Por Braulio Tavares*

Alguma coisa não batia. Era o escritor que não podia ser preso, ou o preso que não podia ser escritor?

Quando Dashiell Hammett, o autor de O Falcão Maltês, passou alguns meses preso, ficou amigo do funcionário que cuidava da biblioteca da cadeia. Hammett foi preso em 1951 por se recusar a testemunhar contra seus amigos comunistas (ele próprio era membro do Partido) durante a famosa “caça às bruxas” em Hollywood. Ele aproveitou para botar a leitura em dia, e leu obras como Jane Eyre de Charlotte Bronte, Almas Mortas de Gogol, Tess of the d’Urbervilles e Judas o Obscuro de Thomas Hardy, além de obras de Dostoiévski e Victor Hugo.

O rapaz da biblioteca tinha uma perplexidade: o fato de que os livros de Hammett estavam ali na estante, e o autor estava preso na própria cadeia! Alguma coisa não batia. Era o escritor que não podia ser preso, ou o preso que não podia ser escritor? Hammett achava graça: “Já ouviu falar em André Gide? Ele disse que eu sou um escritor comparável a Balzac”.

Jorge Luís Borges trabalhou durante nove anos numa biblioteca municipal de Buenos Aires, um desses empregos públicos modestos e levemente humilhantes onde os escritores tantas vezes se refugiam. Procurava evitar a convivência muito estreita com os outros funcionários, cujas conversas só giravam em torno de “corridas de cavalos, partidas de futebol e estórias obscenas.” Diz ele que certa vez um colega, folheando uma enciclopédia, achou na seção de literatura o nome de um tal Jorge Luís Borges e chamou-lhe a atenção para a coincidência: “Olhe só!… Até a data de nascimento dele é igual à sua!”. Para o bibliotecário, uma coincidência naquele nível de detalhe era algo mais provável do que aquele sujeito tímido, meio apalermado, ser alguém importante.

O nome nas enciclopédias ou a obra nas estantes parecem não ter nada a ver com as pessoas a que pertencem. Não há muito em comum entre o best-seller adaptado em Hollywood e aquele homem magro, com dentadura postiça, de 57 anos, que passa os dias lendo e olhando os retratos da netinha. O nome na enciclopédia, é claro, não pode se referir àquele funcionário míope, distraído, que passa as intermináveis horas do expediente lendo a obra de Gibbon, de Faulkner, de Virginia Woolf. Existe uma lógica intuitiva nesse tipo de visão, no ato de distinguir entre o homem que escreveu os livros e o homem que está vivendo a vida. Mais do que se imagina, são dois homens diferentes. O homem que escreve é um acesso temporário de concentração, energia, lucidez, paciência e fúria que acomete aquele indivíduo manso. É o “daemon”, que o ser humano pode receber de vez em quando, mas não poderia hospedar 24 horas por dia, sob pena de arder de repente, consumir-se na fogueira da combustão espontânea.

*Braulio Tavares é escritor e cedeu gentilmente este texto, publicado em sua coluna no Jornal da Paraíba e em seu blog Mundo Fantasmo (um blog que todo escritor deve conferir, por sinal).

Beckett: A repetição sem fim e o abismo do mundo

Por Thiago da Silva Prada

Para além da quebra da tradição literária, a trilogia beckettiana refletiria também dentro de sua obra a máquina burocrática de Kafka, a sociedade carcerária e do suplício que Foucault descreve das microrrelações e o niilismo que Nietzsche prenuncia.

 

Os livros de Samuel Beckett que compõem sua trilogia, “Molloy”, “Malone Morre” e “O Inominável” são realizados em forma de monólogo, em que as personagens relatam suas vivências e pensamentos num discorrer ininterrupto, balbuciante, confuso, com constantes contradições em seus dizeres, certezas, quebradas sempre pelo “talvez”, “se”, “pode ser que”, “não sei bem”.

Nessa trilogia Beckett narra a aniquilação do eu lírico, e até mais, do sujeito moderno que nos é tão caro em nossa tradição ocidental do cogito cartesiano, o “penso, logo existo”, o sujeito racional, de posse de sua razão, certeza e clareza de sua busca e respostas. Em Beckett, somos levados para o outro lado de um cotidiano que existe na realidade suja, escura e de luta constante da vida, em que personagens marginais, desmemoriados, sem saberem seus próprios nomes, uma conduta moral, percorrem espaços e experiências sem sentido algum.

A degradação e aniquilação do sujeito começa aos poucos com “Molloy”, personagem vagabundo e errante, sem memória, objetivos que percorre sua cidade e termina da mesma maneira que começou; em seguida, em “Malone Morre”, temos um homem que está imóvel em uma cama de um asilo, ou hospital, ou?… e narra uma história que se confunde com sua história, passamos do vagabundo errante para o confinamento físico do homem que só pode se recordar, lamentar, sem nenhuma liberdade de movimento e passamos finalmente para “O Inominável” em que o personagem é completamente diluído em uma voz que se repete sem fim, sobre o ato de calar a si mesma, falando sozinha, que se repete sem fim.

Tudo está sempre entre o quase e o talvez, ou seria o nada? Afinal, “nada é mais real que nada” (BECKETT, Samuel, Malone Morre, 2004, p. 26) Em nenhum dos três livros existe um progresso quanto à história e objetivo final das personagens, nenhum é alcançado, o desfecho é o abismo aberto, Molloy nas valas da terra da penúria humana, Malone às portas da morte e Mahood/Worm segue sua fala interminável e repetitiva em busca do silêncio.

Para além da quebra da tradição literária, a trilogia beckettiana refletiria também dentro de sua obra a máquina burocrática de Kafka, a sociedade carcerária e do suplício que Foucault descreve das microrrelações e o niilismo que Nietzsche prenuncia. E para além, refletiria a experimentação do limite extremo da vivência humana em sua auto-aniquilação do sujeito, defrontado com o absurdo do mundo, só lhe restaria a repetição, o balbuciar e o gaguejar de uma repetição sem fim, de um esvaziamento da linguagem onde não haveria mais um sentido único, nem uma direção a seguir.

Com as influências de Nietzsche, Schopenhauer, com a presença que teve durante um tempo no círculo existencialista de Sartre antes deste se aliar ao marxismo tendo Joyce e Kafka como pano de fundo literário, Beckett realiza uma obra do desespero humano, dos seres mais abjetos, margeando entre a lucidez vigorosa e a tortuosidade de suas visões do mundo e de si mesmos, bem como uma crítica à capacidade humana racional de progresso, tecnologia e superioridade no silêncio e vazio da linguagem fora da unidade e coesão do “eu”.

Não há em Beckett uma luz no fim do túnel, nenhum elemento racional, religioso ou metafísico capaz de salvar ou dar uma direção às suas personagens, o silêncio do mundo e Deus é denso e fixo e a condição miserável presente e descrita a todo o momento. Beckett não traz nenhuma utopia ou solução, seria um existencialismo mais radical e extremo, onde nem o elemento da liberdade e engajamento está presente. É a visão apocalíptica para onde se encaminharia a humanidade, num abismo, onde muitas situações e pensamentos descritos em suas obras se tornam vívidos cada vez mais em nosso mundo atual.

Talvez se possa dizer que com a realização dessa visão da hecatombe humana ele nos traga o asco, a raiva, a revolta e uma renovação de possibilidade de mudança. Seria possível olhar-se diante do espelho em penúria e não revoltar-se? Se sim, algo há que se fazer em meio ao silêncio, caso contrário, resta-nos morrer como um de seus personagens, isolados em nossa própria cama a qual chamamos Humanidade.

Nestes livros de Beckett existe uma lucidez nos e entre seus personagens, mas não é uma lucidez que revelaria mistérios ou clareasse o caminho à frente para a certeza das coisas, das ações e, sobretudo de si mesmo, é antes uma, talvez melhor dizendo, anti-lucidez, num movimento às avessas: é uma lucidez da não lucidez que se possui.

 

Livros de Samuel Beckett:
Molloy, Editora Globo, 2008
Malone Morre, Editora Conex, 2004 (tradução do nosso poeta Paulo Leminski, obrigatório!)
O Inominável, Editora Globo, 2009
Livros citados:
Vigiar e Punir, Michel Foucault, Editora Vozes, 2007
O Processo, Franz Kafka, Editora Cia das Letras, 1997

Thiago da Silva Prada é um bicho de sete cabeças, quimera de livros, filmes, pensamentos, filosofias, poesias que se entrelaçam. Tem uma queda pelo Romantismo, se debate com os monstros da Razão, mas cumprimenta os que estão debaixo da cama. Está no Mestrado em Ciências Sociais na PUC-SP, é graduado em Psicologia, apaixonado por Filosofia, apreciador de Literatura e Cinema, jogador de xadrez nas horas vagas, poeta por necessidade existencial e leitor por ofício de vida. “Os Céus de Van Gogh”, publicado em 2014 pela Caligo, é seu primeiro livro de poesias.

 Contato: sonhosdepompeia@gmail.com

Quando entrevistei o filho de John Fante

Por Felipe Rodrigues

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou.

John Fante morreu, mas deixou um grande legado. Além da sua produção toda, contando clássicos como “Espere a Primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”, passou os genes de escritor para Dan Fante, seu filho. Lembro-me mais ou menos. Era final de 2007, as luzinhas já caindo pelas janelas. Eu procurava por contos do FILHO DO HOMEM em português e acabei caindo em seu site oficial. Logo na abertura, ouvia-se uma sequência de sucessos do blues tradicional, além de indicações de alguns escritores novos (bravo, Dan!), livros do autor e recortes com críticas que tinham saído em jornais e revistas.

Anotei o e-mail do cara e resolvi entrar em contato. Na época eu era um ASPIRANTE A JORNALISTA COM UM BLOGSPOT. Então, como diabos iria convencê-lo a responder as minhas perguntas? Convencido de que Dan Fante deletaria o e-mail e fumaria outro cigarro, resolvi inventar que eu era de algum jornal. Se bem me lembro, disse que a entrevista seria para um jornal de “grande circulação” de São Paulo.

Inexperiente e sem nenhum material sobre Dan Fante para ler – à época nem a Folha de S.Paulo e nem o El País tinham ROUBADO A MINHA IDEIA (hehe) – elaborei algumas perguntas – muitos clichês e questões ingênuas – e enviei para o cara. Na outra semana, para o bem ou para o mal, ele me retornou.

O homem foi RÁPIDO E RASTEIRO nas respostas. Foi inevitável fazer perguntas sobre seu pai, mas acho que isso não o incomodou. Infelizmente, não consegui falar muito sobre a sua obra, afinal, seus livros ainda não tinham sido publicados no Brasil – e ainda não foram (passados sete anos). Porém, ganhei um presente de Natal. Ele me mandou na íntegra o arquivo final de “86’d”, à época seu último romance.

BRUTAS, SECAS, ÁCIDAS e por vezes blasés, seguem as respostas de Dan Fante à minha “entrevista”.

Você já leu algum escritor brasileiro?
Infelizmente, não tenho familiaridade com escritores brasileiros. Eu leio somente em “americano” e costumo odiar traduções.

Como foi a amizade com Charles Bukowski?
Eu conheci Hank. Ele costumava visitar meu pai. Admiro sua poesia, extremamente.

Algum de seus livros será lançado no Brasil?
A editora Harper Collins vai lançar quatro de meus livros, eu espero que todos eles sejam traduzidos.

Aqui no Brasil é muito difícil ser escritor ou até mesmo lançar um livro, como isso funciona nos Estados Unidos?
Você talvez precise de uma pistola para fazer os editores lerem seu trabalho. É muito difícil, os americanos perderam o costume da leitura. Um escritor tem que ser persistente.

Quais escritores novos você lê?
Não muitos. Tony O’Neill tem um bom livro que sairá agora e há uma boa coletânea de histórias de Mark SaFranko (da Murder Slim Press, Inglaterra). Vale a pena ler os dois.

Qual é o seu maior objetivo com a literatura?
Ter todo o meu trabalho lido e publicado em todos os países.

Você ainda tem um trabalho miserável?
SIM, SOU UM ESCRITOR.

A que se deve o sucesso dos seus livros na Europa?
Europeus têm bom gosto para escritores.

Você poderia contar alguma história sobre seu pai?
Ele fez muita grana escrevendo todos os dias para os estúdios de Hollywood. Fazia uma reunião com sua secretária todas as manhãs e dizia para ela que anotasse todos os recados, então ia jogar golf. ELE FEZ ISSO POR 20 ANOS.

No seu site tem uma apresentação de slides com algumas de suas fotos, que música é aquela? Que tipo de música você gosta?
Eu gosto de blues norte-americano: John Lee Hooker, Jimmy Reed, Sonny Terry e Brownie McGee.

Como era a cena beat do Greenwich Village quando você tinha 19 anos?
Era engraçado: um monte de poetas loucos e todo mundo queria mudar o mundo. Então chegou Lyndon Johnson…

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

As ideias de Neil Gaiman

Por Braulio Tavares*

O escritor tradicional costuma começar com uma história ou com personagens. O escritor de ficção fantástica começa com uma ideia fora-do-comum; os personagens e a história vêm depois.

Em seu blog pessoal, Neil Gaiman, autor de Coraline e de Deuses Americanos, comentou recentemente a pergunta que se faz aos escritores: “De onde você tira suas ideias?” Ele faz um interessante “balanço” das fórmulas preferidas por quem pratica a literatura fantástica, principalmente nos quadrinhos ou nas histórias infanto-juvenis. A mais famosa delas é “E se?…” (“What if…?”). E se um dia você acordasse e descobrisse que tinha asas? E se sua irmã virasse um rato? E se você descobrisse que seu professor estava planejando matar e comer um dos alunos da turma, mas você não soubesse qual deles? Outra pergunta eficaz é “Se ao menos…” (“If only…”). Se ao menos a vida real pudesse ser como um musical de Hollywood. Se ao menos eu pudesse diminuir até ficar do tamanho de um botão. Se ao menos eu tivesse um fantasma que viesse fazer meu dever-de-casa.

Outra pergunta que dá um bom ponto de partida, segundo Neil Gaiman, é “Fico imaginando…” (“I wonder…”). Fico imaginando o que será que ela faz quando está sozinha em casa. Outra muito boa é “Se continuar assim” (“If this goes on…”). Se continuar assim, daqui a pouco os telefones vão estar conversando uns com os outros e dispensando os intermediários, e também “Não seria interessante…?” (“Wouldn’t it be interesting…?”). Não seria interessante se o mundo tivesse sido um dia governado pelos gatos?

Perguntas assim são as que os escritores de FC se fazem constantemente. O escritor tradicional costuma começar com uma história ou com personagens. O escritor de ficção fantástica começa com uma ideia fora-do-comum; os personagens e a história vêm depois. São duas atitudes literárias completamente diversas: a primazia dos personagens e do estilo, e a primazia da história. Há pessoas capazes de saborear estes dois modos (eu me considero uma delas), mas por uma certa especialização mental que ocorre na juventude há pessoas que parecem totalmente incapazes de enxergar valor num dos dois.

Há leitores de Isaac Asimov que não suportam Machado de Assis: “Toda história do cara é igual, é só triângulo amoroso, adultério…” E vice-versa: “Esse Asimov escreve muito mal, os personagens mudam de nome mas são todos idênticos”. São os pontos extremos de uma escala de visão: um só enxerga o infravermelho, o outro só enxerga o ultravioleta. Se o livro não tiver nenhuma criatividade na frequência de onda a que o leitor está acostumado, não adianta ser uma obra-prima em outras áreas, porque esse leitor específico nem vai perceber.

No caso de Neil Gaiman, que trabalha com quadrinhos, literatura infanto-juvenil e literatura fantástica, é inevitável que suas idéias iniciais tenham este cunho fantástico, meio absurdo. É o universo de Kafka, Lewis Carroll. Cada uma das ideias acima pode resultar num bom ou mau livro, mas alguns leitores sentem, instintivamente, que “a ideia é legal”, que tem tudo para resultar numa história diferente e que diga algo de novo.

*Braulio Tavares é escritor e cedeu gentilmente este texto, publicado em sua coluna no Jornal da Paraíba e em seu blog Mundo Fantasmo (um blog que todo escritor deve conferir, por sinal).

Jovens Tradutores

Por Braulio Tavares*

Saber uma língua não implica saber traduzir. Saber traduzir é saber escrever. Ser tradutor é ser escritor.

Muitos jovens (ou nem tanto) me perguntam às vezes: “Como se faz pra trabalhar como tradutor?” O mais simples é mandar um email para uma editora, dizendo que quer traduzir e as suas áreas de preferência. Eu costumava dizer: “Traduzo do inglês, e tenho bom conhecimento de ficção científica, fantasia, terror e policial”. Minhas primeiras traduções (sob pseudônimo) foram de romances de amor tipo Sabrina ou Bianca, e livrinhos de faroeste. Pegue. É treinamento, é um aprendizado sobre você mesmo. Não ligue se o livro é bom. Faça o melhor possível. Se você é incapaz de traduzir um livro ruim, nunca vai traduzir um livro bom.

Às vezes eu juntava à carta um pequeno texto (1 ou 2 páginas) com um exemplo de tradução feita por mim. Escolhia um conto curto ou trecho de livro, mandava o original e minha tradução para eles terem uma idéia. Isso não elimina uma fase indispensável: a editora lhe manda um texto (em geral um capítulo de um livro) e lhe dá um prazo, digamos uma semana.

É o teste. Todo mundo passa por isso, se nunca traduziu profissionalmente, mesmo que tenha todos os diplomas de Cultura Inglesa ou Aliança Francesa. Saber uma língua não implica saber traduzir. Saber traduzir é saber escrever. Ser tradutor é ser escritor. Se você não se acha capaz de escrever um livro saído de sua própria cabeça, seja literatura ou não-ficção (um livro técnico sobre sua profissão, por exemplo), como diabo vai ser capaz de escrever em português um livro de outro cara, escrito noutra língua?

Se você pode dar tempo integral a isso, ótimo. Se não, reserve algumas horas por dia só para traduzir. Não importa se num dia você fez dez páginas e no outro só fez uma. O importante é avançar. E não ficar muito tempo “longe do livro”. Às vezes a gente fica duas, três semanas sem pegar na tradução, pensando em fazer um “esforço concentrado” no final; isso pode dar certo, ou não. Escolha o método que produza melhores resultados.

Para ganhar dinheiro com tradução você precisa ser do tipo que gosta de escrever, porque vai ter que escrever e reescrever muito. Hoje, tudo ajuda o tradutor sério: Google, Google imagens, dicionários online, fóruns online, redes sociais onde a galera troca figurinhas e tira dúvidas entre si. Tradução não é uma coisa para ser feita às pressas e entregue antes do prazo. Se pedem para o dia 30 e você no dia 25 já terminou, não mande ainda. Volte ao começo e vá passando um pente fino. Estourar o prazo é uma coisa chata, mas pior ainda é entregar antes do prazo, só pra mostrar serviço, um trabalho cheio de pequenos defeitos, de esquecimentos, de repetições, de coisas que teria dado para ajeitar.

*Braulio Tavares é escritor e cedeu gentilmente este texto, publicado em sua coluna no Jornal da Paraíba e em seu blog Mundo Fantasmo (um blog que todo escritor deve conferir, por sinal).

O Famoso Hiram Melville

Por Felipe Rodrigues

As críticas negativas a respeito do livro afetaram em cheio o escritor, que via sua obra sendo qualificada nos jornais e revistas literárias como “insalubre”, “falha mortal”, “abominável”, “monstruosamente artificial”, “horrorosa e suja”, entre outros adjetivos.

Hoje pode parecer surpreendente, mas o clássico Moby Dick, de Herman Melville, foi um fracasso de crítica e público em seu lançamento – 1851. Oscilando entre avaliações positivas e negativas, foi considerado filosófico demais, pretensioso e destoante das obras anteriores do autor. Com a má recepção do romance, o escritor entrou em crise.

Isso aconteceu porque Melville começou a carreira produzindo narrativas pessoais, baseadas nas aventuras que tinha vivido como marinheiro. Seu primeiro livro, Typee, relata sua deserção de um navio e a temporada em torno de uma tribo de canibais nas Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, seguido pela continuação, Omoo: A Narrative of Adventures in the South Seas (em tradução livre: “Ommo: Uma Narrativa de Aventuras nos Mares do Sul”), inspirada pelo tempo que passou no Taiti.

Em White-Jacket (trad. livre, “Jaqueta Branca”), de 1850, Melville descreveu os 14 meses em que serviu à Marinha dos Estados Unidos. Com estes romances iniciais, centrados na ação e na exploração de paisagens distantes, Melville ganhou certo reconhecimento. Ficou famoso por ser “o homem que viveu entre os canibais”.

Mas, se a fama de Melville começou a ser apagada após o sucesso inicial dos livros de ação e lançamento de Moby Dick – o romance que escreveu na sequência, enquanto sentia-se extremamente frustrado, colocou-o à beira da loucura: o ousado Pierre, or, The Ambiguities (Pierre ou as Ambiguidades).

É um romance protagonizado por um jovem escritor, Pierre Glendinning, aristocrata e herdeiro de terras conquistadas pela família. Prestes a se casar com Lucy, conhece a bela Isabel, que revela ser a filha bastarda de seu pai. Ela passou os anos de afastamento confinada em um manicômio.

A mãe de Pierre, para proteger a memória do pai, tenta afastá-lo de Isabel, mas não consegue. Eles se tornam muito próximos e Pierre cogita o casamento com a irmã, para lhe dar direitos sobre a herança.

A partir daí, a simbiose entre os dois termina em uma relação incestuosa. Para completar, a ex-noiva de Pierre – sem conseguir esquecer o rapaz – junta-se a eles. Excluído, o trio passa a viver em um abrigo insalubre improvisado para artistas.

Nascido da decepção pós-Moby Dick, este romance abordou temas delicados para a época e manteve o tom filosófico da obra anterior. Segundo os familiares de Melville, no período em que ele estava produzindo o livro – às vésperas do Natal – “não saía do quarto, estava sob um estado de excitação mórbida que brevemente afetaria a sua saúde”.

Há de se imaginar a discrepância de um autor conhecido por aventuras entre nativos e marinheiros, escrevendo sobre um jovem que abdica da riqueza da família, abandona a noiva; e faz sexo com a meia-irmã em um abrigo precário. Em carta enviada ao amigo Nathaniel Hawthorne – novelista e contista norte-americano – Melville confessou que sentia dificuldade para escrever ao público enquanto queria escrever para si mesmo.

As críticas negativas a respeito do livro afetaram em cheio o escritor, que via sua obra sendo qualificada nos jornais e revistas literárias como “insalubre”, “falha mortal”, “abominável”, “monstruosamente artificial”, “horrorosa e suja”, entre outros adjetivos.

Afora a temática do livro, há diversas semelhanças biográficas entre Pierre e Melville. Roubando um termo usado por Paulo Leminski, “Pierre” pode ser considerada uma dúplice ficção. Um escritor decepcionado cria um romance sobre outro escritor, que busca inspiração a todo custo. Fora isso, a origem de Melville e Pierre é a mesma: ambos bem nascidos e herdeiros de famílias ricas.

Talvez, a crise emocional vivida por Melville enquanto escrevia “Pierre” tenha delineado o destino trágico dos personagens e seus perfis bizarros. O relacionamento do protagonista e sua mãe, por exemplo, é realmente estranho, pois ela faz questão de se manter arrumada toda vez que vê o filho e, além disso, os dois chamam-se de “irmãos”, o que sugere outra relação incestuosa. Isabel, por sua vez, é emocionalmente instável e envolta em mistérios.

O filme Pola X (1999), do diretor francês Leos Carax – baseado em “Pierre” – consegue captar a densidade e traduzir o universo confuso do romance e, por consequência, do que se passava com o escritor. Uma das cenas mais interessantes do filme ocorre quando Pierre encontra Isabel na escuridão de uma floresta. A mulher em andrajos, aparentando desespero, começa a sussurrar frases desconexas e ambos caminham sem rumo.

Livro de derrocada e desapontamento, Pierre, or, The Ambiguities tem seu maior valor como malha de recordações e retrato da situação de Melville àquele período de isolamento. Foi crucial para o estudo de sua vida e obra a partir de 1920, quando seu trabalho ganhou uma revisão por parte dos críticos literários, fazendo a importância do autor emergir 30 anos após a sua morte.

O escritor era praticamente desconhecido ao final da vida, tanto que o jornal The New York Times publicou uma carta enviada à seção de obituários com o nome do escritor grafado de forma incorreta: The Late Hiram Melville (O Falecido Hiram Melville).

A obra que ficou mais conhecida após o revival foi o seu último manuscrito, Billy Budd, adaptado para óperas e para o cinema e considerado uma “pérola da literatura em língua inglesa”. Já Moby Dick, que apresentou a baleia mais conhecida do ocidente, talvez atrás – sinal dos tempos – da estrela do Seaworld, Shamu, tornou-se um clássico, ganhando adaptações para crianças, para o mundo dos quadrinhos e do cinema.

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Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

O Canto dos Esquecidos

Por Felipe Rodrigues

Ao longo da vida, diz-se, o “Velho Safado” chegou a rejeitar grandes editoras em nome de uma lealdade a Martin. Mas alguns anos mais tarde, algo começou a cheirar podre.

No momento em que livros e autores de pequenas editoras nacionais são reconhecidos com prêmios importantes, vale lembrar a história de uma editora norte-americana independente dos anos 1960: a Black Sparrow Press. Através dela, foram apresentados muitos escritores talentosos à literatura contemporânea.

Da sua fundação até 2002, quando vendeu os direitos das obras dos seus principais autores para a gigante HarperCollins, publicou mais de 650 mil títulos, com lucros anuais chegando a um milhão de dólares.

Tudo começou em uma situação inusitada. John Martin, um pesquisador de novos autores, encontrou-se com um velho beberrão metido a poeta. Martin, que não tocava em uma gota de álcool, deparou-se com a poesia de Bukowski em revistas independentes que costumava folhear. O escritor, até então, não havia lançado e nem escrito um romance – tinha um trabalho pesado na agência dos Correios. Curioso, Martin leu toda a sua obra disponível e, para marcar uma reunião, ofereceu-lhe algumas cervejas.

Bukowski sequer entendia a existência de John Martin: “Se ele não bebe, o que deve fazer, então?”. Mas o jovem editor estava realmente interessado na poesia dele, e entre a recusa de uma lata e outra no bangalô do escritor, acabou abrindo um armário lotado de papéis. “O que é isso?”, perguntou. “Meus trabalhos”. Martin leu tudo, interessou-se pelos poemas, separou e levou alguns, já pensando em abrir sua própria empresa.

O nome da nova editora inspirava-se em uma poesia do poeta William Carlos Williams, que citava um sparrow (pardal). Martin gostou da associação da cor preta com um pássaro comum e assim nomeou a Black Sparrow Press, em 1966. Era uma proposta ousada no mercado: publicar os outsiders. Na definição de Martin, escritores que tinham sido reprovados pelos editores de Nova Iorque e não se rendiam aos padrões vigentes do que era considerado aceitável em literatura. Optando pelo segundo grupo, começou a espalhar as histórias do pesadelo americano.

Aliado à sua esposa, Barbara Martin – que fazia as artes dos volumes de cabo a rabo – o editor conseguiu arrecadar 50 mil dólares com a venda de seus livros para uma biblioteca – era um colecionador inveterado de primeiras edições.

Inspirado por B. W. Huebsch, o primeiro a publicar as obras de James Joyce nos EUA e editor da Viking Press, Martin começou a apostar no trabalho de Bukowski, lançando 30 cópias de uma de suas poesias, “True Story”, que apresentava um tema pesado mesmo para aqueles anos lisérgicos: um homem que tinha acabado de mutilar o próprio pênis com uma lata enferrujada e andava sem rumo por uma rodovia.

Para manter o “Velho Safado” escrevendo constantemente, Martin pagava-lhe um salário de 100 dólares por mês (para telefone, alimentação, aluguel, gasolina, pensão, cigarros e bebida). Assim, o autor não precisava mais de um trabalho miserável. Esse foi um grande passo para a editora e para o escritor.

Em alguns dias, Bukowski ligou para Martin. “Venha buscar”. “O quê?”. “O romance”. Tratava-se de “Cartas na Rua”, obra irregular, inovadora e cômica que fez a editora deslanchar. A partir daí, conquistando uma grande audiência, a Black Sparrow começou a investir em outros autores, como Joyce Carol Oates e Paul Bowles, e a publicar escritores já conhecidos – o maldito Henry Miller – além de trazer à tona esquecidos como John Fante, com a republicação de sua segunda novela.

Outra característica marcante da Black Sparrow era a arte de Barbara. As capas dos livros são, até hoje, facilmente reconhecidas pelo design enxuto, baseado em cores pastel e formas geométricas, que as faziam ser tão impressionantes quanto as de grandes editoras. Essas edições, de baixa tiragem e receita, eram muito bonitas e tornaram-se a marca registrada da editora, sendo procuradas por colecionadores até hoje.

No início dos anos 2000, com mais de 70 anos, Martin vendeu os direitos autorais de Bukowski, Fante, Oates e Bowles, entre outros autores, à Ecco Press, selo da editora HarperCollins. Atualmente, o distribuidor licenciado da Black Sparrow é David R. Godine, que não reeditou nenhum dos livros, comercializando-os da mesma forma que foram feitos por John e Barbara Martin.

Nunca confie num pardal abstêmio

O longo casamento entre a Black Sparrow e Bukowski – em que um tirou o outro do anonimato – foi feliz até a morte do escritor, em 1994. Ao longo da vida, diz-se, o “Velho Safado” chegou a rejeitar grandes editoras em nome de uma lealdade a Martin. Mas alguns anos mais tarde, algo começou a cheirar podre.

Perturbado pelo tom dissonante das obras póstumas de Bukowski – ele era tão prolífico que Martin teve material inédito para publicar após a sua morte por mais de uma década – um fã do escritor, Michael Phillips, administrador do site Bukowski.net, decidiu pesquisar a raiz do problema.

Em posse dos manuscritos, comparou esses originais com as últimas obras editadas pela Black Sparrow e verificou que John Martin publicou muitos dos poemas grotescamente alterados – suprimindo referências a bebidas, drogas e sexo, alterando a ordem das palavras e até mesmo incluindo versos inteiros. Desde então, Phillips denuncia as alterações na obra póstuma de Bukowski, a que chamou de “estupro”, em artigos no site mjpbooks.com.

Nasceu em São Paulo, estudou jornalismo e começou a se dedicar à escrita em 2005. Além de jornalista, trabalhou em um sebo do centro histórico onde seu interesse pela leitura e escrita aumentou. Em 2010 começou a participar dos concursos mensais da comunidade literária Contos Fantásticos no Orkut, discutindo seus textos e as produções de outros escritores. Tem dois contos publicados na “! – Antologia de Contos Fantásticos˜, da editora Caligo: “Nem Ligo” e “Corpos”.

Mantém o blog Havana Moon, onde publica o que escreve.

Impressões da Leitura de “Piquenique na Estrada”, dos Irmãos Strugatsky*

Por José Geraldo Gouvêa

Roadside Picnic é um livro sobre uma visita extraterrestre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a centenas de outros. Mas quando você o lê, percebe que há poucas obras parecidas.

“Piquenique na Estrada” (Roadside Picnic) é um dos maiores clássicos da ficção científica soviética. Publicado em 1965, este romance de autoria dos irmãos Bóris e Arcádio Strugatsky merecia ser mais conhecido e lido, não só por suas qualidades literárias como por seu teor sutilmente político, contendo uma corajosa sátira ao comunismo.

Inicialmente vou dizer umas breves palavras sobre os autores. São tidos pela crítica especializada como verdadeiros gênios literários incompreendidos, cuja obra não pode ser perfeitamente fruída pelos ocidentais devido à profunda carga linguística que ela possui, mesclando neologismos e arcaísmos, coloquialismos e terminologia científica (e pseudocientífica). Não pude, obviamente, ver nada disso na tradução americana (que, aliás, me pareceu bastante “porca”), mas detectei vários dos outros elementos que são apontados como evidências da genialidade dos irmãos: a curiosa (e sempre inquietante) mistura entre sátira, idealismo, cinismo, ateísmo, superstições e construção psicológica de personagens muito densos e complexos. Resumindo: trata-se realmente de um trabalho literário de alta envergadura. Os irmãos estão, no gênero ficção científica, na mesma categoria dos “quatro grandes” (Asimov, Bradbury, Clarke e Heinlein) e, sob certos aspectos, estão acima.

Pode parecer surpreendente que eu afirme isso sem ter lido sua obra no original, mas o que se pode entrever nesta tradução que li justifica plenamente a reputação dos dois: eles são simplesmente ousados além da conta, em todo e qualquer aspecto (exceto na formalidade da narrativa e da pontuação). Vamos por partes.

Roadside Picnic é uma obra carregada de sátira. Pelo que leio das sinopses, todas as obras dos irmãos Strugatsky são amargamente satíricas. É surpreendente que eles não tenham sido deportados para a Sibéria e morrido lá. Talvez o expediente de deslocar sua sátira para mundos inventados do futuro ou países estrangeiros (como o Canadá, nesse romance) tenha permitido que os censores não percebessem que o alvo da sátira era o comunismo. É preciso ser “muito macho” para satirizar o comunismo se você nasceu em 1925 na União Soviética. Os irmãos Strugatsky foram, e morreram de velhice (embora algumas de suas obras, entre elas esta, tenham sido severamente censuradas antes da publicação e só tenham sido restauradas após o fim do comunismo). Em Roadside Picnic a sátira não está exatamente dirigida ao comunismo, mas ao seu cientificismo. Ao longo do livro os cientistas (mostrados como pessoas idealistas, mas ingênuas) comportam-se como crianças que procuram entender os brinquedos que ganharam. A religião também é satirizada (neste livro está a célebre frase “A hipótese de Deus nos dá uma oportunidade absolutamente incomparável de entender tudo e não saber nada”), bem como o ideal do self made man (os heroicos personagens do livro se revelam pessoas absolutamente detestáveis, como Burbridge, ou meros instrumentos da ganância do “sistema”, como o protagonista).

O livro literalmente atira para todos os lados: os personagens são de vários tipos, um comerciante corrupto, um cientista ingênuo, um ladrão que se acha um tipo de herói, um cientista absolutamente cínico, um policial violento, um barman covarde, um negro supersticioso… cada um deles se relaciona de uma forma diferente com o grande mistério de que fala o livro: as “Zonas”.

Roadside Picnic é um livro sobre uma visita extraterrestre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a centenas de outros. Mas quando você o lê, percebe que há poucas obras parecidas. Para começar, a visita em si é apenas uma hipótese desenvolvida para explicar um fato: o aparecimento sobre a Terra de sete estranhas “zonas” onde ocorrem fenômenos que contradizem a lei da física, onde se encontram objetos estranhos e inexplicáveis, onde tudo subitamente parece que se tornou hostil à vida como a conhecemos (os pássaros não voam sobre as “zonas” e lá não há insetos).

Os extraterrestres não aparecem, ninguém os viu (ou sobreviveu após vê-los para poder contar). Mas o seu legado, os objetos e fenômenos que eles deixam para trás, assombram o livro do começo ao fim e, revelando o alcance do cinismo dos autores, demonstram-se tão indiferentes à nossa existência que um personagem chega a dizer que isso foi uma sorte, pois se nos tivessem notado, teriam feito conosco como fazemos com as formigas que poderiam atrapalhar nosso piquenique à beira da estrada (nesse ponto, lá pelo meio do livro, você entende o porquê do título). Para os extraterrestres nós nem sequer somos visíveis. Se os espanhóis tiveram dúvidas se os ameríndios eram humanos, Strugatsky argumenta que talvez nós e os Visitantes nem nos reconhecêssemos como seres vivos e pensantes: “Usualmente uma definição trivial [de racionalidade] é usada: a razão é a função humana que nos distingue dos animais. Ou seja, uma tentativa de distinguir entre o homem e o seu cão, que a tudo entende mas não sabe falar.”

Resta-nos, então, coletar os restos de suas fogueiras, as pilhas descarregadas de seus rádios, migalhas de seu pão, uma bola de pingue-pongue perdida no lago, um talher de plástico quebrado, gotas do óleo de seu carro que pingaram na grama, o lenço perfumado, talvez uma camisinha usada… “Exatamente. Um piquenique durante a viagem, à beira de alguma estrada do universo. E você me pergunta se eles vão voltar.”

Estou agora determinado a continuar lendo as obras de Bóris e Arcádio Strugatsky. Eles são bons, são livros densos e que fazem pensar. São ficção científica para gente que gosta de refletir, e não para jovens obcecados com um vírus que faz zumbis ou com robôs alienígenas que se transformam em carrões. E os títulos prometem: Um Besouro no Formigueiro, Segunda Começa no Sábado, Certamente Talvez, Como É Duro Ser um Deus, Um Arco Íris ao Longe, Meio-Dia no Século XXII, O Último Círculo do Paraíso, O Mowgli do Espaço… Seria ótimo se estas obras geniais estivessem disponíveis em português, mas quase me dá vontade de aprender russo para lê-las.

“Piquenique na Estrada” foi adaptado para o cinema através do filme “Stalker”, de Andrei Tarkovski, com trilha sonora de Eduard Artemiev. Embora pouco fiel ao universo do livro, o filme (que adota uma abordagem menos obviamente “sci-fi”) consegue prestar uma bonita homenagem ao livro, além de nos brindar com uma curiosa sonoridade, em que todos os sons, menos as vozes das personagens e o motor de uma solitária moto, são sintetizados por Artemiev em instrumentos artesanais de sua construção.

*Artigo originalmente publicado em 2011, no blog Letras Elétricas .

José Geraldo Gouvêa nasceu em Cataguases (MG) e reside atualmente em Pequeri, no mesmo estado. Ex-professor de História, atualmente é bancário. Já publicou o romance “Praia do Sossego” pela Editora Multifoco, em 2010, e participou como tradutor da obra “O Mundo Fantástico de H.P.Lovecraft”, da Editora Clock Tower, em 2013. Traduziu obras de W. H. Hodgson e Clark Ashton-Smith (traduções ainda não publicadas). Também são inéditas as obras “Amores Mortos” (romance de formação) e “O Pecado da Tristeza” (livro de contos, no prelo pela Com-Arte, Ed.USP). Escreve no blog “Letras Elétricas”.